Segredo Virtual

37 2º T: Capítulo 12 O Clone do Seu Lar


Notas iniciais
No capítulo de virada da , os jogadores partem em uma fuga pela cidade.

"Às vezes sonho que estou morrendo afogada. Agradeço por ser água em vez de fogo."

— Mary, Mãe Loba.

Dois Minutos Antes.

Nada mais importa nesse momento. Eu nunca vou me render sem lutar. Ele não terá nenhuma parte de mim. As horas em que passei fora não foram para me proteger, mas para tentar salvar todos. Descobrimos todas as informações que podíamos, eu e Alan. Alan não tinha mais como voltar, nem como impedir a tragédia sem virar um suspeito. O que Dylan queria era grandioso demais. Eu descobri as peças, mas não o tabuleiro. Então, vamos logo, Rebeca, acelere esses passos. Ao entrar por um túnel secreto, talvez que nem Dylan conhece-se, me vi procurando câmeras por todas as paredes e lacunas, não havia nada. A escuridão não bate mais de frente com meus olhos, me acostumei a ela. Há cada pisada no chão, eu aumento mais e mais a minha velocidade. Busco conseguir ouvir uma voz no fim do túnel. Minha capa vermelha se assimilava às quais eram usadas por Girls Blood. Nem faço mais questão de usá-la, porém, eu sabia que para uma luta, o grande vilão tinha preferência por elegância, e eu por facilidade em guardar armas. Correr de salto virou minha especialidade, ainda mais em lugares macabros. O patamar de adrenalina em que me submeti era avassalador, ficaria ainda mais depois de contar a todos o nível em que esse jogo chegou, como se ainda não fosse alto o bastante. “Um minuto”, a primeira frase que ouvi, estava longe, mas a minha audição é boa. Aquela voz, não sei dizer de quem é, mas é bastante familiar. Consegui ouvir alguns burburinhas. “Fala!”, um grito, e uma batida que talvez fosse em um vidro. Claramente é a Marina. Enfim, luz. Me aproximo da entrada, a claridade me incomoda um pouco. Aos poucos, consegui ver pessoas muito bem conhecidas abraçadas, lamentando, atrás de um vidro que separa a minha parte de onde elas estão. Aquilo embaixo delas é um cronômetro? Se for, não durará muito tempo. Também tem uma cadeira, parecendo a de uma mesa de escritório, porém a posição em que a pessoa sentada está, faz parecer um trono. É a Sara. Eu posso reconhecer aquele cabelo ébano em qualquer lugar. Caminho até ela, saindo como um vulto da escuridão. O bater dos meus saltos no chão, me incomoda, entretanto, tenho pouco tempo para me preocupar com isso. Sara se levanta, é um belo vestido.

— Rebeca?!- Se dirige a mim, com os olhos esbugalhados. Cumprimento-a com um soco impulsivo, mas bem merecido. Ela caiu de uma vez, desnorteada no chão.

As pessoas estão afobadas, o cronômetro marca dez segundos, o tempo de todos é bem curto, ainda mais se tudo começar ao final daquele relógio. É melhor começar a falar.

— Prestem atenção!- Elevo meu tom de voz. Ao encarar todos , sinto minha mente fervilhar.- Vocês precisam prestar muita atenção, ou vão morrer!- Os jogadores se entreolham, mas não piscam quando olham para mim. É o final de uma era, tudo vai mudar. Não tem como impedir isso. Três segundos. É a hora de revelar a grande reviravolta, Rebeca. Dois Segundos. Um segundo.- O Dylan vai explodir a cidade!

Ela correu para casa o mais rápido que pôde, sem se virar vez alguma para a floresta de tantos receios. A água salgada em seus olhos escorria sem fim, como uma fonte que vinha de dentro da alma. Ela nunca entendeu da onde vinha aquela loucura. Só o que sabia era que tinha que sufocar esse instinto de matar qualquer coisa que tivesse vida. Sufocava a si mesma quando preciso. Ao se aproximar da entrada dos fundos, se tacou na porta com todo o corpo, caindo no chão frio da cozinha. Seus cabelos cobriram sua visão já desfocada, enquanto seu único instinto foi se acalmar ali mesmo, no piso branco onde agora estava deitada, sem ninguém para vê-la chorar. As lágrimas pararam de cair, enquanto suas pálpebras cansadas se fechavam lentamente, indo direto para o escuro. Sua mente começou a fervilhar, parando em lembranças que a tocavam, eram aqueles contos de fadas que viveu com Helena, aqueles dez anos, os últimos dez anos da vida dela. Bianca nunca foi sã, nunca mesmo havia se entendido. Não entender a si mesma é algo que a destruía, mas quando sentia um desejo compulsivo de fazer maldade, o abafava com amor. O carinho que Helena tinha dado-lhe era o suficiente para não ir atrás de seu próprio jogo, mas as coisas começaram desandar quando seu irmão voltou dos mortos. Dylan fez despertar nela o instinto que oprimira por uma década. Aquele jogo que aconteceu há tantos anos não tinha a atingido diretamente, porém tudo o que viu e ouviu falar dele, provocou-a de algum modo. Sabendo que aquele homem mal estava de volta, sabia também que ele iria recomeçar toda a crueldade que aconteceu quando ainda era uma jovem adulta. Como Dylan ficou sabendo de tudo? Ela não sabia, não estava naquela sala junto com os outros, em vez disso, corria para casa, lutando contra si mesma. A adulta pálida se levantou, indo para as escadas, correndo pelos degraus de mármore. Por um momento escorregou, quase caindo, assim como ocorreu no halloween de dois meses atrás, mas dessa vez, segurou o corrimão a tempo. Quando olhou para baixo percebeu que seus pés descalços estavam imundos, deixando rastros de pegada por todo lugar que pisara. Andou rapidamente até o quarto, parando na porta para respirar. Era a quarta pessoa que matava, mas não era a morte que mais a afetava. Dylan tinha matado Helena, queria acreditar nisso, mas algo a fazia sentir que Dylan era parte de si mesma. E se não foi um acidente? Talvez Bianca tenha cortado os freios do carro em um dos seus surtos. Bem, se isso for verdade, absolutamente ninguém tinha como confirmar, nem mesmo Dylan. Aos poucos foi se aproximando da cama onde dormiam juntas, isso nunca ia voltar. Sentia tristeza avassaladora, e tudo começou a desabar quando viu um quadro no canto do quarto. Era uma pintura que tinha visto quando a esposa a começou, agora estava terminada; Era uma colina alta na qual pairava uma mulher de branco, sem rosto, atrás dela uma sombra negra perto de uma árvore sem folhas. O que era aquilo? Sentia como se fosse um presságio. O que era a merda daquela última coisa que ela fez antes de morrer? Sua face se contorceu, enchendo de raiva, e como algo cheio que não consegue transbordar, estourou-se com um grito. Bianca pegou o quadro e começou a quebrá-lo na parede, o batendo com força diversas vezes, enquanto suas cordas vocais faziam grunhidos. Destruído, o quadro foi largado, mas não era o suficiente. Ela abriu seu guarda-roupa, cômoda e armário, tacando tudo o que tinha em cima da cama. Coisas dela, coisas de Helena. Roupas, fotos, desenhos, livros, cadernos, até o mapa que Mary a dera em Paris. Bianca achou uma caixa de fósforos, era isso do que pensava precisar, queimar tudo! Tirou um fósforo e o riscou contra a caixa, tacando o palito no meio de várias peças de roupa, após, fez isso com outro, e outro, mais outro, novamente outro. Logo, a sua cama tinha fogo se espalhando para todos os lados. Seus olhos miravam nas chamas, fascinada com o que destruíra sem hesitar. Moveu-se para a penteadeira, não tão perto da cama, mas não demoraria muito para o pequeno incêndio chegar lá. Sentada, começou a pentear seus cabelos bagunçados em frente ao espelho, enquanto apreciava todo aquele passado queimar. Ouviu passos, mas não ligou, era exatamente quem pensara que fosse. Dylan olhou para o fogo e depois para a irmã, os dois tinham passado na mesma coisa: queimar tudo.

