Segredo Virtual
41 2º T: Capítulo 16 Deusas de Sangue
Notas iniciais
Respirava ofegante. Estava recebendo um tiro atrás do outro. Lídia não conseguia acreditar naquela figura que via. "Me drogaram?", se perguntou.
Queria gritar, mas focava em continuar respirando, com dificuldade. Sua garganta fazia o som de um soluço chorado, igual uma criança. Jason abriu um sorriso triste, espremendo seus olhos profundos lacrimejados com as sobrancelhas sérias.
Mais de dez anos. Paralisados como se vissem algo divino. Era um milagre.
— Lídia...- Disse rouco, sua voz tivera amadurecido. Ela se arrepiou, soava frio, porém estava em esforços para se recuperar do choque. — Você tá viva!- Uma lágrima percorreu seu rosto peludo e com uma pele estranha de se ver, suja.
A preocupação agora não era a ilha, os nativos ou Dylan, era o homem morto ressurgido na cela. Ele encostou a cabeça na parede abaixo da janela, encarando-a, esperando os dois retomarem a consciência para conversarem. O que levou algum tempo.
Na sacada de flores, Rose colocou a mão em seu peito, tentando sentir-se viva.
Naquela altura, já havia percebido que não existia sol naquele lugar, apenas a luminosidade do céu com pouquíssimas nuvens ou até estrelas.
O pôr do sol sempre foi uma das cenas que mais apreciava, mas agora os tons alaranjados não a traziam mais paz, nem um pequeno bem estar.
Traziam em compensação uma brisa de angústia que soprava seus cabelos cor de fogo para trás. Aquele plano era para ser o início de um sonho, mas de repente deu tudo errado. Sentia falta da comodidade. Não da material, vivia como uma princesa naquele castelo, com tempo para si mesma e comidas deliciosas, mesmo na situação em que se encontrava, sabia valorizar essas coisas(Seus pais no entanto, não tiveram a mesma sorte). Sentia falta da comodidade emocional. De estar junto aos seus pais e ao seu irmão como uma família. Ela não valorizou isso quando o tinha, e agora sentia uma falta avassaladora.
Fechou os olhos esverdeados ao sentir vir uma nova brisa. Seu coração batia em um ritmo calmo, sabia disso pela palma da mão repousada lá.
Lá embaixo, no cemitério, o homem esguio e de capa, aquele que tinha um cetro com um pen drive preso dentro de sua redoma, passeava tranquilamente entre os túmulos abertos e fechados. Alguns segundos depois, Rose o viu. Não tinha a menor ideia de quem ele podia ser, senão apenas mais um empregado do Dylan, mas esse provavelmente Vip.
Ele parou de frente para um túmulo, que parecia vazio à Rose, encarando o fundo com precisão. Alan era maior que o dono do castelo, provavelmente por poucos centímetros. E a garota ruiva sentia certo medo dele, ainda mais por parecer uma sombra de seu pai. Em poucos segundos o céu anoiteceu, como quando uma nuvem imensa tampa o sol de meio-dia, porém não havia nuvem alguma.
Ao perceber a escuridão, o homem do cetro se arremessou na cova, fazendo Rose dar um sobressalto de tão focada. "Por que diabos ele se atirou ali?". Esperou ansiosa pela saída dele. Seus olhos estavam imensos, ignorando todas as flores abaixo de sua visão. Mas ele não voltou. Sentiu vontade de descer correndo até o cemitério e ir ver por conta própria a passagem ou porta ou portal dimensional na qual ele atravessara, porém uma menina com lágrimas nos olhos a surpreendera chegando na sacada.
— Rose...Eu não aguento mais ficar aqui.- Choramingou Ramona, se atirando no corpo da ruiva.
Rose por um breve instante se assustou, mas logo começou a acariciar os cabelos da garotinha, no entanto, seus pensamentos só conseguiam focar naquela cena que acabara de presenciar. E bem, tinha problemas emocionais próprios até demais para ter que ouvir o choro de uma criança, mas aguentou. Não era culpa dela estar naquela situação. Dylan era o verdadeiro culpado.
— Me perguntei a vida toda se vocês estavam vivos.- Disse a figura familiar, com um ar emocional.
Um sorriso se formou no rosto peludo e sujo do homem que morreu há dez anos se atirando de um penhasco. Tinham enfim trocado algumas palavras após um pequeno surto de sua prima.
Lídia estava desorientada. Mal tinha sido colocada em uma ilha, capturada por índios, chamada de deusa, e agora teria que lidar com a ressurreição de um parente.
— Se você é...- Ela ainda se mantinha afastada.-...realmente o Jason...- Respirava fundo, procurando palavras além dos gritos que queria dar.- Como você sobreviveu? Você bateu nas pedras, eu vi que você bateu, eu vi seu corpo ser tirado da água e...
Ele abriu a boca, a encarando como quem procura uma forma de explicar algo.
— Nunca cheguei a ir ao seu casamento. Fazem muitos anos, mas eu ainda me lembro de acordar sendo carregado por um homem, eu acho, levado pra um carro preto. Foi na madrugada do dia do seu casamento, ou pela manhã. É confuso, mas eu nunca estive lá. Me colocaram nesse povoado, e pelo que sei alguém importante mandou me prenderem aqui. Por dez anos.
Os traços dele eram estranhos. Parecia o Jason de dez anos atrás, porém muito, muito mudado. Mesmo assim, debaixo de todo aquele cabelo, ela o reconhecia, dava para ver o mesmo olhar. Aqueles olhos pretos e tristes.
— Então quem foi que pulou do penhasco com a Sara?
— A Sara pulou do penhasco?- Seu rosto fez uma contração apavorante.- Daquele penhasco?!
Os dois estavam completamente perdidos.
— Ela pulou com você!
— Eu não pulei de lugar algum.- Afirmou.- Aonde ela tá?
— Viva.- Não estava pronta para dar grandes respostas, precisava tirar suas dúvidas primeiro.
Lídia fez uma careta, estava com sede e pés doloridos. Pelo menos já tinha contado que Sara e Daniel também estavam vivos, devida a insistência dos dez primeiros minuto em que passou na cela.
— Como posso ter certeza de que você não é um...um clone, gêmeo, sósia, seja lá o que for que o Dylan criou?
Jason ficou inexpressivo, apenas arregalando os olhos lentamente, igual ela quando o viu. Ela esperava por uma resposta, porém já tinha a confirmação.
— Dylan?!
É, exatamente a reação que ela esperava ver.
De novo cercada por corpos adormecidos, no meio da madrugada, Sara agora tinha uma companhia digna de boas conversas.
Rafael, do outro lado do cômodo, fazia caretas para entretê-la, pensando em um assunto para iniciar o bate papo entre os dois. Dessa vez não teriam os comentários desnecessário e ofensivos de Marina, o que era realmente uma benção. Secretamente, metade das pessoas ali desejava que alguém assassinasse ela. Com toda via, como boas flores apenas em funeral, tinha o ronco de Noel para aturar.
— Preciso te contar a história da Rebeca, te dei um resumo, mas não foi bem feito.- Lamentou, prosseguindo com o que disse que faria, enquanto olhava o fogo da fogueira.- É assim: Tinha um cara que usava um paletó branco, ele vivia dentro de uma floresta, perto de um vilarejo. Aí ele tinha uma cara muito de ranzinza e era estranho tipo pra caralho, e ele caçava tribos indígenas com uma espingarda de noite, e ouviram boatos que ele comia carne humana. Aí chegou uma época na qual as crianças dessa vilazinha, que iam brincar na floresta, começaram a desaparecer, e todo mundo botou a culpa no homem do paletó branco. Aí se juntaram todos os moradores da vila pra ir pegar ele, isso nos anos 70 ou 80, não lembro. E quando chegaram lá, ele não estava. Entraram na cabana dele e acharam apenas um boneco de tamanho tipo de gente, feito com partes humanas. Ele tinha pegado partes do corpo das crianças, talvez até de índios mesmo, e criou uma pessoa com elas. Depois vasculharam mais e acharam um negócio tipo porão na floresta e lá estavam todos os corpos das crianças mutiladas.
Sara não tinha comentários.
— A minha parte favorita é agora. Depois de uns dias, o homem do paletó branco reapareceu, e junto com ele veio um homem de terno preto e que se assemelhava a uma ave. Eles vieram em um ônibus, as janelas eram pretas e não dava pra ver nada que tinha dentro. Primeiro quiseram linchar o cara do paletó, né, mas o homem do terno lá, era tão bom em dialogar, que fez eles ouvirem o que tinha a dizer. Aí, Sara, adivinha o que começou a sair do ônibus?
Ela fez um barulho com a garganta, como quem pede para prosseguir.
— Todas as crianças!- Rafael se inclinou para trás, posicionando seus braços.- A vila ficou louquinha, né? Não tinha polícia, a polícia vizinha tinha acabado de ir embora, tavam procurando o cara do paletó. Aí as mães e os pais das crianças choraram emocionados e tudo mais, e o homem do terno abriu o porta-malas do ônibus e estava cheio de dinheiro! Ele subornou o vilarejo inteiro pra esquecerem daquilo. E deu certo. No final, os dois homens foram embora e nunca mais voltaram pra vila. Porém, algumas semanas depois aquela vila pegou fogo e não sobrou nenhum morador. Dizem que foram as crianças que se juntaram pra incendiar tudo! Muito louco, né?
— É...- Talvez não fosse tão verdade quanto achava que fosse.- Mas as crianças não haviam morrido? Esse homem do terno preto trouxe sósias?
— Ah, os detalhes só perguntando pra Rebeca. Mas assim, é uma história muito boa.- Rafael olhou para a falta de teto, a noite estava mais clara do que das outras vezes.
