Sede de Vingança: O Despertar das Fúrias
4 Acusamento Injustiçado
Fiquei em silêncio por um tempo. Não acreditava no que acabara de ouvir. Luan tinha mesmo falado aquilo? Henrique me olhou com um olhar de surpresa, ele também tivera escutado a fala de Luan. Afastei-me de Luan e apenas consegui dizer em meio ao meu nervosismo:
–Preciso ir cara, fique bem!
Sai de perto dos dois e não olhei para trás. Aquilo era irreal pra mim. Parecia aqueles sonhos doidos que temos, como por exemplo sonharmos nadando em uma piscina de chocolate ou comendo rosquinhas gigantes (como no filme Tá Chovendo Hambúrguer), mas que você acorda depois e fala: “Ah! Isso nunca vai acontecer!”
Fúria disse do fundo da minha consciência:
–Não se esqueça do seu objetivo. Essa não é hora de você ficar com os sentimentos mexidos e se distrair da missão.
Ela tinha razão, então deixei todos os pensamentos de lado e fui procurar Eduardo.
Avistei Eduardo parado me esperando no muro da escola. Fui falar com ele, tentando controlar minha tremedeira por causa do que tivera acontecido há poucos instantes.
–E então Eduardo, aonde iremos?- questionei.
–À casa de Isa.
–Você sabe onde fica?
–Sim, quando namorávamos eu ia lá todos os dias. Ainda vou de vez em quando para ver como ela está.
–Mas o que pretende dizer a ela? Toda a verdade assim de cara?
–Não somente a ela, como para os pais dela. A justiça merece ser feita!
Isso ia dar sérios problemas... Para a Tatiana. Então como estou dando de Sherlock Holmes e Emily Thorne, não tinha nada a perder ferrando com a vida de Tatiana. Sinceramente, estava gostando de fazer isso com ela. Aquela galinha de teta fez o Luan sofrer, hora de ela sofrer mais ainda também.
Andei com Eduardo por uns cinco quarteirões até chegar à casa de Isa. O portão era simples, qualquer um conseguiria pulá-lo, parecia aqueles da época da ditadura militar. Preocupei-me com isso, a casa seria de fácil acesso para um roubo.
Eduardo gritou o nome da mãe de Isa, Lana, que era minha professora de biologia. Ela apareceu, foi e abriu o portão e cumprimentou Eduardo e eu.
–Você é o Julian?
–Sim professora! Você se lembra de mim?
–Claro! Você era meu melhor aluno!
Eu e minha fama de nerd, tinha esquecido isso.
–Podem entrar e fiquem a vontade- disse ela numa voz suave e gentil, que me fez lembrar de quando era minha professora.
Entramos na sala da casa, só tinha uma televisão de mais ou menos 16 polegadas, 2 sofás pequenos e uma instante cheia de coisas (revistas, livros, sapatos, etc). Sentamos-nos no sofá e Eduardo disse que queria falar com Isa. Lana foi ao quarto da filha que ainda estava dormindo e a chamou. Era mais de 12h30, como ela poderia ainda estar dormindo? Pensei comigo mesmo, já que eu acordara 5h30 da manhã todos os dias, senão antes.
Isa saiu do quarto e veio até a sala. Estava cheia de olheiras, cabelo bagunçado e uma cara de múmia. “Deste jeito ela parece uma drogada mesmo” caçoei mentalmente. Ela se sentou no sofá, deu um beijo na bochecha de Eduardo, olhou para mim e disse:
–Quem é ele Eduardo?
–Um amigo meu que veio nos ajudar.
Amigo dele? Ok então né?
–Ele descobriu uma coisa que vai te deixar realmente chocada- complementou Eduardo.
Ele pegou o diário da minha mão e mostrou a ela. A cada palavra que ela lia, sua expressão ia aumentando, ela estava despertando do seu sono a cada linha. Depois que terminou de ler, Isa fez uma cara de incompreensiva.
–Não, não é verdade! Não pode ser!- disse ela que agora estivera bem acordada.
–É verdade sim, eu também não acreditei, mas comparei as letras e é a letra da Tati mesmo- respondeu Eduardo.
–Eu sei que é a letra dela. Éramos melhores amigas... Reconheço a letra de Tati. Mas não consigo acreditar!
–Ela ficou com muita raiva da sua traição, por ter namorado Eduardo, sendo que você era a melhor amiga dela e sabia da paixão que ela tinha por ele, então resolveu se vingar- esclareci as coisas.
A professora Lana que estava na cozinha, escutou minha fala e foi correndo para a sala. Ela me olhou com um olhar de raiva ao mesmo tempo em que a tristeza surgiu em seus olhos.
