Seddie, a história continua
151 Corações machucados
Notas iniciais
Coronel Shay aproximou-se e desejou boa noite à Pamela. Ela apressou-se em enxugar as lágrimas e disse:
– Toma um drink comigo Coronel Shay?
– Eu não sou muito de beber.
– Careta.
– Por que a senhora estava chorando?
– Impressão sua, deve ter caído um cisco dentro do meu olho.
Coronel Shay sentou-se à mesa com Pamela, mesmo sem ser convidado, tirando um lenço do bolso e entregando à ela:
– Tome, sua maquiagem borrou um pouco com as lágrimas.
– Não precisa ter pena de mim – falou Pamela, pegando o lenço sem delicadeza.
– Não estou com pena, só tentando entender por que uma mulher tão bonita está sentada na mesa de um bar numa calçada, sozinha e chorando.
– Pare de mentir. Estou cansada de homens mentirosos na minha vida. Tudo o que eu queria era encontrar o amor. E como eu o procuro! Mas, não devo mesmo merecê-lo. Sabe, eu me apaixonei uma vez, de verdade e me arrependo amargamente disso.
– Eu também – confessou Coronel Shay com uma tristeza no olhar.
Pam continuou:
– Eu era tão jovem, tão sonhadora e tão boba! Entrei no curso de Direito cheia de sonhos. Queria ser uma grande advogada como minha filha Melanie é hoje, para o meu orgulho. Conheci o pai das minhas filhas, aquela filho da mãe do Charles, que voltou 20 anos depois pagando de pai do século. Minha vida parecia perfeita naquela época, eu estava no curso que sonhava com o cara que sonhava. Charles era bonitão e inteligente, o primeiro da classe. Todas as moças tinham uma quedinha por ele. Então, ele encheu meu bucho e sumiu no mundo.
– Imagino o quanto tenha sido difícil para a senhora.
– Não imagina não. O senhor tem jeito de quem sempre teve uma vida perfeita. Uma carreira de sucesso e uma família estável. Ao contrário de mim. Não sabe o que é a dor do abandono. Vem me falar isso só pra me consolar! Já fez sua boa ação Coronel Shay – disse Pamela batendo continência – Agora pode vazar! — mandou com a língua pesada da bebida.
– A senhora não está bem, é melhor ir para casa.
– Pensa que é a primeira vez que fico bêbada e sozinha por aí? Engano seu! Eu já tô acostumada com essa vida desgraçada.
– Eu vou chamar um táxi para a senhora – decidiu Coronel Shay, pegando o celular.
Coronel Shay colocou Pamela no táxi e voltou para o Bushwell.
– Demorou pai! Eu já tava preocupada! Mais um pouco e eu ligava para a polícia, pensando que tinha acontecido alguma coisa com o senhor por aí – falou Carly, nervosa.
– Não exagere xereta. Aqui está o remédio da minha neta – entregando a sacola à filha – Desculpe a demora. Encontrei a Pamela chorando e bêbada num bar aqui perto.
– Pamela, mãe da Sam?
– Essa mesma.
– A Dona Pam não vai tomar jeito nunca. Tá ficando velha e não aprende. Não é a toa que a Sam sempre teve vergonha desses atos dela.
– No fundo a Pamela é uma mulher sofrida, com uma ferida aberta que não sabe como curar, assim como eu.
– O que disse pai?
– Nada. Boa noite filha – desejou Coronel Shay, dando um beijo na testa de Carly e subindo as escadas.
No quarto de hóspedes, Coronel Shay abriu um velho baú e tirou de dentro uma carta amarelada pelos anos. No envelope havia escrito: De Alana para Steven.
Ele abriu a carta. Conhecia o conteúdo de cor e salteado, mas quis ler mais uma vez, com lágrimas molhando a sua face:
"Steven, imagino que nunca vá me perdoar pelo o que estou prestes a fazer e eu te entendo. Quando me casei com você eu era completamente apaixonada pelo militar em início de carreira, lindo, inteligente e cheio de atitude. Desse amor nasceram nossos dois lindos filhos: Spencer e Carly, os quais confio a você, sabendo o pai maravilhoso que é. Acontece que, com o passar dos anos, o fogo da nossa paixão foi se apagando. Passamos a nos ver pouco, porque você está sempre viajando para servir à Pátria e eu acho isso muito nobre, mas os Estados Unidos da América acabaram levando para sempre meu marido de mim. A sua falta foi deixando de ser sentida por mim a cada dia. No vazio do meu coração um novo amor acabou brotando e hoje só consigo me sentir feliz quando estou ao lado dele. Vou embora para não envergonhar você e aos nossos filhos. Se quiser, diga a todos que eu morri. Seja feliz e encontre uma boa mulher, escolha aquela que possa compreender o seu ritmo de vida e o seu coração, sinto muito por não ter sido essa mulher especial".
