Second Wind

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Olá! Eu vi um comentário em uma página no facebook sobre isso, e eu simplesmente não consegui dormir até escrever, e eu nem sei como me sinto sobre isso. Acho que, de todas as possibilidades, essa é uma das que achei menos horripilante. Mas nem tanto. Enfim, espero que gostem, e que não me matem, etc hahhah Boa leitura! PS: Se passa talvez no primeiro episódio da possível nona temporada. *revira os olhos*

CASTLE POV

Doía olhar para ela, às vezes.

O jeito que ela movia os cabelos, ou revirava os olhos. A maneira familiar, mas ainda assim parecendo pertencer a uma outra vida, que ela colocava as mãos na cintura, dizendo algo que era totalmente óbvio, mesmo para ela. Por que você não vê? Parecia perguntar. Ou o jeitinho que ela dormia, o conforto e a completa certeza de que estava bem quando eu estava por perto, o rosto completamente relaxado e os cabelos jogados em todas as direções pelo travesseiro macio.

Ela não me diria que observá-la dormir era assustador, me mandando parar enquanto eu sabia que ela amava apenas pela maneira que tentava esconder o sorriso. Pelo contrário, quando abrisse os olhos e me visse ali, velando seu sono, ela iria sorrir e se jogar confiante em minha direção, certa de que eu a pegaria. Ela beijaria meu rosto e me abraçaria o mais forte que conseguisse, apesar da clara diferença de estaturas. Ela não me diria que eu estava sendo assustador, e ao mesmo tempo que doía, eu estava grato que não o fizesse.

Como em muitas noites – e eu sabia que devia me preocupar, que devia fazer algo a respeito – , ela havia simplesmente aparecido ali, e eu só havia notado o que deviam ser horas depois, quando senti seu pé me chutando. Eu não estava realmente dormindo, apenas perdido em meus próprios pensamentos. Preso em um lugar longe demais. Acontecia com frequência suficiente para eu saber, sem ao menos precisar abrir meus olhos, quem estava ali. Eu devia ser mais firme, mandá-la de volta para onde eu a havia deixado apenas horas atrás, mas não podia. Não hoje, não essa noite.

Nós dois estávamos exaustos. Seu rosto delicado ainda tinha vestígios do desenho feito mais cedo, a tinta que deveria ser fácil de remover. Não foi. Principalmente em seu estado quase dormindo em meus braços. Após uma tarde tão ativa, eu não estava surpreso. Eu, por outro lado, não estava fisicamente cansado. Ao menos, não o suficiente para me impedir de levantar. Entretanto, estava emocionalmente incapacitado. Um dia inteiro lutando contra si mesmo, contra a vontade de sair e apenas afundar em uma concha de dor e saudade, era capaz de fazer isso. Um dia inteiro de sorrisos forçados enquanto eu tentava me impedir de chorar até dormir, tinha esse efeito.

Fizera quatro anos hoje, e eu podia comprovar que toda aquela baboseira de que o tempo curava todas as feridas era apenas isso: Baboseira. Um monte enorme de porcaria, feito para que as pessoas sentissem que tinham alguma chance, que ainda valia a pena ter esperança. Eu não era tão otimista. No fundo eu sabia que não ficaria melhor. Não em dez anos, e, com certeza, não em quatro.

Mas valeria a pena tentar. Valeria a pena lutar contra as lágrimas para sempre se eu pudesse ver aquele sorriso tão real, tão diferente do meu, todos os dias.

Olhei novamente para a pessoa deitada ao meu lado. Estava tarde e escuro, mas eu ainda podia ver perfeitamente o contorno do seu rosto. A testa estava levemente franzida, me fazendo pensar que ela não estaria dormindo por muito tempo. Levei minha mão direita e acariciei seus cabelos levemente, tentando impedir que acordasse. Em vão. Apenas alguns minutos depois, seus olhos se abriram, me deixando sem folego como sempre acontecia. A semelhança era perturbadora, e eu sabia que era ridículo ficar surpreso por isso.

— Papai? – a pequena pessoa ao meu lado chamou, a voz baixa e observei enquanto seus olhos se ajustavam.

