“I don’t miss you”

Eu e ela sabemos que isso não é verdade. Quando ela se despediu, me entregando a carta de demissão, ela sussurrou, e era quase uma promessa, que sentiria minha falta. Ainda lembro aquele dia e tudo que veio depois.

A primeira vez que a procurei no Pronto Socorro, e o dia que bati na porta da casa dela em uma madrugada qualquer depois que ela já havia cumprido horas de plantão. Nossos passos inseguros, cada vez mais dentro de uma relação complicada. Os encontros secretos e esforços em fingir que éramos apenas duas pessoas com um passado em comum. Enquanto o mundo acreditava nisso, nós construíamos nosso presente.

Ficar longe era cada vez mais difícil, por isso eu sempre dava um jeito de estar ao redor, atormentar os dias dela só não era mais divertido do que apimentar as noites. Enquanto ela dava tudo de si para mostrar aos outros o quanto eu a irritava e o quão feliz ela estava no seu novo trabalho, o olhar a denunciava. Talvez por isso ela me evitasse na frente das pessoas, sempre tão ocupada atendendo algum paciente.

“Você quer seu emprego de volta? Eu demito a 13”

E eu a queria de volta. Não bastava vê-la quase todo dia no Hospital e todas as quintas-feiras na minha casa. Eu precisava tê-la ao meu lado sempre, me ajudando a resolver casos, preparando meu café, me dizendo o que fazer ou não fazer, porque só ela sabe me por na linha.

Enquanto eu praticamente imploro que ela volte, ela faz pouco caso e diz que as coisas devem continuar como estão. Ela sabe que contratei uma substituta para ocupar o cargo dela e joga na minha cara que isso tudo nada mais é que uma tentativa fracassada de tentar suprir a falta que ela me faz. E, apesar de saber que o que ela diz é verdade, eu acho um grande golpe baixo ela usar algo que eu tenha admitido enquanto ela me torturava com beijos, afinal, qualquer um nessas circunstâncias confessaria, mesmo não sendo culpado. Ela quer um pouco de controle, e eu não quero negar isso a ela. Então sorrio e insisto mais algumas vezes.

E no meio desse jogo há o Chase. Ela fala que continua com ele para manter as aparências, mas eu sei que é só para me punir por não assumi-la de uma vez. Ele parecia acreditar nas vezes que ela dizia ir pra casa dessa “amiga”.A amiga chata da qual ela não tinha nenhuma intenção de se livrar. A idéia foi minha e ela acatou com relutância, pois acreditava que o Chase jamais engoliria isso. Bom, ele confiou, e nunca desconfiou de nada até aquele dia.

“Você dormiu com ele?”

Ela não conseguiu negar. Agora eu tenho a sensação que todo o meu time de médicos sabe sobre nós, mas nenhum deles tem coragem de falar alguma coisa. “Não é da conta deles”, foi o que ela disse, e eu não poderia concordar mais.

Ele continua ignorando os detalhes e a quantidade de noites que “não” dormimos, seria cruel admitir a verdade nua e crua, então ela optou por deixar subentendido. Eles não estão mais juntos. Nosso pequeno disfarce não existe mais.

Foi então, com relutância, que ela concordou que seria minha vez de arranjar outro álibi. Eu cercaria outra pessoa até que todos os olhares estivessem desviados da minha verdadeira obsessão. E quando finalmente as pessoas estiverem convencidas de que sou só um homem miserável e solitário, talvez eu tenha coragem de declarar a mim mesmo que não quero mais segredos.

FIM

Notas finais
Comentários serão muito apreciados! ;)
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