Secrets & Lies (‘The Orphan’ – Season 4)
61 Capítulo 60 – Always, princess... Always!
Notas iniciais

“Sempre, princesa... Sempre!”
– NARRAÇÃO -
Violet sentia seu corpo todo doer e garganta seca, como se tivesse andado no deserto por meses sem alimento ou água. A realidade a atingia com força e Sophie havia lhe dito o que aconteceu e ela não fazia ideia de como estava aguentando tudo aquilo. Quando tentou abrir os olhos uma claridade absurda os fez fechar e logo passou a sentir algo quente em sua mão esquerda. Novamente tentou abri-los e, após acostumar-se com a claridade, percebeu fios dourados à sua frente e pensou que Sophie havia voltado com mais más notícias, mas surpreendeu-se ao encontrar Narcissa Malfoy segurando sua mão e...chorando?
– Sra. Malfoy? – perguntou roucamente.
– Ah Violet, que bom que acordou... – respondeu ela sorrindo e limpando as lágrimas. – Seu padrinho saiu há algumas horas para ajudar o Ministério e seu irmão passou a noite aqui... Admirável, de qualquer forma.
– O que... O que a senhora faz aqui? Pensei... Pensei que tivesse ido embora... Com a sua família.
– Meu marido foi embora... De outra forma. – disse melancolicamente – E meus filhos estão no castelo, dormindo... Lizzie viu muita coisa e Draco passou por muita coisa. E eu... Bem, estou em pé. – sorriu tristemente — Sabe, Eileen Prince é mais forte do que pensávamos. – riu acariciando os dedos da menina, que sabia exatamente o motivo para ela fazer isso. – Ela se sacrificou por você, mas sobreviveu. Está em um dos quartos do hospital, se recuperando... Quase não acredito que ela está de volta, digo... A última vez que a vi eu era apenas uma criança! E agora temos quase a mesma idade, é tão... Surreal.
– Ao menos alguém da minha família sobreviveu... – repetiu fechando os olhos e sorrindo involuntariamente.
– Eu sinto muito Violet, sobre Severo ter... Você sabe. – falou em tom baixo, quase um sussurro – Éramos grandes amigos e eu ainda não acredito que nunca mais... Nunca... Ahh é tão difícil...
– Sabe, Bellatrix me disse, depois de devolver minhas memórias, que ele continua vivo... Que deveria ouvi-lo...
– Bella devolveu... Suas memórias?
– Tudo. – respondeu sorrindo para a mulher surpresa – Minha infância não foi solitária e triste como eu pensei... Vocês estiveram lá esse tempo todo não é? Tia Cissa...
– Oh Violet, não sabe o quanto eu fico feliz em saber disso! – sorriu apertando-lhe a mão e acariciando os fios negros no rosto da menina. – Mas o que ela disse sobre Severo... Eu sinto muito, mas não o vi em momento algum na guerra... Ele não estava lá.
– Sim, eu sei... Sophie me disse o mesmo... Mas pode ser verdade! Digo... Voldemort afirmou que ele está morto, mas então os Pendragon apareceram e com eles todos os comensais que um dia morreram voltaram! Eu não o vi em lugar nenhum então, talvez, ele nunca tenha ido. Talvez Bellatrix soubesse que...
– Ei, ei... calma... Eu quero muito vê-lo novamente, mas não temos mais que suposições Violet... Não quero que tenha falsas esperanças e no fim descubra que...
– Eu só queria poder ter falado com ele uma última vez... – comentou ela não controlando as lágrimas que insistiam em cair. – Sei o que ele fez mas... Eu não... Não consigo...
– Srta. Black! – chamou uma voz esganiçada aparecendo subitamente ao lado da cama. — Monstro fica feliz que a senhorita esteja bem... Monstro precisa que a Srta. Black venha comigo, precisa leva-la até ele antes que seja tarde!
– Do que está falando?
– Madame Lestrange deixou ordens para que Monstro levasse a Srta. Black para casa antes que o sol se ponha, para que possa vê-lo... Ele está te esperando...
– Ele quem?
– Seu pai, é claro. – respondeu o elfo rapidamente.
– Meu pai... Está vivo?
