Segredo Virtual

28 2 T: Capítulo 3 Os Monstros Ressurgem


Notas iniciais
Enfim mais um capítulo da nova temporada de Segredo Virtual. E esse veio especial, com uma chamada do capítulo " https://www.youtube.com/watch?v=GNDYXH5yuOI ". Preparados para o especial de Halloween? Prontos ou não, lá vai!:

A luz da lua era tão encantadora, tão majestosa e nunca perdia o seu brilho, ainda mais em um cenário como aquele. As três máscaras e meia do Cold Blood foram colocadas em um formato de roda, à beira daquele local onde tantas almas foram perdidas e destruídas. Aquele penhasco tão intrigante e com uma vasta história sangrenta. A mão coberta por uma luva preta, se despôs a colocar uma rosa vermelha ao lado de cada uma das máscaras, deixando um clima assustador e poético sobre o local. Sem perceber acabou se cortando com um dos espinho, mas sugou o sangue:

— Isso é macumba?- Indaga a ruiva, com seus maravilhosos cabelos ao vento, tentando fazer graça com a cena. Dylan se vira para ela e dá um sorriso bobo.

— É algo bem mais profundo que oferendas...- Ele se ajoelha em frente aos objetos.

— E o que essas coisas significam?

— As três máscara significam vidas importantes que marcaram este lugar e que deixaram de fazer parte dessa história; Jason...

— Aquele que pulou junto do penhasco com a...- Dá uma pausa para tentar se lembrar-...Sara?

— Sim. O Thiago, que provavelmente você não se lembra, e então a Mary.

— Ela morreu aqui?- Uma onda fria de ar bate em seu corpo, a fazendo fechar o casaco com estampa de lobo que estava usando.

— Não exatamente...Mas ficaria surpresa sobre o que aconteceu aqui muito antes de sua mãe e Sara virem para cá.- Dylan segura a máscara cortada ao meio e a levanta ao rosto.

— E essa ao meio representa o quê?- Rose olha para trás, sentia que estava sendo observada por alguém, ou talvez por algo.

— Sara.

— Mas ela ainda não morreu, né? Ficar em coma não é morrer absolutamente...- Uma figura de capuz branco passava lá de baixo, andando sobre a areia. Aquilo deu curiosidade a Dylan, não havia ninguém assim em seus planos, mas tinha uma certa ideia de quem seria. Uma reviravolta que não planejara, um furo em seu roteiro impecável, mas que o deixava animado mesmo assim. Com o seu olhar desviado para o tecido branco, mal percebeu um homem de casaco preto o fitando também de lá de baixo, com uma séria expressão no rosto.

— É, não está morta, ainda...

— O que está havendo?- Perguntava Daniel em uma ligação, debruçado sobre uma janela da sala de estar, enquanto observava a rua deserta, em meio a uma chuva repleta de trovoadas.

— Ele vai matar todos nós!- Diz uma voz choramingando do outro lado da linha, seguida por barulho de uma porta sendo arrombada.- Por favor, me ajuda!

— Não, ele não vai matar vocês. É o jogo dele, e só se abre mão de jogadores desnecessários. Isso é apenas um susto, um jeito de causar efeito, fazer vocês terem medo dele.

— Então conseguiu...Crystal está morta, e sinto que vou ser a próxima...

— Você é a protagonista, não está em risco de vida por enquanto. Tenho experiência com jogos.- Apenas um grito é dado como resposta e então o telefonema acaba.- Isabela?- Daniel se vira, dando de cara com Miguel em pé no centro da sala. Na mesma hora um trovão acabara de relampear.- O que foi, filho?- O garoto caminha até ele e o entrega um folheto.

— Vai ter uma festa de halloween naquele lugar que era uma pousada, e vai ser inaugurado como casa de festa amanhã. Preciso de uma fantasia. Depois das altas emoções do noivado da tia Bi, espero mais intrigas.- Brinca, mesmo sabendo que seu pai estava achando errado.- Quem é Isabela?

— Deveria ter me avisado antes que você queria ir.- Daniel caminha para a cozinha, sendo acompanhado pelo menino, ignorando a última pergunta.- Não sei aonde vou conseguir uma então pouco tempo.

— Eu esqueci, foi mal.

— Seu amanhã não é hoje mais tarde, é?

— Na verdade é.

— A Rose também vai?- Ele retira uma jarra d`água da geladeira e enche o copo.

— Vai, mas ela já tem uma fantasia do ano passado.- Miguel espera seu pai terminar de beber para continuar a falar.- Vocês também querem ir?

— Mas é lógico que eu vou. Não deixaria você e sua irmã juntos em uma festa nem por todo dinheiro do mundo.

— Deviam confiar mais na gente...

— Como da vez que confiamos para então colocarem um camelo na casa da sua avó?- Daniel esboça um sorriso ao relembrar a reação de todos a entrarem na casa de Jessica e virem a zona que havia ficado.

— Vocês tem toda razão.

— Agora vá dormir, depois resolvo isso pra você. Qual fantasia quer?

— Qualquer coisa, só pra dizer que fui fantasiado.

— Está bem.- Os dois seguem para seus quartos, mas ante de entrar, Daniel deu uma última olhada para trás, era uma superstição velha que havia aderido.

—" Nada se assemelhava aquele momento. O tempo virara um tesouro que ia se perdendo tão rápido quanto aquele sangue que possuía nas mãos..."- Recitava Bianca para Sara, sentada na mesma cama onde ela dormia.-"...Os dois olhares se cruzaram, se fitando com uma química tão interessante e privilegiada. Ela recuou, tentando lembrar de quem deveria amar e aceitar, mas aquilo a torturava de uma forma tão...".- Marina entrou no quarto um pouco sonolenta, segurando uma jarra que continha café. Bianca então fechou o livro, este escrito pela mesma.

