Sedative
8 Capítulo 8
Notas iniciais

Roxanne deixou Pierre, Fréderic e a pequena Amandine sumirem pela lareira após saírem utilizando pó de flu. Para os filhos deu a desculpa de que precisava visitar o tio Lucius, para o marido nada mais foi dito, já que ele, mais do que qualquer pessoa depois dela, sabia o que estava acontecendo e os impactos que causaria se tentasse impedi-la, um beco sem saída.
Subiu as escadas para seu quarto, olhou para o jardim florido com as paredes do quintal cobertas por trepadeiras e forçou um sorriso pensando: “A culpa não foi sua.”. Pegou a foto do bolso de seu casaco de lã e a colocou no espelho, para que pudesse ficar observando-a enquanto trocava de roupa. Abriu o guarda-roupa meticulosamente organizado procurando o que vestir. Pensou em todas as cores possíveis que poderia ir a um cemitério, menos preto, que na sua concepção era uma cor triste e melancólica demais e na sua mente, se Sirius a pudesse ver, a última coisa que ele gostaria era que seus últimos momentos “juntos” fossem marcados por cores e sentimentos mórbidos, por mais mórbida que fosse a situação. Pegou um vestido vermelho com rendas e um casaco também vermelho, não sabia por quê. A garota lutava contra si mesma sobre chorar enquanto via um Sirius sorrindente olhando para ela. Agora desejava que tivessem tirado mais fotos ou até mesmo comprado uma casa, quem sabe. Ela pensava que eles poderiam ter tido lindos filhos como Fréderic e Amandine correndo pela casa de manhã, onde acordaria e veria o preto dos cabelos de Sirius todo dia e como eles brigariam pela mania indiscreta do garoto de fumar. Após os devaneios invonluntários sobre um futuro que agora, mais do que nunca, se tornara passado, procurou um par de sapatos, colocou o casaco sobretudo por cima do vestido e guardou sua varinha em um dos bolsos internos, junto com a foto que tirara cuidadosamente do espelho. Olhou-se uma última vez e aparatou, sentindo a mesma sensação desagradável de sempre que parecia que nunca iria se acostumar. Não demorou mais do que alguns minutos para chegar ao local desejado e pelo ar úmido que inspirou quando sentiu seus pés tocarem no chão, sabia que estava na Inglaterra. Toda a sua lógica a levou para Godric's Hollow porque já que Sirius não se dava tão bem com sua família, não existiria melhor lugar para enterra-lo do que do lado de seus melhores amigos James e Lilyan. Andou por entre os túmulos no lugar vazio e mal iluminado por causa das árvores que cobriam quase tudo, não sabendo exatamente aonde estavam os túmulos dos amigos, já que fazia muitos anos desde a última vez que estivera ali. Procurou em quase toda a extensão do cemitério mas não achou nada ligado a Sirius, porém achou o de Lilyan e de James. Ajoelhou-se em frente, puxou sua varinha de dentro do casaco e conjurou uma coroa de flores em cada um dos túmulos.
– Eu sinto a falta de vocês. — dizia Roxanne em uma conversa íntima com as memórias dos amigos. — Eu não deveria ter ido embora, tudo poderia ter sido diferente, não é? Talvez vocês... Ele não estaria morto agora. Vocês tiveram um belo filho. Harry é um menino lindo, não o vejo desde que vocês se foram. Não acredito que ele estaja mentindo sobre a volta de Voldemort. Ele tem sua coragem, James, tem que se orgulhar disso. Por sorte ele não pegou os seus cabelos vermelhos, não é mesmo Evans? Sinto falta das tardes que passavamos estudando em Hogwarts, tornou tudo muito mais fácil. Você tinha uma mente brilhante e isso nunca pode ser tirado de você, mesmo em memória. — Roxanne olhou para trás ao escutar o barulho de um galho sendo quebrado. Colocou a varinha em mãos e esperou por quem estivesse ali. Ao se aproximar avistou uma garota com uma cor de cabelo muito estranha e um sobretudo marrom, indo naquela direção. A mesma olhou com olhar estranho para Roxanne a cada vez que se aproximava do túmulo dos Potter.
– Posso ajudar? — perguntou desconfiada, colocando a mão no bolso e puxando a varinha.
– Eu não pegaria sua varinha se fosse você. — Roxie respondeu.
– Então você é uma bruxa. Como vou saber se posso confiar em você?
– Observe: a quanto tempo o túmulo dos Potter não vê uma alma viva e conhecida além do coveiro?
– Justo. Mesmo assim – empunhou a varinha. — prefiro ficar com ela a vista e você nem pense em fazer o mesmo. — continuou quando fez um movimento para levantar a sua. — Questão de segurança.
– Louvável.
– Meu nome é Nymphadora Tonks e você é...
– Roxanne... Roxanne Gauthier.
– De onde você conhece os James e Lilyan?
