See You Again
2 Final Alternativo
Notas iniciais
[De: Nico, 2:35 a.m.
O avião teve alguns problemas técnicos, acabei ficando muito tempo preso no aeroporto e meu celular descarregou. Só cheguei em casa agora.]
Três semanas nunca foram tão longas para Jason como aquelas. Tirando pelo tempo que passava conversando com Nico, os dias pareciam se arrastar. Sempre que olhava pra um relógio, loiro tinha a impressão de que o objeto ganharia vida apenas para dizer “só se passaram dois minutos, cara. A hora não vai passar mais rápido porque você fica me encarando”.
Pois é, ele sabia disso.
Ele tentava se distrair com os serviços que tinha que fazer na empresa de seu pai, agora que tinha começado um estágio de verão. Zeus dizia que ele devia começar a se habituar com a empresa, já que assumiria seu cargo um dia. O ponto negativo era que as vezes era difícil encontrar um período livre para falar com Nico entre uma tarefa e outra.
O fuso horário de seis horas também não ajudava muito. Sempre tinham que marcar um horário específico para poderem conversar, geralmente quando era tarde em Nova Iorque e noite em Veneza.
Conversavam mais por ligações do Skype –apesar de Nico ter um celular especial para deficientes visuais, mandar uma mensagem ainda era complicado; trabalhoso, na verdade. Mas Jason achava até melhor. Gostava de ouvir a voz de Nico.
Jason contou sobre sua rotina, o time de futebol americano da escola, seus planos pra faculdade. Descobriu que Nico tocava piano, e seus tipos favoritos de música eram jazz e rock. Quando terminasse o ensino médio, pretendia voltar para a Europa de vez para estudar história. Nico também explicou sobre sua condição. Não nascera cego, sua visão começou a se desgastar a partir dos seis anos de idade. Foi um processo lento, e quando se mudou para os Estados Unidos para ficar com o pai, quatro anos atrás, tudo que conseguia ver eram contornos. Inclusive, esse foi o motivo da mudança. O pai do garoto não poupou esforços e dinheiro em busca de médicos e tratamentos, mas nada resolveu.
De qualquer forma, Jason tentava não tocar no assunto.
No geral, conversavam sobre tudo. Família, música, cinema. Conheciam um pouco mais do outro a cada dia que se passava, e Jason se sentia cada vez mais perdido em novas sensações.
Nico era inteligente, empolgado com mitologia greco-romana –inclusive, quando Jason descreveu sua aparência física, o moreno brincou dizendo que ele devia parecer com um herói romano, e Jason resolveu não comentar o fato de que o time de futebol de sua escola chamava Legião–, tinha um humor singular, e mesmo sendo um pouco irônico, ele era gentil.
Jason estava se apaixonando, rápido e intensamente. E por mais que soubesse que esse era o rumo normal das coisas, isso o assustava um pouco.
O dia do retorno de Nico se aproximava e Jason sugeriu que ele fosse buscar o italiano no aeroporto. Nico recusou a primeiro momento, mas depois de certa insistência, ele concordou, e agora o loiro estava ali, nervos à flor da pele.
“Seu nervosismo está me deixando nervosa,” Thalia comentou, olhando Jason andar de um lado para o outro. “Você não quer se sentar?”
Jason respirou fundo e sentou ao lado da irmã, tentando se manter calmo. Não deu um minuto para começar a agitar as pernas, inquieto.
“Ok, acho melhor você continuar andando.”
“Eu não consigo ficar calmo.”
“O que é estranho vindo de você. Geralmente é toda aquela seriedade e tal,” a morena cruzou os braços. “Relaxa, Jay. Não tem por que ficar tão nervoso.”
“É fácil falar,” suspirou. “É só que…”
“Que…?” incentivou o mais novo a falar.
“E se…. Isso não der certo?”
Thalia ficou ereta na cadeira, olhando para Jason com seriedade.
“Como assim?”
“Apesar de nós dois termos conversado muito nas últimas três semanas, é agora que vamos começar a nos conhecer de verdade,” Jason mordeu o lábio, hesitante. “Eu só… Sei lá, talvez não seja o que ele esperava.”
“Você não está falando sério, não é?”
Mas ele estava. Jason tentava não pensar nisso, porém, havia aquele pensando no fundo de sua cabeça dizendo que talvez não desse certo. Provavelmente todo esse lance de alma gêmea não era tão fácil quanto os filmes mostrava. Era verdade de que nunca tinha ouvido sobre um casal que não deu certo, tirando por histórias trágicas, e mesmo assim se sentia inseguro. Era humano, afinal.
“Ora, besteira! Não tem nada para se preocupar, de verdade,” a morena disse após ouvir a explicação do irmão. “Você é um cara incrível, Jay. É esperto, leal, atencioso. Um pouco careta, mas ninguém é perfeito, certo? Se esse garoto não te quiser, o azar é dele.”