Coronel Shay soluçava ao chegar ao final da missiva. Nunca havia tido coragem de se desfazer daquela carta e a lia frequentamente durante as mais de duas décadas que sucederam a morte de Alana.
Steven teve um flash do reveillon em que pediu Alana em casamento. Ela aceitou na mesma hora. Os dois estavam felizes e apaixonados.
Bateu no próprio peito, dizendo:
– Por que eu não consigo te arrancar daqui, sua traidora?! Isso já faz muito tempo! Isso já passou! Isso tem que passar!
Num rompante, ele rasgou a carta em vários pedacinhos e atirou pela janela. Ao fazer isso, sentiu-se mais leve. Foi tomar um banho e conseguiu deitar-se e dormir.
O final de semana chegou e Isabelle pediu para ir pra casa de Pamela. Sam desconfiou:
– Que apego é esse à sua avó? Ainda não desistiu de juntá-la ao Coronel Shay? Já falei que o pobre homem nunca fez mal a ninguém pra merecer ela.
– Só quero ser amiga da minha avó, não posso?
– Claro que pode, mas, você não me engana.
– Vai me levar ou vou ter que pegar um táxi?
– Você não tem idade para andar sozinha num táxi. Se faz tanta questão, tudo bem – concordou Sam, pegando a chave do carro.
Pamela tentava preparar um bolo sem muito sucesso, enquanto a neta puxava assunto:
– Por que a senhora não tem um namorado?
– Acha que eu não tento arrumar um?
– O Coronel Shay tá disponível.
– Ele é um babaca. Ficou com pena de mim outra noite aí, começou a falar umas mentiras, disse até que entendia a minha dor! Até parece... um homem com uma vida perfeita vai entender a dor de uma mãe solteira, que acabou sem faculdade, tendo que fazer bicos pra viver e sem ninguém que a ame.
– Coronel Shay entende de falta de amor.
– Como assim?
– A mãe da dinda abandonou ele pra fugir com o meu avô, pai do meu pai, quando a dinda tinha 5 anos.
– Sério que o coroa levou galho?! Conheço ele há anos e não sabia do babado.
– É segredo, não pode contar pra ninguém, entendeu?
– Claro que sim, sua avó é loira, mas não é burra.
Isabelle riu e disse:
– Agora a senhora falou igual a mamãe.
– Fazer o quê? É miha filha! Para o meu desgosto e para o dela!
Numa tarde no início da semana, Coronel Shay estava sozinho em casa, procurando algo interessante na televisão, de pijama e roupão como sempre, quando a campainha tocou. Ele foi abrir e viu Pamela, dizendo:
– Desculpe senhora pelos meus trajes, eu não esperava visita.
– Não precisa de formalidades comigo, nos conhecemos há muito tempo não é Steven?
– Isso é verdade. Entre, por favor.
Pamela entrou e sentou-se no sofá, comentando:
– O ap. não mudou nada.
– Carly gosta de mantê-lo assim. Mas, ao que devo a honra da sua visita?
– Eu vim me desculpar e agradecer. O senhor foi muito cavalheiro naquela noite que eu não estava bem, e eu ainda fui rude. Sou uma cavala mesmo.
– A senhora havia exagerado um pouco na bebida, eu não levei a sério o que me disse.
– Um pouco é bondade sua. Mas, acredite, não sou sempre assim.
– Eu acredito. Por trás dessa carapaça que a senhora usa para se proteger, vejo uma mulher sofrida, com um coração machucado, mas ainda sensível.
– Jura que o senhor consegue ver tudo isso? Nossa! Eu fico até emocioada. É como se pela primeira vez alguém conseguisse enxergar o meu coração.
– E o que a senhora vê em mim?
– Eu vejo um cavalheiro. Um home fino, educado, estudado, mas que também guarda um coração machucado aí dentro – colocando a mão sobre o peito de Steven.
Os dois trocaram um olhar e Pamela partiu para o ataque, beijando Coronel Shay.
Isabelle, Cris e Mabel chegavam da escola. Os três viram a cena e voltaram para o corredor, fechando a porta.
– Conseguimos! — comemoraram as crianças fazendo a dança da vitória e batendo os quadris umas nas outras.
Coronel Shay interrompeu o beijo. Pamela ficou envergonhada:
– Me perdoe. Eu só sei fazer tudo errado mesmo. Esquece o que aconteceu. Nem tenho mais coragem de olhar pra cara do senhor – disse ela, saindo apressada do apartamento antes mesmo que ele pudesse esboçar uma reação.
As crianças tentaram falar com Pamela, mas tudo que ela disse foi:
– É feio escutar atrás da porta.
