Alison se assustou com a reação da amiga e questionou:

— Você tá até branca, se é que é possível debaixo desse bronzeado. O que foi? Lembrou-se de algo terrível? Assaltamos uma loja, batemos carteira, ficamos nuas na praia? – nervosa, também.

— Não! Não que eu me lembre! Alison, você se lembra mais que eu, né?

— Não sei! Tenho uns flashes.

— Você ficou perto de mim e do Cris o tempo todo?

— Acho que sim, por que?

— Jura pela sua cadelinha Kitty que não vai contar para ninguém essa minha desconfiança.

— Tá bom, eu juro. Mas, fala logo, ta me deixando assustada.

— Alison, me diz que eu não transei com o Cris.

Alison não pôde conter o choque com a revelação da amiga.

— Você transou com o Cris? Belinha, você não é mais virgem?

— Eu não sei, eu não lembro! Isso é horrível! Só me lembro de ter rolado com ele na areia, mas não sei o que fazíamos ali além de nos beijar. Pode ter acontecido. Eu tô em pânico! – falou Isabelle, caindo num choro compulsivo.

Alison abraçou a amiga, que não conseguia parar de chorar e disse:

— Desculpa, Belinha, mas eu não me lembro se você e o Cris se afastaram de mim e do Rick. Eu tava ocupada beijando o Rick. Mas, acho que nada deve ter acontecido, tinha muita gente na praia e vocês não iam fazer isso em público.

— Vai que a gente se afastou para uma parte mais deserta.

— Belinha, fomos encontrados dormindo, todos juntos, apoiados uns nos outros. Isso indica que sempre estivemos juntos. Você ta criando neura?

— Será?

— Se quer tirar a prova, pergunta pro Cris.

— Ah tá! Chego no Cris e falo: Por acaso você se lembra se a gente transou noite passada?

— Então não pergunta, dá chance para ele falar, observa como ele está te tratando, se alguma coisa no comportamento dele indica que isso de fato aconteceu. Minha intuição feminina diz que não. Você sente algo diferente no seu corpo?

— Eu acho que não, era para sentir?

— Dizem que dói na primeira vez. Mas, algumas dizem que não dói quase nada. Sei lá, sou virgem ainda.

— Se eu transei com o Cris na praia, não foi de caso pensado e foi sem preservativo! Alisom, será que eu estou grávida?

— Belinha, isso já está virando uma novela mexicana! Foi só uma bebedeira de adolescentes. Vamos nos sentir envergonhados ao vermos nossos amigos por um tempo. Vamos fingir que nada aconteceu e tudo voltará ao normal. Vocês beberam e deram uns amassos, assim como eu e Rick, nada mais.

— Deus te ouça! Imagina se eu for mãe adolescente igual à minha mãe? Meus pais vão ficar decepcionados, meu futuro brilhante em Havard nunca se realizará... – dizia Isabelle, recordando-se de todos os lamentos de Sam por ter sido mãe tão jovem e de todos os milhões de conselhos que ouviu ao longo da vida no sentido de não repetir seu erro.

— Belinha, para! – gritou Alison – O que você tem é crise de consciência! Não foi legal o que fizemos e você se sente culpada! Aprendemos uma boa lição e não vai se repetir. Pare de preencher o vácuo da sua memória com sua grande imaginação. Você não ia dar pro Cris só porque estava bêbada, eu te conheço.

— Eu não daria pro Cris porque tava bêbada, mas eu tenho sentimentos por ele – confessou Isabelle, caindo em prantos mais uma vez.

— E aquele papo de que somos todos BFF’s?

— Uma fuga! Eu não me sinto preparada para ter um relacionamento sério com o Cris. Não queria magoá-lo, nem magoar o Rick que tava se aproximando demais de mim. Assim, não estrago a amizade deles e nem preciso me comprometer antes do tempo.

— Belinha, eu acho que você ficou com trauma de relacionamento e com medo de fazer sexo de tanto sua mãe te encher os ouvidos que esse é o caminho para a desgraça de uma moça.

— Pode ser.

— Você ainda é muito nova, não precisa se forçar a nada. Saberá o momento certo de se entregar de corpo e alma a um rapaz. Eu também saberei. No fundo, também nego meus sentimentos pelo Greg, porque acho que vai atrapalhar minha vida, meus estudos, minha curtição com os amigos, também em vista de conselhos dos meus pais.