Isa levantou-se do sofá, olhou para a mãe e a abraçou, deixando lágrimas escorrerem em sua face.
–Eu falei mãe, eu nunca usei drogas. Eu nunca iria usar. Eu sou inocente!
–Eu acredito filha! Nunca tivera acreditado que você se drogou. Eu tinha certeza que algo errado havia nessa história.
Mãe e filha choravam de felicidade pela inocência de Isa. Não aguentei e acabei deixando lágrimas salinas escorrerem no meu rosto. Sou muito sentimentalista, choro em filmes de romance como Titanic, e até em filmes animados como Shrek. Aquilo era uma cena de um filme real. Me senti muito feliz por não estar apenas me vingando de uma égua como a Tatiana, mas estar ajudando pessoas a fazerem justiça.
Quando o abraço de mãe e filha acabou, Lana foi a minha direção, eu levantei e a abracei.
–Você é meu melhor aluno mesmo, da minha vida inteira, te adoro Julian!- disse Lana com voz de choro.
Eu não sabia o que falar, então fiquei em silêncio.
Lana preparou biscoitos na cozinha para nós. Enquanto Eduardo, Isa e eu batíamos papo na sala, e principalmente, falávamos de como iríamos fazer Tati se ferrar.
Isa era uma menina muito legal. Seu sorriso era lindo, e depois que sua cara de sono se foi, ela se tornou uma garota extremamente atraente.
Comemos os biscoitos com chocolate quente, estavam deliciosos! Lana disse que seu marido Roberto ia voltar do trabalho em breve. Roberto é o pai de Isa, e jornalista. Na época da notícia do acusamento de sua filha, ele escreveu um artigo de opinião que defendia Isa. Mas por ser pai dela, esse artigo foi descartado, como Lana mesmo dissera.
Não demorou muito para ele chegar. Isa contou para o pai tudo o que descobriram. Roberto ficou emocionado, porém não derramou uma lágrima se quer (inveja dele se fosse eu estaria soluçando). Ele me agradeceu com um aperto de mão.
Essa notícia do diário de Tatiana seria a próxima matéria do jornal que Roberto escreve, chamado “Jornal do Dia”.
Ele me chamou para seu quarto a sós, para conversarmos. Ele queria todos os detalhes de como eu conseguira o diário de Tati. Eu disse a ele que não queria que meu nome estivesse no jornal em hipótese nenhuma, que deveria ser um segredo meu e dele. Ele estranhou, e eu expliquei que tudo era um plano de vingança (tirando a parte da Fúria, que mesmo que tentasse o fazer acreditar, não funcionaria, e seria arriscado), que estava fazendo as pessoas que me fizeram sofrer um dia pagarem, e que agora, o plano de vingança contra Tati tivera se tornado um senso de justiça.
Roberto estava extremamente grato a mim e queria me retribuir de alguma maneira. Então fiz uma proposta a ele. Quando eu terminasse minha história de vingança, iria querer que ele escrevesse meu livro, o livro da minha história. Ele nunca escreveu um livro na vida embora sempre quisesse, então o meu livro seria o primeiro que escreveria. Roberto pareceu empolgado, porém eu disse a ele:
–Não se empolgue tanto, ainda vai demorar um pouco pra você poder escrever esse livro, minha história de vingança está apenas no começo!
–Tudo bem, esperarei o tempo que for necessário!
Saímos do quarto, Isa e Eduardo estavam curiosos com o que estávamos conversando lá dentro. Roberto estava com um sorriso enorme estampado no rosto.
Eu disse que precisava ir embora, pois estivera tarde. Roberto me agradeceu novamente, agora com um abraço. Lana me deu outro forte abraço de urso. Isa me deu um beijinho no rosto. Eduardo disse apenas um simples “obrigado”. Fui embora sozinho, Eduardo ficou na casa de Isa.
No outro dia, fiz as coisas com muito mais rapidez do que fazia normalmente. Estava ansioso para ir à escola, mesmo sendo uma sexta-feira. Queria muito ver Tati quebrando a cara novamente.
Saí de casa muito cedo, era 6h20 quando saí, cheguei à escola era 6h35.
Fiquei cinco minutos sozinho em frente ao portão fechado sem conversar com ninguém, pois as pessoas que já tiveram chegado eu nunca tinha conversado antes, ninguém era da minha sala.
Henrique chegou às 6h40 e puxou assunto comigo.
Henrique era muito engraçado, me fazia rir a cada 20 segundos. Era um piadista profissional. Agora entendo porque Luan gosta tanto de sentar atrás dele.
Henrique me perguntou sobre o que Luan tivera falado no dia passado. Eu não sabia o que dizer. Poderia contar a verdade a Henrique?
