Segredo da Vida

1 Segredo da Vida


Pan terminou de ler o livro que já estava muito velho e aos pedaços, e, o fechando rápido e cuidadosamente, exclamou perplexo: “Descobri o segredo da vida!”. Levantou-se da enorme poltrona de veludo — que quase o engolia com sua boca, sem dentes, muito confortável — e correu, abismado com o que acabara de descobrir. “O segredo da vida!”, gritou em pensamento, “Eu o descobri!”. Movimentando de forma frenética suas pernas magricelas de ainda criança – apesar de não admitir-se assim; diz sempre ser adulto, como toda boa criança – corre da sala pro quarto, do quarto pra cozinha, da cozinha para a sala novamente.

Não encontrava ninguém com quem pudesse compartilhar tão grandiosa informação. Seu pai fora à cidade cuidar de coisas responsáveis, sua mãe... Pan para e olha, com certa tristeza nos olhos, mais no coração, a foto, pendurada na parede, de sua mãe que já não mais respirava. Fez-se paralisado por três, quatro, cinco ou seis segundos. E logo se pôs, em choque súbito, a caminhar afoitamente pelos corredores da casa. Podiam-se ouvir seus passos de botas, chocando com o chão de madeira de pinheiro, do outro lado da rua.

Sem perceber já tinha andado umas várias vezes por todo aquele andar da casa. Estivera completamente absorto em seus pensamentos; até mesmo para alguém naquela idade, o segredo da vida dá muitos frutos pensantes na árvore que cresce incessantemente nas nossas cabeças.

Foi quando Pan despertou de seu sono interno, com um estímulo que desperta a qualquer um. Avistou, quando passava novamente pela gigantesca cozinha – já não mais utilizada como antes era -, um pacote que fez palpitar seu coração e relembrar que dia era. Não que ele tivera esquecido de fato, nenhuma criança esquece-se de seu próprio aniversário; apenas se distraiu com o segredo da vida.

Em falar nisso, já não lembrava mais qual era o segredo que tanto o impressionara. Espremeu seus neurônios a procura, nos becos infinitos da memória, do segredo da vida. Não conseguindo o encontrar, bateu com toda a força, em um ato estressante e imitativo — que já vira seu pai fazer antes -, seus pés com botas impecavelmente pretas, nas tábuas de madeira de pinheiro que constituíam o chão.

Pan voltou da cozinha para a sala, rapidamente, receoso e agoniado de ter perdido tão efemeramente uma informação importantíssima. E esse sentimento o fez descobrir outro segredo grande, não maior ou mais importante que o segredo da vida, mas também de notável importância: “Parece-me que as coisas importantes voam com o vento, antes mesmo que percebamos que toda a areia da ampulheta já havia caído”.

Ao chegar à sala, Pan se deparou com o que não esperava: a falta do livro. Ele o tivera deixado exatamente em cima da enorme poltrona de veludo de seu pai. O pequenino, cada vez mais agoniado e duvidoso, percorreu outras vezes por todo o aposento, logo por toda casa – totalizando exatamente três voltas -, a procura do livro que protegia em suas páginas empoeiradas e amareladas, o segredo da vida.

Decepcionado por não encontrar tal baú de imenso tesouro, lançou-se no ar, caindo amortecido na poltrona de veludo de seu pai, que o engolia com sua enorme boca, mas não mais que seus pensamentos que já tinham dentes. E foi então que Pan obteve seu primeiro pensamento adulto, cheio de dúvidas e incertezas: “Talvez o livro nunca existira; talvez tudo isso não passou de um devaneio infantil meu, uma simples imaginação que não deveria de me acometer, já que sou adulto.”

Com essas palavras em mente, juntas a repetidas autoafirmações de que era já um adulto!, Pan adormeceu em um profundo sono do qual nunca mais acordou.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!