— Ei. – sussurrei de volta, tocando novamente em seus cabelos. Eu tinha certeza de que encontraria purpurina ali por mais uma semana. Assim como em qualquer canto da casa, incluindo meu próprio travesseiro.

Ela passou a mão pelos olhos, espantando o sono, e depois se moveu mais em minha direção. Eu a abracei, voltando minha mão para seu cabelo, tentando de novo a fazer voltar a dormir. Em vão, novamente. Se teimosia era hereditária? Eu tive provas mais que suficientes que sim.

— Eu amei a festa, foi legal.

Tentei desfazer o nó em minha garganta sem respirar fundo.

— Foi uma ótima festa.

— A tia Lanie desenha borboletas muito bem.

Eu ri um pouco com essa.

— Bom, é a única coisa que ela sabe desenhar, mas se você gostou...

— Eu gostei. Nós podemos fazer outra no ano que vem? – perguntou após alguns segundos em silencio.

Respondi o óbvio.

— Claro. Bastante tempo para tia Lanie aprender novos desenhos.

Ela riu, aquele som doce e infantil que se tornara meu objetivo diário.

— Talvez uma girafa. – ela sugeriu.

Segurei o riso.

— Talvez.

— Ou um pinguim. Eles são fofos.

Eu ri alto dessa vez. Lanie estaria encrencada, e eu iria amar ver isso.

— Ia ser demais, Liv! Que tal ligarmos para ela de manhã para agradecer a borboleta, e sugerir isso?

Senti ela acenar positivamente com a cabeça.

Lanie me mataria, mas havia sido tudo ideia dela, no final das contas.

Era aniversário de quatro anos de Olivia e Lanie havia insistido que havia passado da hora de fazer uma festa. Nos últimos anos nós não estávamos em casa nessa data, o que tornava a tarefa de organizar uma festa bem próxima do impossível, e antes disso... Bom, Liv era muito nova para se lembrar. Eu havia tentado no primeiro ano, mas havia sido um pequeno desastre, de maneira que era bom que ela não se lembrasse.

Esse ano, todos haviam apoiado a ideia. Alexis cuidou dos presentes, minha mãe da decoração – monopolizando Ryan e Esposito por dias –, e Lanie havia pintado o rosto das crianças. Jim também estivera ali, e eu sabia que havia aproveitado cada minuto.

Eu já havia feito aquilo sozinho antes, mas dessa vez era diferente. Era diferente por que era Kate. Era diferente por que cada célula do meu corpo sentia sua falta todos os dias, e era diferente por que eu sabia que ela teria adorado estar ali para isso. Para presenciar tudo aquilo. Ela havia dito, inúmeras vezes, o que tornava tudo ainda mais doloroso.

Além do mais, era diferente principalmente por que, apesar de, quatro anos atrás nós termos um recomeço, nós também tivemos um final. Um final que nenhum de nós estava pronto para aceitar, um final repentino e chocante demais para eu me dar conta, e de repente eu tinha um bebê pequeno e de olhos verdes, e nenhuma Kate. Ela sequer tivera a chance de segurá-la.

Os médicos haviam explicado o que havia acontecido, e eu não conseguira fazer muito sentido disso. Havia sido um parto difícil. Eu sabia disso, havia sido uma gravidez difícil. Mas nós estávamos felizes, e Kate estava radiante. O medo do começo havia sido substituído por uma adoração deliciosa, um amor que só se sentia por um filho. A animação e ansiedade de segurar sua filha nos braços a havia impedido de dormir por muitas noites. Noites onde nós conversávamos durante horas sobre o futuro, fazendo planos que jamais seriam verdade.

Tudo havia acabado em um piscar de olhos. Em um segundo Kate segurava minha mão com força, meu corpo apoiando o dela. No outro, um choro fraco de um recém nascido enchia o quarto. No próximo, ela estava pesada sobre o meu peito, as mãos frias e escorregadias. E então eu estava sendo expulso, sendo afastado do que mais importava para mim. E estava acabado.

Tudo estava preso em minha mente de maneira confusa. Alguns momentos estavam dolorosamente claros, outros não passavam de borrões. Eu me lembro de não conseguir respirar, ou me mover, ou chorar. Também me lembro de não conseguir parar de chorar. Me lembro claramente da sensação de estar sendo rasgado ao meio, e ela me acompanhava até hoje, um hóspede indesejado que se recusava a partir.