— Bi...- Se aproximou, colocando a mão em seu ombro.-...Precisamos ir.

Ela não fazia ideia do que estava acontecendo, também não ligava mais, ficou parada, continuando a ajeitar o cabelo.

— Me lembro de quando não sentia minhas pernas.- Disse, colocando o pente na mesa após alguns segundos sentido ele a encarar pelo reflexo do espelho.- Jason fez um péssimo trabalho.- Bianca se levantou, passando pelo irmão do meio sem nem o olhar.- Preferia não estar sentido minha mente.

O vidro que dividia a sala em duas partes tinha sumido. Um burburinho preenchia todo o lugar. Rebeca tinha dado a deixa para mais preocupação. Dois minutos se passaram da tal revelação, e ninguém sabia pra onde correr.

— Ele não vai explodir tudo com a gente aqui!- Afirmou Rose. Nem ela mesma tinha certeza disso.

— Por que não? É só achar pessoas novas pra atormentar.- Marina retrucou, enrolando seu cabelo como se fosse uma manivela de pensamentos.

— Como ele vai explodir uma cidade? Há milhares de pessoas!- Carla, a qual tinha matado a própria filha para recomeçar a vida, estava agora pensando nas crianças e jovens que seriam sufocados em escombros ou até mesmo queimados.

— Não faço a menor ideia de como Dylan vai fazer isso, mas ele vai fazer, e não vai deixar a gente aqui!- Começou Rebeca, novamente, recebendo a atenção de todos mais uma vez.- Mas pra onde ele vai nos levar, esse é o verdadeiro perigo. Eu ainda não vi o exército dele, mas com certeza é bem maior que a gente junto. Temos que nos espalhar, estamos repletos de passagens secretas para os lugares mais variados dessa cidade, não dá pra desperdiçar essa chance. Vamos fugir!

— Fugir pra onde? É exatamente isso que ele quer!- Lícia intrometeu-se, um pouco chorosa.- Não aprendemos nada em todos esses anos?

— Não vamos nos separar!- Gritou Daniel.- Todas as vezes em que nos separamos aconteceu alguma merda.

— E mesmo assim, estamos vivos para contar. Se ficarmos juntos agora, seremos alvo fácil.- Rebeca seguiu em direção ao túnel de qual usou para chegar até ali, parando antes de entrar de volta nele.- Em teoria, ele não pode pegar todos nós de uma vez. Mesmo se o plano for nos perseguir, temos bastantes chances de fugir!

— Não vou me separar dos meus filhos.- Lídia estava empenhada a não deixar nada acontecer com eles de novo.

— Se quiser ser capturada com a sua família, vá em frente, mas não deixarei que todo mundo se entregue sem lutar.- Ela olhou para as outras pessoas no local: Rafael, Lícia, Carla e Marina.- Vocês são quatro, sejam espertos e nos dividiremos em seis. É a única chance de não sermos levados direto para o inferno.- Rebeca ia contar algo mais, porém desistiu.

— Virou a líder só porque apertou um botão.- Provocou Marina, referindo-se ao botão do lado de Sara, que foi usado para subir o vidro divisor.

Todos caminharam em direção a um túnel, prontos para o que der e vier. Lídia, Daniel e seus filhos se mantiveram unidos, não cometeriam os mesmos erros de novo.

— E ela?- Apontou Miguel para Sara com a cabeça.

— Deixe-a aí. Não faz diferença alguma pra gente.- Rebeca começou a andar.

— Então vai ser assim? Fugimos de novo?- Marina cruzou os braços.- Qual é, gente, ninguém aqui tá pensando que a cidade vai explodir?

— É por isso mesmo que vamos fugir.- Foi a última frase de Rebeca, antes de entrar no breu absoluto.

Os outros quatro começaram a adentrar em seus túneis, receosos, mas sem questionar sobre seus destinos. A única saída era fugir, afinal, ninguém queria ficar preso em uma cidade prestes a ser bombardeada. Lídia engoliu a seco, olhando para Daniel antes de iniciar a trilha que enfrentaria em família.

— Mãe?

— Sim, Rose?- Ela olhou nos olhos da filha, mas não eram os da menina de dezessete anos que demonstravam covardia .

— Não tenha medo, você sempre sobrevive, e nós também vamos sobreviver.- Daniel esboçou um sorriso, a filha mais velha conseguiu encorajar os membro de sua família. Rose segurou a mão de sua mãe, dando o primeiro passo para seja lá aonde iriam parar juntos.

12 Anos Antes...

Caminho pela praia certo de que encontrarei a garota nova. Daniel me contou que ela era bonita, mas Ellen não quer saber de atributos físicos nem deixar ela em paz, não depois de descobrir o motivo para a vinda dela. Miro meu olhar ao penhasco, faz um bom tempo que não subo lá, é uma bela vista para o mar. Eu até pularia, caso não fossem as pedras. Acho que morro se alguém me empurrar dali. Veja só, é ela. Me aproximo um pouco acelerado.

— Olá.- — A cumprimento, sentando do lado dela. Claramente eu não sei interagir com mulheres.

— Oi. — Ela não parece nada interessada, não tira os olhos da água.

Daniel não mentiu quando disse que ela é bonita, sua pele é de uma cor tão branca que reluz bastante ao sol, e o cabelo traz o contraste perfeito.

— Meu nome é Jason. — Dou um breve sorriso, mesmo assim não consigo fisgar a atenção dela. Vamos, garota nova, me dá um pouco de confiança. — E o seu?

— Sara. — Finalmente consigo um olhar sincero. — Me nome é Sara.

Ela tira areia de sua roupa, levantando, como se fosse partir logo.

