Seasons of Love
1 Capítulo Único
Notas iniciais
É uma alegria estar aqui, no último dia de 2020. Estamos vivos, estamos bem.
Não sei como foi para vocês, para do lado de cá foi bem difícil, por tantos motivos diferentes... Sendo uma profissional da saúde e com distúrbios de ansiedade, vocês podem imaginar como foi o ano. Mas em meio a tantas coisas ruins, a escrita foi meu escape, assim como os maravilhosos leitores que estiveram comigo nesse período.
Essa história não foi escrita em uma semana em um mês, ela levou o ano todo, por isso talvez vocês consigam notar as leves mudanças no humor da nossa personagem. Seria uma coisa mais pessoal, começou ao ouvir, depois de alguns anos, a música que citei nas notas e uma longa crise na madrugada e a vontade de colocar aquilo para fora através de ficção. Funcionou, melhorou. Vez ou outra eu escrevia mais uma parte e apenas ontem, no meu aniversário, decidi postar.
É uma mensagem tão bonita nos versos de Seasons of Love, que a inspiração veio. Em suma do ano, devemos nos focar em amor, afinal, essa deve ser nossa medida para tudo, nossas conquistas, nosso crescimento, as pessoas que tocamos e influenciamos. Acho que essa foi a minha maior lição do ano.
Enfim, vou parar de falar por aqui, as notas estão virando quase uma fic por si só.
Boa leitura, espero que gostem!! Bjs*
Parte I
Outono
22 de setembro
Drogas de folhas secas, droga de vento gelado, droga de outono! Como assim ontem tava maior calor e hoje o outono já começou no auge da sua inconstância e indecisão?
Sentei no meio das folhas como um esquilo, soltando um suspiro pesado de desistência, as pernas cruzadas, mãos sobre o colo.
Sei que não podia o culpar apenas a estação pelo meu drama. Eu havia sido a pessoa a perder, pelo que parecia ser a milésima vez, meu colar que tinha ganho de presente da minha mãe. Ter ela a mais de mil quilômetros de distância era doído, então aquele pequeno amuleto era o que nos mantinha próximas.
Só que agora o bendito colar estava perdido naquele monte de folhas amareladas, e por isso eu culpava o outono.
― Parece alguém que precisa de ajuda.
Olhei pra cima na direção da voz que achei pertencer a um guarda municipal ou florestal, sei lá, mas ele usava jeans escuros, camiseta cinza de mangas curtas e tênis, enquanto seu rosto não estava visível, pois ele eclipsava o sol.
Franzi a testa, apertando meus olhos por trás dos óculos para tentar ver melhor quem falava comigo, colocando uma mão na testa para diminuir a luz.
― Quem é você?
― Tá falando comigo? ― Surpresa inundou sua voz grave, e havia algo mais no fundo. Felicidade? Tipo aquelas vezes que, depois de sermos ignorados por anos na escola, ganhamos uma atenção inesperada de alguém popular.
― Você não estava falando comigo?
Apoiei a mão em meu joelho para ficar em pé, só então pude ver seu rosto. E se eu nunca fora alguém popular no colégio, aquele com certeza era um homem que não seria ignorado. Por ninguém.
Ele tinha quase 1,90 de altura, braços que pareciam troncos e um corpo como se aquela fosse apenas a identidade secreta de algum tipo de herói. Isso eu analisei em dois segundos, para não parecer tão óbvia.
Seu rosto sim, gastei mais tempo nele. Quadrado, forte, barba por fazer, ainda assim parecendo bem cuidada, lábios finos com um sorriso discreto, nariz um pouco torto para a direita, e olhos tão puramente azuis, que nem pareciam reais. Tive que morder minha língua para não perguntar a um estranho onde havia conseguido aquelas lentes de contato.
― Eu estava, desculpe ― falou me olhando esquisito, como se eu fosse uma criatura bizarra e, ainda assim, extraordinária. ― Sou Oliver.
Seu olhar ansioso esperava por um retorno, meu nome. Mas se eu me lembrava bem das histórias do Rumpelstiltskin, e eu lembrava, já que minha memória fotográfica conseguia ser uma benção e maldição em minha vida, o nome não era algo que devia ser concedido a qualquer um.
― Muito prazer ― respondi apenas. Oliver não deixou seu humor ser abalado e sorriu, resignado e paciente.
― Então, você procurava por algo?
― Meu colar. ― Minha mão foi ao meu pescoço, onde os pingentes sempre ficavam. ― De ouro, correntinha fina, pingentes de um F e um D nele ― expliquei.
― Eu te ajudo a procurar.