— Aqui tão cedo?- A enfermeira recolhe um copo descartado ainda limpo jogado no chão, e o enche de café.- Acho que Sara é a pessoa com mais visitantes aqui recentemente.

— Prometi a ela que um dia escreveria um livro e o dedicaria a nossa amizade. Mas estou com problemas para finalizar essa história...

— Entendo. É fácil começar algo, mas ter coragem para ir até o fim é bem mais difícil.- Marina caminha até uma janela do quarto, com grades.- E pra ser sincera, eu não sai da vigésima página do seu livro, desculpe, não tenho paciência para leitura.

— Tudo bem, só por você já ter tentado é uma honra.- Bianca pega seu celular e disca um numero para Helena.- Oi, Helena, vai passar lá para pegar as nossas fantasias ou quer que eu pegue?- Ela dá uma pausa por alguns segundos.- Ok, eu vou lá então, tchau.- Marina se lembra do que haveria amanhã a noite, e decide se intrometer.

— Então vocês vão para a festa?- Indaga, para então dar o primeiro gole na bebida.

— Helena ama festas, se fosse por mim estaria em casa vendo algum filme aleatório no computador. E também só saio com bastante maquiagem na cara.- As duas se encaram por um momento, e quando ela abre a boca para falar, Bi a interrompe.- Já sei o que vai dizer; " Você é bonita naturalmente, não precisa dessas coisas ". Acho que é costume. Sempre fui inseguro.

— Eu só iria comentar que o seu cabelo está muito bonito.- Bianca força um sorriso, e vira o rosto para Sara, onde um pensamente acabara de surgir.

— Às vezes penso que pode nos ouvir...E sentir.- Após dizer a última palavra, sua mão acaricia a bochecha da indivídua, que estava tão bem arrumada quanto uma estrela de cinema.

Jessica se concentrava lendo seu livro, estava sedenta por respostas o mais rápido possível e a leitura fazia sua mente parar, adentrando em novos mundos e aprendendo mais sobre como lidar com seus demônios interiores. Quem olhava pela porta aberta de seu quarto, com certeza diria que ela estava fixa naquilo, como um controle mental, e isso ensinou a todos a não perturbá-la quando se iniciava naquele transe. Aquele fingimento sempre deu certo. Mal sabiam eles que por baixo da capa de um romance velho estava páginas de o antigo diário de Dylan:

— " É realmente infantil escrever um diário. Hipócrita é quem se irrita por lerem. Qual é o motivo de escrever algo tão pessoal se não quer que alguém leia? Então se você está lendo isto, saiba que só está descobrindo o que eu quero que descubra. Existem formas bem mais fáceis de conservar sua memória ".- Lia para si mesma em voz baixa, imaginando o quanto Dylan era manipulador para uma criança. Até que chegou em um capítulo com uma escrita bem diferente da de antes.- " Ora, Ora, Você achou mesmo que iria encontrar algo aqui, Jessica? Não seja tola ".- Ela fecha o livro com força, então o jogando contra a parede. Ele estava um passo a frente todo esse tempo, sabia demais e ela nem tanto. Jessica tranca a porta do seu quarto e caminha até um guarda-roupa enorme pregado na parede. Seu corpo dirigiu-se para dentro dele, puxando um fundo falso e o encostando do lado de fora. Uma passagem secreta bem mal escondida para alguém que já fez parte do Cold Blood. Era uma sala escura, havia apenas uma lanterna ligada conectada a uma tomada. ,Mas ao apertar um botão na parede a mesma se transformou em um monitor gigante, mostrando a vista de várias câmeras de segurança espalhadas pela propriedade e até a rua. Expandir sua casa foi um belo investimento. Estava prestes a rebobinar para a noite anterior, quando viu em um dos quadrados da tela uma mensagem bem clara escrita em um cartaz; " Eu sempre chegarei primeiro, não importa o quanto o seu tiro seja certeiro. E tente não se apressar, o jogo ainda está pra começar ". Mal conhecia aquele novo vilão, e já o odiava fortemente por suas rimas provocativas.

Flashback On:

Bianca andava pelas ruas cheia de sacola de compras, ao lado de Helena que na época era sua namorada. Paris a fascinava, era o seu sonho de princesa viajar para lá. Cada vitrine que olhava era um surto interior. Roupas que com certeza eram mais elegantes que qualquer peça de seu guarda-roupa de alguns anos atrás. Nunca gostara de gastar ou se impressionar com tecidos, mas havia mudado muito seu jeito de pensar. Helena com certeza tinha feito um grande trabalho:

— Vamos aqui!- Chamou Helena, a puxando para dentro do estabelecimento, mas exitou após ser empurrada e quase ir de cara na vitrine. Sua acompanhante não percebeu o que acabara de acontecer, e entrou sozinha para olhar os vestido maravilhosos daquele lugar. Bianca não iria fazer barraco, esse nunca foi o seu porte, mas aquele homem de costas se parecia com alguém muito familiar...Totalmente familiar. Um instinto começou a crescer dentro dela, a fazendo impulsivamente seguir aquela figura, enquanto tentava recordar quem seria. Ele virou a esquina, e entrou em meio a uma multidão. Ela não sabia se Helena tinha percebido que acabara de se afastar, mas esperava ansiosamente que sim. O homem entrou em um beco, Bianca estava ocupada demais tentando não ser amassada no meio de toda aquela gente, mas conseguiu se locomover até o lugar. Não havia ninguém naquele beco imundo, era sem saída e não havia portas ou escada alguma. Ela olhou ao redor, tentando encontrá-lo, mas ao se virar novamente para a parede que selava o final, encontrou apenas uma idosa, Mary.

