Secrets
1 Prólogo
Notas iniciais
O ar fresco adentrou no pequeno escritório de dona Agnes. A mulher baixinha e grisalha assinava os últimos papéis burocráticos do orfanato St. Luís – para jovens bruxos, apreciando o silêncio.
Era normal o St. Luís estar em silêncio naquele horário, visto que era meia-noite, e todas as crianças e adolescentes já estavam em suas camas. Agnes suspirou, tocando sua varinha de carvalho sobre a contrastante mesa de mogno escura.
Sua cabeça latejava sutilmente, o que fez a senhora lamentar não ter tomado suas poções aquele dia. Porém ela estava tão atarefada! O St. Luís recebera doze casais bruxos, procurando por uma criança.
E infelizmente, criança era o que não faltava no St. Luís.
Leves batidas ecoaram na porta, desviando a atenção de Agnes.
— Senhora, estou de saída. – avisou Zelda, colocando uma mecha de seu cabelo desgrenhado atrás da orelha.
— Tudo bem, Zelda. Tenha uma boa noite! – desejou Agnes.
— Igualmente! – respondeu Zelda, fechando a porta com delicadeza.
Agnes respirou fundo novamente, enfeitiçando a pena fina de pavão para que pudesse – "finalmente!" – bebericar sua xícara de café fumegante.
A temperatura do líquido queimou a língua da senhora, que resmungou baixo. Pousou a xícara sobre o pires bem decorado, franzindo o cenho ao ouvir a campainha.
Resignada, Agnes levantou-se, abrindo a porta, atenta ao som.
”Acho que estou caduca!", pensou, arrumando os óculos.
Quando estava prestes a fechar novamente a porta, a campainha soou novamente.
— Já vai! – gritou, cruzando os braços, descendo as escadas.
Caminhou para a porta, abrindo-a, não vendo ninguém, reclamou, fechando a porta.
Olhou de relance para baixo pouco antes de fechar a porta. Os olhos cor de avelã da senhora se arregalaram ligeiramente. Abriu a porta novamente, fitando o chão.
– Merlin...! – exclamou Agnes.
Uma pequena cestinha estava ali na porta, ao relento. Uma garoa fina começava a cair, esfriando ainda mais o ar.
Um baixo resmungo se ouviu da cesta. A senhora agachou-se, tomando o pequeno embrulho cor de rosa nos bracos. O bebê abriu os olhos, fitando o rosto angelical, sereno e corado da criança. O ralo cabelo loiro brilhou com a fraca luz da varanda. Agnes segurou a pequena em um dos braços, pegando o pequeno cesto de forma desajeitada.
Agnes pensou em chamar por Zelda, porém esta, provavelmente, já havia saído.
Agnes correu para a janela mais próxima da porta de entrada de forma desajeitada, vendo apenas um bruxo encapuzado aparatar.
— Por que será que deixaram você?
Agnes caminhou até o andar de cima com um bebê resmungando em seu colo.
— Shh. – pediu a senhora. — Já irei alimentá-la, caso esteja com fome.
O quanto na qual Agnes se dirigia era o dos bebês. Não havia nenhum até aquele momento. Seis berços decorados em branco, vazios. Duas poltronas cor creme estavam dispostas mas ao fundo da sala, assim como os trocadores. A senhora colocou o cesto no chão, sentando-se na poltrona. Verificou a fralda do bebê, vendo-a limpa. Ninou a criança, vendo-a parar de resmungar e dormir.
Um pequeno pedaço de papel em meio a alguns panos na cesta. Curvou-se, pegando-o, com cuidado para não acordar o bebê. Desdobrou o papel com dificuldade. A caligrafia estava precária, visto que algo molhara o papel. Identificou apenas um 'c' e um 'l'.
— Irei chamá-la de Sophie.
A criança despertou, abrindo seus grandes olhos azuis para Agnes. Ela os apertou quando o seu corpo vibrou com inconfundíveis soluços de choro.
— Shh. Está tudo bem, Sophie. Você vai ficar bem. – sussurrou a senhora, beijando delicadamente o topo da cabeça da criança.
Fale com o autor