Dei de ombros, não negando ou aceitando sua ajuda, apenas voltando a me abaixar para estar de volta ao meu trabalho de caça ao tesouro. Oliver deu a volta no tronco da árvore que fornecia uma sombra parcial e aquele mar de folhas, também procurando.
― Seria esse aqui? ― Atraiu minha atenção para si, quando engatinhei até onde ele estava de cócoras analisando um ponto específico perto de uma raiz.
― Onde, onde, onde? ― Fui direto para onde ele apontava, o brilho dourado, me fazendo soltar um suspiro de alívio. ― Meu Deus, é ele, obrigada, Deus! ― exclamei, enrolando a corrente entre os dedos e levando até meu rosto, o apertando contra este. O fecho estava com problema, mas o resto, intacto. ― Eu prometo que nunca mais vou perder você, nunca!
― Uau, deve ser um colar muito importante. Iniciais suas e do seu namorado? ― supôs.
― Do amor da minha vida. ― Seu cenho franziu, e ele tombou a cabeça um pouco para o lado, analisando minha resposta. ― Da minha mãe, Donna.
― O que me deixa com uma inicial F como dica do seu nome. ― Se encostou casualmente no tronco da árvore com as mãos no bolso, e se alguém tirasse uma foto, poderia entrar agora em um catálogo de modelos masculinos. Deveria ser injusto alguém ser tão bonito com tão pouco esforço.
― Obrigada por encontrá-lo, Oliver ― agradeci, pegando minha bolsa e meu copo de café no chão. ― Tenho que voltar ao trabalho agora, meu horário de almoço já acabou há muito tempo.
― De nada, Faye? ― O nome saiu como uma pergunta. Franzi o nariz e neguei com a cabeça. ― Florence?
― Ainda não. E você também não deveria estar em algum trabalho a esse horário?
― Poderia, mas estou aqui jogando Charadas com você, Frankie.
― Muito longe. E também quero jogar, doutor Oliver ― supus.
― Eu pareço um médico pra você, Faith? ― retrucou com bom humor, apontando para si.
― O hospital é do lado desse parque, vai saber. E Faith começou a esquentar, mas ainda não, jornalista Oliver?
― Fannie?
― Advogado?
― Flora?
― Arquiteto?
― Fiona?
― Modelo?
― Francesca?
― Professor universitário? ― Essa minha última sugestão do nosso ping pong o fez gargalhar alto.
― Está aí algo que eu jamais seria, considerando as três universidades que abandonei sem terminar nem metade do curso.
― Então você é um desocupado? Encostado? Folgado? Malandro?
― Sabe o que nós dois somos, Francine? ― perguntou cortando minha sequência de sinônimos e se aproximando, me fazendo engolir seco, sem recuar. ― Péssimos em Charadas ― murmurou e eu ri.
― De fato.
Mamãe ficaria orgulhosa de me ver flertando com um cara tão bonito em pleno horário de trabalho. Meu chefe acharia engraçado, minha supervisora tentaria arrancar meus cabelos e meu namorado? Ele arrancaria os próprios. Pare com isso, Felicity!
― Eu já tenho que ir, obrigada de novo por achar o colar ― falei já indo em direção ao meu carro, que estava parado logo ali, e Oliver me acompanhou.
― O prazer foi todo meu, você não tem ideia como foi bom falar com você.
― De nada, então. ― Fiz uma pequena reverência brincalhona, destravando o veículo. ― Ah… ― Parei por um instante. Eu deveria mesmo fazer aquilo quando disse que não faria há poucos minutos atrás? Dane-se. ― Meu nome é Felicity.
― Como não adivinhei antes, esse nome é simplesmente perfeito para você. ― Olhei para ele esperando que completasse a brincadeira, me dizendo o que fazia da vida, mas nada veio.
― Não vai me dizer sua profissão?
― Talvez da próxima vez que a gente se encontrar, Felicity. ― Piscou para mim, indo embora.
Balancei a cabeça, sem conseguir tirar o sorriso da cara. Aquele havia sido um encontro estranho.
Parte II
Inverno
22 de dezembro
Agarrei forte o copo de café entre os dedos, o calor da bebida irradiando mesmo através das luvas grossas.
Meu corpo todo tremia, e uma senhorinha que passava já até tinha me dito para procurar um local mais quente para ficar, mas não aceitei seu conselho. Até porque não era o frio que me fazia tremer, mas sim todo aquele choro.
― Parece alguém que precisa de ajuda. ― Olhei de relance para o lado, vendo que Oliver era a outra pessoa que estava ali, sentado no banco.
― Essa é sua frase tema agora, ou coisa assim? ― questionei retoricamente, fungando para barrar minhas lágrimas. A risada dele foi discreta, mas de algum modo transmitia mais calor do que o café em minhas mãos.