— Bonjour!- Disse quase como um grito, após o susto que levara.

— Eu falo português, sou brasileira.- Bianca a olhou de cima a baixo. Já tinha encontrado outros brasileiros nessas duas semanas que havia passado aqui, como a premiada escritora Mara, mas aquela mulher não tinha nada relacionada ao Brasil em sua aparência ou na fala, parecia mais com uma britânica falando português, e por sinal, aquele sotaque a deixava em êxtase.- Parabéns por ainda estar viva.- Aquilo soou estranho. Antes que pudesse questionar qualquer coisa, a mão enrugada a estende uma carta.- Gosto de fazer as coisas por mim mesma.

— O que é isso?

— Todas as informações do que houve com Dylan, pelo menos todas as que consegui.- A idosa olha para baixo, lembrando da dificuldade que foi extrair as respostas.- Ah, também onde eu acho que ele pode se esconder ou fugir, listei as passagens escondidas que conheço.

— Como você conheceu Dylan?

— Você é bem lerda, hein, Bianca. E aposto que a próxima perguntar que vai me fazer é aonde aquele homem que parecia com seu irmão foi, estou acerta?- Ela ficou muda, não estava entendendo absolutamente nada.- Aquele apenas não era Dylan, foi só uma isca para ajudar vocês. Me devem muito por tudo o que fiz, treinar aquelas crianças para fazerem parte do Cold Blood realmente não foi fácil.

— " Vocês " ?- Mary sorriu e então caminhou para dentro daquela multidão. Bianca estava perplexa, apenas levantou o papel e o abriu, e realmente havia muita informação nele. Ela olhou para trás, e entrou no meio daquelas pessoas, mas o tempo que gastou abrindo aquela carta, foi o suficiente para Mary desaparecer.

Flashback Off:

Rose jogou duas cápsulas do fresco que Dylan havia lhe dado, na palma da mão. Já tinha tomado algumas daquelas nesses últimas dias, e sobrara apenas mais duas. Ela as jogou totalmente na boca, então pegando um copo que estava posicionado em cima de sou cômoda e o bebe para ajudar a descer aquele medicamento. Miguel já estava no quarto, mas não fora percebido por Rose, até a jovem se virar e o olhar:

— Quem deixou você entrar no meu quarto?- Após a indagação, escondeu o frasco atrás das costas, caminhando para trás e o jogando dentro de uma gaveta aberta.

— Só estava procurando uma tesoura...Isso não é um anticoncepcional, é?- Rose bufou, puxando seu irmão para fora do quarto.

— Não, não é.- Antes que pudesse fechar a porta, Daniel apareceu com uma bandana na cabeça.- Meu pai amado...- Disse ela quase que instantaneamente.

— Por favor, não me diga que você vai de Naruto...- Choramingava o pivete, vendo uma peruca loira espetada em cima do sofá.

— E você vai de Naruto filho! Soube que é sucesso entre os jovens, então decidi comprar nossas fantasias combinando!- Falava com uma empolgação, realmente estava falando sério com aquilo. Rose colocou a mão no ombro do garoto e então sussurrou em seu ouvido; " Boa sorte, soldado ". Lídia chegou logo em seguida.

— Eu tentei convencê-lo de trazer uma de pirata...- Informou a mãe.- Mas vocês conhecem os argumentos dele; " Na minha época qualquer um surtaria com um cosplay de anime ".

— Qual foi, galera, vai ser divertido! Qual o problema de vocês com essas fantasias? São muito iradas!- Daniel sempre tentava dizer algo da atualidade, mal sabia que ele era o típico tio do pavê. Não tinha problema algum para Miguel usar algo relacionado a animes, na verdade ele adorava, mas roupas combinando, fala sério.

— Rose, seu namorado está na porta.- Se posicionou Lídia, empurrando seu marido aos poucos para longe da porta, assim deixando as crianças saírem.- Ele não vai mais perturbar vocês, por enquanto...- Rose chegou até a porta que estava entreaberta, mas apenas se deparou com uma máscara de Guy Fawkes no chão, Dylan a teria deixado?- Ao olhar para o lado, estava Leonardo, tentando lhe dar um susto com uma fantasia de Guy Blood.

— Você realmente achou que eu teria medo disso?- Ela ergue as sobrancelhas, e abaixa para pegar a tal máscara que com certeza caberia perfeitamente em seu rosto.- Dá pra mim?

— Depois da festa me devolve, é alugado.- Ele retira o capuz preto acinzentado e aquele disfarce do rosto.- Eu nem lembrava que o povo idolatrava tanto o Cold Blood.

— As pessoas gostam de uma boa história sobre justiça...- Comenta, admirando suas lembranças sobre aqueles famosos assassinos.

— Então você gosta de jardinagem.- Diz Jessica enquanto caminha para perto de sua hóspede, que se encontrava sentado ao chão com suas luvas cheias de terra.

— É um hábito que aderi.- Respondeu, batendo suas mãos para tirar o acumulo de terra.- Suas margaridas foram muito bem cuidadas.

— Foi Lícia que as plantou. Acho bonitas, mas não tenho paciência alguma em plantá-las.- Sofia se levanta e recolhe suas ferramentas de jardinagem. Aquele sol estava tão gostoso, os raios aquecendo a sua pele era uma sensação tão boa e nostálgica. Paris faria falta.- Ágatha.- Ela olhou quase instantaneamente, já havia se acostumado a ser chamada por esse nome inventado.- Precisamos conversar sobre...