Depois de alguns minutos, Sara trocou de turno com Noel, e deitou-se para dormir.
Pensou se aquilo, das crianças e da vila, poderia ser um experimento antigo que realmente aconteceu. Rebeca sempre se interessou em coisas da organização. Não seria nada surpreendente se fosse realmente um teste para saber se sósias conseguiriam usurpar o lugar de seus antecessores, mesmo que com os pais sabendo disso.
Outra pulga que ficou atrás da orelha era sobre o homem do terno preto. Por que ele quis ajudar o do paletó branco? E quem eram eles? Tinha uma aposta. Certamente, o homem do terno preto era o homem corvo. Só faltava descobrir o do paletó.
Aquela cela era até grande, mas não grande o bastante para prender todas as informações que tinham que dar. Eram amigos que após uma década tiveram a chance de se reencontrar, de um jeito horrível. E ainda estavam jogando.
Passaram quase toda a madrugada conversando.
Lídia o atualizou de todas as atrocidades e mortes recorrentes desde que Dylan voltara à vida. Ele ficou abalado por alguns minutos quando soube da morte de Bianca e de sua mãe. Toda a sua família estava morta.
Jason resolveu contar sobre sua relação com os nativos, que se chamavam Idrios. Eles o tratavam bem, às vezes até conversava com algum guarda, e aprendeu um pouco de cada um dos quatro idiomas que eles falavam. Português, espanhol, inglês e latim.
"Quando me capturaram, me chamaram de deusa. Sabe por que?".
"Sei que há uma profecia, sobre duas deusas, e elas viriam para serem queimadas ou algo do tipo. Foi o que eu ouvi, mas não sei de tudo".
Depois, ficou sabendo sobre uma cachoeira na qual Jason se banhava uma vez por semana. Porém parecia não fazer isso há um mês. "Às vezes, na cachoeira, surgem objetos, e os Idrios sempre acham que foram mandados por um deus". "Tem também o Xamã, que é um velho de túnica, ele é o líder deles e ensina sobre essa tal profecia". Antes de dormir aquelas poucas horas, Lídia relacionou a estátua com a tal profecia. Dylan era bastante engenhoso.
Logo ao amanhecer, os dois companheiros de cela já tinham acordado. Tudo aquilo parecia um pesadelo sem fim para Lídia, não aguentava mais ficar trancafiada atrás daquelas grades.
Já esteve na prisão uma vez, quando assumiu o assassinato de Dylan para proteger Sara da verdade, porém aquilo estava sendo bastante diferente.
— O que eles dão pra gente comer?- Ela se levantou do chão áspero, envolvendo a mão envolta da barra de aço.
— A comida é boa. Eles sabem cozinhar. Tem uma fornalha aqui perto, você não viu?
Não seria surpresa não ter visto, mais atordoada do que estivera? Mas conseguiu ver algo que parecia isso sim.
Ouviram um burburinho do lado de fora do lugar onde estavam presos. Eram várias línguas e vozes misturadas, não dava para entender o que falavam. Ao olharem para a porta, uma sombra se aproximava do ambiente, Lídia conheceu o xamã que Jason tinha lhe contado. Ele era alto, tinha barba e cabelos brancos, um corpo magro e uma expressão de excitação com tamanha presença. Ele a encarava como se fosse uma enorme bênção. Os olhos dele eram fundos e a pele velha manchada os faziam parecer menores. Sua túnica branca vinha até os tornozelos. Jason ficou no canto da cela, tentando conter um sorriso, enquanto Lídia estava cara a cara com o líder dos nativos.
— Fala português?- Sua voz era elevada, com uma dicção limpa e clara. Ela respondeu com um aceno de cabeça.
De repente um longo sorriso se abriu na face do ancião. A boca entreaberta de Lídia revelava sua curiosidade e medo ao conhecer aquele homem. Ela engoliu a seco para então falar:
— O que querem comigo?
Ele não dissipou o sorriso, continuava a olhar com fervor.
O ancião mirou em um nativo que parecia ser um guarda, ele então se levantou de sua cadeira no canto da ala e foi até a porta da cela, levando consigo uma grande chave.
— Venha comigo.- Foi tudo o que disse, virando-se para sair.
A porta foi aberta. Lídia se encaminhou para fora das grades, olhando para Jason ali quieto, como se não se preocupasse.
O guarda a pegou pelo braço sem ser bruto, queria apenas guiá-la. Foi levada para fora da prisão, sendo recebida por dezenas de pessoas que aclamavam algo em quatro idiomas. Eles a olhavam encantados, alegres, alguns chegavam a chorar. Ela demorou um pouco para entender o que estava sendo dito. Os ouvia a chamando de Lily, mas quem era Lily? Goddess, Deusa, Lírio. Deusa do Lírio.
As pessoas tentavam tocá-la, porém mais guardas chegaram para escoltá-la, era como uma famosa.
— The lirios caerán!- Gritou com muita força, um homem.
Idêntico a um grito de guerra. As peças queriam se encaixar, mas a cabeça de Lídia nunca estivera tão cheia de problemas. Deusa, filhos, profecia, Jason, Daniel, ilha, Dylan, explosão. Assim, no meio da multidão, sendo encarada, desejada, tudo o que queria fazer era gritar.
Então, ela o fez. Com o desespero de um porco sendo abatido. Tudo se transformou em silêncio, os eufóricos se aquietaram e o Xamã se virou para ela. Sentiu medo. Por que estava gritando?
— Está tudo bem. Não precisa ter medo.- O velho acariciou sua bochecha, piscando lentamente.- Você é a porta para o paraíso.
Perplexa. Essa palavra definia tudo o que seu rosto desejava expressar. Tudo acontecia rápido. Nenhum tempo do mundo a faria assimilar as coisas. Continuaram a caminhada, as vozes altas voltaram.
Lídia era uma cega em um campo cheio de buracos. Se fugisse seria pega e nunca entenderia nada, se ficasse poderia ser morta ou talvez não visse seu marido e seus filhos jamais.
A questão que rondava sua cabeça nem um pouco funcional era: Qual buraco era o menos fundo pra se jogar?
Ela chorava silenciosamente em sua cama feita especialmente para ela. Aquele lugar era uma prisão luxuosa, mas não deixava de ser uma prisão. Rose olhava para tudo ao redor, se perguntando o que tinha feito para ir parar ali. Não queria mais aguentar mais nada, estava cansada de ser forte. Sufocada.
Batidas foram dadas na porta, o que a fez limpar rapidamente as lágrimas em seu rosto. Se sentou na cama e esperou o provável guarda entrar. Quem entrou não fora um guarda.
— Posso entrar?- Perguntou Miguel, adentrando a cabeça no quarto.
Ela acenou com a cabeça, terminando de enxugar os olhos. Miguel se aproximou da cama e também se sentou nela. Ficaram calados, se olhando e desviando o olhar quando percebiam.
— Aconteceu alguma coisa?- Interrogou, tentando descobrir o motivo da visita.
— Tirando tudo...Acho que mais nada.
Estavam todos fartos. Explosões, mortes, sequestros. Tudo tão exagerado e cruel.
— Tava chorando?- Perguntou o irmão mais novo.
— Não.- Respondeu com o olhar do outro lado do quarto. Odiava que a vissem chorando.
— Eu já chorei muito hoje.- Ele levantou o rosto e sorriu.- Não precisa ter vergonha de chorar.
Eles se encararam. Ainda tinham um ao outro, mas por quanto tempo? Rose abriu os braços e Miguel se jogou neles, em busca de um pouquinho do conforto que sobrou. Ficaram em silêncio no quarto escuro, apenas sentindo um o calor do outro, como não faziam há um bom tempo, talvez anos. Se perguntavam aonde estariam seus pais. Se estariam vivos, feridos, presos...Existiam multivariáveis quando se pensava serem escolhidas por Dylan.
— Você já...- Ele começou.-...Viu o pen drive na bengala daquele cara?
— É um cetro.- Já tinha percebido e se perguntado sobre aquilo várias vezes.- Mas não é pra você se envolver com isso.
— Se tem um pen drive, deve ter um computador.
— Miguel, não. Esquece isso.
— Não dá pra esquecer. É importante. E Dylan deve querer que nós usemos o pen drive no computador!
— Miguel...
— Talvez tenham dicas de como sair, é um jogo...
— Miguel!- Rose gritou, fazendo seu irmão parar de falar.
Não podia perder seu irmão. Não queria de jeito nenhum.
— Você não vai fazer nada que eu não mandar!- Exigiu.- Você entendeu?
Ele ficou perplexo ao tom de voz dela, era como se estivesse pronta para devora-lo. Igualzinho como sua mãe fazia.
— Você entendeu, Miguel?
— Entendi.- Da boca para fora. Logo retornaria a pensar nessa incógnita.
Tudo o que ele mais queria era pegar aquele pen drive e enfiar em algum computador, mas aonde teria um computador?
Daniel não queria continuar aflito, mas não dava para evitar. Lídia tinha partido há mais de um dia e o prazo dela voltar diminuía há cada segundo. Outra coisa que rodeava sua mente, já farta, era aquele beijo roubado de Godobllir.
"Foi uma situação bizarra" pensou durante a noite.
Lídia sempre disse para ele que era uma pessoa boa, com um coração grande e bastante manipulável por isso. Quando jovem, sempre deixara suas emoções falarem mais alto e ouvia demais os outros, às vezes deixando de lado si mesmo. Talvez por isso tenha entrado no Cold Blood, deixou a raiva pelo homicídio de seus pais tomar sua vida, e foi atrás do grupo, grato após terem matado o assassino. Mas agora, por mais que estivesse fragilizado e soubesse que os outros também, a pulga atrás da orelha só crescia. Foi um erro imenso deixar Lídia partir com aqueles homens desconhecidos.
