Secrets & Lies (‘The Orphan’ – Season 4)
44 Capítulo 43 – Lost
Notas iniciais
CAPÍTULO 43 – LOST
“Perdida”
– VIOLET – SETEMBRO DE 1997 —
Como uma pessoa pode gostar tanto de rosa?
Tudo ao meu redor era cor de rosa. As paredes. Os tapetes. Os quadros de gatos fofinhos miando. A roupa da mulher loira com cara de sapo.
– A senhorita vai escrever umas frases para mim hoje Srta. Snape, mas não com a sua pena, e sim uma especial que eu tenho... – sorriu Umbridge cinicamente entregando-me uma pena negra – Vai escrever “não devo contar mentiras”.
– Quantas vezes? – falei com indiferença.
– Digamos que o suficiente para a mensagem penetrar... – disse ao meu lado.
– Mas a senhora não me deu tinta...
– Não precisa de tinta. – respondeu dando-me às costas.
Assim que a pena encostou cortante em minha pele, minha visão ficou repentinamente embaçada e tudo ao meu redor girou. Eu estava confusa, minha mão ardia e senti lágrimas escorrendo por meu rosto.
– Você está um pouco lenta hoje hein? – brincou — O que eu quis dizer é que... Bom, você é diferente... – tentou explicar – Digo, você é uma das poucas garotas que não me amam, idolatram ou sentem medo... Você é...indiferente. Quando soube da Lizzie, mesmo me odiando, guardou segredo... Você soube ouvir e soube o que falar também. Mesmo sendo mestiça conseguiu passar por cima dos preconceitos e está aqui, na sonserina... Tem amigos em todas as casas e, apesar do que pensa, os outros alunos te respeitam...
– Eu não te odeio Draco, só não concordo com suas atitudes... – falei – Mas aonde quer chegar? – perguntei encarando-o
– Eu... Eu proponho um novo começo. Uma...digamos que uma... ‘segunda chance’...
Draco Malfoy encarava-me com uma expressão ansiosa, como se esperasse algo de mim. Vi algo diferente em seus olhos aquela noite, algo sincero... Mas então tudo mudou. A cozinha iluminada transformou-se num lugar escurecido pela noite, Dumbledore apareceu parado em frente ao loiro e este empunhava sua varinha na direção do diretor.
– Não era para a Violet ser atingida... – disse com remorso – Foi um acidente e eu consegui evitar algo pior.
– Sim, você conseguiu. – concordou Dumbledore – Você a salvou várias vezes, Draco...
– Ela nunca foi meu alvo! – exclamou o garoto soltando lágrimas desesperadas, não muito diferente de mim – Eu nunca a machucaria!
– Eu tenho certeza que não. Como eu disse, você não é um assassino... Só está do lado errado.
– Não existe lado errado.
– Mas eu tenho estado de olho em você Draco... Severo tem feito isso para mim.
– Ele é um agente duplo seu velho idiota! – exclamou Draco – É um comensal!
E então um abraço quente me envolveu. Olhei para cima e vi que era meu pai que me abraçava, pedia desculpas...
– Severo, por favor... – disse o diretor, implorando pela primeira vez naquela noite.
– Avada Kedavra!
– Ele confiou em você! Eu confiei em você! Eu confiei em você e esse tempo todo mentiu para mim! (...)Você nunca me amou não é? – perguntei com os olhos azuis marejados.
– Não. Você tem razão, por minha culpa sua mãe está morta. Eu matei Dumbledore porque era necessário, e um dia vai entender... Você não é parecida comigo Violet, e espero que nunca seja.
*** Por que não poupa tempo e se junta à nós? Seria muito bem recebida, teria seu pai e sua mãe juntos, ambos te amariam sem reservas e seriam felizes... Você seria feliz! Não é mentira e sabe disso. Dumbledore está morto... Nada mais me impede de destruir o mundo bruxo e acabar com a escória dos sangues ruins. Junte-se ao lado vencedor Violet, basta vir até mim! Basta dizer sim! ***
– NÃO!
E então eu desabei. Senti minhas pernas fraquearem e meus joelhos colidirem com o chão. Fechei os olhos na tentativa de conter a dor que se alastrava em meu peito, mas tudo que senti foi um vento frio cortante. Cheiro de grama úmida. Abri os olhos e novamente me vi perdida na Floresta Proibida, à noite.
Por que tudo de ruim acontece à noite?
Senti um calafrio me envolver e a sensação de medo e desespero voltou.
– Eu sinto seu cheiro, sei que está aqui... – falou com a voz excitada – Prometo que não doerá... – riu lambendo os beiços.
