Eu acordei mais cedo do que de comum naquele dia, olhei ao redor em busca de algo diferente, em algum sinal de que eu havia tido o pior pesadelo ou melhor sonho da minha vida e, assim que olhei pela janela, consegui ver as ruas abandonadas, os carros sumidos.

Na minha vizinha, pude ver uma bicicleta jogada ao chão, do outro lado da rua uma mala aberta com roupas espalhadas ao redor.

Não demorei a minhas roupas de dormir e trocar mensagens com minha mãe, informando que iria visita-la, passar os últimos dias na casa onde passei maior parte da minha vida.

Preparei uma mochila com algumas coisas importantes – basicamente eletrônicos – e segui viagem. Infelizmente tive que largar o carro no meio do caminho, já que São Paulo estava mais do que completamente congestionada. Talvez todos quisessem passar os últimos momentos com as pessoas importantes ou curtir as últimas oportunidades de viver ou reviver seus desejos e memórias de toda uma vida.

Vários carros abandonados no meio das vias, a cidade parecia vazia e aquela foi a primeira vez na minha vida que eu não quis estar sozinha, que eu desejei mesmo ter um amigo. Que porra, cara... Justo eu que nunca quis precisar de ninguém, só queria alguém que tolerasse minha companhia por algumas horas até que o meteoro atingisse ou não a Terra, como fora informado em todos os canais e estações de TV e rádio do mundo.

Já que tudo foi abandonado, acho que não seria, exatamente, roubar para comer um crime, não é mesmo? Bem, eu achei que seria melhor eu deixar uns trocados lá quando eu fizesse meu super sanduíche naquela Subway.

Preferi sair dali antes que, sei lá... Não ia querer passar o último dia da minha vida presa, então... Resolvi tentar voltar ao caminho, não tinha muito tempo para voltar para casa e, aos poucos, comecei a aceitar de que não conseguiria voltar a tempo e parei para passear no parque, me largando num dos bancos de madeira que estavam espalhados pelo local.

Terminei o lanche aos poucos, saboreando o ultimo sanduíche cheio de salame, cheddar e bacon que eu comeria nessa vida junto da melhor coca cola que já tomei, ao som dos pássaros que cantavam desatentos ao futuro, do sol que brilhava naquela manhã.

Tudo parecia ter uma sensação a mais, era complicado saber que seriam as últimas coisas que eu faria na vida e isso me fez pegar o celular, com pressa para ligar para meus pais, sabendo que eu não conseguiria chegar a tempo.

Conversamos pelo que pareceram umas duas horas e comecei a me despedir do pessoal quando ouvi uma voz feminina gostosa atrás de mim.

-Hey, estranha... Posso pedir um favor?

Olhei para a garota com a sobrancelha arqueada, confusa, mas fui surpreendida com par de olhos mais doces e intrigantes que já vi na vida, me perdi por aqueles olhos de uma forma que fiquei muda por alguns instantes.

-Como... Mãe, um instante...

-Ah, desculpa atrapalhar, moça...

Mantive o olhar nela e neguei, movendo uma das mãos como quem diz que não precisaria se desculpar e ela apenas assentiu.

-Diga, moça dos olhos bonitos.

Ela sorriu de um jeito encantador. De alguma forma, o fim do mundo serviu de algo. Acho que eu jamais encontraria aquela moça em outras circunstâncias e eu preciso confessar que só aquele sorriso já valeu pela minha vida inteira.

-Queria saber se poderia me emprestar o celular assim que terminar a ligação. Eu estou sem bateria e queria me despedir da minha mãe, também.

-Claro, claro, só um minuto.

-Não quero atrapalhar...

-Relaxa, já estava me despedindo. Peraí.

E assim me despedi de meus pais e irmãos, passando o celular para ela.

-Obrigada, estranha. De verdade.

-Não se preocupe com isso.

Enquanto ela ligava e falava com a mãe dela, peguei meu notebook na bolsa e comecei a rever algumas fotos, sorrindo feito boba e, eventualmente, parando para olhar para aquela garota discretamente. Podia sentir meu coração disparar só de vê-la. Não tinha dúvidas de que ela era uma das mulheres mais lindas que eu já vi em toda a vida.

Mas não era só aquilo. Havia uma energia boa emanando dela, algo que me atraía de uma forma positiva e a qual eu não estava acostumada.

Eu não estaria me precipitando em dizer que me apaixonei por ela ali, naquele primeiro momento. Apenas ao olhar em seus olhos, ao ver aquele sorriso. E eu nem me liguei em como ela era realmente bonita.

Parte de mim queria chorar por ser o fim do mundo, parte de mim estava agradecida pela situação que me levou até ela.

-Obrigada.

-Eu quem agradeço. Está sozinha?

Sabia que não devia, mas não me controlei.

-É... Estou. E você?