Daniel percebeu que Godobllir, ou Isabella, não era nem um pouco confiável e talvez trabalhasse para Dylan.
— Eu não aguento mais estar pensando na coisa mais ilógica do universo e de repente, pá! Se relaciona com o Dylan.- Comentou Rebeca, apoiada do lado de fora da janela de uma casa na qual via Sara fazendo alongamentos.- Nossa, é muito chato isso.
Daniel ouviu a fala dela, mesmo ele estando fora da Vila Sanru, procurava se entreter com qualquer coisa que visse e ouvisse. Decidiu ir mais afundo pela floresta.
Rafael trouxe uma espada em cada mão, vendo Sara fazer movimentos estranhos. Pensou se aquilo fazia parte do treinamento.
— Ok, primeiro tem que aprender a segurar a espada.- Ela parou de se alongar e pegou uma das armas.- É bem fácil depois que se acostuma.
Rafael imitou o posicionamento que via. Nunca tinha pego numa espada antes, diferente de Sara, Rebeca e Daniel, que aprenderam até arco e flecha naquele "curso" de assassinos. Fora os dois cúmplices de Godobllir, que estavam em algum lugar bem longe tentando voltar.
— Postura, Rafael. Tem que ter postura.
Ele se ajustou ao ouvir. Rebeca observou, achando graça.
— Essa não dá pra segurar com as duas mãos, então precisa colocar sua força apenas em uma, tá?.- Sara se viu dando aula e quis dar uma risadinha, mas Rafael ouvia tão atenciosamente que não quis estragar a cena.- Acerta a lâmina no ar, com impulso e força, como se fosse acertar algo.
Podia ensinar também sobre ficar atento ao ambiente, relaxamento, calma e confiança, mas sejamos francos, não tinham tempo para isso. Estava aprendendo apenas o suficiente para sobreviver.
Ele fez o que foi mandado, até que bem.
— Isso. Mais equilíbrio e mais força.-Ele fez de novo.- Manuseia reto, assim.- Sara impôs a espada.
Era difícil, mas logo se adaptaria. A mulher na janela tentou pensar em formas de incentivar o aprendiz.
— Pensa que é o Dylan.- Disse Rebeca, sorrindo. Rafael soltou o ar e o repôs, de olhos fechados se concentrando.
Realmente imaginou Dylan ali na sua frente, com aquele sorriso idiota. Ah, como aquilo o tirava do sério. Sorriso de quem prende, mata, tortura. Ele não tinha dó. Queria matá-lo. Odiava com todas as suas forças aquele sorriso. A porra daquele sorriso. Odiava Dylan. Mataria Dylan.
— Rá!- Emitiu ao enfiar com força a lâmina no imaginário peito de Dylan. Sentiu-se orgulhoso.
— Muito bem. Concentrou a força direitinho. Agora faça de novo.
Seguiram o treinamento. Mark e Marina viram o treino e pediram a ajuda de Rebeca para que os ensinasse um pouco.
Sara preferiu continuar apenas com seu único aluno, até porque Marina não deixaria passar a chance de machucá-la "sem querer". Continuou o ensinando como se portar e enfiar a espada, depois tentou ensinar defesa, enquanto lutava com ele, mas não fora uma professora bem sucedida nessa parte.
Também preferia usar armas de fogo, mas precisavam se virar com o que tinham.
Ela gostava dele, queria protegê-lo. Estava-o preparando para algo que sabia que alguma hora iria acontecer.
A menina ruiva saiu de seu quarto, queria chegar a um certo lugar, mas não sabia se conseguiria.
Pensou nas lógicas do dono do castelo, e resolveu arriscar, afinal, não tinha nada a perder.
Rose foi descendo por cada escada que encontrava, e ninguém a impedia de continuar indo para baixo. Passou por arrumadeiras, guardas e um chef, nenhum a parou. Dessa vez apreciou a beleza da Coruja Negra, era realmente uma mansão muito bonita, com lustres, decoração medieval, tapeçaria. Se tivesse uma torre, poderia considerar um castelo.
Passado um tempo, chegou na porta dupla de saída, por onde foi feita a fracassada fuga. Havia apenas um guarda fazendo a ronda ali. Podia tentar. Ela foi se aproximando lentamente, desviando o olhar para não fazer contato visual com ele.
Por um segundo sentiu que iria ser advertida assim que encostou na maçaneta, mas não foi. Rose continuou, abriu a porta e saiu para o jardim que mais era um campo verde aberto. Sentiu um pouco de sol, que na verdade não existia, iluminar seu rosto.
Ao olhar ao redor fitou a saída. Foi tentador, foi triste não poder apenas correr para fora, mas não deveria seguir por aquele caminho, acreditava que seria melhor ficar.
Rose virou à esquerda, o lado em que o cemitério ficava. Nunca tivera percebido, mas a passagem entre o muro e a mansão para atravessar pelos lados era bem estreito, ao menos naquela parte em que se encontrava, provavelmente tudo ficaria mais aberto ao chegar no lugar onde Dylan enterrava seus corpos.
Dito e feito, após alguns minutos, quando se encontrou cercada por túmulos tudo ficou amplo e imenso. Olhou algumas lápides, atravessando por covas fechadas e que traziam um clima obscuro.
Ao olhar o que estava escrito em algumas delas, percebeu alguns nomes: "Célia Hernandez", nunca tinha ouvido falar, "Sergio Augustus", tio do Dylan?, " Vovó Mary ", Mary era um nome familiar, talvez fosse a avó de Dylan ou alguém especial para ele, “ Jason Augustos”, irmão do psicopata, “Leonardo Andrés”, aquilo a despedaçou.
Balançou a cabeça e resolveu seguir sem ler mais nada, tinha que ter foco. Sua mente expulsou Leonardo dali. Olhou para o castelo e procurou onde ficava a sacada da onde vira Alan ontem à noite. Achou, a única cercada de flores.
— Bom dia, Lídia.- Acenou Dylan indo em direção a uma porta da Coruja Negra que era atalho para o cemitério. Não conhecia aquela passagem.
Ele levava uma maleta consigo, parecia um empresário. Provavelmente vinha da floresta aberta no final do cemitério.
— Não sabia que também gostava de andar por aqui. É refrescante, né?- Ele abriu um sorriso, tropeçando de leve em uma lápide.- Dá uma olhada na praia depois, é atrás do castelo.
Ele parou de olhar para ela. Sentiu nojo. Seu corpo queria partir em direção a ele, queria matar ele. Olhou para o chão, viu uma pedra consideravelmente grande.
Pensou em pegar e arremessar bem na cabeça dele. Se conseguisse acertar, daria tempo de correr e dar mais pedradas na cabeça até ele morrer. Como era tentador. Dylan entrou de volta para sua moradia, a fazendo voltar ao momento. Sentiu vergonha por querer fazer o mesmo que ele, mas o sentimento...continuava ali.
Ela suspirou, fechando os olhos para se recompor e voltar ao objetivo. Rose voltou a caminhar entre os supostos cadáveres ali sepultados, mas não tinha ideia se realmente jazia alguém de baixo da terra. Esperava que não. Olhou de novo para a sacada, analisou o ângulo, e encontrou a cova em que Alan desapareceu.
Ao chegar lá, mirou o fundo, esperando encontrar uma passagem secreta, seja lá pra onde, talvez o lugar em que seus pais ficavam presos. Porém tudo o que viu, e com dificuldade, foi terra.
Arremessou uma pedra lá embaixo, com força, mas ela não atravessou o chão, talvez tivesse que apertar um botão, mas em que lugar teria um botão? Pensou em se jogar dentro da cova, mas não tinha essa coragem, era funda e poderia não conseguir sair.
Sentiu que alguém a espreitava. Dirigiu seus olhos à porta, depois às janelas, até que subiu para aquela sacada. Lá, o garoto de cabelo azul a encarava. Sério, se perguntando o que ela estava fazendo.
Entrou em seu castelo pela porta do cemitério. Já de cara encontrou uma escada que agilizava seu caminho até o próximo andar. Esfregou o punho fechado na bochecha, tirando um fiapo de cabelo que o pinicava. Sua coluna doía.
Ao sair dos degraus, encontrou com Alan que se dirigia para a direção da onde viera.
— Ora só, vejam ele.- Intensificou a voz.- Como foi, Dylan?.
— Tudo certo até agora.
Alan mostrou os dentes, soltando ar junto com a ação. O genocida parecia apressado para continuar seu rumo.
— Preparado para o jogo de hoje?
Já ia responder que sim, que aquilo seria legal. Mas faziam algumas horas que Dylan tinha percebido uma coisa que seu subconsciente escondeu dele. O seu real propósito.
Algo o fez pensar em Bianca durante a madrugada, talvez pelo o que fosse acontecer com Ramona.
— É um jogo tão sem graça, deveríamos fazer algo maior.- Alan deu a sugestão.
O dono do castelo pensou em concordar, em fazer algo mais cruel e impressionista, mas aquilo bastava, completo e suficiente. Resolveu falar:
— Depois de hoje não machucaremos mais nenhum deles.
Alan franziu a testa.
— São só algumas brincadeiras. São eles quem se matam. E além do mais, ainda falta uma.
Poderia estragar tudo querendo impor o fim das atrocidades. Elas aconteciam por um motivo. Só que Dylan sabia sustentar um roteiro, uma reviravolta. E a noite de amanhã seria suficiente.
— Essa é a última vez.
— Mas, Dylan...
— Faça o seu trabalho que eu faço o meu.- Ele foi embora.