– Sim Srta. Black.
– Então vamos logo! – disse ela tentando se levantar, porém, ainda estava fraca demais.
– Violet...
– Eu vou. – rebateu instantaneamente.
– Eu ia dizer que vou com você... – interrompeu Narcissa ajudando-a a se levantar. – Não ficará sozinha. Monstro? – chamou estendendo a mão e, no segundo seguinte, os três viram-se na sala de uma casa, os móveis antigos ainda intactos e as janelas fechadas.
– Eu conheço esse lugar... – disse Violet reconhecendo a escada, o tapete persa e as almofadas fofinhas que costumava abraçar quando era pequena. Tudo era exatamente igual! – Eu morei aqui?
– Srta. Black, ele a está esperando... Ele...
– Tudo bem Monstro, eu a levo. – interrompeu Narcissa ajudando a garota a subir as escadas lentamente.
Cada degrau deixava Violet mais nervosa e ansiosa, mais próxima do homem que lhe fez tão bem, mas também tanto mal... Ela esperava encontra-lo vivo, sentado em uma poltrona e talvez lendo algum livro como sempre fazia, mas ao abrir a porta a realidade a pegou de surpresa e prendeu sua voz.
Ali, sobre a cama com lençóis brancos manchados de sangue, estava um homem de vestes negras, os botões da camisa abertos e o pescoço envolvido por faixas. Seu rosto parecia extremamente cansado, a pele ainda mais pálida que de costume e grandes olheiras sob os olhos cerrados. Violet não aguentou a visão e escondeu o rosto em Narcissa, que abraçou-a fortemente e não impediu que lágrimas grossas caíssem por seus olhos cristalinos. Aquele era o seu melhor amigo e estava obviamente morrendo...
– Sev? – murmurou preocupada para o homem, que com muita dificuldade abriu os olhos opacos.
– Cissa... – sussurrou, a voz tão fraca quanto seu corpo, porém, ao ver a garota de cabelos negros ao lado de sua amiga, chorou. Bella cumprira a promessa, afinal. – Violet?
A garota já não conseguia esconder-se e ouvir aquela voz tão debilitada cortou seu coração rasgando-lhe a alma. Quando olhou de volta, deixou suas lágrimas correrem livremente e lutou contra um soluço. Merlin, como ele parecia mal!
– Pai... – respondeu aproximando-se e sentando na cama lentamente. – O que... O que aconteceu?
– Voldemort... – disse reunindo suas forças, ele estava fraco sim, mas não poderia ir embora sem antes falar com ela. – Ele... Ele tentou... Nagini... – disse apontando para o ferimento no pescoço.
– Como... Como sobreviveu? – perguntou sentindo dedos frios alcançarem os seus enquanto Narcissa abafava o choro com as mãos.
– Bellatrix apareceu... – tossiu – Ela... Ela tinha uma poção... revitalizadora, que eu criei, e me deu... Não pode curar, mas retarda...os efeitos do veneno... Ela me prometeu que você viria, e estou feliz por ter cumprido a promessa... Eu não poderia ir sem dizer a verdade...
– Que verdade?
– A que eu sempre te amei Violet... – confessou, os olhos úmidos e o coração apertado. Ele não teria muito tempo e, respirando fundo, continuou. – Nunca, por um momento sequer, deixei de pensar em você, de amá-la... Eu não queria machuca-la tanto. mas de qual outra forma você me odiaria a ponto de não desejar ser como eu? De uma maneira torta, era o meu jeito de te manter longe... Segura.
– Mas...
– Shhh, me deixa falar... – pediu fechando os olhos para evitar o grunhido de dor que sentiu – Você não faz ideia do quanto sofri Violet... Do quanto eu me segurei para não voltar naquela noite e te abraçar, dizer o quanto a amava! Seu rosto nunca saiu de meus pensamentos e seus olhos me perseguiam todos os dias... E doía tanto! Eu nunca, nunca, desejei algo ruim para você filha, nunca... Preciso... que acredite... que aquelas palavras foram... as piores mentidas que contei em toda a minha vida...
– Pai...