— Eu já sei o que farei sobre arrumar um emprego.- Atravessou-se mesmo antes dela terminar sua fala.- Prefiro nem mencionar o tamanho de meu currículo em profissões.- Jessica a olha meio sem graça.

— Não precisa ter pressa. Não há muitas coisas para se fazer nessa cidade.- Sofia com certeza não concordava, havia muito o que se fazer. As duas caminham de volta para o casarão, pensando sobre seus problemas pessoais com um certo alguém. Quem dera soubessem que pensavam no mesmo assunto, na mesma pessoa, Dylan.

— Vão a festa de hoje?

— O Sebastian quer ir para ficar mais perto dos netos, se bem que eu acho ele invasivo demais. Pode usar minha fantasia se quiser ir.- Sofia não demonstrou estar interessada, mas é claro que queria, ela nunca perderia uma chance de se encontrar com Dylan.

— Não tenho certeza se vou, não conheço ninguém.

— Essa pode ser a sua chance de conhecer novas pessoas.- Jessica abre a porta dos fundos e a segura para sua amiga também entrar.- Fazer amizades podem salvar vidas.

— Como eu irei me relacionar com pessoas de usando máscaras?

— Elas as usam o tempo todo, isso não é novidade.- Sofia a fitou, com certeza iriam duelar mais para frente para saber quem tinha as melhores frases de efeito.- Todo mundo precisa de máscara, mesmo que doa tê-las que mantê-las — A hospede a olhou um pouco desconfiada, a dona da casa com certeza teve que segurar suas lágrimas muitas vezes para poder ajudar quem não aguentava mais continuar. Não apenas ela, mas todos que tiveram suas patéticas vidas transformadas por assassinatos.

Lustre no teto, uma decoração fantasmagórica, uau, alguém realmente tinha repaginado aquela ex-pousada de um jeito glamoroso. As divisórias haviam sido derrubadas, dando um espaço que o local nem aparentava ter. O papel de parede roxo combinava perfeitamente com as toalhas-das-mesas da mesma cor, que ficavam em baixo das luminárias também purpuras( Alguém da decoração era apaixonado por essa cor ). Haviam garções servindo os convidados que já tinham entrado antes mesmo da musica começar. As fantasias eram das mais diversas e criativas, de uma princesa-zumbi à um rolo da papel higiênico ambulante. A arlequina havia acabado de derrubar seu prato com salgadinhos no chão, enquanto o Peter Pan acabara aumentando o estrago pisando neles. Um vampiro subia as escadas para o andar de cima que não havia sido transformado ainda, lá eram somante cômodos vazios e alguns banheiros que ainda não estavam lotados. O enfeite de abóbora também servia como assento para as crianças que queriam ficar mais perto da fila do pula-pula, sem contar as moças que estavam com um dúzia de crianças para fazer artes na pele. Um pirata acabara de sair de lá com uma aranha desenhada em seu braço, enquanto um Zumbi se animava para ganhar sua girafa com asas. O piso branco era decorado por figurinhas de morcegos no chão, mas onde se concentrava mais delas era em volta do palco com balões roxo-escuro ao fundo, do lado da onde se encontrava o equipamento do DJ. Bianca havia acabado de chegar ao lado de sua futura esposa. As duas usavam uma capa preta com desenhos de facões e manchas de sangue, em homenagem as gêmeas criadas por Bi em seu livro, que felizmente era um sucesso de vendas no país. Helena se inclinava para perto de um canto repleto de purpurina espalhada no chão( Adivinhem de que cor ), junto de duas cadeiras vazias, algo milagroso para todo aquele tumulto que nem havia chegado ao seu auge. Uma criança acabara de passar, segurando enormes balões coloridos, enquanto era perseguido por uma manada querendo aquelas bexigas. Grande parte das fantasias eram de vampiros e bruxinhas com mini-vassouras que ainda tinham o preço coladas nelas:

— É meio estranho ver metade das pessoas que você conhece com outra metade que mora no mesmo lugar que você, mas nunca se falaram, não acha?- Disse freneticamente, Marina, chegando por trás de Helena e a cutucando no ombro.

— Não me surpreendo...- Respondeu, colocando a mão em seus longos cabelos dourados.- Tenho certeza que algo assustador vai acontecer essa noite. É a lei dessa cidade.- Bianca olhou para sua noiva, que parecia ainda não ter se acostumada com o ritmo de Sanru.

— Aqui não é um ponto de livros de terror.- Argumentou.

— Depois de tudo o que vi, no mínimo um grande suspense.- Helena puxou as mangas de sua roupa, enquanto esperava Bianca continuar a conversa. Lídia e seus furacões acabavam de chegar; Dois casais e um garoto vestido que Boruto. Rose e Leonardo estavam andando praticamente colados, ela usava uma fantasia de Mulher Maravilha, mas sua mãe que vinha logo atrás de mãos dadas com o futuro Hogake, havia rejeitado o uso de fantasias.

— Não quero perdê-los de vista.- Ordenou Lídia, se dirigindo ferozmente para seus filhos.- E estou falando sério.

— O que você disse? Para ficarmos longo de você? Ok!- Rose puxou seu namorado para dentro longe, Miguel não ouvira o que sua mãe acabara de dizer, apenas era iluminado pelo brilho do celular em seu rosto.

— Eu não estou brincando, Rose.

— Tenta relaxar um pouco, eles são jovens, vão fazer alguma merda.- Após dizer isso, chegou mais perto da parceira, e sussurrou.- Na nossa época matávamos pessoas...- Lídia o deu uma cotovelada, e avistou seu pai vestido de marinheiro, se aproximando.- Que milagre não chegar 1 mês depois que a festa aconteceu.- Zoou o genro, sendo fuzilado pelo olhar do sogro. Bianca deixou Helena um pouco de lado, e foi conversar com a sua família, que realmente a deixavam feliz de estar ali.

