Secret Garden

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Olá, pessoal! Essa fic foi um fruto de inspiração da madrugada após eu assistir o filme Logan.

Inclusive, gostaria de agradecer aqui a participação minha mana Ari , por ter me ajudado com esta história, afinal, a ideia dela surgiu de um de nossos jogos lindos de Cherik!

Espero que aproveitem a leitura e que gostem!

Abriu os olhos, sentindo-os sensíveis por conta da claridade. As drogas injetadas em suas veias e os comprimidos amenizavam um pouco a dor física e a onda de pensamentos alheios que invadiam sua mente, mas não exterminava a pior delas: o mundo não era mais o mesmo.....sabia muito bem daquilo. Todos os que conhecia se foram e restaram apenas ele, Logan e Caliban..... todos se foram, inclusive.....ele....

Às vezes, em seus delírios, podia vê-lo. O seu olhar sério quando disputavam uma partida de xadrez, ou até mesmo aquele sorriso convencido que ele exibia quando falava sobre seus ideais, ou quando bebia. O calor daquele corpo ao tocá-lo, quando os lábios se encontravam e se separavam. Se lembrava de tudo.... de tudo.....como se tivessem vivido tudo aquilo há apenas alguns segundos....ou talvez tudo fosse apenas um fruto de seus pensamentos, e, na verdade, não passasse de um velho insano, fantasiando coisas que jamais existiram.

Tocar a aliança dourada em sua mão esquerda o fazia ter a certeza de que aquelas lembranças existiram....de que ele existira. Logan insistia muito que tirasse aquilo e jogasse fora, afinal, Erik estava morto há quinze anos. Morto, de maneira brutal, por soldados do governo. Mas Charles nunca tinha permitido que tocassem nela. Não queria perder aquela lembrança, talvez a única agora que parecia nítida em meio àquele furacão de confusões que a esclerose lhe trazia de presente.

Quis chorar, mas seu corpo nonagenário estava extremamente cansado para qualquer esforço. Às vezes, se pegava pedindo a Deus que tivesse misericórdia e o levasse logo de uma vez, mas a cada dia que se passava, parecia uma tortura maior ter de levantar e se lembrar que seu mundo tinha se arruinado bruscamente. Que a escola e seus alunos não existiam mais....que seu melhor amigo e amante não estava mais ali para lhe dar apoio, por mais que as discussões, inevitavelmente viessem. E aquilo doía.....e muito. Podia ver a tristeza estampada em Logan, bem como o medo de Caliban ao se aproximar de si. Dependia deles para tudo, praticamente, e aquilo era pior que um pesadelo.

Foi quando, em uma daquelas noites frias dentro daquele tanque gigante, o viu entrar. Era ele. Seu Erik.....talvez de aparência bem mais jovem que quando partiu, o que o remetia àquele dia em que se conheceram, quando o tirou do mar. Seus olhos marejaram ao ver aquele sorriso. Talvez estivesse insano de vez.

— É tão bom te ver de novo, meu querido..... — Charles sussurrou, vendo-o se aproximar da maca improvisada, estendendo a mão ao homem de olhos esverdeados. — Eu sinto tanto a sua falta.... — murmurou, baixinho, sentindo a voz fraca.

Erik apenas sorriu a si, se aproximando até se sentar à borda da maca. Por um momento, Charles se sentiu envergonhado por estar naquele estado. Erik estava extremamente lindo, e jovem....não queria que ele o visse naquele estado lastimável, por isso, baixou o olhar quando ele olhou para si.

— Eu também estou feliz em te ver, Charles.... — Erik sorriu, de maneira carinhosa, como o fazia quando estavam a sós, ou conversavam sobre amenidades. — Há um bom tempo eu venho te observando....e descobri que não vou conseguir descansar em paz enquanto você ainda estiver por aqui..... — Charles viu a mão de Erik tocar a sua, apesar de vê-la atravessar um pouco a pele. Não sentia nada....nem mesmo o calor daquela pele, e aquilo o deixou extremamente frustrado. — E não se preocupe com a sua aparência....você sempre será o telepata mais charmoso do mundo para mim, não importa a sua idade....