– Estudamos juntos em Hogwarts antes de me mudar para a França. Eu era da Sonserina mas éramos bons amigos... Seu segundo nome não me é estranho... Você é alguma coisa de Ted Tonks, uma parente talvez? Lembro dele quando namorava com Andrômeda em Hogwarts.
– Na verdade, eles são meus pais.
– Ora, é realmente um mundo muito pequeno. Meu irmão se casou com Narcisa, irmã de Andrômeda.
– Você é uma Malfoy? Esse é realmente um motivo pra começar a desconfiar de você.
– Não me considero mais uma Malfoy já faz 18 anos. Não falo com Lucius a não ser por obrigação. Não faço a menor questão de fazer parte dos planos dele e muito menos de seguir os seus ideais. Algo em comum que sempre tivemos foi isso: diferença de opinião. — deu uma pausa. — Se me permite perguntar... Já que você é uma parte Black, então por favor, poderia me dar notícias de Sirius Black?
– Isso não é querer informações demais? — olhou para Roxanne que a olhava fixamente quando tirou a foto do bolso do casaco e entregou para Tonks.
– Veja.
Ao tomar as fotos em mãos e olhar o casal sorrindo, Tonks pode finalmente perceber que Roxanne não era bem a ameaça que procurara há minutos atrás. Devolveu a foto para a garota e a respondeu.
– Olha, sinto muito, mas Sirius... Ele está morto...
– Eu sei. — Roxanne falou rápido. — Quero saber onde ele está.
– Você não vai conseguir encontra-lo, Roxanne. Ele foi morto com o Avada Kedavra e seu corpo acabou atravessando um portal em uma sala do Ministério da Magia.
Roxanne não falou mais nada, apenas olhava para a foto em suas mãos, vindo a cabeça todas as memórias que já tivera envolvendo Sirius. Nymphadora também não pronunciou mais nenhuma palavra e um tempo depois sentou-se em um banco próximo aonde Roxie tinha se sentado minutos atrás.
– Vocês devem ter sido felizes juntos. — disse a outra garota quebrando o silêncio. Roxanne limpou uma lágrima que caia do seu olho e deu um sorriso. Lentamente contou a história de como se conheceram e todos os lugares incríveis que ele a mostrou. Contou sobre como era bom tê-lo por perto e como ele a fazia bem nos momentos certos e errados, em como todos diziam que com Roxie ele nunca havia sido tão feliz. Logo após a narrativa sobre bons momentos, vieram as despedidas indesejaveis de ambas as partes: de como ela não queria ir e como ele não queria que ela fosse embora.
Contou-a também sobre suas teorias e de todos os por quês de ele nunca a ter procurado. Tonks, que ouvia tudo com atenção e fazia perguntas a cada vez que sua curiosidade atacava, fora a primeira a falar depois de Roxanne contar sua história.
– Eu não acho que ele tenha tido outra pessoa, se quer minha opinião. Ele nunca se casou e depois que saiu de Azkaban não quis mais saber disso, estava mais preocupado em fugir do Ministério e estar presente de qualquer forma na vida de Harry. Vão inocenta-lo pelo crime que o colocou na prisão, descobriram a verdade sobre quem realmente atacou os trouxas.
– Diga-me, Nymphadora, você acha que já cometeu muito erros na vida?
– Não gosto de me prender aos erros do passado, sabe? Você deveria fazer o mesmo, se aceita um conselho.
– Veja um resumo desses últimos anos: Sai de Hogwarts, esperei por anos que Sirius me procurasse mas pensando bem, nem eu o procurei e não sei nem o por quê! Casei com um homem por quem eu não era apaixonada...
– Você casou? — perguntou Tonks espantada, interrompendo-a.
– Sim, casei e também tive dois filhos com ele. Aprendi a gostar do meu marido com o tempo porque estava ocupada demais idealizando como seria se Sirius ainda estivesse na minha vida, além de tudo isso, virei uma estilista no mundo trouxa e ainda trabalho auxiliando aurores no Ministério. Tudo isso em beneficio de que? No fundo eu não superei e parece que nem vou superar. Acho que não quero superar porque não estou pronta pra esquece-lo e nem tira-lo da minha vida.
– Mas você não vai estar tirando-o da sua vida, Roxanne. Pense que isso pode ser uma oportunidade que você está dando para o homem com quem você se casou e se você está aqui agora, sem ele, é porque ele gosta tanto de você que prefere te ver feliz fazendo o que quer mesmo que seja envolvendo outro homem do seu passado.
– Pierre era meu melhor amigo quando me mudei para Beuxbatons. Ele sempre esteve do meu lado quando eu passava as tardes me lamentando por ter ido embora e mesmo assim, sabendo o quanto eu amava Sirius, ele ainda ficou do meu lado e me pediu em casamento anos depois. Eu estava com tanto medo de ficar sozinha que acabei aceitando. Não sei se o faço tão feliz como ele esperava que fizesse.
– Me responde mais uma coisa: Você ama Sirius?
– Claro que sim.