Alan cerrou os olhos, pensando no que tinha dado aquela saída de Dylan. Desde quando pensava além de seu próprio jogo? Sair do castelo o teria feito virar outra pessoa? Ou repensar como outra pessoa? Bem, ele não tinha um cérebro normal, afinal. Não tinha como saber o que passava na mente dele.
Ela era cheia demais.
O dia não estava quente, assim como nenhum tinha sido naquela ilha até o momento, porém sentia suor escorrendo por algumas partes de seu corpo. A levaram a pé por todo o percurso. Não era longe, ao que parecia, logo chegariam.
Olhava para os nativos que a acompanhava, eram três. Estava fascinada com o Xamã que nem arriscaria chutar a idade, ele era tão... espiritual.
Não amarraram suas mãos dessa vez, mesmo assim Lídia ainda se sentia capturada, mas uma captura que dessa vez traria respostas ao em vez de mais perguntas.
As árvores eram bem altas naquela região, perto das casas não tinham muitas, mas por ali eram bastante.
Ao que foram se aproximando, viu o lado de trás de uma pilha de pedras enormes, com oito metros de altura aparente, perto de um riacho que corria uma forte correnteza. Dois nativos colocavam seus trajes, pareciam ser guardas que acabaram de se banhar.
Ela passou ao lado da água, refletindo uma cara cansada. Viu algumas flores brancas ali perto, deviam ser lírios, pensou.
Foi orientada a ir até o monte de pedras gigantes. O xamã foi junto, enquanto os guardas ficaram pelos arredores, tomando conta caso algo desse errado.
Os banhistas se retiraram, indo de volta para suas casas, há dez ou quinze minutos de distância do riacho, que não era muito fundo. Lídia olhou para trás, o ancião fez um gesto com a mão para que prosseguisse o caminho.
Deu um frio na barriga. Fora chegando de frente para as rochas, elas foram esculpidas para ter três grandes paredes, grandes para os lados e para cima, como se fosse um lugar sagrado. Porém apenas quando chegou ainda mais perto delas, conseguiu ver o que aquele lugar tinha de sagrado. Sua boca se abriu inconscientemente, desorientada com aqueles desenhos.
— É lindo, não?- Tom retórico, porque era realmente muito lindo.
Haviam dois desenhos cobrindo quase toda a parede de rochas central, ilustrando a representação de duas mulheres muito bem desenhadas, que mais pareciam ter sido imprimidas ali do que feitas à mão.
A primeira tinha cabelos longos amarronzados, olhos castanhos, um vestido preto com um cinto cheio de flores brancas do mesmo tipo saltando dele, perto do centro da barriga segurava um espelho de moldura redonda refletindo chamas, ele estava rachado em vários pedaços no desenho assim como na rocha.
Seu coração bateu mais forte, já sabia que aquilo resultaria em tragédia. A ilustração também tinha a sua cicatriz no seio direito, amostra naquela parte do vestido.
— Essa é você, Deusa do Lírio.- Apontou o xamã.- Sei que não se lembra, mas vou te lembrar de tudo.
Lídia se virou para ele, tentando falar, mas nada saia da sua garganta.
— Precisa de mais tempo?- Perguntou.
Ela acenou a cabeça como resposta, ainda perplexa. Lembrou-se da escultura dentro árvore.
A segunda mulher fora desenhada de costas, também com um vestido preto, mas aberto dos ombros até o cóccix, tendo tecido a partir dos lados e na frente, não aparente. Seu cabelo era bem escuro, porém fixos nos ombros e caindo para frente. Seu rosto era visível devido ao ângulo, e parecia-se com Sara, era tão branca quanto. Das suas costas saía uma flor vermelha muito estranha, bem centralizada e grande.
Olhou para as pedras do lado direito, tinham palavras e símbolos estranhos nela, assim como na esquerda. Reparou algumas palavras em inglês na última parede que olhara, mas não conseguiu traduzir nada, estava atordoada.
Respirou fundou. Enfim se virou de frente para o xamã, pronta para ouvir as verdades que Dylan criou.
— Pode começar.
Kauan foi orientado a sair de seus aposentos e seguir para um salão, por um guarda.
Lia um livro em sua cama quando foi chamado. Apreciava o gosto do dono do castelo por obras de romance policial daquelas em que precisa descobrir quem é o assassino. Tinha acabado de chegar na parte em que ocorrera o homicídio, infelizmente, sua leitura teria que esperar. Deixou o livro de lado e levantou.
Ajeitou seu cabelo azulado com os dedos, se olhando no espelho ao lado da porta. É, sentia estar decente.
Saindo do quarto, encontrou com todos os outros hóspedes no corredor, um sentinela para cada.
Tinha certeza que ninguém sabia para aonde iriam ser levados ou para quê, mas o clima ainda parecia pesado por causa de ontem.
Começaram a caminhar. Clara olhou ao redor, procurando por alguém.
— Cadê a Ramona?- Perguntou.
Todos ouviram, virando a cabeça à procura da menina de descendência asiática. Miguel e Clara se encararam, pensando no que podiam fazer. E se Dylan tivesse pego ela? Ele com certeza a mataria, assim como Leonardo e Anya.
— Cadê a Ramona?!- Clara parou no meio do corredor, gritando para um guarda.
Ninguém continuou a caminhar, em vez disso, pararam para encarar a cena. Rose cruzou os braços, enquanto esperava a resposta.
Kauan apoiou as costas numa parede, vendo no que ia dar o desfecho da exaltação.
Clara estava séria encarando o homem de duas vezes sua altura, e quando ele aproximou seu rosto do dela, sentindo a respiração quente dele chegar à sua pele, se viu como uma enorme tola.
— Vai saber quando chegar lá.- Foi tudo o que ele disse, voltando a caminhar, indo agora na frente de seus colegas de trabalho.
O rosto de Clara não tinha mais uma expressão corajosa, tinha era de uma garotinha que acabara de quase levar uma coça.
Levou um empurrão de um guarda para que continuasse a andar. Queria correr de volta para o quarto e chorar, chorar muito ao ponto de soluçar, assim como tinha feito dezenas de vezes desde que chegou aqui. Miguel pegou a mão dela, não a deixaria se sentir sozinha. Ela retribuiu com um sorriso fraco, tentando pensar em coisas boas para não sofrer mais.
Quando chegaram na entrada do segundo salão (Kauan tinha achado cinco até o momento, um era o maior e estava em manutenção. Também viu algumas caixas com decoração dentro dele. Algo ainda aconteceria lá.) e as portas foram abertas, procuraram logo por Ramona, e bem, a encontraram.
A menina estava amarrada em uma cadeira que prendia suas mãos pelo pulso e seus pés pelo calcanhar, mas ainda estava viva e acordada. Logo acima dela, viram a cabeça de Dylan. Ele tinha os cotovelos em cima do apoio de costas alto da cadeira, com os punhos fechados pressionando as bochechas e segurando seu rosto.
Assim que percebeu a presença dos jovens, sua cara de tédio foi para uma alegre, com um amplo e típico sorriso.
— Escolham seu púlpito. Três pessoas vão pro time azul e dois pro vermelho.
Ele apontou para duas..."O que é aquilo?", Luke se perguntou.
De um lado, formando um triângulo com a cadeira, tinha um objeto grande, como um palanque de discurso político, só que largo e com uma tela no centro e um degrau atrás para subir, do outro lado tinha um parecido, mas enquanto os arredores de um negócio era azul, o outro era vermelho.
— Vão!- Exclamou, ao ver todos parados.
Rose relacionou aquilo aos game shows de quiz que passava na TV, era idêntico, a diferença era não ter microfone em nenhum púlpito. E foi diretamente para a mesa, ou seja lá o que fosse, da equipe vermelha, junto de Kauan, um pouco a frente do lado esquerdo de Dylan.
Na equipe azul, Clara, Luke e Miguel encaravam aflitos para Ramona, que começara a gritar por ajuda e se espernear. Dylan amarrou um pedaço de pano na boca da menina, para diminuir o barulho.
— Solta ela!- Gritou Clara, querendo ir até lá e arrancar Ramona daquela cadeira.
— Ela vai ser solta, não se preocupem. Só que antes...- Dylan direcionou a mão para atrás da cadeira, pegando alguma coisa com firmeza.- A Bianca, como sabem, foi aleijada pelo Jason quando criança, mas voltou a andar depois de adulta. O que é realmente um milagre. E então, tive a ideia de fazer um jogo de perguntas e respostas para decidir qual estilo de Bianca deveria ser adotado aqui. Ótima ideia, não? E aí, se o time afavor das pernas vencer, ela pode caminhar como nos anos recentes. Mas se o contra...- Ele levantou uma marreta.- Afinal, tenho preferência pela Bianca de pernas inúteis.
Luke colocou a mão na testa, já sentindo seu coração acelerar, apoiou os braços no púlpito e enfiou sua cabeça neles.
— Puta que pariu.- Miguel ouviu o garoto da cafeteria murmurar.
Dylan sorria, estava exatamente como um psicopata segurando aquela marreta, mas por alguns segundos, enquanto todos abaixavam a cabeça ou tinham suas vistas embaçadas com choro, ele encarou a parede, fazendo seu rosto entristecer. Desmanchando qualquer antipatia. "O que você tá fazendo?".
Rapidamente afastou aquele pensamento e enxugou os olhos sem ninguém perceber. Bateu palmas para que todos, inclusive ele, acordassem.
— Vai funcionar assim: O time azul vai ser o a favor pela Bianca continuar andando, já o vermelho contra. Cada equipe vai responder três perguntas, e qual acertar mais, ganha. Se empatarem, faremos uma rodada de desempate.
Rose achou fácil, só teria que errar as perguntas.