— Oi, pessoal...- Diz ao quase ser atropelada por um macaco anão.- Opa.

— Devemos ligar para o zoológico!- Sebastian bagunçou o cabelo do neto.- Você e sua irmã são sequestradores de animais ou algo assim?

— Eles colocaram um cachorro dentro da banheira de novo?- Perguntou Bi, lembrando das histórias engraçadas que Lídia a havia contado.- Ah, camelo na casa da Jessica.

— Vocês nunca vão esquecer isso?!- Indignou-se o garoto.

— Não fomos nós que quase destruímos a casa da sua avó.- Se pronunciou o avô. Miguel rosnou, fazia isso quando ficava irritado.

— Planos finais.- Helena conversava com Diogo, que estava acompanhado de Carla. O casal usava roupas combinando de Mario e Luigi.- A HQ está um pouco arrastada, acho que apenas os desenhos que faço que dão um toque especial na história.- Disse confiante.

— Fico feliz por você e Bianca estarem se saindo tão bem.- Carla sorriu de ponta a ponta, realmente se sentia feliz quando as pessoas iam bem, mas não melhor do que ela.- Precisamos marcar um dia para sairmos juntos.- É lógico que nunca sairiam...Não depois daquela briga.

— Carla.- Sussurrou o marido, como um ato para deixá-la calada.- Bianca olhou de longe para eles, seu olhar era sério e bastante penetrante, como se quisesse intimidá-lo. Diogo revidou com a mesma intensidade, estava farto de ser acusado por aqueles olhos. Há alguns anos, Bianca estava prestes a lançar seu primeiro livro, era pra ser algo especial e inovador, uma história repleta de reviravoltas totalmente inusitadas e bizarras, até que descobriu que um livro com uma promissa bem similar a sua, também estava pronta para ser lançado. Ela acreditava fielmente que Diogo a havia copiado de algum modo, e desde então, tentam se entender, mas nunca conseguiram. Helena foi responsável pela presença deles na festa de noivado, depois de tanto insistir, conseguiu a aprovação da outra noiva, que cedeu apenas para parar de ser chateada com aquele assunto. Uma moça de capuz branco passou por aquele clima intenso, parecia totalmente despreocupada e seguindo uma reta, de cabeça baixa e sem desviar do chão em momento algum. Rose e Leonardo a viram passar, sentados nos degraus para o segundo andar, fazendo uma pose pra a sélfi que logo seria excluída, com um dos dois reclamando que não havia saído bem.

— Depois da morte do prefeito e da ex-esposa dele, e uma vandalização a propriedade da tia Bianca que podia ter dado problemas maiores, vem ai uma festa de dia das bruxas, para que aconteçam novas aventuras.- Implicou ela, fingindo criar um comercial de filme.

— Mais assassinatos do que já tiveram? Daqui a pouco a gente vai andar em poças de sangue.

— Seria poético, senão fosse trágico.- Rose leva seu copo descartável até a boca.

— Como se sente tendo pegado o último copo que estava em cima da mesa?

— Maravilhada. Especial. Única. Empoderada. Não existem palavras o suficiente para descrever o meu contentamento com isso.- Ao olhar melhor o copo, Leonardo viu um nome escrito com um batom vermelho nele, " Daniela ".

— Acho que esse copo pertencia a alguém...- Um homem de jaqueta começou a subir os degraus ao lado dele, e fingiu deixar um pedaço de papel cair. Rose estava ocupada demais intrigada com a cor daquele batom.

— Mas gente, que cor linda.- Leo pegou o papel, e o leu; " Daniela ". Ele olhou para trás, mas aquela figura já havia sumido. Inverteu o papel, e mesmo assim não havia mais nada escrito na parte de trás.- O que tá escrito ai?- Disse, ao cansar de admirar a coloração. Leonardo jogou o papel em cima dela.- " Daniela "...Estamos claramente em um filme de suspense.- Leo a encarou, parecia um pouco assustado.- Faça me o favor. Provavelmente é só aquelas crianças idiotas que viram joguinhos com enigmas no Youtube, não me surpreenderia se Daniela fosse o nome do ursinho de pelúcia de um deles.- Enfim uma musica começou a tocar nas caixas-de-som, e Rose decidiu que seu namorado deveria dançar com ela.- Vem!- Disse enquanto o puxava.

A mulher da capuz branco aproximou-se de uma porta trancada, enquanto olhava para a multidão se juntando para mais perto da onde vinha aquele som que chamavam de musica, mas apena ensurdecia seus ouvidos. Retirou a chave de um de seus bolsinhos escondidos na capa, que nem pareciam existir, e então a colocou na fechadura, e a destrancou lentamente, mas ainda não havia encostado na maçaneta. Olhou novamente para trás, para se certificar que um certo alguém não a estava vigiando. Então girou a maçaneta, e entrou naquele cômodo sinistramente escuro. Ela pegou uma mini-lanterna de outro bolso, e a ligou. Começou olhando para um canto escuro a sua frente, então mirando numa pilha de caixas jogadas perto de um armário cinza, mas foi quando olhou para o lado que deu de cara com um homem alto apontando-lhe uma arma:

— Abaixe a lanterna agora.- Enquanto a capuz branco fazia o que foi mandado, o homem caminhou para perto de uma parede, assim acendendo a luz em um interruptor.- Tire o capuz.- Pedido e feito.

— Meu nome é Rebeca. Não vim para fazer mau a você, quero te ajudar.

— Não mandei você falar.- Emitiu a voz grossa, quase sendo abafada pelo som externo.