Jason sorriu minimamente.
“Obrigado, Thals.”
“Pare de esquentar a cabeça com isso, ok?” sorriu de volta. “Agora, como eles se parecem mesmo?”
Mais de quinze minutos se passaram até que Nico e Bianca– a garota fez questão ir para os Estados Unidos dessa vez– finalmente chegassem. Jason os reconheceu de longe, e aparentemente Bianca também. A italiana sussurrou algo no ouvido do irmão, e pela expressão de Nico, o loiro gostaria da saber o que foi.
Os dois se aproximaram, o barulho de rodinhas se tornando mais alto. Nico segurava o braço da irmã com –talvez– um pouco mais de força que o necessário. Estava nervoso. Quando a italiana parou, sua coração batia tão forte que o garoto achou que ia abrir um buraco em seu peito e fugir. A primeiro momento, um silêncio constrangedor se instalou entre os quatro. Bianca e Thalia olhavam para seus irmãos, esperando que um dos dois se pronunciassem.
“Oi,” o loiro finalmente disse.
“Oi,” Nico respondeu.
“Tudo bem no voo?”
“Sim, um pouco cansativo, mas tudo bem.”
“Certo.”
Jason não sabia por que, mas não conseguia evitar que um sorriso se formasse em seus lábios. Era tão bom ver o italiano frente a frente, não através de uma tela.
“Então, Nico, não vai dizer nada?” Bianca chamou a atenção.
“Ah,” Nico parecia ter se esquecido da presença da garota por um momento. “Essa é a minha irmã…”
“Bianca, mas já nos conhecemos alguns dias atrás pelo skype. É um prazer te conhecer pessoalmente,” estendeu a mão para o loiro, que aceitou o cumprimento. “E aproveitando a situação, gostaria de dizer que sou muito boa com um arco e flechas. Só um aviso. Nada demais.”
“Bianca,” Nico repreendeu a irmã. “Você prometeu.”
“Certo, certo. Nada de ameaças. É só que eu me preocupo com você, soldatino.”
Jason sorriu nervosamente, sem saber exatamente o que dizer.
“Hã, e essa é a minha irmã, Thalia.”
“É um prazer conhecer os dois,” a morena de olhos azuis disse, simpática. “Então você gosta de arco e flecha?” perguntou para Bianca.
“É um hobby,” respondeu. “Não tenho mais tempo para praticar tanto quanto gostaria, mas…”
“Entendi,” assentiu. “Eu faço parte de um grupo de arquearia desde os 16. É bem legal. Já ouviu falar das Caçadoras de Artemis?”
Bianca pareceu surpresa.
“Brincou! Eu já vi muito sobre vocês na internet. Cheguei a visitar a sede alguns anos atrás e achei demais!”
“Nos encontramos todos os sábados. Você pode ir comigo, se quiser,” ofereceu.
“Sinto que esse é o começo de uma longa amizade,” a italiana comentou, um sorriso largo em seu rosto. “Mas vem cá, você tem alguma história constrangedora sobre o Jason? Ou fotos!”
“Bom, você viu a cicatriz no lábio superior dele? Conseguiu ela tentando comer um grampeador.”
“Mentira!”
“Eu tinha dois anos!” Jason tentou se defender.
“Detalhes, detalhes,” Thalia fez um gesto de desdém. “Mas me conte alguma coisa sobre Nico.”
Bianca e Thalia começaram a conversar animadamente, indo em direção a saída do aeroporto.
“Acho que elas vão se dar bem,” Jason comentou, observando-as se afastarem.
“Também acho…. Você tem uma cicatriz no lábio?” Nico perguntou curioso.
“É… Por causa de um grampeador, como você ouviu. Sinto que tenho que te contar todas as coisas constrangedoras sobre mim antes que Thalia faça isso.”
Nico riu levemente.
“Acho que vou fazer o mesmo.”
“Precisa de ajuda?” Jason ofereceu, já colocando uma de suas mãos sobre o cabo da mala de rodas.
Nico hesitou por um momento, e Jason tomou como um sim. Puxou a mala do garoto para seu lado esquerdo. Notou quando Nico puxou a mochila do ombro, abrindo o zíper para pegar sua bengala.
“Não precisa disso,” Jason disse, fechando a mochila e colocando-a de volta onde estava.
“Como?” Nico perguntou confuso.
“Você confia em mim, não é?”
Nico assentiu, e Jason segurou a mão do mais novo, sentindo um arrepio passar por seu corpo. Sorriu minimamente. Podia se acostumar com isso.
“Tenho muita coisa pra te contar,” eles comentou. “Ah, e espero que não se importe com isso.”
O italiano corou, mas não se afastou. Pelo contrário, apertou seus dedos contra os de Jason, para a alegria do loiro.
“Temos muito tempo pra conversar.”
É, eles tinham tempo.
.
“It’s been a long day
Without you my friend
And I’ll tell you all about it when I see you again”
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