Virei meu rosto na direção da voz e quase não acreditei no que vi.
Morgana Pendragon estava à minha frente, com roupas negras e uma capa. Olhos amarelados. Então corri. Corri o mais rápido que pude e tentei me esconder, mas no meio do caminho tropecei num galho e rolei num pequeno morro, caindo na terra úmida e suja logo em seguida. Morgana desceu calmamente, encarando-me com um olhar excitado de caçador que acaba de capturar a presa.
Mas eu era isso, não era? Uma presa facilmente abatida, sozinha na floresta à noite, longe de tudo e de todos, caída no chão à mercê de uma Comensal da Morte cruel e traiçoeira.
– Você foi uma garota muito má Violet... E merece um castigo... – sorriu antes de se ajoelhar ao meu lado com um sorriso diabólico.
Tentei me soltar e correr, mas suas mãos já rodeavam meu pescoço e apertavam. Senti meus pulmões reclamarem, implorarem por ar. Eu já não conseguia respirar e me sentia cada vez mais fraca... Os olhos amarelos ainda na minha cabeça, impregnados na minha mente...
– NARRAÇÃO – SETEMBRO DE 1997 -
Uma terrível tempestade caía naquela noite, mas Alessa e Mary dormiam tranquilamente. Violet, porém, mexia-se convulsamente em sua cama. Seu corpo arqueava e seu rosto já estava ficando roxo. Ela não conseguia respirar ou mesmo acordar para pedir ajuda.
Vitor, por outro lado, acabou acordando com o barulho de um dos trovões e ouviu gemidos no quarto ao lado. O quarto dela. Levantou-se rapidamente e correu até ela, e assim que abriu a porta, viu a garota convulsionando, pálida e levemente arroxeada. Lágrimas caiam de seus olhos e, aparentemente, estava tendo pesadelos.
Tentou acordá-la inúmeras vezes, e apenas quando gritou Violet abriu os olhos azuis e tentou inspirar, assustada. Suas pupilas estavam contraídas, o pescoço com as veias saltadas. Seu corpo tremia e sua pele suava com o esforço. Violet não conseguia respirar e estava ficando cada vez mais fraca e desesperada, com medo.
Vitor então sacou a varinha e apontou para o peito da garota.
– Enervate!
Violet recebeu o impacto com alívio e tossiu imediatamente, pondo para fora o que a estava travando a garganta.
– Oh Merlin... – sussurrou ele.
Violet tossiu mais forte dessa vez até que finalmente conseguiu respirar. O ar invadiu seus pulmões e um alívio tremendo a preencheu. A garota ainda encarava o teto quando sentiu suas forças se esvaírem e seus olhos fecharem-se.
– Violet? – chamou Vitor preocupado – Violet!
Nada. Violet dormia, agora tranquilamente, e sem sonhos.
Vitor estava preocupado, é claro, mas resolveu não acordá-la. Não sabia o que fazer e não sabia o que estava acontecendo. Vê-la daquele jeito mexeu com seu peito de tal forma que ele não conseguiria encará-la enquanto estivesse desmaiada ao lado de uma pequena poça de sangue. Saiu do quarto imediatamente e foi até o banheiro improvisado, tomando um longo banho gelado para esquecer aquela visão.
Violet, por sua vez, voltou a sonhar. Imagens desconexas apareciam em sua mente, vozes desconhecidas e até mesmo pessoas que nunca havia visto antes. Sentiu algo ruim em seu peito e novamente a falta de ar. Debateu-se inconscientemente e logo abriu os olhos, as pupilas ainda contraídas e perdidas.
Dessa vez, porém, ela não tinha consciência de quem era ou de onde estava, mas sentia-se assustada e instável. Outro trovão rompeu os céus, Violet assustou-se e correu. Tentou fugir do barulho, mas ele parecia persegui-la... Vitor ouviu seus passos e correu até ela, vendo-a encurralada em uma das paredes, segurando os cabelos desesperadamente.
Violet não havia percebido que Vitor estava por perto. A tempestade ficava cada vez mais forte e a água batia com força na portinhola de madeira ao lado da garota. Quando Vitor finalmente encostou no braço dela, Violet reagiu instintivamente e o empurrou com as mãos. Por estar extremamente instável, sua magia estava à flor da pele e Vitor foi parar do outro lado do salão, onde colidiu na parede e desmaiou. Violet não percebeu o que fez e não se importou com nada. Por fim, sentou-se no chão e encostou-se à parede, abraçando as pernas desesperadamente e fechando os olhos.