— Mas eu vou. Não vai atirar em mim sem antes ter uma ideia do que quero...- Havia errado miseravelmente naquela intuição.- Puta merda! Eu vim te ajudar a conseguir o que quer com Dylan!- Só então olhou para baixo, e viu sua perna começando a se encharcar de sangue nas vestes.

— Diga a ele que não caio mais nesses joguinhos.- O homem colocou a arma na cintura e estava prestes a sair do local, até que uma frase chamou sua atenção.

— Ele não sabe que você está aqui.- Ele virou para ela.- Fiz de tudo para te encobrir, e se você não me ajudar, não vai conseguir fazer nem um arranhão sobre ele.

— Não preciso de ninguém para dizer o que devo fazer.

— Dylan não está vulnerável aqui.- Rebeca pega seu celular e começar a discar para alguém.- Mesmo não gostando de apelações e de se arriscar, em eventos como esses, tudo precisa dar certo. Sei sobre os anos que ficou na prisão, mas eu te garanto que todo mundo tem motivos maiores para querer assassiná-lo.

— Não estou interessado nos seus. Por favor, pare de encher o meu saco. Eu sinto a morte nesse lugar, e não quero que tenha que ser com alguém tão insignificante.

— Quando estiver quase morto em uma poça de sangue com seus olhos arrancados, eu irei admirá-lo, e então no último segundo da sua vida, você vai perceber que não deveria ter me rejeitado. E agora vai falar que me poupou e que poderia me matar agora mesmo, mas não pode. Seu único acerto de contas aqui é com aquele homem que vai continuar arruinando a vida de todo mundo enquanto estiver vivo. Ah, e antes de ir pode pegar o primeiro-socorros que está no armário? Acho que minha ajuda vai demorar para me achar.- Ele apenas fechou a porta e foi embora. " Ela que se vire ", resmungou antes de ir.- Obrigada pela conversa!- Rebeca tirou sua calça jeans, e junto com ela uma espécie de colete que estava preso em suas pernas. Uma pequena bolsa de plástico com um líquido avermelhado, caia colocado no colete, revelando sua armação.- Eu disse que era a fodona.

Lídia ajeitava a mecha de cabelo que insistia em cair sobre seu rosto. Estava navegando em suas memórias, não se recordava da última vez que estava naquele lugar, onde tantas coisas boas e ruins se misturavam em um liquidificador da sua cabeça. De repente uma onda de pensamentos em Sara veio atona. Várias e várias piadas que ainda lhe fazem gargalhar quando lembradas. Já ia entrar no banheiro feminino, quando então se deu conta da fila que teria que entrar, ou tentar a sorte e ver se os outros banheiros também estavam tão lotados assim. Se dependesse de ficar esperando, era mais fácil voltar em casa, que com certeza seria mais rápido. Uma mulher familiar passou por ela, indo em direção a uma parede vazia que havia sido construída agora, já que antes era a continuação daquele corredor. Lídia não conseguia ver o rosto da moça, aquele cabelo preto parecia servir de máscara, o que seria a única fantasia em si. Ela usava apenas roupas casuais, como se viesse em cima da hora, sendo arrastada por algum amigo. Enquanto fazia aquelas observações, alguém começava a falar algo no microfone, o que fez as pessoas da fila se direcionarem para tentar ver algo na virada do corredor. A mulher de longos cabelos negros empurrou a parede, abrindo então uma fresta na lateral a onde se debruçara. Ela levantou o rosto. Lídia a reconheceu instantaneamente...Sara? Aquela " assombração " adentrou pela fresta que havia aberto, e a única reação de sua velha amiga foi segui-la. Não haviam mexido naquela parte da pousada, continuava intacta, menos pelo piso que havia sido trocado. Não via mais Sara, apenas a última porta do corredor aberta, ao lado da escada que dava para o topo. Aquela sensação de que estava sendo vigiada a fez repensar na estupidez que estava fazendo, criticava personagens idiotas de filmes de terror, mas não sabia o quão angustiante era ficar parada sem fazer nada. A janela estava aberta, e uma brisa fria começou a atingi-la. Nem o clima estava ao seu favor naquele momento:

— Sara?!- Arriscou-se a chamar. Nem uma resposta veio, mas conseguia ouvir uma respiração vindo pra onde estava indo. Por fim, entrou dentro daquele cômodo vazio, que conseguia ser um pouco iluminado pelas luzes da cidade. E lá estava ela, sentada na beira da janela, olhando para a imensa queda que era dali. Aquele fantasma do passado a olhou, com uma expressão tão serena e calma, com seus cabelos voando ao vento, nem parecia estar traumatizada com tanta dor e ódio dentro de si. Lídia apoiou-se na parede. Estaria alucinando ou realmente estava de frente ao seu tormento? Até que aquela pequena memória jogou-se pela ventana, e antes que pudesse raciocinar, Sara já não estava mais presente.- Sara!- Ela correu até a janela, olhou para baixo e apenas viu...Não viu nada. Era apenas um chão asfaltado, não havia ninguém, nem um corpo, nem uma gota de sangue. Agora tinha certeza, estava alucinando. Espera, o que era aquilo mais ao fundo? E então, viu um homem mascarado atrás da parede de um estacionamento. Ele segurava uma faca, na qual pingava algo.