— Faz sentido.

— Por isso mesmo, duvido que você faria sexo com o Cris, ainda que bêbada. Sua mãe apareceria na sua cabeça e te faria sair correndo antes que qualquer ato pudesse se consumar.

Isabelle conseguiu rir ao comentário de Alison.

As duas meninas reencontram Rick e Cris no restaurante, na hora do almoço. Ambas acompanhadas pela instrutora designada, Melissa. Os meninos estavam na companhia do instrutor Rudy.

Os meninos chamaram as meninas para se sentarem na mesma mesa. Os instrutores ficaram distantes, observando.

— Minha cabeça dói tanto que parece que tem uma serra elétrica ligada dentro dela – reclamou Rick.

— Nem me fale, também estamos assim, sem contar a falta de vontade de comer. O estômago dá voltas – disse Alison por ela e por Isabelle.

Isabelle e Cris se fitaram, ambos encabulados, o que fez ressurgir na cabeça da moça a ideia de que algo além de amassos poderia ter acontecido na noite passada.

Rick e Alison pareciam ter superado o acanhamento rapidamente e foram os únicos a conversar, como os velhos amigos que eram, o almoço inteiro.

— Belinha, quer sobremesa? Parece que o salgado não tá descendo pra você – observou Alison à amiga.

— Tô com o estômago embrulhado, mas talvez o doce ajude – concordou Isabelle.

— Vou lá pegar para você, aproveito e pego pra mim. Vem comigo, Rick? – convidou Alison ao amigo.

— Claro – assentiu o rapaz, seguindo a amiga.

Cris quebrou o silêncio:

— Belinha, ainda somos amigos?

— É claro, porque não seríamos. A amizade em primeiro lugar, foi isso que combinamos, lembra?

— Sim, é que eu pensei que algo poderia ter mudado depois de ontem à noite. Foi intenso!

— Como assim? O que aconteceu?

— Você não se lembra? – indagou Cris, tristonho – Só eu vou carregar comigo até o túmulo os doces momentos que tive com você em meus braços?

Isabelle sentiu que o sangue fugia de suas faces. O coração começou a bater acelerado. Não se conteve e indagou:

— Nós dormimos juntos na noite passada?

— Claro que sim! Os instrutores nos encontraram assim – respondeu Cris, como se fosse óbvio.

— Não digo só dormir, nós... bem... nós...

— Nós o quê?

— Fizemos amor? – perguntou Isabelle, baixinho, sentindo-se corar.

Cris começou a rir, deixando Isabelle ainda mais envergonhada a princípio e com muita raiva depois.

— Posso saber qual a graça Cristopher? Vai parar de rir ou quer que eu te faça parar quebrando seus dentes? – ameaçou a loira, brava.

— A graça está na sua pergunta. É claro que não fizemos amor. Demos uns amassos em público! Uns beijos deliciosos e nada mais!

— Ufa! – disse Isabelle, secando o suor que sentia descer da sua testa.

— Eu adoraria fazer isso com você, mas jamais me aproveitaria do seu estado de embriaguez. Tenho certeza de que um dia vai acontecer, mas quando ambos estivermos preparados, ambos sóbrios, e será muito especial! – disse Cris, tomando a mão de Isabelle, que se deixou segurar por uma fração de segundo, puxando-a.

— Cris, somos amigos, lembra? O que aconteceu em Aruba, fica em Aruba. Não significa que vamos voltar um dia.

— Claro, amigos – concordou Cris, abaixando a cabeça, depois de forçar um sorriso.

Alison e Rick voltaram para a mesa, trazendo doces, também, para Isabelle e Cris.

O navio aportou em solo norte-americano. Os 4 adolescentes desceram com suas bagagens, acompanhados dos instrutores, que logo colocaram os pais cientes do ocorrido em solo caribenho.

Jade riu da situação e falou para o contrariado Beck que não era para tanto, que finalmente Rick estava vivendo como um adolescente normal de sua idade.

Os pais de Alison afirmaram que ela ficaria confinada estudando aos finais de semana por um mês.

Carly afirmou estar muito decepcionada com Cris. Gibby começou a falar dos malefícios que o álcool traz para pessoas jovens. O menino desculpou-se aos pais e expôs seu sincero arrependimento. Carly já estava perdoando o filho sem castigo, mas Gibby interveio dizendo que iria com o filho visitar uma instituição para dependentes químicos a fim de que ele visse a realidade da vida.