— Estou te incomodando? — Questiono. Creio não ter dito nada além do meu nome, ofendi-a ou ela não quer papo? Pensei que em 2013 as mulheres estavam mais abertas.

— É que eu tenho que encontrar uma amiga. — Sara dá a desculpa, que deve ser real. Ela fez uma amizade com a prima do Dylan. Que grande confusão.

A vejo partir, deixando seu rastro pela areia, enquanto um vento começa a vir misteriosamente. Sinto alguém me cutucando no ombro, me viro para ver quem é.

— Você é péssimo. — Disse Ellen. Essa cretina me coloca para fazer amizade com a “vítima” e ainda reclama quando falho. Uma grande e chata cretina. — Só falou seu nome e ela se mandou.

— Na próxima você canta ela. — Já descobrimos pela rede social de Sara que ela não é lésbica, mas não descobrimos ainda sobre sua bissexualidade.

— Na próxima você melhora. — A Líder Girl Blood começa a caminhar, deixando-me sozinho.

— Cretina! — Grito. Ela não rebate, mesmo aquela risada dada me parecendo ultrajante. — Tomara que morra com um tiro! — É o nosso jeito carinhoso de dizer que nos amamos.

Os passos na escuridão ecoavam pelo túnel sombrio. Rafael tinha acabado de ser arrastado para esse jogo, já que Rebeca queria montar um exército debaixo do nariz de Dylan. O que a ex-namorada do genocida não esperava, era que debaixo do nariz tinha uma boca com dentes muito afiados, e de brinde trouxe esse homem para embarcar nesse mar de sangue. Ele queria vingança, a nomeava justiça, faria qualquer coisa para ver Dylan pagar por tudo o que fez. Ao descobrir que mais pessoas queriam isto, que era algo maior do que imaginava, resolveu se afundar de vez nessa areia movediça, sem dar muitas explicações. Rafael tocava as paredes ao lado, procurando uma passagem escondida. Seus olhos não tinham se acostumado com o escuro, mas conseguiu ver algo mais a frente. A luz vinha difundida no teto, aluminando uma escada com degraus pregados na parede, daqueles em que se precisa segurar o próximo para subir. Não era alto, talvez desse para abrir o alçapão pulando, mesmo a porta parecendo emperrada demais para se arrastar. A questão era: “Aonde isso iria dar?”. Colocou o primeiro pé e agarrou com a mão uma das barras de ferro da escada de escalar, constatando que era firme o suficiente. Pé à pé, mão à mão, conseguiu chegar na altura para puxar a porta de metal, qual tinha brechas de luz entrando por seus cantos. Largou uma das mãos, e com força puxou-a para o lado em que estava, fazendo uma cara engraçada. Conseguiu abrir apenas um pouco, sendo o suficiente para cair muitos grãos de areia no chão do túnel. Foi abrindo mais, trazendo claridade e deixando a areia escapar e formar um montinho lá embaixo. Ao terminar de abrir a passagem, os grãos amarelados caíram em seu rosto, deixando-o cego por alguns segundos. Depois de esfregar o punho nos olhos, pulou para a borda fora do escuro, escorregando pela areia que ia caindo, tentando trazê-lo de volta para dentro. Teve que serrar bem os olhos, o sol atrapalhava mais a sua visão do que o breu. Felizmente conseguiu sair de lá, indo engatinhando até a porta para fechá-la, então se levantando para ajeitar o seu corpo sujo. Seu cabelo e sua roupa não iriam se recuperar daquilo facilmente, porém, estava fazendo hora extra na praia! Ao tomar conta da onde foi parar, apreciou um pouco do belo mar, aquele ar de praia trazia boas sensações, que não duraram muito tempo. O belo penhasco caído era bem afastado dali, o que era até engraçado, já que aquela passagem secreta não chegava a ser tão útil quanto uma perto de lá. Longe dali, pôde ver uma família se divertindo, as crianças na água e os pais na areia rindo de algo que comentaram. Pensou em avisá-los, afinal, eram pessoas, mas não tinha o que fazer, aquilo o faria perder tempo, e tinha que pensar rápido para que Dylan não ganhasse. Rafael pensou em nadar para longe, Dylan não teria como achá-lo tão facilmente, porém com um barco não seria difícil de capturá-lo. É, teria que correr para fora da cidade do jeito tradicional, roubando a moto de alguém. Andou por alguns segundos até encontrar algo que brilhava no chão da praia. Uma bela ampulheta, um pouco enterrada, com toda a sua areia já aglomerada de um lado. Rafael abaixou-se para pegá-la, analisando mais de perto aquela façanha achada. Não era sempre que se achava uma ampulheta na praia. Um barulho de metal atrás dele fez com que se virasse, deixando o objeto de lado e dando de cara com um Guy Blood fechando o alçapão. Rafael se levantou depressa, pegando sua arma e a mirando no provável soldado de Dylan. O mascarado colocou as mãos na frente do corpo, mostrando rendição. Seu dedo endureceu no revólver, sem coragem de atirar. Como a ampulheta que achara, a areia da sua mente chegou ao fim, saindo de toda a área de pensamentos para a de ação. O Guy Blood jogou-se ao chão, fazendo que com o susto Rafael atirasse na areia, fazendo-as voarem por toda a sua vista. Rolando pelos grãos amarelados, o capanga chega às pernas da vítima, o derrubando com sigo. Sentindo a ameaça vindo para cima, Rafael o acerta com um soco, mas não é o suficiente para pará-lo de se aproximar. Ao chegar na altura de seu peitoral, o assassino agarra a arma, fazendo força para retirá-la das mãos adversárias. O revólver é erguido para a altura dos olhos de Rafael. A disputa pela arma gera grunhidos de dor intensificados quando o Guy Blood acerta seu cotovelo diversas vezes no tórax de Rafael, que se remexe para tentar tirá-lo de cima. Um outro Guy Blood chega correndo, jogando-se ao lado da vítima e a injetando uma seringa no pescoço. Rafael consegue soltar a sua arma, dando um último tiro na barriga do novo inimigo, antes de cair de vez inconsciente no chão.

— Tá tudo bem?- Pergunta ofegante o Guy Blood atingido que usava um colete por debaixo da roupa.

— Da próxima vez eu fico com a arma.- Responde o companheiro de equipe, deitando no chão.

— Vamos. Temos que levar as crianças ainda.- Ele estende a mão, esperando que o outro mascarado a agarre.- Bora, bunda mole. Levanta e pega a ampulheta.

— Túnel de merda. — Reclamou Marina, abrindo o piso falso assim como Rafael fez na praia.