Também me lembrava de ser entregue um embolado de cobertores rosas, uma garotinha que imediatamente se agarrara ao meu dedo, os olhos se abrindo e me arrancando o ar dos pulmões. Outra sensação que ainda me acompanhava. Apesar de tudo, apesar das muitas noites sem ser capaz de dormir, apesar de não conseguir respirar normalmente por muito tempo, apesar da dor constante e irreparável no meu peito, eu havia me agarrado aquele serzinho como um colete salva-vidas, e ainda não fora capaz de soltar.

— Eu queria que a mamãe estivesse aqui. – Olivia sussurrou, e meu coração se apertou de maneira insuportável. A apertei um pouco mais forte, beijando seu cabelo e sentindo seu cheiro de criança.

Sempre me doía saber que eu não era suficiente. Por mais que tentasse estar em todo lugar e fazer tudo por ela, algumas lacunas eu simplesmente não era capaz de preencher, e sabia que isso continuaria por toda vida, jamais ficando mais fácil. E eu não seria capaz de ajudar, especialmente quando desejava a mesma coisa.

— Eu também. – disse de volta e depois limpei a garganta, tentando me livrar do nó que havia se formado ali. – Mas quer saber de um segredo?

Ela olhou para cima, os olhinhos tão iguais ao de Kate atraídos imediatamente pelo tom cumplice na minha voz e pela curiosidade. Sempre a curiosidade.

— Um segredo?

— Um segredo só meu e seu. Tudo bem?

Ela assentiu, e eu continuei.

— Eu acho que ela estava. – sussurrei, como se de fato apenas nós dois devêssemos ouvir e aquilo fosse um segredo de importância máxima. Observei enquanto os olhos dela se iluminavam, e então continuei: – Eu acho que ela estava bem aqui, observando você correr e abrir seus presentes, e observando a tia Lanie pintar o seu rosto com aquela borboleta pavorosa, ou você sendo mais inteligente que o tio Javi e tio Kevin...

Ela riu um pouco, a tristeza de antes quase desaparecida.

— E eu acho que ela estava sorrindo quando você assoprou as velas com tanta força! E ah, com certeza sorriu quando viu que você está tão grande e linda, e com certeza mais esperta que eu.

— Eu estou grande. – concordou e eu sorri, lutando com a droga das lágrimas. Eu geralmente não falava muito de Kate, doía demais, mas eu o faria se aquilo fizesse nossa filha dormir melhor.

— Está mesmo! E sabe do que mais? Ela vai continuar aqui, sorrindo e revirando os olhos sempre que nós fizermos algo... E eu sei que ela iria amar participar, mas acho que ela está feliz sabendo que estamos bem.

Ou que ao menos estávamos tentando. Eu sabia do maior medo de Kate em se tornar mãe: Que ela, ou outra pessoa, fizesse nosso filho crescer sem a mãe por perto, passando pelo que ela havia passado, por todo o sofrimento. Por esse medo, eu passaria o resto da minha vida tentando suprir uma parte daquela falta. Jamais seria suficiente, mas eu tentaria tornar o fardo menor. Eu tinha prometido isso a ela. Assim como havia prometido que nada aconteceria, mas isso eu tinha o poder de controlar. Eu a deixaria mais tranquila garantindo que nossa garotinha jamais passasse pelo que ela passou, com aquela intensidade.

Kate havia me contado que estava grávida dias antes da investigação contra LokSat estar acabada. Ela havia entrado do loft e se sentado ao meu lado no sofá, olhando diretamente em meus olhos e dizendo, com a voz tremula, a frase que mudaria nossas vidas para sempre:

— Eu estou grávida.

Simples assim.

Eu ainda me lembro do terror em seus olhos quando ela havia falado. O medo de colocar algo tão precioso em risco, o medo de estragar tudo e se machucar – machucar a todos – novamente. Eu havia assegurado de que, como sempre, nós daríamos um jeito. E foi o que fizemos, até que o destino nos pregou outra peça.