– Você é tudo que sempre quis princesa, mesmo que inconscientemente... – interrompeu, se parasse não conseguiria continuar — Eu sabia que era minha filha no momento em que a vi entrar em Hogwarts, mas fui idiota e orgulhoso o bastante para não admitir... Eu já havia me conformado a perder e não queria mais alguém em minha vida. Alguém para magoar. – murmurou – Mas como eu poderia ficar longe de você? Como alguém pode te odiar Violet? Você é a minha pequena luz na escuridão, a única razão para que eu desejasse acordar todos os dias. – sorriu debilmente — Por favor, nunca duvide disso... eu a amo de todas as formas possíveis e só a queria segura, protegida do que eu era. Você é a minha princesa e comandava meu mundo de um jeito insano... Talvez tivesse outra maneira de fazer a coisas, mas minha filha está viva, a guerra acabou, você venceu... E eu não sou mais necessário...
– Não, não, por favor, não diga isso... – interrompeu balançando a cabeça repetidas vezes, as lágrimas escorrendo cada vez mais rápido – Você não pode ir, não pode... Não de novo. Precisa ficar!
– Sabe que não posso... – respondeu com outro aperto no peito. – Está chegando minha hora Violet, e estou feliz que esteja bem... – sussurrou sem forças, erguendo uma das mãos para acariciar o rosto da filha carinhosamente. – Você é tão linda... Especial... Eu não consigo acreditar que ganhei um presente tão maravilhoso, mesmo com todas as coisas ruins que fiz... – seu braço caiu nesse instante e pousou sobre a mão da garota. – Sabe que eu a amo, não sabe?
Violet assentiu tristemente e, antes que Snape pudesse continuar, o interrompeu.
– Você me destruiu aquela noite, eu fiquei tão...quebrada...perdida... – confessou – E por mais que eu estivesse determinada a te odiar, o que eu fiz, eu não consegui apagar todas as coisas boas... Não consegui ser eu mesma porque me faltavam pedaços... Pedaços que eu nunca esqueci. Eu te odeio Severo Snape, por ser tão teimoso! No fundo tudo que eu queria era que você se virasse naquela noite e abrisse os braços, dissesse que tudo ficaria bem e que mentiu sobre todas aquelas palavras ruins! – choramingou – Mas você não fez isso e eu não pude fazer nada enquanto ficávamos cada vez mais longe...
– Eu sinto tanto! – respondeu com a mesma intensidade. Narcissa, que apenas observava, não continha suas lágrimas quando encostou-se à parede e fechou os olhos, deixando que seu rosto ficasse marcado pelas gotículas cristalinas. – Eu te amo tanto...
– Eu tentei te matar...
– Não importa Violet, nada mais importa! Eu comecei a te amar no momento em que descobri que tinha uma filha, e isso nunca vai mudar, mesmo eu não estando aqui e...
– Não! – negou firmemente – Eu já perdi muito nessa guerra! Alessa está em coma pai, a Mary era uma espiã de Voldemort e está morta! Muitas pessoas que eu amo foram embora, não pode ir também... Eu preciso de você!
– Eu nunca te deixarei princesa, sempre estarei aqui... No seu coração. – garantiu encarando-a, porém, sentia-se mais fraco a cada palavra, já não tinha forças para erguer sua mão, por exemplo, e sabia que poucos minutos lhe restavam, talvez segundos. – Não fique assim, por favor... Sei que Alastor vai cuidar de você como eu faria, e sei também que ficará bem... Não, não chore... – pediu quando Violet passou a soluçar e deitou sua cabeça no peito do pai, que usou suas últimas forças para abraça-la como desejou por tanto tempo. Como era bom tê-la nos braços novamente! – Cissa... – estendeu o braço livre da direção da loira, que segurou-lhe a mão firmemente.
– Sev não...
– Você foi minha melhor amiga, e não sabe o quanto eu aprecio isso, o quanto lhe agradeço por ter estado presente não apenas no colégio, mas na vida dela também. – sussurrou, Violet chorava com mais intensidade e ele não aguentava mais vê-la sofrer – Vocês a criaram muito bem... – sorriu. – Aquela promessa...
– É claro que vou cumprir! Ainda tem dúvidas? – murmurou tentando sorrir.