Segurava seus saltos na mão, não tinha arma alguma, apenas um velho smartphone sem sinal. Além de assassino milionário, Dylan ainda era assistente da Tim. Ao conseguir sair do empoeirado túnel, olhou ao redor, percebendo exatamente onde estava, exatamente aonde escolheu estar. Minutos antes, Marina chegou em uma ala subterrânea com placas, uma sinalizava a passagem para o hospital e a outra para a antiga pousada, lógico que escolheu o lugar em que tinha mais conhecimento para fugir, e esse seria o erro, assim como um outro alguém também o fez. Sentia falta da adrenalina de uma boa luta, a última em que lutou foi a com Dylan, aquilo tinha sido ensaiado por ela diversas vezes, e fora extremamente divertido. Andar por cima do corrimão? Qual, é, foi genial. Se a Lídia não tivesse sido frouxa e atirado, não teriam que passar por isso. Tinha chegado no jogo dez anos atrasada e podia sentir como se já o jogasse há muito tempo. Começou a andar pelo local: Estantes com arquivos, armários, papeladas, caixas, uma escrivaninha. Aquela era a zona de bagunça do hospital, se tudo caísse, com certeza demoraria séculos para arrumar. Passou rápida por toda a bagunça, almejando chegar o mais depressa à porta. Seria um castigo morrer no local de trabalho. Chegando na porta para a salvação, girou a maçaneta com grosseria, ansiosa para correr para fora da cidade, o que foi impedida pela fechadura trancada.

— Merda! — Gritou, socando a porta.

Com toda a força do corpo, tentou diversas vezes abri-la, se jogando contra o metal pesado. Pensou rápido em quebrar com alguma coisa ali, sem pensar nas consequências que teria depois de sair, afinal, aquilo tudo seria bombardeado com os pacientes ainda dentro. Seria uma lástima sair dali, mas ir para a ala psiquiátrica.

— Grampo. — Correu Marina na direção da escrivaninha, ignorando procurar na fileira de estantes de arquivos, uma atrás da outra. Jogou os papéis e pastas no chão, só queria a droga de um clipe ou grampo.

Ouvia-se um barulho do teto, estava no primeiro andar, entanto, não sabia debaixo da onde aquele lugar ficava. Ao olhar para cima, viu pernas saindo de um duto de ventilação no fim da sala. Aquilo não aguentava uma pessoa nem ferrando. De lá, caiu uma Girl Blood bastante magra, qual não diria poder sequer entrar naquilo. Desesperada, Marina arrombou uma gaveta da escrivaninha, usando sua força, e jogando tudo o que tinha lá no chão, enquanto a ameaça se aproximava. Queria uma luta, e ali estava, só que dessa vez, não tinha tempo para ensaiar. Achou enfim um clipe, correndo para a porta, tentando fazer jus à sua habilidade de alguns anos. Será que ninguém da câmera de segurança a estava vendo presa ali?

— Mais que caralho! — Enfiou mais uma vez o clipe lá, porém aquela fechadura não destrancava de jeito algum. Enfrentar uma Girl Blood? Estava sendo esperta em tentar fugir.

A garota de sangue possuía uma adaga na mão, seu capuz abaixado deixava os cabelos encaracolados coloridos de vermelho à mostra. Marina correu para longe da porta, indo pegar seu salto que só agora percebera ter deixado para trás. A Girl Blood seguiu-a, passando no meio de duas estantes, assim estando no mesmo lado da sala que a vítima. Ao voltar para o final da sala escura, tentou abrir o alçapão do túnel, qual agora, não queria se abrir para ela. Seus passos angustiados entraram no meio de uma das estantes, tentando despistar a mulher mascarada no escuro. Antes de sair, Marina pegou uma caixa lacrada e tacou nas costas da Girl Blood, seguido de seus saltos. Ela pareceu nem sentir o peso dos objetos tacados, mas descobrindo a localização que queria. Pelo outro lado, a fugitiva ia em direção a uma estante um pouco afastada da parede, com apenas uma brecha ao lado para se refugiar atrás, esperando a assassina aparecer de frente para o grande metal cheio de papeladas. Um silêncio se fez, com apenas um zumbido da ventilação ecoando. Os olhos castanho claro espiavam por trás de pastas e mais pastas, esperando o grande momento de tacar todo aquele peso em cima dela. Fechou os olhos por um segundo, pensando no que fizera para chegar naquela situação. Ao abrir, virou-se para a brecha na qual entrou, e aonde a Girl Blood a encarava, ao lado do metal pesado, pronta para feri-la. Com um grito, pegou uma das pastas e colocou na frente de seu corpo, impedindo que fosse apunhalada. Marina empurrou a estante e correu por cima dela, decidindo então tentar algo inusitado: entrar no duto de ventilação. Olhou para o duto e calculou o que teria que fazer para chegar lá. Seu corpo fez o trabalho desesperadamente, pulando na parede e criando impulso para chegar até o topo de uma das estantes. Chegando lá, Marina pulou mais uma vez, agora em direção ao duto, conseguindo se agarrar à ele, deixando estantes se espatifando no chão para trás. Seu corpo deslizava para fora, não conseguia entrar nem seus seios lá, estava escorregadio, porém insistia para sobreviver. A Girl Blood encarou-a novamente, com um ar de graça ao ver aquelas perninhas balançando. Chegando para trás, a soldada de Dylan criou impulso com a mão e tacou a adaga na perna de Marina. Ferindo sua coxa em cheio, Marina não aguentou mais se segurar, assim cedendo, caindo junto a ela em cima de estantes no chão. Aquela queda machucou a coluna com toda certeza. A Girl Blood passou pelo corpo e toda a destruição que tinha feito, indo até a porta para abri-la com a chave em seu bolso.

— Até que enfim. — Disse um Guy Blood, entrando pela agora aberta porta. — O barulho que fizeram deu pra ouvir da cidade vizinha.

12 Anos Antes...

Retraio minhas costas para trás, encosto no apoio da cadeira após vários minutos curvado. Sempre sento neste lugar da cafeteria, é afastado da entrada, perto da parede decorada com um papel de parede de tijolos. Encaro meu café agora já no final, ansiando por querer pedir mais um. Uma mensagem chega, da Ellen, qual dizia: "Bote os olhos na garota nova, Daniel. Ela é interessante, quer saber mais sobre Dylan". Me incomodava seu jeito perfeito de usar pontuações, enviar textos de uma vez e zero vontade de usar abreviações, agora já me acostumei. Maldito vício em cafeína, até me esqueci de olhar a...Sara? É, é esse o nome dela. Jason perguntou na pousada o nome da hospede do quarto quase ao lado, porém Thiago fora mais prático perguntando à Sérgio. A tal garota nova está alguns metros de mim, sentada em um banquinho em frente ao balcão. Ela pediu um cappuccino, qual já está terminando. Ouço o som da porta sendo aberta, mesmo assim continuo meu foco. De repente uma mulher de cabelo castanho claro para atrás dela, estendendo a mão em cumprimento.

— Oi, Sara!- A voz me parece familiar. É doce e saltitante. A mulher senta ao lado de Sara.- Onde passou a noite?

Analiso melhor o rosto da nova vigiada, sinto como se a lembrança dela estivesse na ponta do cérebro. Minha ficha cai, é ela.

— Em uma pousada.