— Você acha que ela ia gostar de mim? – Liv perguntou, e pela maneira que seu corpinho se encolheu, como se estivesse se preparando para a resposta, ou pelo tom incerto de sua voz, eu sabia que ela estava mesmo preocupada com aquela possibilidade.

Respirei fundo antes de responder, tentando manter minha voz leve.

— Você está brincando? Ela iria amar você! Amar que você é tão parecida com ela, e que me deixa louco. Não, ela ama você. – me corrigi. – E amou você desde que descobriu que estava na barriga dela, quando ouviu seu coraçãozinho bater, ou quando sentiu você se mexer pela primeira vez... Ou todas as outras vezes. Ela ama você, e eu não quero que esqueça, tudo bem?

— Eu a amo também, e eu sinto saudades. Você sente saudades dela?

— Todos os dias. – respondi com sinceridade.

Como eu poderia não sentir saudades de Kate Beckett? A mulher que havia se protegido tanto do mundo, ainda sendo a pessoa mais forte que eu havia tido a honra de conhecer. A mulher que me deixara invadir sua vida, seu coração, sua alma, sem lhe dar nada em troca além de mim mesmo. A mulher que era capaz de amar tão profundamente mesmo com todos os traumas vividos. A mulher que havia ensinado tanto a tantas pessoas, que tocara tantas vidas e que sofrera mais uma injustiça, tendo sua vida terminada em um momento que ela esperara por meses. A mulher que havia encontrado sua justiça, mas sem abrir mão da própria vida. A mulher que me amou e se deixou ser amada.

Você nunca acha que a última vez é, de fato, a última vez. O último beijo, último olhar, último sorriso. Você acha que terá mais. Você acha que tem o para sempre — nós havíamos prometido sempre, certo? -, mas não tem.

Katherine Beckett jamais seria esquecida, sua falta jamais deixaria de ser sentida. Seu sorriso continuaria sendo o mais iluminado de todos. Seus olhos continuariam a carregar seu mistério, seu brilho perpetuaria. As vidas que ela havia tocado seriam eternos lembretes da pessoa que ela havia sido.

Assim como a garotinha deitada em seu lugar habitual em nossa cama.

— Você é muito parecida com ela, Liv. Ela teria muito orgulho de você.

Olivia parecia quase dormir agora. Seus olhos estavam fechados, uma mão pequena embaixo do rosto mais tranquilo. Ela era linda. Como minha Kate havia sido. E determinada, e extremamente corajosa. Nada a parava, assim como a mãe.

— Eu amo você, papai. – ela disse, e as lágrimas que eu segurara durante todo o dia não podiam ser contidas.

— Eu amo você também. – sussurrei e beijei seu cabelo, e ela finalmente voltou a dormir.

O dia que enterramos Kate foi de longe o pior dia da minha vida. Nada era capaz de se comparar aquilo, assim como nada era capaz de me trazer consolo. Não o abraço da minha filha ou da minha mãe, não os olhares torturados dos nossos amigos ou do pai dela, não os discursos emocionados dos que se fizeram presentes. Muitas pessoas estiveram ali, apenas outra prova das vidas que ela havia tocado, de alguma forma. Eu não havia dito nada, não conseguia. De qualquer maneira, eu já havia dito tudo a ela. O quanto a amava, o quanto ela havia mudado minha vida, o quanto era feliz por tê-la. O quanto não queria viver sem ela. Ainda assim, trocaria qualquer coisa para poder a olhar nos olhos e repetir tudo aquilo uma última vez.

Mas então eu havia ido para casa, e alguém me esperava, dependente de mim.

Se o mundo o fizesse – o que eu duvidava com um tenacidade típica das mulheres da minha vida –, o rostinho daquela garotinha forte, mas ainda tão amorosa, jamais me deixaria esquecer Kate Beckett. Ela ainda era meu colete salva-vidas, meu porto seguro, e seria para sempre.

Doía olhar para ela as vezes, mas eu jamais iria querer parar.

Notas finais
Me desculpem!! Eu sei, não é justo e eu odeio isso, odeio o que fizeram com nossa série. Ainda assim, acho que essa seria uma forma de manter um pedacinho da Kate, ou algo mais digno da personagem. Enfim, não melhora muita coisa, mas... Me contem o que acharam? ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!