–Você deve tomar cuidado antes de confiar nas pessoas, apenas confie nelas se forem próximas a você ou se conseguir ver uma ponte para seu objetivo- aconselhou Fúria.
“Uma ponte para meu objetivo?”. Então poderia confiar em Henrique. Eu amo Luan, e Henrique é o novo melhor amigo dele agora. Se me aproximasse dele, consequentemente me aproximaria de Luan novamente. Consegui ver a ponte!
Com minha autoconfiança, disse toda a verdade a Henrique. Ele ficou pasmado com a revelação. Ele achou que eu queria ser engraçado e estava contando uma piada, todavia eu disse com seriedade que era apaixonado por Luan, o que lhe fez acreditar nas minhas palavras.
6h55 o portão finalmente foi aberto. Luan, João e Sansa ainda não tiveram chegado. Sentei-me atrás de Henrique, o que provocaria Luan, ou o fizera sentar perto de mim. Sansa chegou na sala, olhou para mim e gritou:
–Está mesmo me abandonando né porra?
Eu comecei a rir, fui até ela, cumprimentei-a e expliquei que contei toda a verdade a Henrique.
–Você anda confiando muito nas pessoas, vai acabar se ferrando por causa disso- me alertou Sansa.
–Eu sei, mas contar a Henrique é uma ponte pra mim.
–Uma ponte pra que?
–Pra me aproximar de Luan novamente!
–Então essa ponte está mais para ponte pênsil! Quantas vezes vou ter que falar que Luan é um babaca que não merece o seu tempo?
–Eu sei, mas... O que ele me disse ontem...
–O que ele te disse ontem?
Contei a Sansa o que tivera acontecido. Ela ficou surpresa.
–Meu deus. Agora que você tinha que se afastar dele e o deixar correndo feito um trouxa atrás de você, você vai tentar se aproximar dele?- questionou Sansa.
Eu não tinha parado pra pensar nisso. Fúria deu risadas em minha mente e disse que eu deveria seguir o conselho de Sansa.
Sansa foi até minha bolsa que estava na mesa atrás de Henrique, a tirou do lugar e colocou na mesa atrás dela.
–Você vai sentar aqui e ponto! Não vou deixar você agir feito um idiota!
–Ok. Você quem manda- me conformei e sentei no lugar.
Luan chegou e sentou-se atrás de Henrique, no lugar que eu acabara de sair.
Tatiana chegou atrasada, sentou-se na última mesa da fileira da parede, e não falou e nem cumprimentou ninguém.
João e Violeta faltaram. O que me deixou preocupado com a ausência de João dois dias seguidos, eu nunca tinha me preocupado com ele, mas estava dessa vez, achei estranho de minha parte.
Na segunda aula, uma professora substituta preencheu o lugar da professora de Biologia. A substituta Silvia contou que nossa professora de Biologia descobriu estar com câncer, e vai se afastar da escola por um bom tempo, ou seja, estamos sem professora de biologia até o resto do ano.
Toda hora que eu olhava para Luan ele estava me olhando. O que me fez lembrar o que aconteceu ontem.
Levantei-me e fui cumprimentar Luan (primeira vez que tomei essa iniciativa). Ele deu um sorriso enorme com minha iniciativa que ele tomara há um tempo. E me disse a seguinte frase:
–Precisamos conversar depois!
Envergonhado, eu apenas disse “beleza”.
A hora do intervalo chegou. Saí com Sansa, e ficamos juntos no pátio. Guilherme foi até mim, sozinho, sem a galera do fundão e me chamou para conversar.
A princípio pensei em recusar, mas estava muito curioso para saber o que ele queria. Então, levantei-me da mesa do refeitório e fui falar com Guilherme, deixando Sansa sozinha.
–O que você quer conversar Guilherme?
–Eu queria te pedir desculpas... Por tudo o que eu te fiz, por ter lhe abandonado!
–Por que veio me pedir desculpas só agora?
–Porque agora sei como você se sentiu, os meninos do fundão me abandonaram, disseram que eu não era mais do grupinho deles.
–E agora você quer que eu faça o que? Que eu volte a ser seu amigo novamente? Que eu se esqueça da mancada que você deu comigo?
–Se você conseguir me perdoar... Sim.
Minha raiva por Guilherme reviveu mais intensamente, já tinha superado o abandono dele, mas ele vir pedir desculpas depois de tanto tempo me deixou revoltado.
–Não! Não quero mais ser seu amigo! Não quero mais olhar nem em sua cara mais! Se eles te abandonaram, bem feito pra você! Fico feliz que esteja passando pelo que passei! Agora se me dá licença, tenho mais o que fazer, não quero deixar Sansa sozinha, abandonada, como você fez comigo!
–Sua bicha vingativa!- retrucou Guilherme.
