Sede de Vingança: O Despertar das Fúrias
2 O Primeiro Alvo
Acordei era 20h. Estava totalmente confuso. Tudo aquilo foi um sonho? Olhei para meu pulso e não havia um corte nem uma cicatriz nem nada. “Que sonho horrível eu tivera, principalmente a última parte que era sinistra!”.
Estava no meu quarto, levantei-me da cama e fui ao banheiro. Urinei lentamente, meu xixi parecia uma torneira, pois não parava de sair. Quando finalmente a bexiga esvaziou, lavei meu rosto e me olhei no espelho e refleti: aquele fora meu maior pesadelo da vida, ver Luan e Tatiana se beijando.
Escutei um barulho baixo de uma serpente, logo ele parou, então o ignorei. Demoraram uns 30 segundos para ouvi-lo novamente. Quando olhei para a privada, que já estivera fechada, levei um susto: um serpente estava lá em cima dela, parada me observando, devorando o ar com a língua.
Lembrei-me que aquela serpente era igual a do meu sonho, se é que realmente fora um sonho. A serpente se metamorfou e se transformou numa mulher nua, com cabelos de serpentes e asas de morcego. Era a Fúria, tudo aquilo que pensei que tivesse sonhado foi real. Ela me fitou com o olhar e perguntou:
–Como está, Julian? Já conseguiu se recuperar?
Mil dúvidas surgiram na minha cabeça: se aquilo não foi um sonho, por que não tinha uma cicatriz no meu pulso? Minha mãe, que chega do trabalho às 16h, não me vira desmaiado? Onde a Fúria estava quando minha mãe chegou? O que ela era afinal? Questionei tudo isso a ela, respondendo suas perguntas com outras perguntas.
–Esses fatos não tem relevância. Irei te ajudar a se vingar da Tatiana e de outras pessoas que lhe derem na telha- respondeu.
–Se vou confiar em você, preciso te conhecer, saber sobre você, as coisas que você fez, o que você é, e o que era aquele castelo macabro!
Minha fala foi convincente, pois ela respondeu tudo o que eu perguntara.
–Sou uma Erínia, ou uma Fúria, uma Deusa da Vingança. Costumava frequentar entre o tártaro do submundo e o mundo dos vivos punindo aqueles que mereciam. Mas um dia Zeus me aprisionou no Yomotsu, o caminho que liga o mundo dos humanos com o mundo dos espíritos, o reino da morte e do descanso eterno. Por você ter tentado se matar, sua agonia, seus desejos carnais de vingança chamaram minha atenção, então algo sobrenatural levou-o até mim- ela respira um instante, recuperando o ar- sobre sua volta do Yomotsu, suas feridas foram curadas por mim. Transformei-me em morcego e tomei toda a poça do seu sangue que formara na cozinha. Quando sua mãe chegou, me transformei em serpente. Ela se assustou quando me viu, e pensou que você tivesse sido mordido e envenenado. Saiu correndo na rua pedindo ajuda, um vizinho a ajudou, pegou seu corpo inconsciente e levou-o ao hospital. Os médicos fizeram exames e nada diagnosticaram, concluíram que você desmaiara por causa do susto de ver uma serpente e lhe deram alta. Ao chegar do hospital, sua mãe colocou você na cama pra repouso e tentou me achar, mas fui cuidadosa e ela não me achou, desistindo.
Nada falei. Fiquei pasmado. Era muita informação de uma vez só.
Um barulho ruiu da cozinha, saí correndo até lá para conversar com minha mãe e dizer que eu estava bem. Olhei para trás e vi que a Fúria se transformara em serpente novamente.
Cheguei à cozinha, abracei minha mãe que estava quase em lágrimas de felicidade. Jantei o macarrão instantâneo que ela preparou. Minha mãe Joana sempre fizera miojo no jantar de segunda à sexta, alternando às vezes com macarrão de panela. Questionava-me por não ser gordo por causa de tantas massas que eu comia semanalmente. Minha mãe era bem fofucha, pesava entre 80 a 90 quilos.
Após terminar o jantar voltei ao meu quarto. Fúria virou “humana” e ficamos um bom tempo conversando sobre ela e sobre mim. Ela dissera que sabia tudo sobre mim, de uma maneira que não soubera de nenhum outro humano, seria um vínculo desconhecido ou sobrenatural que o destino impôs a nós?