— Como a equipe vermelha está em desvantagem por número de competidores, um guarda vai se juntar à equipe.
— Puta merda.- Murmurou Rose, vendo um guarda se aproximar, até que os dois trios estavam formados.
— Estão prontos?- Ninguém respondeu.- Vamos lá.
Seus olhos haviam fixado naquele homem já tão velho. Seus ouvidos escutavam atenciosamente tudo o que ele tinha a dizer, e sua mente lutava para processar tudo em um pequeno período de tempo.
— Você não se lembra. Estava escondida toda essa tempo, mas é uma deusa. A Deusa do Lírio, como retratada nas pedras. E essa ao seu lado é a Deusa da Morte, da flor da morte. Ela é o símbolo que a morte nos leva à renascer.- Ele indicou com a cabeça as paredes escritas.- Nessas pedras, há algo sagrado que vai nos levar ao reino de Deus. Uma profecia.- O xamã se dirigiu até uma das paredes com símbolos e palavras estranhas, fixando a pupila nela e a tocando com a palma da mão.- A profecia diz que há milhares de anos, havia um Deus, que ainda há. Poderoso e criador de tudo que conhecemos hoje. A água, a terra, o ar, o fogo e até o amor, foi tudo feito por ele. Então, cansado de fazer tantas coisas que eram apenas elementos fúteis, terras vazias e com vidas monótonas, ele decidiu criar duas deusas para servi-lo no reino dos céus e o ajudar a cuidar de sua recém criação, nós, humanos. Fomos o entretenimento dele, o melhor de todos, o mais divertido e surreal. Ele amava brincar com a gente. Deusa do Lírio.- Apontou para ela.- Você tem esse nome pelo símbolo de sua flor, a pureza. Ele a criou para ser pura. E voltará a ser.- O ancião calou-se, virando o rosto para o sol.
Ficaram em silêncio.
— Por que ela vai voltar a ser?
— Não "ela", você!- Lídia teve um sobressalto, mas ainda estava concentrada.- Chegarei nessa parte. Pois bem, a Deusa da Morte, ela tem esse nome também por causa de uma flor. Deus ama o simbolismo das flores.
Lídia viu os guardas conversando ao longe, falavam dela.
— Após criar suas confidentes, com poderes assim como os dele, mas reduzidos, ele começou a ter problemas com você. Você não aceitava que o criador tivesse poder absoluto de suas criações, achava errado, quando não é. Se ele nos criou, estamos aqui apenas para servi-lo, assim como você deveria ter feito.
"O que esse povo bebeu?", pensou Lídia.
— Então, em um ato de rebeldia, você criou um espelho, que na profecia diz rebater o "ódio". Deusa do Lírio, você contestou Deus, na própria sala do trono. Se dizia "salvadora", mas era apenas uma tola. Entraram em combate ali mesmo, você e o criador. Se ele quisesse, poderia ter apagado você em apenas um pensamento, mas ele não o fez, porque queria se mostrar forte e honesto, como o Deus que é, te dando a chance de lutar em condições justas. No meio do combate, você argumentou sobre libertar os humanos, e em contraponto, ele lançou um raio à você, que a transformaria em humana e a traria para a terra. "Junte-se à eles", foram essas as palavras exatas proferidas. Você sacou o espelho e o colocou na direção do peito, onde o raio vinha acertá-la. Mas ao contrário do que pensava que fosse acontecer, o espelho se estilhaçou e o raio te transformou em humana. Essa cicatriz no seu peito, é a marca disso.
Ele puxou com delicadeza a gola da blusa suja que a suposta deusa usava, olhando para a cicatriz no peito direito, aquela feita após ser levada ao hospital para retirar a bala de um tiro há 10 anos.
— A verdade é que o espelho fora trocado pela Deusa da Morte. Ela soube de seu plano maligno e o evitou, mesmo que não fosse preciso, pois o poder de Deus é superior ao seu, de tudo e de todos.- Fez uma pequena pausa.- Você chegou refugiada na terra, e fugiu por milhares e milhares de anos, se escondendo em cada parte do mundo. Por isso não se lembrava. Tudo o que sobrou de suas memórias foi que devia se esconder. E agora, está finalmente aqui! Para realizar a profecia! Esperamos há dez anos por isso.
Sua reação era de quem não entendera nada, absolutamente nada.
— Pois bem, seguiremos a profecia. A Deusa da Morte virá como humana nos ajudar, e amanhã à noite será o grande dia. — Ele começou a ler as escrituras, como quem acreditava fielmente nelas.- "Um dia ela chegará, a deusa que o tentou matar. Sua mente empoeirada, seu coração vasto de teias. Em nome do Deus que tudo criou e cria, a Deusa da Morte será a mandante de sua profecia, cedendo-se a carne, para com seu sangue a purificar. A execução será sagrada aos olhos celestes, lágrimas vermelhas cairão de sua escuridão, mas antes flores inaugurando a celebração. O povo de Deus amarrará o mal em um tronco, e o bem em um leito de pedra. Do bem tirará o sangue, para banha-lo no corpo maligno. O mal será queimado, o fogo consumirá toda a carne suja, humana, levando sua alma de volta as mãos do Deus de qual a foi tirada. O povo a quem a profecia cumprir, será dado o direito ao paraíso eterno."
Lídia não era muito fã de palavrões, mas pensou: "Tô fudida".
Rose olhou para o trio atrás do púlpito azul, torcendo para que eles acertassem tudo. Se Ramona fosse aleijada por Dylan, a culpa também seria dela. E todos se sentiram culpados.
Kauan era o único calmo, nunca se desesperava, afinal, Dylan não queria sua morte, ele já tinha uma lista definida de quem seria sepultado em seu cemitério, e em nenhum momento a lista teve qualquer nome com a letra "K" escrito nela.
— Vamos começar com a equipe azul.- Ele retirou do bolso algumas cartas coloridas, lendo a primeira pergunta numa delas.- Vocês vão ter alguns segundos pra decidirem a resposta entre si e também terão alternativas. Primeira pergunta.
Clara procurou a mão do amigo e a apertou, tão forte que o machucava.
— Em qual estágio de decomposição...- Miguel lembrou de Anya morta naqueles espetos, de Luke sufocando e da última vez que viu Leonardo vivo.- de um cadáver...- Não queria ver Ramona levar marteladas na perna bem na sua frente.
— Vai se fuder!- Urrou Miguel, saindo do púlpito, correndo em direção a Dylan.
Ele pulou para cima do dono do castelo, mas não conseguiu fazer nada, um guarda chegou antes mesmo de conseguir derrubá-lo no chão. Miguel foi levado com brutalidade de volta ao jogo, enquanto gritava palavras de baixo calão.
— De novo essas crianças surtadas...- Murmurou, voltando a sua pose.
Rose gritou para o irmão acalmar-se, mas só quando Luke também o olhou torto, que ele voltou ao normal.
— Tá todo mundo aqui querendo pular em cima dele, mas não dá, então se segura.- Sussurrou Luke.
— Voltando. Sem mais exaltações, por favor. Primeira pergunta: Em qual estágio de decomposição de um cadáver...- Ele levantou o dedo indicador de uma das mãos.-...o corpo começa a soltar odores que atraem moscas, que colocam seus ovos e aceleram o processo?
Kauan se esforçou para não rir, porque de repente todo mundo ficou horrorizado. Clara parecia enjoada, Luke tampava os olhos e Miguel tinha os punhos cerrados na mesa enquanto chorava.
— As opções são: Letra A, Algor Mortis, Letra B, Putrefação, Letra C, Decomposição, ou Letra D, Livor Mortis.
"Como eles vão saber isso, senhor?", quase disse, Rose.
— Vou dar uma dica: É o estado que a Rebeca está agora.- Miguel sentiu ainda mais fúria ao ouvir ele dizer aquilo. Nem o nome certo dela pronunciara.- Equipe azul, pode responder.
Luke nem se lembrava mais da pergunta, olhava para os lados desesperadamente. Olhando Clara e o Miguel, sem ideia do que fazer. Se não acertassem no chute, Ramona poderia ficar aleijada para sempre.
— Você tem ideia?- Perguntou à menina, mesmo sabendo a resposta. Ela negou.
Então virou-se para Miguel, mas desistiu de perguntar.
Luke passou a mão pela testa até o cabelo, pensando em qual alternativa tinha cara de certa.
— Sabem a resposta?
— A resposta é... Decomposição?
Dylan o encarou, botando medo nele.
— A resposta está errada. A alternativa certa era a letra b, putrefação.- Luke percebeu a burrada que tinha feito.- Vamos agora para a equipe vermelha...Qual animal...- Dylan pensou um pouco. Suas bochechas incharam e seus olhos vagaram ao teto. Decidiu jogar as cartas para trás.- Querem saber? Por que não fazer perguntas realmente interessantes? Segunda pergunta: Qual dessas pessoas já participou do Cold Blood? Bianca, Daniel, Sofia e eu.
Rose se sentiu incomodada ao ouvir o nome do pai ali, e mais incomodada ainda pelo tópico ser aquele. Olhou para Ramona, ela derramava lágrimas à cada instante, mas não fazia mais barulhos. Aquilo cortou seu coração.
— Sabe?- Indagou Kauan, se virando para ela. Rose assentiu.
— Meu pai.- Respondeu a ruiva.
Sabia que esse ponto estava ganho. Dylan deveria ter escolhido outro nome no lugar.
— Use um dos nomes que eu dei,por favor.
— Daniel.- Falou rápido e firme.
Dylan sorriu sem mostrar os dentes, dando uma risadinha. Os pais dela nunca contaram sobre o passado deles? Até onde tinham omitido?