Me levanto rápido, caminho até as costas da velha amiga.

— Ah, sim...- Ela nota minha presença, virando-se para me ver.- Daniel!

Sinto seu abraço me apertar. Enquanto retribuo, vejo os lábios de Sara sendo abertos.

— Shippei.- Disse em murmúrios. Felizmente conheci o significado dessa palavra semana passada. O abraço acaba, vejo o sorriso branco de Lídia aberto, que saudades.

— Há quanto tempo!- Falo.- Chegou na cidade quando?- Não acredito que o grupo não me contou, nem mesmo Jason. Bem, se é que ele sabe.

— Ontem mesmo. Tava com saudades.- Não consigo esconder o sorriso ao ouvir isso. Faz realmente muito tempo desde a última vez que nos vimos.- Sara, esse é um amigo de infância meu.- Aceno a cabeça para ela, não é como se eu já não estivesse ali para vigiá-la.- Daniel, essa é a Sara, também chegou na cidade comigo ontem, foi uma companheira minha de voo.- Isso certamente Ellen não sabia.

— Entendi.- Meu sorriso bobo continua me entregando. É, Sanru não fica sossegado por muito tempo. Uma garota veio conhecer o falecido, qual Lídia é prima e tem uma filha. Como se entediar aqui?- Mas eu tenho que ir. Foi bom te ver.- Eu sempre gostei do sorriso dela, me deixa extasiado. – Tchau, Sara.

Sai da cafeteria, ouço algumas risadas lá dentro e vou para outra esquina. Ando com pressa, preciso encontrar com Jason em algumas horas. Retiro meu celular do bolso, esperadamente, estava tocando.

— Não se preocupe.- Inicio ao atender. — Estou de olho na garota nova.

— Pode me contar o que descobriu. — Diz Ellen no telefone.

— Por que não me contou que a Lídia voltou? — Ouço o som de sua respiração, pronta para iniciar mais uma de suas mentiras.

Daniel abriu a porta do alçapão que dava para sua cafeteria, entrando com cuidado enquanto orientava seus filhos a fazerem silêncio. Não tinha ninguém. A entrada secreta ficava no meio do estabelecimento, como não perceberam isso antes? A decoração estava diferente de como a tinha deixado, claramente Dylan mudado.

— Me diz que é o tema do mês? — Rose se abisma com as janelas tampadas por fora com algum tipo de fita preta.

A filha mais velha correu para abrir a porta, que como suspeitava havia sido trancada. Uma frase estava escrita com um líquido vermelho nas paredes: “Pare de procurar, antes que ache”. Miguel pegou uma pelúcia de porco morto do chão e olhou novamente para as máscaras do Cold Blood dentro da vitrine do balcão, pareciam comestíveis, feito bolos.

— Vamos! — Daniel pegou uma poltrona, a tacando com força na janela, porém nem um arranhão. O pai continuou batendo o móvel contra o vidro lacrado, diversas vezes, mas não funcionava. — Ele blindou as janelas!

Lídia olhou dentro das gavetas, procurando uma chave de escape, que talvez, apenas talvez, Dylan tivesse deixado para eles tentarem encontrar.

— A gente não devia ter seguido uma placa escrita “Cafeteria”. — Gritou Rose. — É tão óbvio!-Ela volta para a porta do alçapão, que agora não queria se abrir. — Tá emperrada!

Daniel desistiu das janelas, tentando agora sair pela porta. Miguel era o mais apreensivo, lugares trancados davam agonia à ele. Daniel socou a porta, indo até o alçapão, mas desistindo após dois minutos de força gasta sem resultados.

— Vamos tentar com alguma coisa... — Sugestionou Lídia.

— Se tá emperrada não vai abrir mais. — Disse pegando sua caneca para colocar o café pronto da cafeteira.

— Pode estar envenenado! — Rose pegou a caneca com a frase “Melhor pai do mundo” e a colocou na pia. — Ok, a gente tem que sair daqui ou vamos morrer.

Daniel arfa, sentando-se numa cadeira, enquanto esperava uma solução cair do céu. Na mesa, adesivos de coruja espalhavam-se.

— A gente pode gritar.— Falou Miguel. A ideia não seria tão boa na prática, mas não custava tentar.

— Blindaram os vidros, provavelmente é aprova de som. —Rose também arfou, nem cogitando essa hipótese. — Não tem nenhum lugar aqui que dê pra escapar?

O pai negou com a cabeça, aceitando que não dava mais para lutar. Rose apoiou sua cabeça nos braços, tão frustrada quanto o pai. Toda a família ficou sentada reunida em uma mesa, esperando que fossem resgatados ou até mortos. É claro que não ficariam de cabeça baixa por muito tempo, alguém haveria de ter uma ideia, porém Lídia, fora a única que nem chegou a sentar para pensar.

— A Rebeca está certa. — Falou com ódio, pegando a atenção de todos para si. — Vamos ter que continuar fugindo, como sempre. — A mãe foi para os fundos com uma raiva que extravasava em seu rosto e passos, voltando com um martelo e subindo do balcão para o vertical freezer alto. — Não vou parar agora que levei um tiro.— Disse dando uma martelada no teto, afastando o rosto para não cair pedaços em seus olhos. A cicatriz em seu peito era prova daquele dia em que pensou que iria morrer.— Pulei de sei lá quantos metros de altura. — Outra martelada, caindo mais fragmentos do teto. — Vi pessoas morrerem na minha frente. — Mais uma, deixando os destroços espatifaram no chão.- O meu pai! — O barulho estremeceu Rose, lacrimejando ao lembrar daquela horrível cena.- Fui atropelada.- —Bam! Miguel se sentia um tolo por todas as vezes que deu problemas idiotas para a mãe. — Fui presa pra Sara não descobrir quem matou o pai dela. — Daniel agora se lembrou da tamanha garra que sua mulher tinha. Ela era uma sobrevivente nata, e nunca precisou matar ninguém. — Eu apontei uma arma pro Dylan...e eu não atirei! — Aquele último golpe liberou luz, sendo o mais forte de todos, a desequilibrando.

Lídia caiu no chão, o martelo voou pelo piso. Daniel foi até a esposa que chorava sem a menor vergonha. Rose foi atrás do martelo, enquanto Miguel acariciava os cabelos da mãe adotiva.

— Ninguém vai desistir! Eu proíbo vocês de desistirem! — Era o seu máximo sendo mostrado, o máximo que podia aguentar daquele jogo.

Rose entregou o martelo para o pai, Miguel correu para ir procurar uma escada dupla, com certeza a mãe não tinha visto. Poucos segundos depois da queda, a família inteira estava trabalhando junta para escapar da cafeteria. Lídia nunca desistiu de lutar, era a mais determinada e continuaria sendo até o fim. No topo da escada, Daniel dava fortes golpes, quem sabe alguém passava na rua e vinha ajudá-los a sair. Concentrados em fazer um buraco no teto, nenhum deles viu o alçapão se abrir novamente, com apenas um Guy Blood usando uma máscara de gás, botando a cabeça para fora e jogando algo cilíndrico que começou a fumaçar. Ao olhar para o lado, Rose viu a fumaça subir, se espalhando por todo o ambiente.

