Segredo Velado

1 Uma tarde de verão


Notas iniciais
Minha primeira história de suspense. Espero que gostem.

As nuvens se aproximavam naquele dia tão abafado de março. Os estrondos dos trovões as denunciavam como uma tempestade e o vento soprava com força, assobiando de quando em quando.

O carro chacoalhava. As rodas esmagavam os cascalhos em um ritmo contínuo e monótono. Dali podia ouvir um ou outro galho seco sendo partido. A monotonia terminou com o início das curvas bruscas que serpenteavam os morros daquele fim de mundo. Contava as curvas. Sentiu quando o calor dos poucos raios de sol restantes parou de aquecer sua mão e o ar ficou mais fresco. Se apoiando na janela respirou fundo sentindo o perfume de pinheiros e eucaliptos que coroavam a beira da estrada.

Menos de dez minutos e o carro finalmente parou. No meio dos morros uma pequena clareira se abria. Tomando a mão de sua mãe a acompanha por uma cerca tão velha que a fechadura parecia ranger o nome completo de D. Pedro I. Logo à frente o cocoricó das galinhas se aproximava. Se inclinando para tentar alcançar uma delas, a criança acaba tocando um monte de pele com penas semi coladas. Tirando a mão rapidamente e levando ao nariz sente um cheiro repugnante e automaticamente limpa a mão nas calças. Esperava que fossem escuras.

Finalmente na frente da casa. Tropeçou no primeiro degrau e ouviu um resmungo da mãe. Ela colocou a bengala dobrada nas mãos da criança. Depois a mala no chão e se despediu. Tinha que voltar à cidade para comprar comida, trocar o óleo do carro, e lá vai fita.

Quando finalmente terminou a lista e se foi levando consigo o rangido dos cascalhos, um silêncio quase mórbido desceu sobre o lugar. Ali o vento soprava bem fraco e o único som que se ouvia eram as árvores a distância. Nenhum canto de pássaro no chamado Vale das Aves. Então… pra quê o nome mesmo?

Tateando a parede externa da casa, encontrou a maçaneta. A porta felizmente estava aberta para evitar que as visitas ficassem muito tempo sob o zumbido dos marimbondos.

— Vó?

—Oi, meu anjo. Chegou cedo!

A criança fecha a porta e anda até tocar em uma mesinha que nunca era tirada do lugar e depositou sua mala embaixo e a bengala ali. Ao passar as mãos pela superfície sorriu ao perceber a novidade.

—Crochê com miçangas?

—Faça de conta que são joias. Agora vem aqui, dá um abraço na vó.

A criança seguiu até sentir as mãos velhas envolvendo com leveza. Cheiro de caramelo queimado se desprendeu da pele da velha misturado a algo mais fraco. E parecia muito com o mesmo cheiro daquele saco de pele e penas que fugiu da mão da criança antes.

—Sua mãe me disse que você vai ficar aqui só esse fim de semana. Quer que eu faça uma torta?

—Náh! Precisa não. A criança sentou ao lado da poltrona e tirou os óculos escuros. – Havia furos na lateral do braço da poltrona, mas eram tão grandes que seus dedos encaixavam perfeitamente ali, até mesmo sua disposição fazia parecer que uma pessoa tentara ficar seus dedos no tecido. Decidiu não pensar nisso. Não conseguia entender como pensamentos assim se acercavam sempre que fazia uma visita à avó.

—Cadê Tobi?

—Deve estar caçando alguma mariposa no quintal. Esse cachorro ainda não tem modos. Ora essa! -A velha pareceu se assustar com o ribombar de um trovão do lado de fora.

—Vó?

—Esse chegou em boa hora, mas podia ter sido mais delicado! Vou fazer bolinhos de chuva!

— E Cleo? Onde está?

—Do seu lado.

A criança se vira ao sentir um envolto felpudo se esfregar em si. Mais adicionando território do que fazendo carinho.

—Bem – Disse a velha se levantando – ,vou fazer bolinhos pra mim. Vai querer ou não? – Um rangido alertou que a cadeira de balanço fora abandonada e logo chinelos se arrastaram pelo piso de madeira bem conservada.

Um sorriso brilhante como os relâmpagos traçou o rosto infantil.

—Claro!

Ao sair a velha ouve um roncar suave.

—Ah! Não almoçou? Sua mãe não presta nem para te dar de comer? — Ela vai até a cozinha e faz a criança ouvir barulhos dos armários e geladeira e por fim, microondas. O arrastar de chinelos retorna acompanhado de um cantarolar rouco.

—Coma esse lanche enquanto eu vou pegar os ovos no galinheiro. – disse depositando um prato e um guardanapo no colo jovem.

—Mas não está vindo uma tempestade?

—Só preciso de um ovo. Volto em dois minutos.

A criança morde o lanche. Um hambúrguer caseiro; a comida da vó sempre tinha um sabor diferente de tudo. Saboreando mais uma mordida enquanto ouve o vento chicotear na janela, a cria sentiu morder algo duro. Tirou da boca e começou a alisar com os dedos o pequeno objeto redondo e achatado de metal. Após tirar os resquícios de carne, pão e alface ela percebe um alto relevo em um dos lados. Continua lentamente passando os dedos e limpando tentando reconhecer o que forma as linhas que traçam o pequeno objeto. Uma luz clareia sua mente e volvendo o objeto ao contrário as linhas tomam sentido em seu tato. O alto relevo é um nome.

—Tobi?

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!