— Daniel, é? Pois bem, resposta certa!- O queixo de Rose caiu, e o de seu irmão foi junto.- Nem Bianca.- Passou a mão de novo no cabelo de Ramona.- Nem minha mãe, nem eu participamos do Cold Blood. Ponto para a equipe vermelha!
— Mentiroso!- Gritou Miguel.
Ouviram um barulho estranho. Luke e Clara foram os primeiros a ver o placar do time vermelho marcar um ponto.
Rose estava incrédula. Seu pai tinha feito parte de um grupo de assassinos? E agora estava na vantagem para Dylan quebrar as pernas dela.
— Agora a equipe azul. Vão gostar dessa pergunta.- Não, ninguém estava gostando de nada, absolutamente nada.- Quem das pessoas aqui presentes já teve esquizofrenia? Podem usar o nome de batismo para responder.
— Falam quatro línguas?- Confirmava a resposta dada.
Lídia e o Xamã já estavam falando de outros assuntos, mais precisamente, sobre os nativos.
— Sim, nós falamos. Me disseram que você se comunicava melhor em português e então o estou usando.
Que grande honra. Pelo menos explicou o motivo pelo qual seria assassinada numa fogueira. Por causa de uma puta religião criada por um genocida.
— O que vão fazer com os homens que encontraram comigo?
— Não vamos fazer nada, os deixamos ir.
— E como vocês foram parar aqui nessa...ilha?-
O rosto dela fez uma careta engraçada. O xamã emitiu um risinho antes de contar.
— É realmente uma ilha. Acordamos aqui há 10 anos, já com esses corpos.- Ela olhou para a túnica dele, não parecia velha. Eram até desenvolvidos.- Não sabíamos quem éramos, apenas que essa era uma nova chance de recomeçar, sendo dada por um deus para realizarmos a sua profecia.
Ela ficou chocada, Dylan tinha planejado tudo isso há 10 anos?
— Então não se lembram de nada de antes? E todos sabiam falar esses idiomas?
— Não temos uma vida de antes. Só temos esta que Deus nos dera, para fazer seu trabalho se cumprir. E sabemos falar pois ele nos deu esse poder.
— Tem crianças aqui?- Sentiu pena delas.
— Não. Deus nos fez estéril, porque somos os únicos possíveis para realizar a profecia.
— E tem quantas pessoas em média morando aqui?
— Vinte mulheres e vinte homens de meu povo.
Aquelas falas pareciam discursos prontos, como um ator. Tinha algo por trás daquele velho, ele sabia além do que estava escrito nas paredes. Lídia tinha certeza.
— Eu achei uma estátua minha dentro de uma árvore. Como a colocaram lá? Por quê?
— Não foi o meu povo. É isso que precisa saber.- O semblante dele fechou, indo para longe das pedras.
— Então há outros povos?
— Só mais um. Acredita em você assim como nós, mas são...ignorantes da fé.
— E quantos são?
— Da última vez que tive contato, vinte.
Haviam sessenta nativos registrados na ilha. Queria perguntar mais sobre o outro povo, porém sentiu que não deveria.
— Também temos algumas restrições sobre até onde devemos ir. Alguns...eles não tem nome, mas são como mensageiros mandados por Deus, nos orientam a não ir além das cercas que dividem a ilha. Lá se encontra algo maligno. Tão maligno que nem os ignorantes se atreveram a ir. Talvez por não conseguirem, há armadilhas. E quem já foi nunca voltou.
É para lá que iria quando reencontra-se os outros do grupo, pensou a Deusa do Lírio. Ele reparou que o olhar dela se desviou para o pequeno rio onde os nativos se banhavam diariamente, entretida com a correnteza.
— Esse rio tem a queda em uma cachoeira.- Começou uma nova explicação.- E nessa cachoeira, surgem presentes enviados por Deus. É impressionante que nunca vemos essas coisas vindo pela rio, mas só quando já estão lá embaixo. Tem uma caverna sem saída lá também. Tudo de avançado que temos foi ele quem nos deu através das águas.
"Por acaso ele também enviou um bebê num cestinho?", pensou sem querer. Mas talvez o bebê fosse Jason.
— E meu companheiro de cela? O Jason. Por que o prenderam?
— Ele...Um mensageiro pediu para tomarmos conta dele faz anos, e aceitamos.
Jason tinha dito o mesmo durante a madrugada. Mesmo assim, o jeito que o Xamã falava sobre tudo, era de um sábio, sábio além do que dizia. Ele sabia que era tudo mentira, mas seguia na lorota.
Lídia ia fazer mais uma pergunta, só que antes de fazê-la, o ancião levantou o dedo, anunciando que falaria.
— Vá se despir, ao banho, precisa ficar limpa, será seu último banho até o sacrifício.- Indicou o rio.
Lídia ficou insegura em ir até lá, pensou em argumentar, mas estava lidando com doidos religiosos. A correnteza parecia forte e não queria ficar nua na frente de vários homens.
O ancião percebeu sua hesitação, então orientou os homens a se retirarem, e uma mulher que flertava com um dos guardas, provavelmente seu marido, assumiu a vigia sobre a deusa.
Lídia aos poucos foi tirando sua roupa imunda, e tomou coragem para encarar a correnteza. Ao entrar, percebeu que não era tão forte quanto parecia, mas se ficasse de corpo mole, seria levada. A água fria a incomodava, mas também achava bom poder finalmente tomar banho depois de dias sem.
Ao olhar para longe, enquanto esfregava em seu corpo um sabonete estranho entregue pela vigia, viu o Xamã conversar com um homem bem longe, que usava um terno, ele era esguio, bem alto. Talvez fosse esse um dos mensageiros de Deus. Mesmo estando longe, ouviu o Xamã se despedir do homem, em voz alta. Ela quase poderia ter certeza que o nome do homem era Alan.
Rose estava desesperada. Seu coração batia e conseguia sentir sem esforço algum.
Impressionantemente, após as seis perguntas, os dois times ficaram empatados 1 a 1.
O único ponto que o time azul conseguira, foi com a ajuda de Rose que apontou para si mesma na pergunta sobre esquizofrenia. Se sentia mal, tomara aqueles remédios que o genocida lhe dera sem nem questionar, e talvez realmente tivesse tido aquela doença algum dia. Seus amigos ficaram chocados com a afirmação.
As outras perguntas foram todas erradas, impossíveis de serem acertadas, senão fosse no chute. Como: "Quantas pessoas o Cold Blood matou enquanto Sara fazia parte dele?" ou "Quem das pessoas citadas foi colocada em uma caixa de vidro com mangueiras a enchendo?".
Os dois irmãos descobriam cada vez mais coisas sobre seus pais que não sabiam. Só lhes fora contado o necessário, mas na verdade tudo seria o verdadeiro necessário.
— Que ótimo, estão os dois times empatados.- Ramona não chorava mais, parecia ter desmaiado por alguns instantes.- Vamos para a pergunta de desempate e descobrir se a Bianca desfilará por aí ou usará a famigerada cadeira de rodas.
Rose pelo menos estava confiante, não era a vez dela de responder.
— Acho que devemos dar a vantagem para o time vermelho, já que foi o primeiro a acertar.
Rose sentiu ódio subir por todo o seu corpo de novo. Luke e Clara olhavam para ela, piedosos. Nem parecia que Kauan e um guarda estavam ali. O guarda só servira de enfeite o jogo inteiro, enquanto Kauan apenas negava saber algo e se divertia internamente com o desespero coletivo.
— Vamos também atribuir uma nova regra. Se a equipe vermelha errar, a equipe azul vence, mas se acertar, ganham. Entendidos?
Miguel abriu a boca para falar, mas Luke o cutucou.
Era a pergunta que decidiria tudo. Não podiam perder mais ninguém. Anya e Leonardo tinham morrido por culpa dos jogos, Rose não se permitiria deixar mais ninguém morrer, ninguém.
— Vamos lá.- Dylan levantou a marreta.
As crianças ficaram ansiosas, não conseguiam parar de ofegar.
— Equipe vermelha. Garantindo a vitória, respondam: Quem entre Rose, Lídia, Marina e Sara, já tentou me matar? Ameaças não contam.
Todos os olhos se direcionaram à Rose, inclusive os dos guardas. O placar marcava o número 1 para os dois times, e a garota ruiva tinha as respostas erradas na ponta da língua.
Seu coração acelerou de tal maneira que doía em seu peito. Todo mundo ia saber. Se sentia apreensiva e sem coragem de ouvir ele falar que tentara matar alguém em voz alta, mesmo que todo mundo quisesse matar ele. Nem ela mesma entendia sobre aquele dia em que o empurrou do penhasco para ir de encontro às pedras, mas não era seu pai biológico, e nem conseguiu ver algum corpo lá embaixo. Aquela cena voltou para sua cabeça, e o tempo passava. Enquanto Rose relembrava o momento desumano em que se colocara, Ramona derramava suas últimas lágrimas de esperança.
— Qual é a resposta?
A garota ruiva olhou para o irmão. Além de conhecer coisas terríveis de seus pais, também conheceria um lado perverso de sua irmã. Nunca sentira tanta pena por Miguel. Se sentia como se tivesse realmente matado alguém. As mãos de Luke suavam, e se perguntava quem teria o prazer de quase matar aquele monstro. Seu próprio pensamento o repudiou. Se viu torcendo pela morte de alguém, era contra tudo o que acreditava.
— Respondam.
O tempo passava. Os olhos de Rose paralisados, só o que funcionavam eram suas memórias ruins. Ouvir que era uma assassina seria demais para ela, mas Dylan faria de qualquer jeito. Sua visão começou a embaçar.
— Rose!- Respondeu Kauan.
Todos arregalaram os olhos, surpresos com o primeiro posicionamento do garoto de cabelo azul em todo o jogo.