O quarto estava escuro e Violet via apenas um pequeno fragmento de luz que passava pelo vão da porta entreaberta. Duas pessoas aparentemente discutiam no quarto ao lado e, vencida pela curiosidade, caminhou silenciosamente até a porta.
– Isso não pode ser verdade! – exclamou um homem loiro de costas para onde Violet estava.
– Ele mesmo me procurou e falou com todas as letras que alguém está atrás das Horcruxes, e você sabe o que isso significa... – rebateu uma mulher já na meia idade, provavelmente na casa dos cinquenta ou sessenta anos, cabelos grisalhos até os ombros e olhos castanhos. – Me pergunto se morar em uma cidade desconhecida da Europa é o suficiente para nos manter seguros...
– Pois eles que venham. – respondeu o rapaz – Ninguém pegará o medalhão enquanto eu estiver vivo... – garantiu.
– Medalhão? – sussurrou surpresa dando um passo para trás, porém, trombou com uma mesa e o barulho da madeira raspando no chão preencheu o quarto. A discussão cessou e a garota torcia para que ninguém tivesse ouvido. Outro passo para trás, virou-se, segura de não terem percebido sua presença, mas um par de olhos negros a encarou na escuridão e um grito apavorado rompeu sua garganta.
Abriu os olhos rapidamente e a sensação de medo estava de volta. Violet ficou confusa, não se lembrava do que estava acontecendo e sentia uma canseira inexplicável. Olhou ao redor e viu Vitor deitado no chão, Mary aproximava-se calmamente e Alessa com um medo palpável no olhar.
“Medo... Por que ela está com medo?”, perguntava-se a morena.
Violet então olhou para baixo e percebeu a mão suja de vermelho, assim como boa parte de sua blusa. Ficou ainda mais desesperada quando percebeu que não era apenas uma tintura vermelha, mas sim sangue que sujava suas mãos e sua roupa. Novamente encarou Vitor caído no chão e a expressão assustada de Alessa, depois voltou à suas mãos ensanguentadas e tirou conclusões precipitadas.
– Não...
Entrou em desespero e chorou copiosamente, até que Mary ajoelhou-se ao seu lado e segurou o seu rosto, forçando-a a olhá-la.
– Como você está?
– Eu... O que aconteceu? O que... Por que esse sangue e por que Vitor... Ele... Ele está bem? – perguntou, sentindo-se incapaz de formar frases completas.
– Violet, por favor, se acalma... – pediu – Não fique desesperada, você não fez nada... Vitor está bem, só... Desmaiado. Já vai acordar.
– Desmaiado? Por quê? O que aconteceu?
– Você se descontrolou hoje... – começou calmamente, como se conversasse com uma criança – Teve pesadelos, perdeu o controle, entrou em desespero e fez algumas coisas...
– Pesadelos? Mas o que... O que eu fiz? – perguntou temerosa, chorando.
– Você teve sonhos ruins, acordou suada e sufocada... – respondeu – Não conseguia respirar e tossiu sangue, esse que está nas suas mãos. Depois você aparentemente desmaiou e Vitor saiu, mas nesse intervalo você acordou de novo, parecia confusa, e veio até aqui.
– E o que eu fiz? – perguntou temerosa, vendo que Vitor já estava acordado e levantava calmamente.
– Você estava encarando a parede fixamente e quando Vitor encostou no seu braço, você reagiu instintivamente e ele foi parar do outro lado. – explicou – Depois nós acordamos e vimos você aqui, quieta, com os olhos fechados...
– Oh Merlin... – sussurrou deixando mais lágrimas escorrerem. – Desculpe Vitor, eu não queria... Eu não sabia que...
– Está tudo bem Violet, tudo bem... – disse ele tentando se aproximar.
– Não, não, não chega perto, por favor... – choramingou afastando-se dos três jovens – Eu não quero machucar mais ninguém...
– Violet... O que você sonhou? – perguntou Mary levantando as mãos como se estivesse pronta para segurá-la em seus braços. – O que você viu?
– Eu... Eu não lembro...
– Tente se lembrar... – pediu novamente, dando um passo para frente discretamente.
Violet realmente não sabia o que estava acontecendo e estava extremamente confusa, perdida. Tentou se lembrar do tal sonho, mas nada lhe veio à mente. Ficou frustrada, e por um momento acreditou que Mary estava mentindo e nada do que disse era verdade. Encarou as mãos sujas de sangue seco e acompanhou os contornos das linhas negras que ficaram em seu pulso desde que inalou a poção rastreadora.
Seus olhos então perderam o foco e sua consciência se foi. O sonho, por outro lado, ficou claro como água em sua mente.