Charles o encarou por um tempo, ainda tentando entender se aquilo era real. Podia sentir o rosto molhado pelas lágrimas. Se Erik soubesse o quanto tinha sentido aqueles anos sem ele.....por quanto tempo aquela dor o carregou e o destruiu por dentro...talvez até mais que quando a bala havia entrado em sua coluna. A ideia de um mundo em que Erik não existia lhe parecia um tanto distante e impossível..... mas eis que o dia havia chegado e, com ele, aquele mar de angústias.

— Você só está sendo gentil.....ou talvez seja apenas um fruto da minha mente..... eu estou me tornando cada dia mais insano, Erik....por que não vem me buscar logo? — Charles negou com um aceno, observando aquela mão quase transparente tentar lhe fazer um carinho. — Eu não tenho mais serventia neste mundo, meu querido....eu só....machuco pessoas com os meus poderes....Logan tem que todos os dias injetar os remédios em mim às pressas, ou eu.... — interrompeu o que ia dizer, encarando o mais velho, um tanto amargurado.

Erik se aproximou mais, olhando fixamente a aliança que Charles ainda tinha na mão esquerda, dando um pequeno sorriso a ele. Se arrumou melhor sobre a cama para poder olhar nos olhos azuis de Charles.

— Sabe....eu até queria poder levar você comigo.... — suspirou, o observando com uma ponta de tristeza. — Mas infelizmente eu não posso, meu querido....não agora.... Na verdade, eu não devia sequer me apresentar a você assim, mas eu não aguentei ver a sua dor. Eu posso ver o quanto chora, e o quanto de dor sente todos os dias.... — um pequeno sorriso surgiu no rosto do mestre dos metais – Me disseram que você tem de viver mais um pouco....há alguém que vai precisar muito de sua ajuda, antes que você parta....por isso eu peço que seja forte e não desista, assim como você nunca desistiu de mim, por mais que eu o quebrasse....

Charles observou a face de Erik por um tempo, um tanto perplexo. Por algum motivo estranho, conseguia sentir que ele dizia a verdade, e que ainda precisaria fazer mais algo antes que pudesse partir. Precisava cuidar de Logan.....precisava ajudar alguém que ainda não conhecia. Estendeu a mão até o rosto de seu amado, se sentindo frustrado ao ver que ela o atravessava, como se ele fosse um simples holograma. A recolheu, o observando por um tempo.

— Eu sinto muito por estar atrapalhando seu descanso no outro plano, Erik....mas estou tão feliz que esteja aqui comigo..... — chorou baixo – Mesmo que eu não possa te tocar..... — suspirou, tentando se recompor um pouco antes de voltar seu olhar àqueles olhos que amava tanto. — Eu quero me esforçar, apesar de não estar me sentindo muito preparado para isso.

— Está tudo bem, Charles....eu estarei com você, se isso te acalma um pouco.... De qualquer maneira não consigo descansar em saber que você ainda está aqui, passando por tanto sofrimento. — Erik disse, de maneira confortadora, se deitando ao lado de Charles naquela maca estreita. Por sorte, ele não parecia se incomodar em estar apertado ali, afinal, Charles mal podia se mover. — Sabe...sinto muita falta de me deitar assim com você..... eu te amo, Charles Francis Xavier, e quero estar com você até o fim....

Os dias se passavam, e as visitas de Erik se tornavam cada dia mais frequentes. Aquilo trazia a Charles um pouco de alegria naqueles dias cinzas, onde a dor, as convulsões e a sonolência trazida pelos remédios se tornavam frequentes. Conversavam sobre amenidades, e por vezes apenas ficavam algum tempo relembrando as coisas que fizeram juntos no passado. Logan ou Caliban por vezes o pegavam falando com Erik, mas eles não conseguiam vê-lo. Imaginavam, talvez, que a cada dia que se passava, Charles estivesse se tornando mais insano, mas o telepata não se importava mais. Estava concentrado em sua missão. Finalmente, Laura tinha aparecido....ela lhe enviara um pedido de ajuda. Era dela quem Erik havia falado, e sabia muito bem que precisava ajudá-la.