Rose teve um choque, seus olhos nunca abriram tanto, fitando o garoto ao lado.
— Você é boa demais pra se igualar à ele.- Respondeu com um ar de inocência, porém Kauan sabia de tudo.
Dylan abriu um sorrisão, dando graças por ter colocado Kauan entre eles.
— Rose...- O genocida caminhou para frente, saindo de trás da cadeira.- Resposta correta!
Clara se virou antes de ver. O dono do castelo desferiu a marreta com tanta força em uma das pernas de Ramona, que conseguiram ouvir algo como um osso quebrando, e junto com esse som, o grito de dor ensurdecedor que a menininha soltava. Ele continuou e continuou, freneticamente.
Rose tampou o rosto com as mãos, forçando os olhos a fecharem. Queria bater em alguém, descontar tudo. Não conseguia nem pensar no que Kauan tinha feito, só queria ajudar ela. Mas dessa vez, seus próprias pernas pareciam estar sendo marteladas, as sentia bambas.
Luke tampava a visão de Miguel com as mãos, fez isso instintivamente, assim que, antes de conseguir usar suas pálpebras, viu a nojeira.
Dylan levantou a marreta para acertar a outra perna, porém quando estava prestes a acertar, Ramona deu outro grito de dor, implorando para que parasse.
Ele parou. Olhou o estrago que tinha feito e largou a marreta no chão. Foi rapidamente para uma das portas do salão, entregou algo a um vigia, e foi embora sem encerrar o seu jogo com ordem aos guardas ou uma frase de efeito. Aquilo era diferente.
Dylan saiu e esbarrou com Alan, que tentou conversar com o rei, mas não conseguira. Ele saiu tão perturbado que não pararia até chegar ao quarto e pegar sua maleta, indo em busca de conforto em outro lugar.
Já entardecia. O dia das pessoas da vila se resumiam em esperar pela volta dos outros e aprender a usar uma espada.
Daniel passou horas evitando Godobllir, tanto em sua mente quanto pessoalmente. Não queria entrar mais em contato com ela. Felizmente a mulher com apelido de gado tinha passado quase o tempo todo junto com seu amigo Noel.
Marina também dera um descanso para Sara. Ficou desfrutando da natureza um pouco e treinando, mas não sem soltar alguns: "Vai se fuder, Sara", em um intervalo de duas horas.
Agora, o grupo de Rebeca que tinha pedido ajuda para aprender a manusear uma espada, conversavam apoiados do lado de fora das paredes das casas, enquanto comiam as últimas barrinhas de cereais do dia.
— Vocês sempre falam dele, mas esse Dylan é tão ruim assim?- Mark perguntou, dando uma mordida na barrinha de cereal.
— Amigo? Sabe o que ele fez no período de cinco dias?- Começou Rebeca.- Ele explodiu nossa cidade, sequestrou a gente e enfiou numa ilha.
— É o capeta.- Repudiou Marina.
Mark só estava por dentro do que seu noivo contara antes dali, ou seja, quase nada. Quando chegou na ilha, mil e uma histórias sobre um genocida extremamente perigoso chegaram aos seus ouvidos, e junto a descrição do físico dele. Mark só conseguia imaginar um cara gostosão cheio de sangue. E talvez fosse.
Rafael saiu de uma casa e se sentou ao lado de Rebeca, que mexeu a cabeça gentilmente para ele.
— O tempo tá acabando.- Comentou Rafael.- O Daniel tá surtando.
— Vai fazer um buraco no meio da vila, já já.- Rebeca mirou o amigo andando pensativo praticamente em círculos perto dos portões.
— Qual é sua aposta? Voltam todos vivos? Ou o Dylan matou todos?
— Para, Marina. Vão voltar todos sã e salvos.
— Ah, Rebeca. Acho que é querer demais que não dê merda nenhuma.- Mordeu a barrinha de um jeito rude.- Ai, meu dente...
Sara, fora da vila, caminhava de volta após ter ido fazer do mato um banheiro. Uma de suas reclamações internas era Dylan não ter feito um vaso sanitário que funcionasse.
No caminho de volta, quase chegando na entrada de Sanru, foi a primeira a ver vultos correndo em direção à vila. Sua reação a princípio foi se esconder atrás de uma árvore e tentar espiar. Se fosse pra cima desarmada não conseguiria fazer nada, contra seja lá quem fosse. Depois de olhar melhor os vultos, que eram dois, percebeu se tratar de Eléxeu e Marcos, voltando sem Lídia.
Daniel continuava andando de um lado para o outro, impaciente e nem um pouco sossegado. Cada minuto parecia vinte e o "pôr do sol" já estava acabando. Com certeza fazia 24 horas, mas ainda tinha esperanças dela voltar. Ao ver os dois companheiros de Godobllir correndo em direção aos portões, Daniel despertou-se, indo na direção deles, ainda agoniado, mas procurando Lídia vindo atrás.
Quando os dois entraram em Sanru, apoiaram as mãos nos joelhos, arfando. Tinham corrido para chegarem antes do anoitecer.
— Cadê a Lídia?- Daniel esbravejou, olhando para entre as árvores.
Marcos e Eléxeu se entreolharam, não tendo a menor ideia de como contar aquilo para ele.
Os outros começaram a ir até eles, também ansiosos para ouvir o que tinham a dizer.
— Cadê minha esposa?- Daniel se movia agitado, focado no rosto dos dois.
Os adultos perceberam que a dupla voltara sem as espadas e sem os galões. Tinha sido um fracasso.
— Alguém fala alguma coisa!
— Ela...- Eléxeu começou.-...Levaram ela.
O rosto de Daniel se transformou em fúria. O líder pegou Eléxeu pela roupa e o colocou contra um dos portões de ferro, batendo o corpo dele com tudo.
— Quem levou ela?! Fala!
— Foi, foi, uns índios, nativos, cara. Eles cercaram a gente e levaram ela.- Eléxeu respondia com medo, sentindo a respiração pesada de Daniel em seu rosto. Era encarado como uma presa.
— É mentira!
— Amarraram a gente e levaram ela.- Interviu o homem de cabelo longo-. A chamaram de "Deusa", também. Eu juro.- Marcos completou, sem mexer um dedo para tirar Daniel de cima do companheiro.
"Índios?", se indagaram os ouvintes. Rebeca criou em segundos uma teoria sobre nativos que viram Lídia como a personificação de uma deusa.
Mark começou a passar mal. Seu ouvindo fazia um zumbido irritante e constante, enquanto sua barriga parecia se contorcer. Se virou de costas para a situação, indo vomitar em um canto.
Rafael foi ajudá-lo, colocando a mão em suas costas.
— Você tá bem?
— Tá tudo bem. Passei mal da mesma forma quando descobri que tava aqui.
Daniel continuava furioso em cima de Eléxeu, sem baixar a guarda um segundo. Godobllir pensou em se meter, mas Noel a pediu para deixar as coisas rolarem.
— É culpa sua!- Daniel socara o rosto de Eléxeu, fazendo com que Marina desse um sobressalto, mas logo depois um sorrisinho.
Terminou o arremessando no chão, e indo de encontro a Marcos, o colocando contra a parede ao lado do portão.
Sara viu e ouviu tudo do lado de fora, entrando depressa para acalmar o amigo.
— Solta ele, Daniel.- Falou próxima ao seu ouvido.- Bater nele não vai adiantar nada.
Ele não queria escutar. Lágrimas começaram a rolar de seus olhos. Dylan tinha pego Lídia. Ele iria matá-la.
Marcos foi de encontro ao chão. Daniel não sabia mais o que fazer. Nunca deveria ter deixado sua esposa ir. Nunca.
Um barulho estranho começou no céu, vindo ao longe. Mark achou ser do seu ouvido, mas quando reparou que Rafael também o ouvira, olhou diretamente para o horizonte do final da vila.
Sara se virou para olhar o céu, e então viu a origem daquele barulho no meio de uma imensidão alaranjada. Um avião.
De repente, a parte inferior dele se abriu e flores começaram a cair de lá de dentro. Eram muitas, como uma chuva.
Os lírios começaram a tocar o chão e cair em cima das casas e das árvores, enchendo o topo de tudo.
Rebeca percebeu serem lírios após pegar um do chão. Ninguém estava entendendo aquilo, apenas viam a chuva acontecer. O cabelo de Rafael se enfeitou com a flor, sem ele perceber. Se aquilo fosse em outra ocasião, Sara o elogiaria por estar fofo.
O avião seguiu, deixando por onde passava, um rastro de flores.
Daniel estava em estado de choque. Aqueles lírios caindo do céu significavam uma provocação de Dylan. Ele estava confirmando que tinha Lídia sob sua posse. Não podia ficar parado vendo aquilo acontecer, não podia. Então, saiu depressa para fora da vila. E assim que saiu, tudo se tornou noite.
Lídia passara o dia conhecendo os arredores, até chegou a entrar na "sala do trono" do Xamã, e até vira o paletó branco que ele usaria na cerimônia de amanhã. Era realmente tocante.
Quando voltou para a cela, já ao entardecer, encontrou Jason um pouco diferente do que como o tinha achado. Parecia mais limpo e com menos barba na cara.
— Você demorou.- Jason comentou.- Deu tempo deles me levarem pra tomar banho na cachoeira e você não voltava.
— É...- Ela se sentou apoiada na parede, Jason ainda era um estranho.
— Te levaram pra onde?
Não se sentia segura com ele, mesmo depois da conversa da madrugada. Lídia não conseguia confiar em mais ninguém depois de ouvir sobre a profecia. Todos agora pareciam querer jogá-la numa fogueira e a banhar em sangue com muita alegria. E se Jason estivesse sendo sonso e na verdade também acreditasse na religião deles?