— Tampem o nariz!- Mandou Daniel, quebrando com mais agilidade o teto.

A cafeteria começou a escurecer com toda aquele gás preto, e aos poucos, todos foram desmaiando. O homem com a máscara de gás apenas esperou em meio a fumaça, pronto para ser rápido na finalização do serviço. Era a última vez em que estariam naquela cafeteria.

Rebeca entrou na antiga pousada pela ala secreta descoberta por Lídia na festa de Halloween. Era ali onde as coisas começaram pra valer. Sara se hospedou naquele lugar tempo o suficiente para saber o número de cada quarto. Agora, como uma casa de festas, não parecia mais o velho lugar de pôr corpos em armários, entregar flores com bilhetes de ameaça, matar bebês, e ter um caso com um amante. Os velhos tempos fazem saudade. Rebeca passou pela parede oculta, indo em direção a escadaria na qual aconteceu o épico combate de irmãos. A mulher de capuz vermelho, retirou dele uma arma, começando a desacelerar seus passos. Embaixo daquele tecido, estavam duas armas de fogo e algumas armas brancas, teria dado para os seus colegas de equipe, mas não tinha como confiar em nenhum deles. As armas estariam mais seguras com ela. Sua mão pousou no corrimão, subindo lentamente aqueles degraus da onde Dylan e Bianca despencaram. Ela sabia que alguém iria buscá-la, por isso, estava caçando antes de ser caçada. Chegando no topo, estava prestes a se virar para o corredor, mas antes que pudesse fazer isso, um Guy Blood a encarou, cara a máscara. Ele tenta empurrá-la, mas Rebeca dá um tiro em seu pé, o deixando cair sozinho, com um levíssimo empurrão nas costas. Dando meia-volta, a ex-namorada do genocida começa a descer os degraus. Tinha sido fácil demais. Uma Girl Blood um tanto ninja, se taca nas costas da vítima, derrubando ela e a si mesma, escada a baixo. A arma voou para longe. Rebeca caiu ao lado dela, que foi para cima com uma faca. A heroína consegue segurar seu pulso, e retira de seu capuz um facão, sendo desferido com força, até atravessar o braço da assassina. Os gritos de dor ecoaram por todo o salão, fazendo Rebeca ofegar ao ser largada pela soldada. A mulher do capuz se distancia, correndo para a escadaria de onde veio, mas antes de começar a descê-la, deparou-se com um Guy Blood segurando uma serra elétrica.

— Que isso? Deus Ex Machina? — Voltou a correr, para o lado dos feridos. Não tinha chance alguma de conseguir atirar sem estar muitos metros longe dele.

Passando pela Girl Blood com um facão no braço, acaba sendo segurada no tornozelo pela mão saudável dela. Rebeca retira outra arma de seu capuz, atirando na cabeça oculta pela máscara. Ao olhar para o próximo assassino que se aproximava, percebeu que não tinha chance alguma de atirar, ele estava prestes a arremessar a serra elétrica em sua direção. Rebeca se abaixa veloz, ouvindo o Guy Blood com o pé estourado gritando ao ser atingido pela arma do companheiro de equipe. Ainda abaixada, consegue estourar a cabeça do último adversário, com um simples disparo. Ela deita no chão ensanguentado, ainda com o tornozelo agarrado na mão do cadáver. Haveria de se recompor, agora sim podia correr em direção a liberdade. Ouvindo passos, olhou para o topo da escada, vendo um outro Guy Blood, mirando nela. Rebeca tinha se esquecido que não haviam apenas 3 membros no Cold Blood, mas sim 4. — Puta que... — Ao ser acertada, percebeu que não era uma bala, era um tranquilizante. Fim de jogo para ela.

Abrindo a tampa do bueiro para sair, no meio da rua, Carla olhou para fora, observando o que não era mais só escuridão. A rua tinha pessoas lá no final, mas não a viram a sair de lá. Limpou sua roupa escolhida por Dylan, olhando em volta como se alguma ameaça fosse surgir a qualquer momento. Apesar de acompanhar a história de sua prima desde o princípio, Carla nunca se imaginou nela, muito menos conhecia as centenas de pessoas envolvidas nesse jogo, agora milhares. A cidade seria bombardeada em pouco tempo. Para viver não importava seu sangue, sua etnia, sua riqueza, o que importava era estar naquele infame tabuleiro. Dylan tinha que ser morto antes que decidisse explodir o mundo. É lógico que uma simples nova jogadora, que matou a própria filha empurrando de uma passarela, não tinha habilidade alguma para isso. Enfim decidiu correr na direção da estrada para a cidade vizinha. Rápido e mais rápido, com seus cabelos voando e rosto apreensivo. Não sabia se daria tempo de sair de Sanru, porém tinha que dar! Sua vida dependia disso. Carla sentia-se vibrar, com a adrenalina possuindo todo seu corpo e...ao entrar na frente de uma esquina, foi atropelada por uma van, passando por todo o veículo e caindo bruscamente ao chão.

— Merda! Se ela sobreviveu à isso, tem corpo de aço. — Disse o Guy Blood ao lado do amigo que dirigia a van. — Vamos pegá-la?

— Deixa ela aí. — Auxiliou o outro Guy Blood. — Ninguém se importa com ela.

Seguiram em frente, deixando o corpo para trás, nem um pouco interessados se Carla tinha morrido atropelada ou se morreria com as bombas. O Guy Blood no banco do carona puxou seu celular, ligando para outros membros.

— A gente só tem mais 15 minutos. — Falou ao telefone.

O Guy Blood, na outra linha, estava em frente a uma casa fumaçando pelas janelas, até que seu parceiro de equipe saiu de lá arrombando a porta, trazendo no colo uma menina inconsciente, amiga de Miguel, Clara.

— Já pegamos as três crianças. Vou ligar para os outros. — Assim o fez. — Pegaram o Luke?

Uma Girl Blood acabara de colocar o funcionário da cafeteria na van. Ela se vira para ver o Guy Blood trazer uma criança esperneando em lágrimas. Ela então ligou para um outro membro do Cold Blood.

— Já estamos fora da cidade. — Falou o último Guy Blood, olhando para Leonardo, o namorado trans de Rose, amordaçado no banco ao lado. — Vou avisar Dylan que todos terminaram.

Era o fim de Sanru. Nunca mais veríamos assassinatos em massa ou tiros que não acertam seus alvos. Não veríamos mais quedas de penhascos, sejam de vingança, em casamento ou armadilha. Jamais iríamos ver sentimentos transbordando naquela cafeteria novamente. Aquela era de grupos de assassinos, ruas desertas e perigosas, becos com pessoas encapuzadas, fantasmas que se provam de carne e osso, segredos obscuros, pessoas mais traiçoeiras que escorpiões, e banhos de sangue sem iguais, tinha enfim acabado. Adeus, Sanru.