Mais tarde, Isabelle fazia os deveres na mesa da cozinha, ao lado dos irmãos, que eram auxiliados pela mãe.
– Mamãe...
– Se tá com dúvida pergunta pro seu pai, já disse que matemática não é comigo.
– Não é dúvida do dever, é dúvida da vida.
Sam riu:
– Tá bom, diga qual a dúvida da sua "longa" vida?
– Não é da minha vida, mas da vida das pessoas. Por que essa coisa de namorar é tão complicado?
– Viver é complicado minha filha e se relacionar mais ainda. Todos nós somos diferentes e só com amor podemos aturar o próximo sem querer matá-lo.
– Entendi. Como você e o papai. Vocês são diferentes e você só não o mata porque o ama.
– Isso aí.
– Mas, você e o papai já brigaram pra valer? Já teve vontade de matá-lo?
– Nós brigamos pra valer e eu tenho vontade de matá-lo desde os 8 anos, mas se depois de 20 anos isso não aconteceu, acho que não vou matá-lo nunca.
– Eu quis dizer, o papai já fez algo que te deixou com raiva de verdade, tipo arrumar uma namorada quando estava com você.
– Se ele fizesse isso já estaria morto.
– Mamãe, vou direto ao ponto, porque sei que você é escorregadia.
– Você é esperta.
– O papai namorou a dinda enquanto estava com você?
– Claro que não! De onde tirou isso? — perguntou Sam, nervosa.
– Eu vi na internet. Creddie aconteceu. Tenho provas. Eu vi uma foto deles se beijando, postada por um fã.
– Deve ser montagem.
– Eu conheço montagens, até faço algumas e garanto que essa não era.
– Tá bom, vou te contar. Carly namorou seu pai antes de mim. Eles deveriam ter algo em torno de 15 anos. Eu namorei seu pai quando tínhamos 16 anos. Na verdade, Creddie existiu por muito pouco tempo. Tudo começou quando seu pai se jogou na frente de um caminhão de tacos pra salvar a vida da sua madrinha. Ela ficou tão grata que pensou estar apaixonada por ele. Mas, esse romance nem durou um mês.
– O papai pensou que era super-herói? — perguntou Nicolas.
– Vai saber o que deu naquela cabeça de nerd. Mas, acho que não foi isso. Ele era completamente apaixonado pela Carly naquela época e fez isso por amor.
– Ele não gostava de você mamãe? — quis saber Eddie.
– Não. A gente ainda se odiava naquela época. Nenhum dos dois imaginava que um ano depois estaríamos muito apaixonados.
– E quando foi que ele percebeu que não gostava mais da dinda, mas que gostava de você? — perguntou Isabelle.
– Não sei ao certo. Acho que foi quando eu demonstrei meus sentimentos a ele durante o "viradão" do colégio. Mas, não tenho muita certeza.
– E o papai nunca mais namorou a dinda?
– Isso é um interrogatório. Termine seu dever Isabelle. Não quero mais assinar anotações na sua agenda.
– Por que não me responde? Se não me responde é porque sim.
– A resposta é não. Agora, continua estudando – colocando o caderno à frente da filha.
Freddie chegou tarde da faculdade e encontrou Sam acordada, perguntando:
– Ainda não dormiu, amor?
– Tô sem sono.
– O que a está preocupando?
– Nada.
– Eu te conheço – sentando-se na cama ao lado dela.
– Freddie, quando foi que você deixou de amar a Carly e começou a me amar, sem dúvidas, sem se sentir dividido?
– Desde que começamos a namorar, aos 16 anos. Pensei que soubesse.
– Você voltou a correr atrás dela depois que terminamos, você a beijou no dia que ela foi pra Itália e vocês foram pra cama quando nós brigamos já casados. Além disso, você se atirou na frente de um caminhão para salvar a vida dela. Você quase deu a sua vida pela dela.
– Sam, isso já faz muito tempo. Pra que ficar remoendo isso? Você sabe que eu daria a minha vida por você sem pensar duas vezes. Você é a única mulher que eu amo e mais nada tem importância. Deixa o passado no passado e nunca duvide do meu amor.
Freddie chegou mais perto de Sam e a beijou.
No dia seguinte, Pamela terminava de se arrumar para um novo trabalho de ajudante de cabelereira que havia arrumado, quando ouviu a campainha.
– Isso não é hora de bater na porta dos outros! — gritou ela, pouco antes de abrir a porta contrariada – Coronel Shay?! O que o senhor faz aqui?
Enquanto isso, no Bushwell Plaza. Isabelle observava a Melanie pintando as unhas de Mabel. A mãe havia vindo visitar a filha rapidamente. Então, teve uma ideia, fazendo a pergunta de supetão:
– Tia Melanie, você sabe alguma coisa do namoro do meu pai com a minha madrinha?
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