Não demorou muito até que ela viesse até eles, e em meio a tiros, perseguições, ataques, e fugas, finalmente haviam conseguido um lugar aconchegante para se acomodar. Desde que Laura havia aparecido, Erik não mais apareceu para conversar consigo, o que fazia o telepata se perguntar se todos aqueles dias em que passaram conversando não tinham passado de simples alucinações causadas pelos remédios fortes que era obrigado a tomar. Aquilo o entristecia.

Mas, naquele dia em especial, algo em seu coração o fez saber que Logan e a menina talvez pudessem se dar bem sozinhos, e aquilo o encheu de um alívio que não soube explicar. Apesar das dores ainda estarem lá, a tranquilidade dominava seu coração, fazendo-o relaxar, pela primeira vez, após tantos dias. Talvez aquela tivesse sido a melhor noite sono que tivera em toda a sua vida......talvez.....

Sentiu a dor de algo perfurando-o, e viu um Logan desesperado tentar falar consigo, enquanto tentava estancar seu sangue, inutilmente. Gritaria interminável, e sons de tiros. Seu corpo enfraquecendo, definhando....e não podia fazer nada. Ninguém podia.

E, em meio àquele jogo de sons e imagens, como se o mundo todo parasse, finalmente o viu. Erik estava ali..... aquele sorriso e aqueles olhos esverdeados que tanto amava estavam ali, chamando-o....levando-o para longe daquele rio de dor. Logan estava em boas mãos agora, não precisaria mais temer. Agora podia simplesmente ir.

Segurou a mão de Erik, pela primeira vez podendo sentir aquele calor, e a textura do toque.... Sentiu os lábios do amado roçarem as costas de sua mão, fazendo cócegas. Suas pernas agora podiam se mover livremente sem a cadeira, e, em um piscar de olhos, viu seu corpo rejuvenescer, com a aparência de quando tinha conhecido Erik. De quando todo aquele sonho tinha começado.

Olhou mais uma vez para trás, como que dando um adeus ao seu amigo Logan, antes de ver o cenário começar a mudar de cor....as cores cinzentas do mundo terreno dando lugar ao brilho e a cor de um jardim gigantesco, onde as flores desabrochavam em todos os tons, enquanto, ao longe, um rio corria tranquilamente, refletindo a luz do sol.

— Então, finalmente, você veio me buscar..... — Charles sorriu, pela primeira vez se sentindo pleno. Ali nenhuma dor os machucaria....nem ninguém poderia destruir aquele laço. Apertou de leve a mão do amado, aproximando seus lábios dos dele, roubando-lhe um beijo. — Você demorou muito, Erik Lensherr.... mas eu mesmo assim o amo, seu idiota..... — gracejou, apesar de sentir as lágrimas virem aos seus olhos. Era como um sonho.....um sonho do qual jamais queria acordar.

— Parece que teremos uma eternidade para brigar, Charles.... — Erik sorriu, segurando o queixo do telepata delicadamente. — Mas eu tenho ideias muito melhores.... o senhor pretende me acompanhar, Charles Francis Xavier?

Charles sorriu, segurando o braço do amado enquanto caminhavam para dentro daquele jardim. Talvez fosse por aquilo que estivesse esperando por toda a sua vida.....por um jardim secreto em que ambos pudessem ser felizes.....onde as diferenças e a dor não interfeririam, onde pudessem viver plenamente o que lhes havia sido tirado pelo mundo.

Um lugar, onde apenas os dois conhecessem.

Notas finais
Obrigada por acompanharem até aqui! Beijos!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!