12 Anos Antes...

A cidade está igual a como eu lembrava. Eu estou sentada no banco de trás do carro, observando todas aquelas casas que me traziam memórias tanto doces quanto salgadas. Sanru sempre fora a minha cidade favorita, mesmo já tendo viajado para centenas de lugares ao redor do país e mundo a fora. Olho para o espelho retrovisor, meu cabelo escorria por cima da minha jaqueta, minhas roupas estão me apertando. Minha tia mira em mim, fazia um bom tempo que não nos falávamos.

— E então...Como vai seu pai?- Minha tia Sofia sempre foi muito boa na direção, incrivelmente nunca recebeu uma multa, mesmo tendo cara de barbeira.

— Ele vai bem.- Sem uma Lídia por perto, tanto eu quanto minha mãe, era claro que ele ficaria numa boa. O meu pai nunca foi alguém presente na minha vida, às vezes tinha um surto de querer se aproximar de mim, isso durava algumas semanas e depois voltava sua mente para o trabalho. Não me lembro de vez alguma em que ele foi na minha escola assistir minhas apresentações ou ir em reuniões de pais e mestres. Boa, Sebastian, continue lucrando na empresa e fazendo dívidas com a filha.

— Só vai ver a Bianca de noite. Agora ela está na casa de uma amiga, mas seu tio está em casa. – Fico em silêncio. Dylan tinha morrido há 1 ano, bom, eu não tenho coragem de falar sobre isso com ela.- A cafeteria teve uma repaginada, está linda.

— Ouvi boatos de assassinatos, está tão grave assim?

— É o Cold Blood. Se lembra deles, não é?- Vi alguns posts da Rebeca sobre isso fazia umas semanas. Ela é fanática por histórias investigativas. Provavelmente esteja fazendo jornalismo ou advocacia.- O número de mortos está até que reduzido, colocaram mais policiais pelos locais mais perigosos.

— Não acho que adiante grande coisa.- É um legado de mais de 30 anos, que não sei como, ainda não tinha vazado para imprensa nacional. Talvez esse fosse o grande trabalho da vida de Rebeca, todo o material no Blog Segredo Virtual, seria uma pesquisa para um livro? É interessante de pensar.

— E o voo?- Ela vira uma esquina, vejo um homem alto andando com um copo de café parecido com aqueles do Starbucks. Jason?

— Foi calmo. Conheci uma garota, ela estava vindo conhecer o amigo virtual.- Achei o nome dela bonita.

— Que idiota. Pode estar vindo conhecer a morte e mal sabe. — Sofia nunca entendeu de tecnologia, seu ramo eram coisas físicas fora do campo dentro da tela. Vejo uma foto no chão do banco do carona, nela aparece eu, Dylan, Bianca, Jason, tia Sofia e meu pai. Tiro meu cinto de segurança, me deslocando para o banco da frente.- Cuidado!

Pego a foto, estávamos fazendo um campeonato de caretas naquele dia. Dylan ganhou. Éramos felizes porque éramos crianças. Depois crescemos, a adolescência não foi lá das melhores. Olho para fora, já tinha até esquecido o propósito de ter voltado. Se tem uma coisa na minha vida que eu queria mudar era essa decisão. Não consigo nem imaginar o tempo que eu perdi com você, filha.

— Estamos chegando.- Ela diz com um tom arrastado.

Aquela rua logo atrás da rua da cafeteria e da pousada me trás um sentimento de que os bons tempos irão repor minhas energias. Chega de confusões, mal posso esperar para ter paz e me reestruturar psicologicamente.

— Quem é aquela garota?- Sofia fala, um pouco antes de estacionar o carro preto.

Me viro para a janela dela assim que ouço a pergunta retórica. Sérgio estava conversando com uma mulher de cabelos negros. As roupas me são familiares. Será que é...ela? Abro a porta do carro e vou para fora, ando na direção daquela figura que se virou para mim logo que eu saí. Pude confirma que sim, é ela.

— Sara?

No topo do moro, aquele em que treinava arco e flecha com seu pai, quando podiam passar o dia na casa do tio, era ali onde Bianca estava, encostada abaixada no tronco de uma árvore, a 15 passos de uma queda fatal para um lago. Dava para ver a cidade inteira dali; suas ruas grandes, suas casas pequenas, seus prédios não tão grandes assim. A praia não ficava longe da onde estava, inclusive, conseguia vê-la muito bem. Atrás da árvore, Dylan apoiava seu braço no tronco, esperando a hora certa de começar a dizer algo. Bianca fechou os olhos, não conseguindo pensar em absolutamente nada. Só tinha saído de Sanru uma vez. Ela amava essa cidade, como um legado sem fim. Seu cabelo ébano voou, respirou fundo, sem se importar com o vento que trazia folhas de outono, nem um pouco comuns naquela época do ano. Dylan saiu de trás da árvore, caminhando para o lado da irmã caçula.

— Lembra da gente aqui? — Pronunciou o homem de cabelo loiro. — Era divertido, não era?

Bianca deu um leve sorriso, sentindo o sol queimar seu rosto gorducho, lembrando-se do que viveu na infância. Era um momento muito importante para os dois. Era o fim de tudo o que conheciam.

— Eu fiz coisas horríveis com todo mundo. — O sorriso se desfez, ao ouvir o irmão continuar a falar. — Mas eu não me arrependo de viver assim.

A mulher de cor muito branca, recitou um poema em sua mente, como se fosse um bilhete de suicídio para si mesma.

— Você se acha louca, mas você não é. — Algumas lágrimas bateram nas janelas dos olhos de Dylan, mas se recusaram a cair. — Eu conheço uma pessoa louca quando vejo uma.

Ele olhou para a cidade, admirando a beleza dos momentos em que viveu nela. O sol que batia em seu rosto era reconfortante, fazia-o refletir sobre como aquilo faria certa falta.

— Eu matei a mamãe. — As palavras saíram com dor. Bianca nem mesmo se mexeu. Dylan esfregou as mãos nos olhos, respirando fundo. — Eu nem acredito que vou bombardear essa cidade. É tão...

As palavras não queriam mais vir. Aquilo estava doendo.

— Épico. — Seu olhar foi para baixo. Olhou uma folha no chão que fora parar seu sapato. Foram longos meses de convivência naquela cidade, e quase dez anos para conhecê-la de verdade.

— Por que você quer fazer essas coisas, mesmo? — Foi a única frase que conseguiu arrancar dela, dessa vez sem nem tentar.

— Bianca, eu... — De novo as palavras fugiram. Com um longo respirar, ele colocou as mãos nos bolsos e virou-se para o pôr do sol. — Quando você se senta na beira de um abismo, passam duas coisas na sua mente. Uma de que você vai morrer se cair de lá, e a segunda que mostra o quão frágil e forte somos, apenas por estar ali, vivos, com medo da morte.