Ela me contou que tinha a capacidade de ler meus pensamentos e de qualquer outro ser humano. Começamos a planejar minha vingança contra Tatiana. Era estranho pra mim, conversando e planejando coisas com um ser que acabei de conhecer, porém ela tinha algo diferente, conseguia confiar nela como confiava em Sansa. Ela sempre sabia tudo que eu falava antes que dissera, por conseguir ler meus pensamentos. Eu era uma caixa aberta pra ela, não podia esconder nada, já pra mim, ela era algo misterioso.
Perguntei como ela iria comigo na escola, não daria certo dizer que tinha uma serpente ou um morcego de estimação. Tive uma ideia de dizer que tinha que levar minha serpente de estimação comigo ou ela comeria meu irmão mais novo se eu a deixasse em casa, mas era uma ideia ridícula, eu não tenho irmãos e todo mundo sabe disso.
Com minha preocupação, Fúria disse que tinha a habilidade de entrar em meu subconsciente e ficar lá. Ela pegou meu rosto com suas mãos delicadas, olhei para suas unhas de cor verde escuta, eram enormes! Ela se aproximou de meus lábios e me deu um beijo. Fechei os olhos involuntariamente e quando abri, ela tinha sumido. Escutei uma voz:
–Viu só? Posso ficar na sua mente e me comunicar com você por aqui!
Demorou uns instantes para mim me tocar que a voz vinha da minha própria mente, Fúria estava lá. Comecei a desconfiar da minha sanidade, poderia estar tendo alucinações e escutando vozes. Será que minha mãe andou colocando cocaína no miojo ao invés de sal?
A voz de Fúria ecoou do funda minha mente novamente:
–Você está em sã consciência! É minha voz que está se comunicando com você. Você pode comunicar-se comigo por telepatia.
Continuei “batendo papo” com Fúria até o sono fazer minhas vistas se encherem de nuvens. Olhei o relógio, era 1h30 da manhã. Decidi ir dormir um pouco, pois logo iria à escola.
Acordei às 5h da manhã. Fiz a mesma rotina do dia passado, lavei as louças, preparei o café, fui buscar os pães, comi pão com manteiga e bebi o café quente. Minha mãe não tinha acordado ainda, me troquei e fui à escola sem se despedir dela.
Cheguei à sala, sentei-me atrás de Sansa.
–Oi, tudo bem com você Julian?
–Oi Sansa, mais ou menos e você?
–Tô bem. Fiquei sabendo que você saiu chorando da escola ontem, é por causa do Luan?
–Sim. Mas quem te falou que eu saí chorando?
–Todo mundo tá comentando... Mas não liga não, não é problema deles então foda-se os comentários que surgirem!
–Eu sei que não é problema deles, porém não quero que as pessoas saiam falando por aí coisas de mim. Principalmente porque não quero que o Luan escute isso, isso é, se ele não me viu correndo ontem.
–Esquece o Luan cara! Segue em frente! Ele fez pouco caso de você quando você disse a verdade a ele que estava apaixonado, então pra que se importar se ele ouvir, ver ou pensar alguma coisa?
–Eu sei disso... Mas também sei que não foi fácil pra ele saber que eu estava apaixonado, nosso afastamento foi uma forma de defesa que ele utilizou, tanto que agora fica tentando voltar à amizade.
–Julian, desculpa falar, mas pare de ser idiota! Forma de defesa ele se afastar de você? Não foi isso não! Ele não se importou com sua amizade, fez descaso de você, se ele gostasse de você de verdade, mesmo que só como amigo, ele tentaria resolver as coisas, tentaria te ajudar e te entender! Se não foi “fácil” pra ele, e pra você foi? Por isso siga em frente e deixe esse trouxa correr atrás de você atoa.
A sinceridade dela me deixou abalado.
–Você tem razão... Mas é muito difícil para eu seguir em frente e simplesmente tentar esquecê-lo e apagar todas as memórias com ele. Senti coisas por ele que nunca havia sentido por ninguém, nossa amizade foi algo mágico pra mim. E ainda me importo com esse trouxa, e pior de tudo, ainda devo amá-lo por ter ficado com ciúmes de ver ele com Tatiana.
–Eu sei que é difícil, porém um dia você vai conseguir seguir em frente e superar isso, essa tempestade um dia acabará- ela disse com um sorriso estampado no rosto, o que me confortou um pouco.
–Assim espero...
João entrou na sala, um pouco atrasado, já era 7h15. Ele veio em minha direção e pela primeira vez na vida, me cumprimentou. E o que mais me deixou pasmado, ele sentou-se atrás de mim.