Apenas queria estar com sua família de novo. Sem jogos, sem mortes, sem índios, sem deusas. Apenas uma casa, cheiro de café e um filme passando na televisão da sala.
Dylan estava com Rose e Miguel, e só de pensar no que ele poderia fazer com os dois a destruía por dentro.
— Lídia?- Ele a chamou, a despertando de inúmeros pensamentos.
— Ah, oi.- Bem, era melhor contar.- O xamã me levou pra umas...pedras. E ele contou sobre a tal profecia. Ao que parece, Sara e eu somos tipo Deusas...
Os dois escutaram o barulho de um tambor, pararam de falar para tentar ouvir melhor. Aos poucos, vozes começaram a cantar com fervor, uma letra misturada em vários idiomas que nenhum dos dois conseguia entender. Talvez um "Deusa" aqui, "Lírios" ali, até um "God". "Deusas de Sangue". Todos os nativos cantavam. Estavam todos agitados do lado de fora. Festejavam e dançando. Os dois conseguiam espiar pela janela. Era uma celebração para antes da próxima noite.
Alguns nativos tocando tambor entraram na prisão, olhando para a Deusa, com uma alegria enorme.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Eles começaram a ouvir outro barulho, que quase ficou oculto pela música. Os nativos que entraram, logo saíram ao verem os lírios caindo do céu. Jason chamou Lídia para ver aquele festival de flores. Era lindo, mas ao mesmo tempo, Lídia relacionou aquilo com uma parte da profecia que falava sobre Lírios vindos do céu. Seu medo aumentou, as coisas estavam se realizando.
Miguel e Rose faziam guarda na frente da porta fechada da enfermaria do castelo. Esperavam a saída de uma enfermeira para deixá-los entrar. Se sentiam culpados por aquela crueldade, mesmo uma parte de suas mentes argumentando que tudo era culpa de Dylan e não deles. Uma enfermeira saiu do cômodo e os deixou ficarem sozinhos com Ramona. Ao entrarem, viram a garota deitada perto de uma janela, com a perna levantada de um jeito estranho e engessado. Um cobertor ocultava quase toda a perna, mas dava para ver um pouco do gesso. Ela olhava para alguma coisa dentro de uma cômoda, mas ao perceber a visita, a fechou rapidamente. Os dois abriram um sorriso gentil(de culpa), e foram se aproximando da cama.
A área hospitalar era pequena, cheia de armários com remédios e instrumentos cirúrgicos. Dava para fazer uma operação lá dentro se trouxessem uma maca que com certeza tinha em algum lugar da Coruja Negra.
— Você tá bem?- Ele perguntou, pegando na mão dela.
Ramona acenou com a cabeça. Não estava nada bem, porém no estado em que se encontrava, era melhor tentar fazer ficar bem.
Rose não sabia o que comentar. Uma coisa passou pela sua mente exatamente quando chegara ali, Kauan. Ele teria acertado de propósito para machucar Ramona? Por que ele faria aquilo? Foi tão estranho que sua ficha ainda não tinha caído.
— Se quiser, podemos revisar pra passar a noite aqui com você.- Miguel recebeu um sorriso sincero.
— Não precisa.
— Tem certeza? Não é problema pra ninguém.
— Tenho.- Ramona já tinha chorado tudo o que tinha pra chorar nas últimas horas, e agora, parecia estar vazia.
Rose encarou a janela, a noite já tinha aparecido e tudo estava escuro. Logo seria um novo dia no castelo, e ela não queria nem imaginar os próximos joguinhos de Dylan. Agora, suspeitava de pessoas que afundavam no mesmo barco.
Após alguns segundos intercalando entre a cama e a escuridão, reparou em pequenos vultos caindo do lado de fora. Passou pela cama e foi depressa para ver o que era. Os lírios passavam em menor quantidade, mas ainda eram muitos.
— Tão caindo flores do céu.
Miguel também foi ver, relutante com aquela informação. Ramona não se importou muito, mal conseguiria ver deitada.
— É de um avião.- Acrescentou o irmão, vendo o objeto voador piscando.
Não conseguiram ver até onde o avião fora, mas imaginaram ter ido embora dos arredores.
Rose começou a se preocupar com seus pais. Qual era o sentido daquelas flores vindo da direção da floresta? Não parecia ter haver com o castelo.
— É melhor vocês irem ver os outros. Devem estar preocupados e com medo.
— Todos preocupados e com medo por você.- O amigo queria continuar ali, do lado dela, mas sua irmã o puxava, pois sabia que para Ramona naquela hora, era melhor deixá-la sozinha.- A gente volta amanhã cedo.
— Tá bom...
— Vai ficar tudo bem. Estamos aqui.- Rose por fim disse, abrindo a porta para irem. Queria ir tentar ver o tanto de flores que caíra, através da sacada, e principalmente, pensar sobre elas.
Quando a porta se fechou, os dois ainda continuaram no corredor, pensativos sobre todos os amigos mortos e machucados. Não queriam que mais ninguém sofresse, mas não sabiam como intervir, lutar era suicídio. A única proteção que tinham era um ao outro. Aguentar era a única solução? Tinha que ter como fazer algo. Mas fugir? Pra onde? Ficar? E morrer? Suas cabeças estavam cheias. Nada, não tinham como fazer nada.
Miguel e Rose tomaram um susto quando ouviram o barulho de tiro no quarto de Ramona. Entraram correndo, junto com uma enfermeira que vinha no final do corredor, e a encontraram morta com um tiro na cabeça, segurando uma arma que guardara dentro da gaveta da cômoda.
Na casa de um só cômodo, após Daniel surtar e decidir que deveriam partir, Sara tentava fazê-lo pensar melhor. Ninguém fez resistência daquela escolha, exceto ela. Ele tinha consigo o baú com a arma e as dinamites, que pegara ao sair da vila após o surto.
— Você tem certeza que quer ir agora?- Perguntou ao apressado.
— Há cada segundo que passa, é um segundo que Dylan tá com a Lídia.- Disse, pegando o mapa e colocando em um saco.
Os outros concordaram em ir junto para além da vila, por tanto, pegavam tudo o que fosse necessário para sua sobrevivência. Os alimentos, as espadas, os galões vazios e cheios foram pegos. Ficar ali não adiantaria nada.
— Depois que a gente sair daqui não tem mais volta.
— Eu sei.- Ele pegou no bolso o isqueiro que pediu a Marcos minutos antes.
— Você não precisa fazer isso também.
Daniel deu de ombros. A provocação das flores era algo que queria rebater, demonstrar que não tinha medo, que o iria encarar, por Lídia.
Os dois saíram da casa. Sara segurava o pequeno baú, olhando para os outros, agitados pegando coisas. Daniel abrira a caixa e de lá tirou uma das dinamites. Já tinha entrado em contato com umas quando ainda fazia parte do Cold Blood, e sabia o tamanho do estrago que poderiam causar. E se quisesse causar bem feito, teria que usar várias, mas Sara o restringiu a uma certa quantidade. Ele acendeu uma, fazendo com que Sara reagisse balançando a cabeça.
— Se ele quer um show, vou dar um show pra ele.
Daniel tacou a dinamite dentro da casa.
As pessoas foram se retirando das casas cópias de Sanru, carregando sacos e espadas, caminhando na direção dos portões.
Daniel foi acendendo mais dinamites e as arremessando dentro das casas. Sara não se preocupou de verdade com a quantidade usada, mas com a atitude infantil. Ele tinha entrado na pilha de Dylan.
Godobllir só ouviu os estrondos que pareciam como bombas, enquanto os destroços caíam. Rebeca também se virou para ver. Não teriam mais que acender fogueiras para dormir ali. A Vila Sanru estava sendo destruída.
Daniel e Sara por fim saíram, cruzando o portão assim como os outros, terminaram de fazer quase todas as casas virarem destroços. Ele jogou uma última dinamite em uma das casas da vila, e depois pegou uma de duas tochas das mãos de Rafael, feitas por Rebeca no dia anterior, como se tivesse previsto a saída inesperada.
Marina ia na frente, então Daniel apressou o passo para se juntar à ela.
Eram dez pessoas caminhando juntas no meio da noite em uma ilha, erguendo tochas, e tudo o que tinham eram um revólver sem balas, espadas e um protótipo de arco e flecha. O que poderia dar errado?
Ouviram o último barulho de explosão. Seguiam sem saber no que daria continuar. Marcos orientava o caminho, mais preparado e disposto para seguir. Mark só conseguia sentir insegurança e medo, mas todos decidiram ser melhor partir, então tinha que ir junto.
Godobllir e Noel sussuravam com Eléxeu, obtendo mais informações do que tinha acontecido na saída deles. Rebeca conseguia ouvir a conversa, pediu que falassem mais alto sobre os supostos nativos, seria útil para todos. Ela estava enganada, para Rafael, tudo o que lhe deu foram arrepios.
Sara sentia que ia dar merda, exatamente quando pisou em uma das flores caídas.
Ninguém sentiria sono aquela noite, nem um resquício de bocejo. Não pela caminhada, não pelas informações, mas pelo o que encontraram a seguir.
Um grupo de cinco nativos apareceu diante deles na escuridão. Marcos e Rebeca foram os primeiros a perceber e sacar as espadas.
Todos paralisaram, os índios já estavam indo buscá-los.
Daniel apontou a lâmina e se aproximou, respirando tenso.
— Calma.- Disse o líder nativo.- Viemos ajudar vocês.
Eléxeu quase abriu a boca para reclamar, mas não o fez.
— Não somos do mesmo povo que levou ela. Vocês precisam da gente.
Precisavam era entender o que estava acontecendo.
Continua...
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