– Obrigado Cissa...
– Não, você não vai morrer, não vai! – negou Violet apertando com as mãos a camisa negra do pai. – Eu te perdoo... Por favor, fique... Eu te amo!
– Me perdoa? Depois de... tudo...que eu fiz...
– Sempre. – assentiu.
– Sempre, princesa... – repetiu num sussurro, certo de cada mísera palavra. – Sempre!
Severo Snape estava feliz, apesar de tudo, e foi com esse sentimento que deixou sua mão cair sobre a coberta. Narcissa fechou os olhos, em parte aliviada por seu grande amigo finalmente estar livre, mas também destruída por vê-lo partir.
Violet, entretanto, agarrou-se ainda mais, como se fosse possível, ao corpo do pai. Gritou, chorou, implorou... Quando olhou para cima, procurando encontrar os olhos negros brilhantes, viu apenas as pálpebras fechadas e a expressão serena.
– Não... Não por favor, não faz isso comigo... – pediu – Não, não, não, não, não, não...
– Violet... – tentou Narcissa aproximando-se.
– Ele não pode ir... – repetiu, as lágrimas caindo furiosamente, um buraco se abrindo no peito e um abismo mostrando-se à sua frente. – Ele vai acordar... Tem que acordar! Vamos pai, abra os olhos... Por favor... – pediu novamente encarando o professor. Os olhos cerrados. – Não! – exclamou furiosamente batendo os punhos no peito do homem, que já não sentia ou ouvia os apelos desesperados da filha.
– Ele se foi! – exclamou tristemente tentando afastá-la do corpo, com sucesso, pois Violet deixou o quarto violentamente e deixou-se escorregar pela parede do corredor até o chão, onde Narcissa a acompanhou logo em seguida.
Violet estava destroçada por dentro e suas lágrimas mostravam isso. Enquanto a garota gritava para que Snape voltasse, tudo que Narcissa pode pensar era em como a guerra havia afetado tantas famílias... Bella e Lucio estavam mortos... Draco perdera um grande amor e certamente iria para Azkaban, assim como ela mesma, que não teria perdão por simpatizar e ajudar o Lord das Trevas. Lizzie ficaria sozinha, sem ninguém a recorrer... E não poderia cumprir a promessa feita ao amigo de cuidar da sobrinha.
A garota tinha os padrinhos, é claro, mas o pai era a pessoa que ela mais amou na vida... Seu grande exemplo e muitas vezes herói... O homem que idealizava e que sonhava um dia morrer de velhice, ao lado dos netos e discutindo alguma besteira com Alastor. Violet não podia aceitar que o maior amor de sua vida estava morto e que nunca mais veria aqueles olhos negros a encarando furtivamente... Ou os braços ao seu redor, suas carícias paternais e nem mesmo as palavras de carinho. Era a última vez que o ouvira chama-la de princesa... Merlin, como ela sentiria falta!
– Violet... – pediu Narcissa, porém, Violet virou-se rapidamente e enterrou-se nos braços da loira, que a recebeu com prazer e apertou-a o mais que pode. – Ele está em paz agora... Nunca mais sofrerá...
– Mas quem está sofrendo agora sou eu... – sussurrou soluçando.
– Eu sei... Eu sei o quanto dói Violet... Sei o buraco que se abriu em seu peito e que nunca irá curar, mas o tempo faz milagres e, com ele, a situação ficará menos desconfortável até que, um dia, vai entender que já era a hora dele e que Sev precisou ir... Você vai sofrer, e eu também, mas não será tão difícil para sempre...
Severo estava morto, mas Violet e Narcissa ainda choravam abraçadas e não faziam ideia de quanto tempo permaneceram assim. Em determinado momento, entretanto, as lágrimas finalmente secaram e tudo que restou foi o silêncio.
– Monstro sente pela perda, Srta. Black... – pronunciou-se o elfo timidamente.
– Essa não é uma boa hora Monstro. – disse Narcissa.
– Senhora, por favor, Monstro precisa entregar isso... – insistiu colocando um envelope pardo no chão à frente da menina, que o observou descer a escada lentamente até desaparecer.
Fale com o autor