– Por que acordou sufocando? – insistiu Mary.
– Morgana. – respondeu evasivamente – Estávamos em uma floresta e ela me perseguia... Eu cai no caminho e ela aproveitou para tentar me matar... Estava apertando meu pescoço... Eu estava morrendo...
– Quem mais você viu?
– “Não devo contar mentiras”...
– Umbridge. – concluiu Mary. – E o que mais?
– Draco... Ele estava diferente, normal... – respondeu sem piscar – Mas vi meu pai também... matando Dumbledore.
Sua voz era evasiva e ligeiramente fria, seus olhos não demonstravam sentimento algum e isso assustou os demais. Pela primeira vez, Alessa teve medo da melhor amiga.
– Certo... Mais alguma coisa? Alguma visão... Medalhão...
– Medalhão? – repetiu lembrando-se de outra parte de seus sonhos – Sim, eu vi outras pessoas. Uma mulher já de idade, cabelos grisalhos e olhos castanhos. Ela estava discutindo com um homem alto e loiro, mas eu não vi seu rosto... Estava escondida no quarto.
– E o que eles discutiam?
– Ela avisou que alguém estava procurando as Horcruxes e que ele sabia o que isso significava... “Me pergunto se morar em uma cidade desconhecida da Europa é o suficiente para nos manter seguros...”. Ele não acreditou que era verdade, mas depois aceitou. “Ninguém pegará o medalhão enquanto eu estiver vivo...” – citou.
– Deve ser Régulus e algum ajudante. – comentou Mary, aproximando-se ainda mais a ponto de conseguir tocar o braço de Violet se quisesse. – Alguma outra lembrança?
– Eu caí da escada quando tinha oito anos... Mamãe ficou preocupada... – respondeu simplesmente, entrando novamente em um silêncio perturbador.
Mary sabia que não poderia interromper os pensamentos da Violet e que deveria esperar até que ela mesma dormisse ou voltasse à si. Mas vê-la ali, encarando o nada com um vazio no olhar era realmente preocupante.
Violet, por sua vez, estava em um mundo só seu... Um lugar isolado em sua mente onde não existiam pessoas, espaços ou qualquer outra coisa. Era apenas um grande vazio. Mas pouco a pouco esse vácuo foi se preenchendo e cores fortes pintaram sua mente. Ela viu uma longa mesa de jantar de madeira negra e pessoas vestindo roupas pretas assumindo os lugares ao redor da mesma. Na ponta, Lord Voldemort sorria e acariciava Nagini, que subia lentamente na mesa.
Mas então a perspectiva mudou. Violet passou a ver o caminho que Nagini fazia até uma mulher, já na casa dos quarenta, roupas trouxas, óculos de grau e cabelos castanhos bagunçados, suspensa no ar. Ela pedia alguma coisa, e Violet pode ver o rosto pálido de seu pai rapidamente antes de Nagini aproximar-se rapidamente e abocanhar a mulher.
Violet tremeu e fechou os olhos, mas não ajudou em nada. Novamente se viu na perspectiva de outra pessoa no exato momento em que sua varinha destrancou a porta de entrada de uma casa. Uma mulher de cabelos negros chorava no chão, e quando levantou o olhar, ficou instantaneamente séria. Ela sabia o que estava por vir.
– Sua última chance Eileen... Continuará se recusando? – disse uma voz rouca e fraca.
– Ninguém tocará no meu filho, nem mesmo você... – ameaçou, pegando sua varinha discretamente e levantando-se do chão. – Ele nunca será leal a alguém como você...
– Está enganada... Ele virá até mim mais cedo do que pensa, mas para isso, preciso me livrar de um obstáculo antes... – disse erguendo sua varinha para a mulher.
– Pode fazer o que quiser comigo, mas no meu filho ninguém toca! Avada Kedavra! – exclamou sacando a varinha rapidamente e desviando do raio esverdeado que seguiu em sua direção.
Uma pequena batalha se seguiu, e embora a mulher estivesse cansada e com dores no corpo, não se deixaria vencer tão facilmente. Infelizmente para ela, Voldemort era mais rápido e mais esperto, e logo que Eileen saiu detrás de um móvel, foi atingida no peito por um raio certeiro. Seu corpo caiu no carpete sem vida e a varinha rolou de suas mãos, mas os olhos azuis safira, entretanto, permaneceram abertos até um garoto descer as escadas.
Violet não aguentou as imagens fortes que vieram à sua cabeça e cedeu ao cansaço. Seu corpo desabou nos braços de Mary, que rapidamente a acolheu, e seus olhos fecharam-se instantaneamente.
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