— Eu não entendo. O que de tão precioso você encontrou em brincar com as pessoas?

— Bianca, eu encontrei... — Ele se vira para a irmã, mordendo os lábios, como alguém que se segura para não chorar, e abrindo um longo e glorioso sorriso. —...a mim mesmo. — Seus ombros se erguem e logo se abaixam.

— A loucura é hereditária. — Disse dando um sorriso, enquanto também evitava não chorar.— Eu só queria poder voltar para quando éramos crianças. Eu amava aquilo.

Dylan se entristeceu, uma nostalgia pousou sobre o corpo dos dois. De repente, uma aeronave se aproximava lá, bem longe deles.

— Estão vindo. — A partir desse momento, suas pupilas não tiraram os olhos da cidade.

A primeira bomba caiu, causando um grande estrago, onde centenas de vidas com certeza haviam morrido. Dylan não ouviu o som dela, estava concentrado demais naquela beleza visual.Talvez crianças estivessem brincando na rua, junto de seus pais que conversavam no portão, e agora estavam feridas ou mortas. Talvez uma senhora idosa dando ração para seus gatos, estivesse sendo sufocado com os escombros da própria casa. Além do horizonte, vinham mais aeronaves, descarregando mais e mais do véu de morte em Sanru. Dylan nunca vira algo assim, a destruição refletiu em suas pupilas, deixando uma lágrima escorrer pelo rosto. O chão abaixo deles tremia como nunca tinha tremido antes.

— É lindo. — Disse, deixando mais uma lágrima descer.

Bianca juntou as pernas ao corpo, abaixou a cabeça, e deixou a água sair de seus olhos cansados. Dylan comprimiu os lábios, enquanto mudava de visão para o chão. O irmão mais velho se virou para a mais nova, abrindo um sorriso triste.

— Eu vou te levar pro lugar mais feliz do mundo. — Uma risada saiu com tantas lágrimas que parecia mais um choro. — Lá não existe dor se não quiser. Lá podemos ser quem nós somos e quem quisermos.

Bianca se levantou, recompondo-se.

— Eu não quero seus paraísos, Dylan! — Seus braços cruzaram, sua voz estremecia. — Eu quero o inferno de verdade, não um artificial que você criou pra mim! — Aquele desabafo acertava ele como lâminas.

— Bianca, eu preciso de você. — Dylan a entrelaçou com seus braços, segurando-a forte, como seu único tesouro. — Eu te amo.

— Você nunca vai entender! — Ela o empurra. Os dois desabavam de chorar ao som do estrondo das bombas. — A vida não é um jogo! — Gritou. — A vida nunca foi e nunca será sobre você! Ninguém foi feito pra viver pra sempre, Dylan! Ninguém! É o que você pensa sobre o mundo, mas não é a verdade. A verdade é muito mais dolorosa do que tiros, facadas ou ser bombardeado. Lá, bem lá no fundo, ninguém quer ficar nessa porra de mundo! — Seus punhos fecharam. Tudo o que Bianca tinha feito até aquele momento, já não era mais tão importante para ela. Aquilo sempre foi sobre seu irmão. Ele quem colocou todos em perigo, ele quem estava brincando de ser Deus. E até outros culpados, estavam ali por culpa dele. —Eu não quero ser um monstro como você!

— Bianca... — Ela corre para se jogar do precipício. Dylan vai atrás dela e consegue segurar seu pulso. Mesmo assim ela escorrega na beirada, sendo segurada com toda a força do irmão mais velho, que cai ao chão. — Eu não posso perder você! — Gritou, tentando salvá-la pelos pulsos, enquanto não queria olhar nem mais um segundo para a queda logo abaixo dos pés dela. — Você é a minha única família! — As lágrimas dele caíam sobre ela, se misturando.

— Não, Dylan. Eu sou a última que sobrou. — Aquelas foram suas últimas palavras, antes de fazer impulso para trás e cair direto para o túmulo. Dylan ficou parado, encarando ela cair para nunca mais voltar. Após alguns segundos com o rosto indecifrável, ele se levantou de cabeça baixa, tentando ir embora, mas suas pernas amoleceram, caindo ao chão. Seu choro se livrou das correntes do ego, com os gritos de dor finalmente livres.

A cidade tinha sido destruída, a mente de Dylan também. Suas lágrimas eram águas encardidas de sangue e carvão, como um verdadeiro visionário que abriu mão de tudo, para fazer sua visão acontecer.

Abro meus olhos. Estou deitada em uma cama confortável. Ergo meu corpo para olhar em volta. Eu estou no meu quarto? Vejo luz pelo vão abaixo da porta, ele ilumina meu armário e consigo ver o meu computador. Me levanto, esbarrando em garrafas d´água. Minha roupa é um jeans preto e uma regata cinza com um logotipo de uma banda de rock, assim como eu costumava usar há...10 anos? Caminho até o computador, tento ligá-lo, mas não há energia. Guio meu corpo à porta, abro lentamente, dando de cara com a luz do sol. Ao sair, vejo a frente de uma casa, igual a uma que tinha em Sanru. Olho para o chão, é de barro com um pouco de mato. Eu não estou na cidade. Afinal, esse é o meu quarto? Olho em volta, parece muito com a cidade, mas é bem menor, é tudo reto, com casas de diferentes ruas e...árvores ao redor de toda essa vila de casas. O céu é azul, mas não vejo a estrela de fogo. Ali, um pouco longe, está Lídia atordoada.

— Não achei as crianças. — Disse minha velha amiga para o marido ao lado dela.

— Aonde estamos? — Perguntou um homem que eu nunca vi na minha vida, na entrada de uma casa que parecia ser a em frente a antiga pousada.

Daniel vem em minha direção. O encaro, vi que ele quer respostas de mim e eu dele. Aquele lugar cheio de casas estava longe de ser a nossa Sanru. Meus olhos não sabem mais para onde olhar, só consigo reparar nas pessoas saindo de casas em burburinhos e as árvores ao nosso redor. Lídia fica cara a cara comigo, como se só agora pudéssemos estar juntas com sinceridade. Ela desconfia de mim, mas eu não faço a menor ideia da onde a gente tá.

— É uma ilha! — Grita Rafael, saído de um lugar que não parece uma casa.

Puta merda! Se realmente estamos em uma ilha, esse é de verdade o nosso fim. Podemos estar em qualquer lugar do mundo.

— É, o jogo teve mais uma virada. — Daniel derrama lágrimas, perplexo assim como todos.

Dylan chegou ao seu êxtase. É o momento perfeito para uma frase de efeito.

— Não é mais um jogo. É uma guerra.

Continua...

Notas finais
No próximo capítulo: Ao se depararem em uma vila que simula Sanru, os adultos vão em busca de pistas e resoluções para seus problemas externos e internos.