Bianca havia seguido o homem que aparentava ser sua irmão, indo parar em uma área totalmente isolada da antiga pousada. Infelizmente o tinha perdido de vista, e aquele barulho de seus saltos batendo enquanto subia aquela majestosa escada de vidro, a faziam temer sobre a decisão de ir atrás de um zumbi. A cada pisada que dava em direção aquele fantasma do passado, a ansiedade aumentava. Ela parou no penúltimo degrau, olhou para os lados, e mesmo assim não o viu e nem ouviu. Na verdade isso até a aliviou, podemos dizer que uma queda de escada não é muito elegante. Com certeza não era o momento para repensar sobre a vida, mas aqueles últimos anos foram uma maravilha, e ao mesmo tempo uma pedra no sapato. Tantas cenas inesquecíveis em paris, sonhos realizados, um namoro mágico, e então, a cópia de seu trabalho, e a nova notícia de que seu falecido irmão estava na verdade vivo. Não poderia ter certeza se Dylan realmente estava vivo, nunca ficara cara a cara, e mesmo se fosse o mesmo rosto, reconheceria depois de tanto tempo ou não poderia ser só um sósia da organização? Bianca focava em seu futuro agora, sabia que se voltasse ao passado, estaria repleta de traumas e remorsos que a fariam desistir de várias conquistas. Então ela deletou cada fragmento persistente de suas memórias mais dolorosas, e apenas as lembrava quando queria. Nem a mesma tinha ideia de como isso foi feito, mas que conseguiu, conseguiu, e agora faltava apenas seu irmão sair do caminho. Tinha prendido seu cabelo com uma pregadeira, em caminho para aquele lugar, acreditava que quanto mais se deixasse exposta, mais vulnerável ficava, e tinha toda razão. Uma sombra veio em meio a escuridão, do lado direito do corredor, era um homem alto e usava uma jaqueta preta, mascarado com a maior marca do Cold Blood. A mulher tirou um punhal de sua cintura, e encarou ele se aproximando. Ele tirou a máscara e a atirou para longe, então o rosto iluminou-se com a luz da lua vindo da janela, revelando ser realmente seu irmão, aquele antigo e poderoso garoto que não falara há quase 15 anos, e agora tinha traços bem mais adultos:

— Você é real?- Bianca abriu a boca, descrente do que estava vendo, como poderia estar vivo depois de todas as coisas que tiveram que enfrentar por causa de sua falsa morte? Dylan abriu um lindo sorriso branco, enquanto pegava a mão da irmã e levava até sua bochecha.

— Eu sou real, maninha. Senti sua falta.- Não era bem isso que se esperava ouvir de alguém que tacou uma cabeça de boneca em sua direção, mas ela nem se lembrou disto, apenas olhou para cada detalhe daquele antigo rosto, sentindo uma lágrima escorrer por sua bochecha rosada, na face incrédula.- Não derrame lágrimas por mim. Há várias pessoas que vão precisar delas.- Aquilo jamais estaria certo. Será que ele realmente queria causar mais dor à todos, isso lhe dava prazer? Isso iria doer mais em si mesma do que nele.

— Me perdoa. Eu não posso arriscar.- Bianca olhou para baixo, até que tomou coragem..Ela levantou o punhal, e movimentou-se para apunhalar seu irmão. Com rapidez, ele segura seu braço direito, e então o esquerdo, para que ela não consiga passar a lâmina para a outra mão.

— Tenha mais cuidado com isso, pode ferir alguém.- Dylan dá passos para frente, aproximando-a para a beira da escadaria.- Deveria ter trazido uma arma de verdade.- Ele a solta, a impulsionando em direção a uma queda dolorosa. Bianca consegue segurar-se em uma das barras debaixo do corrimão com a mão que estava usando para segurar a lâmina, então sentindo o punhal cortando sua palma ao fazer aquilo. Enquanto seu irmão abaixava a cabeça para ver o golpe de rasteira que estava a sua espreita, se desequilibrara um pouco antes do tempo. O corpo de Dylan a induzia mais para aquela queda. Os dois despencam da escada juntos, sentindo seus ossos doerem infernalmente ao chegarem no fim da queda. Bianca não perdeu tempo enquanto estava de costas para o teto, com o cabelo agora cobrindo sua vista. Logo ela se atreve a pegar a lâmina que estava na sua esquerda ao lado de Dylan. Ela se joga para cima dele que continuava estirado no chão de barriga pra cima aparentando estar um pouco zonzo. Novamente tenta enfiar o punhal em seu pescoço, mas é detida pelo braço dele que recebe a facada no lugar. Ele reúne força no outro braço para atirá-la ao lado, e consegue com êxito, subindo em cima dela e vendo o punhal voar para longe. Suas mãos voam para o pescoço daquela menina, para tirar a sua vida que fora sua inspiração em vários momentos. Ela tentava acertá-lo com golpes, mas todos em vão, nem mesmo o punhal conseguiria alcançar. Não conseguiria resistir aquilo. " Ele realmente está disposto a me matar? ", indagou em sua mente. Era o momento perfeito para falar uma frase de efeito, mas aquele som abafado da gritaria nos andares à baixos, e os sons que Bianca tentava imitir era o suficiente para aquela cena.

— Solta ela, Dylan!- Atrapalhou, Sofia. A mulher de cabelos dourados correu até sua filha que estava liberada das garras do irmão, e abaixou-se um pouco para ver seu estado.

— Eu não ia matá-la.- Disse, colocando a mão no braço ferido, olhando para o rastro de sangue no chão.

— Só quase fez isso.- Bianca olhou para aquela moça de rosto familiar, e após algumas piscadas percebeu ser sua mãe. Estava enfim reunida com seus únicos dois filhos que permaneciam vivos, e em uma situação com um clima nada familiar.- Dylan rapidamente saiu de cena, mas Sofia não estava preocupa, sabia que Bi não poderia se mover por alguns segundos, e aproveitou esse tempo para caminhar calmamente olhando para trás. O que ninguém sabia, era que mais alguém estava vendo toda aquela briga, o mesmo que feriu Rebeca há alguns instantes.- Nunca subestime Dylan, Bianca.- Orientou antes de se retirar.