-Bem, teoricamente estou com você. Isso é, se quiser ficar comigo.

-Adoraria te fazer companhia.

Abri espaço para que ela se sentasse ao meu lado e notei sua curiosidade para ver o que eu via no notebook, logo mostrei foto dos meus familiares, conversamos sobre família, sobre amores mal resolvidos, até soltar, sem querer.

-Eu me apaixonaria por você. –Notei o desconcerto da garota na hora e ri, tentando disfarçar. –Mas então, me diga... Quais músicas você curte?

Ofereci o notebook com o Spotify aberto e começamos a trocar músicas, passando por clássicos como Wouldn’t it be nice dos Beach Boys, uma porção de músicas da MPB, Marisa Monte, Adriana Calcanhoto, Scissor Sisters, The Turtles, Gloria Stefan, Billy Idol, No Blondie... Até Lana del Rey, Florence, The Lumineers, Oasis, P!nk... O tempo passou entre muitos risos e uma conversa animada, até eu lembrar de uma música bastante específica: Preaching the end of the world do Chris Cornell.

-Essa... Eu preciso dedicar a você.

-E qual é?

-Escute.

“Hello, I know there's someone out there who can understand
And who's feeling the same way as me
I'm twenty-four and I've got everything to live for
But I know now that it wasn't meant to be
'Cause all has been lost and all has been won
And there's nothing left for us to save
But now I know that I don't want to be alone today
So if you find that you've been feeling just the same

Sorri ao olhar para ela, que sorriu para mim em retorno e passou o braço ao meu redor, deitando a cabeça em meu ombro. Pude sentir seus dedos apertarem em meu braço e eu não consegui controlar as reações bobas que meu corpo insistiam em ter com ela ao lado.

O coração acelerava a cada vez que eu sentia ela tocar em mim, mesmo que fosse sem querer. Eu chegava a tremer de forma discreta e, por sorte, tinha como por a desculpa no friozinho gostoso que estava fazendo.

So call me now it's alright
It's just the end of the world
You need a friend in the world
'Cause you can't hide
So call and I'll get right back
If your intentions are pure
I'm seeking a friend for the end of the world

I've got a photograph I'll send it off today
And you will see that I am perfectly sane
Not for a lifetime or forever and a day
'Cause we know now that just won't be the case

Embora tivesse caído à noite, o céu estava bastante avermelhado e tudo e tornava tão mais óbvio com o passar do tempo que nós só nos aproximávamos, era como se eu a conhecesse de outra vida. Tudo parecia encaixar, ela me fazia bem. Me trazia uma calma inexplicável.

There will be no commitment and no confessions
And no little secrets to keep
No little children or houses with roses just the
end of the world and me
'Cause all has been gone and all has been done
And there's nothing left for us to say
But we could be together as they blow it all away
And we can share in every moment as it breaks

Não sei se devia acreditar em destino naquele momento, pois, se destino existia, ele conseguiu ser bastante injusto comigo naquele momento. Me apresentar à pessoa que poderia ter mudado a minha vida – que mudou minha vida – justo no último dia dela.

So call me now it's alright
It's just the end of the world
You need a friend in the world
'Cause you can't hide
So call and I'll get right back
If your intentions are pure
I'm seeking a friend for the end of the world”

Talvez eu não estivesse tão sã quando parecia. Era o fim do mundo, o ultimo dia de vida. Eu podia estar com meus pais, podia estar com meus amigos, mas, de alguma forma, eu encontrei a melhor pessoa com quem eu poderia estar naquele momento.

Ela era carismática, inteligente e cheia de fatos engraçados ou curiosos para contar, sempre mantendo aquele jeitão descontraído e animado. Era algo transcendental e eu poderia ter passado a vida toda só ouvindo-a falar, conversando com ela daquele jeito.

Ao menos, pude passar o resto dela ao seu lado.

Eu nunca amei tanto a companhia de alguém como amei a dela.

E ao ver as rajadas de fogo ao céu eu só pude sentir seus dedos entrelaçarem aos meus e sorri.

-Eu te amei, minha amiga.

Eu passei a manhã toda tentando ir para casa, mas foi quando eu desisti que encontrei meu lar.

Notas finais
Queria aproveitar pra dar meus parabéns pra melhor amiga que eu já tive. Parabéns, Mari(Aka Wounded Beast - que de beast não tem nada). Só posso desejar coisas boas, embora você já esteja entrando na terceira idade e tals, você sabe que eu te amo e que eu só tenho a agradecer por ter você na minha vida, menina dos olhos mais lindos que já vi na vida. Se o mundo fosse acabar, você definitivamente seria a pessoa com a qual eu gostaria de passar minhas últimas horas. Espero que possa sentir meu abraço apertado daí do outro lado, se chegar a ler isso. ♥ E pra vocês, eu só espero que encontrem alguém assim, não há sensação melhor na vida.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!