Sam ficou muito brava com Isabelle e disse que sua vontade era trancafiá-la em casa até que fosse para a faculdade. Mas, Freddie acalmou os ânimos da esposa, pedindo para que olhasse para filha e visse nos olhos dela o quanto estava arrependida pelo ocorrido, propondo que a menina ficasse responsável pelas tarefas domésticas por um mês. Sam acabou cedendo.

No final de semana subseqüente, Sam, com o marido e os filhos, foi almoçar na mansão de seu pai, Charles. Depois do almoço, ela resolveu ir se sentar sozinha no jardim.

Isabelle viu a mãe pela janela e foi conversar com ela:

— Mamãe, a senhora está triste por minha causa? Já estou muito arrependida do que fiz, nunca mais farei, eu juro pelo Bolinha, que é meu filho peludo.

— Não estou triste, Belinha, estou preocupada.

— Como assim? – perguntou Isabelle, sentando-se na grama ao lado da mãe.

— Eu pensei que você fosse melhor que eu. Pensei que teria força o suficiente para não repetir meus erros. É mais inteligente, mais estudiosa, mais centrada. Cheguei a acreditar que poderia ter sossego, pois você puxou, no caráter, os genes nerds do seu pai. Mas, talvez eu tenha me enganado. Belinha, você está numa fase difícil, que é a adolescência. Eu já tive a sua idade e não me orgulho nem um pouco das coisas que eu fiz nesse período.

— Eu sei.

— Não sabe, não. Não sabe da missa a metade. Eu nunca quis contar os meus piores feitos com medo de que você seguisse o meu exemplo. Filha, eu me meti com gente barra pesada, eu bebi, eu até fumei maconha uma vez.

— Sério?

— Sim, mas graças a Deus não gostei e o garoto de uma gangue pesada que queria me viciar para me vender foi preso logo em seguida.

— Eu nunca fumei maconha, mãe, nem cigarro.

— Eu sei. Mas, deixou-se levar numa festa com bebida livre. O álcool também é um tipo de droga. Depois de tomar umas cervejas na adolescência, eu arrombei uma loja de antiguidades por pura diversão. Não é novidade para você que já fui presa algumas vezes na adolescência.

— Não é.

— Filha, eu te amo demais para te deixar seguir o mau caminho. Eu acordei a tempo, pude contar com boas amigas como Carly e Cat.

— Eu tenho uma boa amiga: Alison. Eu a levei para o mau caminho, ela nem queria ir para a festa, nem queria beber, só foi porque uma melhor amiga não abandona a outra nunca.

— Belinha, sou sua mãe, mas se você deixar, também gostaria muito de ser sua melhor amiga. Se minha mãe estivesse pronta para me amparar, como eu estou pronta para amparar você, eu teria dado bem menos cabeçada na vida.

— Mãe, você já é minha melhor amiga de todas desde que eu nasci – disse Isabelle, abraçando Sam e depositando um beijo no rosto de Sam – Sei o quanto você abriu mão de tudo por mim, sendo só um pouco mais velha que eu.

— Eu fiz por amor, minha filha, e faria tudo de novo, quantas vezes fosse preciso. Por isso mesmo eu me preocupo, porque te amo demais.

— Também te amo demais, mãe. Não precisa se preocupar tanto comigo. Tudo o que me ensinou ao longo da vida ficou gravado dentro de mim. Mesmo quando acho que perdi o senso de limite, suas lições estão dentro de mim, me orientando até onde devo ir.

— Então, não terá problemas em me pedir orientações e me fazer sua confidente para quando tiver dúvidas no tortuoso caminho da juventude?

— Claro que não. Mãe, você é meu maior exemplo de força e superação. Eu tenho muito orgulho de você. Farei de tudo para que você também sinta orgulho de mim.

— Faça tudo para que você sinta orgulho de você mesma, à luz da sua consciência e então, eu também ficarei orgulhosa.

Isabelle assentiu, sorriu para mãe, que lhe devolveu o sorriso, enquanto acariciava os cabelos loiros da filha, tão parecidos com os seus. As duas se abraçaram e ficaram sentindo, juntas, a doce brisa que soprava no jardim.