– Então em memória a ele, você gostaria que ele te visse sofrendo e chorando por ele? Ele a amava e queria te ver feliz mais do que qualquer coisa. Faça isso por ele, faça por você. A oportunidade que vocês dois perderam não vai voltar e não há uma forma de simplesmente voltar no tempo e mudar tudo que aconteceu. Se dê uma chance. Por ele.
– Como você pode ter tanta certeza do que ele sentia por mim? Nós não nos vimos mais! — Roxanne chorava, deixando as lágrimas correrem livremente pelo seu rosto branco.
– Desde que você me mostrou a foto, eu lembrei que já tinha visto em algum lugar. Quando você me contou da história, pensei já te-la lido alguma vez e percebi que sim, era você de quem Sirius falava em seu “diário”, vamos dizer assim.
– Do que você está falando?
– Eu achei isso na antiga casa da familia, onde ele estava se escondendo. — tirou um caderno com páginas amareladas de dentro do casaco. A capa já estava desgastada tanto quanto suas folhas quando vistas por fora. — Ia dar isso para algum membro da Ordem ou talvez para Harry para que pudesse ter uma lembrança a mais do padrinho – estendeu o pequeno livro de capa preta para ela. — mas percebi que você, mais do que qualquer pessoa, vai fazer melhor uso dessas lembranças. Eu preciso ir agora. Espero que você consiga dar uma chance pra vida. Foi um prazer lhe conhecer. — Tonks se levantou e com um estampito desaparatou, deixando Roxanne sentada olhando perplexa para o que tinha em mãos.
Guardou sua varinha e a foto no bolso do casaco, apertando-o para si com o objetivo de diminuir a intensidade do vento frio que batia nela. Abriu o pequeno caderno, onde pode ver na primeira página seu nome escrito na sua caligrafia desajeitada. Passou os dedos por todas as páginas e absorveu o que pode das primeiras folhas. Folheando sem muita calma, pousou seus olhos em uma foto colada no canto de uma das páginas e percebeu que era a mesma que tinha no bolso. “Ele gurdou.”, pensara ela. Voltou a chorar novamente quando lia cada palavra do que Sirius colocou, descrevendo as sensações do primeiro encontro de verdade dos dois e em como ele estava certo de que ela era a garota para ele. No dia que ela partiu não havia muita coisa escrita e nem nos dias que se seguiram. Por um bom tempo via-se que ele não havia mais tocado em seu nome e não o fez para mais ninguém, porém, por sorte, ele estava de volta falando em como seus dias tinham se tornado vazios após sua ida. Tinha estendido seu vício com o cigarro e adquirido mais um à sua lista: as bebidas, mas infelizmente nem elas tinham o efeito de cura sobre a memória que permanecia de Roxanne.
A última página fora escrita logo antes dele ser levado para Azkaban e logo depois disso o diário se tornou vazio, sem histórias para contar dali para frente.
“Essa é a última vez que escreverei sobre Roxanne Malfoy ou sobre qualquer outra coisa. Tenho certeza de que não me resta muito tempo até os dementadores me levarem a Azkaban por um engano. James e Lilyan estão mortos e é uma dor que não posso compensar com nada em vida, não tenho mais motivos para querer estar vivo: Voldemort venceu. Harry está vivo, ele é a esperança por dias melhores, o garoto que sobreviveu.
Agora estou escondido na antiga casa dos Black antes de partir em fuga. Gostaria de poder finalmente levar Roxanne comigo mas sei das ameaças que me foram feitas, não que eu realmente me importe com coisas que poderiam acontecer comigo mas vê-la sendo machucada por minha causa é algo que eu não conseguiria suportar, portanto deixo-a livre, livre para encontrar alguém que dê todo o amor que ela merece e que eu não pude estar presente para dar. Espero que ela se apaixone por alguém que a faça feliz e que a leve para comer doces, porque ela realmente se importa com isso.
Sua imagem me confortará enquanto estiver preso em Azkaban e tenho a esperança de que se um dia sair vivo, pretendo reencontra-la e explicar o motivo da minha ausência.
Desde que ela se foi, não consegui ser feliz com mais nenhuma mulher em toda a Hogwarts e também não conheci nenhuma outra que pudesse me oferecer metade da sensação de felicidade que ela me dava. Provavelmente não vou amar mais ninguém na vida, porque no fundo sei que ela é a pessoa certa e se eu não posso ficar com ela e desfrutar de um futuro com quem eu amo, não desejo passar o restante da vida com mais ninguém.
Para Roxanne desejo toda a felicidade do mundo e as mais agradaveis memórias que eu puder trazer para ela nas noites mais frias que a abaterem, como suas luvas me fizeram nos últimos dois anos, quando verde se fez a minha cor favorita.”
Lágrimas caíram mais ainda quando terminou de ler o que estava escrito. Abraçou-o como se fosse o próprio Sirius, falando para si mesmo o quanto seria feliz, mas seria feliz porque ele a amava e vice-versa. Como Tonks havia dito, era preciso seguir, mas em memória de todo o amor que sentia por Sirius. Sentia a obrigação de ser e fazer a felicidade acontecer, porque se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida.
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