A primeira aula acabou e a segunda estava na metade quando tomei coragem, virei para trás e puxei assunto com João.
Perguntei seu gosto musical, sua cor favorita, se tinha um cachorro ou um gato, quais desenhos e animes ele curtia e outras perguntas banais que fazemos para criar uma nova amizade. Tínhamos algumas coisas em comum, como considerar Dragon Ball Z o anime mais foda e preferimos Backstreet Boys do que One Direction.
Depois de muitos minutos de conversa, fiz uma pergunta que estava presa na minha garganta.
–Como você está em relação à Tatiana? Está triste?
Seu sorriso se fechou como uma nuvem negra tampando o Sol.
–Sim... Vê-la ontem beijando o Luan foi trágico pra mim.
–Pra mim também...
–Por quê? Você também gosta da Tati?
Olhei para ele, hesitei, todavia falei a verdade. Não sei como pude confiar nele assim tão facilmente, tenho sérios problemas em confiar nas pessoas, não confiava nem em minha mãe, somente em Sansa e ainda colocava limites a isso. Porém algo havia feito eu e João nos aproximarmos, estávamos passando por um momento horrível de nossas vidas, estávamos com a mesma dor: a dor de um coração partido.
–Não. É por causa do Luan!- respondi a João após meu momento de hesitação- Sou bissexual, e me apaixonei por ele, éramos melhores amigos, contei a verdade por não aguentar mais tal segredo e consequentemente nos afastamos.
–Entendo...
A expressão de João era indecifrável, ele tinha um olhar de compreensão e um sorriso forçado no rosto.
–Não sou preconceituoso, não ligo de ter um amigo gay, brother. Agora entendi o afastamento repentino seu com o Luan, vocês eram bem próximos.
Foi me abrir com João que ele se abriu comigo. Ele me contou histórias de sua infância, como perdeu a virgindade, as meninas que ele ficara e coisas do gênero.
Olhei para Luan, ele estava atrás de Henrique, o que me fez lembrar que eu não havia o cumprimentado, mas preferi não fazer, já que teria que cumprimentar Luan também.
O papo com João estava se estendendo mais do que eu imaginara que iria. Eu olhava para Luan alguns momentos, percebendo seus olhares para nós, o que para mim parecia ciúmes. Também olhava pra Tatiana do outro lado da sala conversando com suas melhores amigas Sabrina e Bianca, o que me fez lembrar o meu objetivo: vingar-me de Tatiana por beijar Luan.
A professora Josefa de artes chegou à terceira aula e pediu pra algum voluntário entregar as provas corrigidas. Luan se ofereceu e a professora deu as provas a ele para entregar os alunos.
Estava conversando e rindo com João quando Luan apareceu em frente à minha mesa.
–Parabéns João, você tirou 8 na prova- falou Luan enquanto colocava a prova na mesa de João e olhando para mim.
João agradeceu os parabéns recebidos. Luan olhou nos meus olhos, direcionou o olhar para o chão e disse:
–Não vai me cumprimentar hoje Julian?
Meu coração disparou. Novamente estava chocado com as atitudes de Luan.
Levantei minha mão sem dizer sequer uma palavra. Luan me cumprimentou. João disse em resposta a fala de Luan:
–Julian só tem o costume de cumprimentar os amigos!
Olhei seriamente para João.
Luan deu uma risadinha e retrucou:
–Por isso ele nunca te cumprimenta né?
Eu não estava acreditando em tal situação, os dois estavam brigando.
João ficou quieto, acho que queria me respeitar, devia ter percebido que eu não estava confortável com aquilo.
Luan saiu de perto de nós para entregar as outras provas.
Dali 2 minutos estava lá de novo com minha prova em mãos.
–Parabém tirou 10 de novo, como sempre né amigo?- disse Luan com aquele sorriso lindo que me fazia delirar.
–Não preciso dos seus parabéns!
Eu não pude crer que dissera aquilo. Será que a Fúria estava influenciando minhas falas. Fúria então se comunicou comigo dizendo que não fazia influências, que o que eu disse era o que quisera dizer.
–Não sabia que você era tão mal-educado Julian!- falou Luan num tom grosseiro.
–E eu não sabia que você era tão babaca- disse Sansa que estava sentada na minha frente, virada para trás observando as coisas.
Ok. A situação tava ficando cada vez mais descontrolada. Queria ser um avestruz para enfiar a cabeça debaixo da terra e não ver o que iria acontecer na próxima cena.
–Babaca? Por que sou um babaca?- perguntou Luan a Sansa.