Gritos de socorro eram levados pelo brisa fria que estava se transformando em um nevoeiro denso. Logo, várias pessoas se juntaram para ver o que estava acontecendo, formando um círculo em volta de toda aquela carnificina exposta sem a mínima censura. Após um punhado de gente sair da festa e ir direto ao estacionamento para se juntar ao resto do povo, os policiais foram chegando aos poucos, afastando o público e tentando tomar as rédias da situação, que com certeza não seria controlada tão cedo. Da janela dos andares mais altos da casa de festa, dava para perceber que haviam perdido qualquer interesse no evento, e estavam vidrados na cena do lado de fora. Miguel e Rose avistavam tudo com uma vista vip na janela, sendo esmagados por outras pessoas que achavam que se encolhendo conseguiriam ver algo:

— Aconteceu de novo.- Falou Miguel, relembrando dos outros incidentes anteriores.

— Dessa vez é algo bem pior.- Rose não parecia tão surpresa, já esperava coisas assim de seu pai, mas e se não tivesse sido ele? Diogo adentrava no meio daquela muvuca do lado de fora, tentando enxergar algo ao fundo, mas apenas minutos depois conseguiu ver todo aquele sangue espalhado no chão. Havia uma mulher ensaguentada em meio aos corpos, se arrastando para longe da chacina, estava coberta pela líquido vermelho e pelas tripas do cabelo aos pés. Mais ao fundo estava três homens mortos com suas barrigas abertas, seus órgãos e membros expostos no chão e pendurados por facas na parede, facas que foram colocadas em volta de uma frase ameaçadora escrita com sangue. Então ele a reconheceu, era sua irmã, Marina. Ao correr para ajudá-la, um dos policiais tentou pará-lo, mas foi mal sucedido. Diogo ajoelhou-se ao lado da irmã e a abraçou enquanto a cobria com um casaco que havia pegado no carro há pouco tempo:

— E-eles...Estavam tentando sequestrar uma criança...- Começou a dizer, choramingando, em estado de choque. -...Homens de máscaras apareceram e...Os mataram...Tão friamente...- Lídia chegava nesse momento, espantada ao ver aquela conhecida naquele estado.-...Acharam que eu fazia parte deles...Acharam que eu era uma assassina!- Todos em volta ouviam atentamente aquele relato, imaginando o que havia acontecido. Rapidamente uma equipe jornalística se posicionou no local, filmando todos aqueles corpos estirados, e dando foco naquela mulher que estava em prantos.- Me pouparam...Era para eu estar morta!- O povo se comovia com aquela história que acabara de ocorrer, pena que não sabiam o quão mais interessante era os fatos ocultos.

— Você está bem agora.- Tentava acalmar o irmão. Carla olhava de longe, tão horrorizada quanto Lídia, ao seu lado.

— Bando de aproveitadores!- Gritou Marina para as câmeras.- Se aproveitando do sofrimento dos outros...- Começou a chorar outra vez.- Pois saibam que ninguém mais está seguro agora!

— Meu Deus.- Lídia não havia olhado para a parede, nem tinha percebido aquela frase escrita à sangue fresco, até então, quando teve a noção que tudo estava para recomeçar.

— O Cold Blood voltou!- O sangue de uma mão ainda pingava sobre um crânio arrancado, e ao seu lado estava aquela maldita derivação da frase que todos conheciam muito bem, e agora a temiam novamente; " Nós vemos tudo, inclusive a sua alma, e ela é podre ". Alguns se ajoelharam para tirar suas máscaras de Guy Fawkes e as deixando em volta ao círculo, outros piraram e saíram correndo na direção oposta, tirando suas fantasias pelo caminho. Estavam adorando aqueles assassinos ou apenas tentando se manterem vivos demonstrando respeito?

Seus passos marcavam o ladrilho branco, formando uma trilha de pegadas de sangue, enquanto outros pingos caiam de sua roupa encharcada, enfeitando mais ainda aquela rota sangrenta para o banho. Ele levantou a cabeça e olhou diretamente para a banheira que estava prestes a manchar com seus dedos ao ligar a torneira para enchê-la. Observou suas mãos por trás da máscara que estava usando, admirando aquela lambança que havia deixado por todo o corpo. Seu braço já não doía tanto, o esparadrapo cobria aquele machucado que com certeza daria uma cicatriz bonita, mas o que importava mais uma, se em sua mente as colecionava como memórias de infância? Quando já estava quase na borda, ele entrou, tirando sua casaco, mas ainda usando uma calça jeans. Aquela sensação o fazia sentir-se renovado, e sua exaustão se transformava em conforto naquela água gelada. A transparência da água começava a envermelhar e a transbordar, fazendo com que aquele sangue misturado derrama-se no piso que anteriormente era completamente esbranquiçado. Ele levou sua mão esquerda até a máscara, a retirando e colocando o braço para fora da banheira junto dela, ainda a segurando. Logo se viu em uma cena que gostaria de refazer um dia, em uma banheira na qual o líquido se encontrava de uma cor preocupante, segurando a marca de um dos grupos de assassinos mais famosos, uma trilha de pegadas que levava em sua direção, e relembrando do momento em que voltou a vida, o momento em que enfim abriu os olhos, e viu ele, a mesma pessoa que o havia salvo, e agora estava escondido para não ter que machucá-lo. Hernando então se desfez, dando lugar a imagem de Sara, aquela pequena garota que com imprudência acabou virando seu próprio inferno. Dylan sorriu, percebendo que seu feito acabara de evoluir para uma nova etapa. Seu jogo enfim havia começado.

Continua...