–Não sou bicha nenhuma. E se fosse, o problema é somente meu. Agora vai ver se tem coco na feira, vai!
Virei às costas pra ele e fui fazer companhia a Sansa.
Contei para ela a discussão, Sansa riu bastante.
–Esse é meu aprendiz, adorei o que você fez- disse ela toda orgulhosa.
Na quarta aula, o que eu estava esperando pra acontecer, finalmente aconteceu.
A diretora apareceu na sala com dois policias fardados ao lado dela. Ela chamou Tatiana e disse que ela estava expulsa da escola (na frente de toda sala). Todos ficaram chocados, mas logo começaram a rir, principalmente Sabrina e Bianca que gritavam: “Já vai tarde!”, “Vai pela sombra querida!”, “Não volta mais recalcada!”.
Tatiana ficou amedrontada, porém não ficou calada, antes de sair da sala, gritou para todos:
–Tchau, sala de merda, invejosos do inferno!
Todos davam risada da cara dela, enquanto ela era levada pelos policiais a diretoria.
Me enchi de alegria, quase não continha meu riso, consegui! Vinguei-me dessa puta!
Agradeci várias vezes Fúria mentalmente, pois ela fora minha principal ajuda para conseguir o diário, sem ela eu não teria conseguido invadir a casa de Tati.
Minha felicidade se esvaiu quando olhei para Luan e o vi com cara de triste por causa da saída de Tatiana.
O dia escolar finalmente acabou. O assunto de Tatiana fora comentários até o último minuto de aula.
Quando fui embora, Luan correu até mim, voltando ao meu lado.
Perguntei-lhe como estava com a saída de Tati.
–Estou muito mal mano! Estava com raiva dela, mas não queria que ela fosse expulsa, sabe se lá porque- ele disse com uma voz triste.
–Ela não vai fazer falta- disse num tom grosseiro- você tem que esquecer essa vadia que só brincou com você.
–Tem razão cara, espero esquecê-la o mais depressa possível.
Passamos uns três minutos sem dizer um “a”, voltando lado a lado.
Até que Luan fala:
–Estou feliz por estar falando com você de novo. Senti falta da sua amizade. Somos amigos de novo né?
Hesitei.
–Não sei- eu falei com uma voz bem baixinha.
–Julian, quero que me perdoe por ter me afastado de você depois que você se abriu comigo. Eu fiquei muito assustado com sua revelação, tive muito medo de continuar sendo seu amigo e...
–E o que?
–E acabar acontecendo coisas entre nós.
–Como assim?- eu falei totalmente envergonhado. Olhei para ele, ele estava envergonhado tanto quanto eu.
–Não sei... Nunca mais seríamos amigos do mesmo jeito. Se você desse em cima de mim... Talvez eu teria cedido... E não quero ser gay nem gostar de um homem.
Meu coração palpitou como de um beija-flor. Aquilo só podia ser um sonho, as coisas que Luan falava eram tudo aquilo que eu queria ouvir, mas não estava preparado para isso, nunca imaginara que uma situação dessas iria acontecer.
Olhei nos olhos dele e disse firmemente.
–Então é melhor continuarmos afastados até você decidir o que realmente quer comigo!
Eu tinha falado isso mesmo? Eu não conseguia acreditar no que tivera acabado de dizer. Eu parecia a Sansa falando (ela deve ter andado me influenciando).
Luan apenas disse:
–Como quiser.
Logo ele chegou a casa dele e se despediu de mim.
Quando estava chegando em casa, passei em frente a uma banca de jornal e vi a notícia do “Jornal do Dia”: Armação é descoberta! Menina que fora acusada de usar drogas é inocente!
Fiquei muito feliz, Roberto conseguiu mesmo limpar o nome da filha. E sabia que um dia ele iria escrever meu livro que eu decidi que irá chamar “Sede de Vingança”.
O fim de semana passou de jatinho. Segunda-feira chegou.
Cheguei à escola, contei a Sansa a conversa que tive com Luan. Ela ficou novamente orgulhosa com o que eu disse. Luan não me cumprimentou, mesmo passando em minha frente. Então, por orgulho, não o cumprimentei também.
Era aula de biologia, todos estavam pensando que seria vaga ou uma substituta apareceria, mas uma surpresa que me deixou realmente feliz: LANA APARECEU, E CONTOU A SALA QUE ERA A NOSSA NOVA PROFESSORA DE BIOLOGIA.
Ela me olhou, deu um sorrisinho, e começou sua aula.
João chegou atrasado, sentou-se atrás de mim. Me virei para ele e perguntei:
–Por que faltou esses dois últimos dias?
–Julian, eu tenho que te contar uma coisa, aconteceu algo muito estranho comigo!
Fale com o autor