–Você se afasta de Julian, magoa ele pra caralho e agora fica brincando com ele, fazendo de conta que não aconteceu nada, você está sendo um belo de um filho da puta!
Luan calou-se. Nesse instante coloquei a mão em meu rosto inconformado com a briga que estava acontecendo ao meu redor.
Tatiana grita o nome de Luan. Ele vai até perto dela e senta na mesma cadeira que ela. Quando olho para eles de novo depois de um tempo, vi uma cena nostálgica de terror, os dois se beijando.
Que raiva daquela vadia! Tenho que armar um plano pra acabar com aquela vaca!
O sinal toca, o intervalo passa rapidamente, quando voltei, conversei com Fúria pelo pensamento, planejando algo contra Tati.
Fúria leria a mente dela, mas para isso, eu precisava puxar assunto com ela.
Levantei, fui à mesa de Tatiana. Luan estava atrás de Henrique novamente, mas acompanhava cada movimento que eu fazia com o olhar.
Sem saber o que falar, primeiro pedi o número do whatzap dela, e comecei a perguntar quais eram os pratos favoritos dela. Alguma coisa me fazia pensar que garotas gostavam de falar de culinária e moda.
Quando perguntei a ela qual era sua cor favorita, uma voz disse:
–Azul.
Era Luan, diante de mim com aquele sorriso esplendor. Ele sentou ao meu lado, dividindo a cadeira com Tati.
Eu estava puto de ódio, mesmo depois de toda a discussão que aconteceu minutos atrás, ele continuava sendo um babaca.
Entrando na conversa, Luan falava sobre seus pratos favoritos, olhando para Tati e com olhares rápidos para mim.
João me chamou. Parecia um milagre. Tenho que agradecer ele de joelhos depois, porque foi o motim de conseguir sair daquela conversa embaraçosa.
Ironicamente, comecei a conversar com João sobre moda, e ele me falava dos cabelos doidos que ele já fizera: moicano, arrepiado, raspado. João tinha um cabelo liso e castanho, que eu achava lindo por sinal.
Conversei mentalmente com Fúria, ela conseguiu ler a mente de Tatiana e me falou que ela tinha um diário guardado no quarto de sua casa, onde escrevera todos os seus segredos.
Aff... Tinha que ser uma menina. Diário? Que coisa mais previsível.
Na saída, esperei Tati ir embora, Luan se foi sem se despedir dela. A segui em passos lentos, sempre tentando evitar ela de me ver.
A perseguição demorou 20 minutos até chegarmos a casa dela.
Fúria me disse que ela ia ao curso de espanhol todo dia, de segunda à sexta às 15h.
Esperei fora da casa dela, deitado encostado em uma árvore que tivera próxima de lá. A casa dela era um sobrado e o seu quarto ficava na parte de cima. Dava para ver a janela do quarto dela, e a árvore estava bem próxima, com um galho que parecia uma ponte para a janela, decidi que iria invadir por lá.
Deu 14h40 e Tati saiu de casa como já fora esperado.
Pensei em como iria invadir o quarto dela, a janela estava fechada por dentro. Fúria saiu de dentro de mim, foi apavorante. Ela se transformou em morcego, entrou na casa pela janela do banheiro, a única da casa que não estava fechada.
Foi ao quarto dela voando por dentro da casa. Quando entrou no quarto voltou à forma humana, destrancou a janela que tinha um trinco manual, e a abriu para minha passagem.
Subi na árvore e dei um salto agarrando na ponta da janela like Mario Bros. Fúria me puxou pra dentro.
Procuramos o diário no quarto inteiro sem sucesso. Um pitbull apareceu rosnando no quarto. Um segredo que não sabíamos de Tati, que ela tinha um demônio de estimação em casa.
Ele latia e estava prestes a me atacar. Fúria se transformou em uma serpente, muito maior do que ela costumara a se tornar, se enrolou no cão, mobilizando-o.
Achei o diário guardado dentro de um pequeno armarinho, entre as calcinhas rosas de Tati.
Pulei da janela e me surpreendi por não ter quebrado pelo menos uns três ossos da perna com a queda.
Bati o olho no diário, mas procurei as coisas mais atuais, iria ver ele melhor mais tarde com mais tempo.
A última página que tivera sido escrita me deu com sede de vingança e um ódio mortal dela. Uma frase dizendo:
“Só estou com Luan para esquecer Eduardo, meu ex, espero que o tonto do Luan não se apaixone por mim...”.
Agora sim, essa puta me paga!
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