― Você está bem, Felicity? ― Sua expressão era cálida, e seus olhos ansiosos por minha resposta. ― Vejo que seu colar está onde deveria, então não estamos envolvidos novamente em uma caça à joia de família ― continuou a falar, apontando o indicador para meu cordão.
― Não vou fazer de um estranho meu confidente.
― E apenas com uma frase, você acaba com todo o funcionamento da psicoterapia ― atestou.
― Então é isso que você é, um psicólogo? ― testei, lembrando que ainda não sabia sua profissão, se é que ele tinha alguma. Oliver apenas negou com a cabeça.
― Olha, vou te dar duas opções. ― Se virou em minha direção, um dos braços assumindo o encosto do banco atrás dos meus ombros, mas sem tocá-los. ― Número um, continuo a ser um estranho, e você usa dessa impessoalidade para abrir seus problemas, enquanto eu, te dou minha opinião imparcial sobre o caso. Número dois, te dou informações sobre mim, viramos amigos e eu te dou minha opinião mesmo assim.
― Tem certeza que não é advogado?
― Não, eu não sou. Mas qual vai ser, número um ou dois? ― Ergueu dois dedos, os balançando na minha frente.
Agora de posse do controle das minhas glândulas lacrimais, foi que prestei mais atenção nele. Todas aquelas cores cinzentas do inverno o deixavam ainda mais bonito, seus olhos ganhando um destaque maior por serem tão quentes. Mas outro detalhe chamou minha atenção. Ele usava roupas bem parecidas (para não dizerem iguais) ao outro dia, jeans e camiseta.
― Você não está com frio?
― Rainha do desvio de assunto, entendi. ― Balançou a cabeça em concordância, estalando a língua.
― Me desculpa, é besteira.
― Duvido que seja. ― Deu de ombros. ― Você não me parece o tipo de pessoa dramática que chora em parques sozinha só porque levou um fora.
― Agora você me reduziu bastante, Oliver, já que acertou o exato motivo na primeira tentativa. ― E me fez sentir ainda mais idiota, completei apenas para mim mesma.
― Eu acertei? ― Balancei a cabeça em afirmação. ― Que droga.
― Tudo bem, não foi o fim de um casamento ou coisa assim, eram só poucos meses juntos.
― Mas… ― Me incentivou a continuar.
― Mas eu me mudei há pouco tempo, Cooper era minha única ligação nessa cidade, e agora, chegando a época mais familiar do ano, eu só me sinto... ― Não consegui concluir.
― Sozinha? ― Sorriu triste. De algum modo, eu soube que ele entendia como era se sentir assim, por mais bizarro que isso parecesse para mim. ― Sinto muito.
― Não é sua culpa.
― E nem sua ― retrucou. ― Mas olhando pelo lado bom, você tem um leque de oportunidades agora. O ano está quase acabando e quando o outro iniciar, você pode apertar o restart e começar tudo de novo, sem precisar se prender à opinião de ninguém além da sua. Está mais livre do que nunca, Felicity.
― Couch! ― Dei um tapinha em minha perna com a descoberta, ainda absorvendo a profundidade e beleza de suas palavras para mim.
― Quê? ― perguntou confuso.
― Você é um couch, não é?
― Ainda estamos jogando isso?
― Claro, ainda não descobri sua profissão ― me forcei a sorrir.
― Então não, não sou um couch e não faço ideia como se faz para ser um ― assumiu sorrindo.
― Mas você está certo, nem gostava mais tanto assim de Cooper, eu mesma estava quase terminando nossa coisa, acho que só sinto saudades da minha mãe.
― Sei como é… Meu pai nos deixou cinco anos atrás.
― Oh, sinto muito. E eu aqui me lamentando por besteira.
― Tudo bem, mas ainda sigo firme na minha ideia de que não é besteira. Solidão é um dos maiores medos do ser humano, não sentir isso te faria esquisita. E uma sociopata.
― Antropólogo? ― Ele negou com uma careta. ― Você tem medo de ficar sozinho?
― Não entendi o tom de surpresa da sua pergunta, sinto isso todos os minutos da minha vida que não estou com meu amigo, minha mãe e irmã.
― Duvido muito, tenho certeza que há uma fila de mulheres interessadas na sua companhia, Oliver.
― Não para conversar ao menos.
― Bom, você tem a mim agora ― falei resoluta. ― O que te aflige?
― Não estávamos falando de você, senhorita?
― E agora estamos falando de você, o misterioso bonitão do parque. ― Ele riu alto, jogando a cabeça para trás.
― Parece título de livro de mistério, que por sinal, eu adoro ― me concedeu aquela pequena informação sobre si. ― Tudo bem, vamos fazer isso, mas também vai ter que me falar algo de você. Uma troca ou nada.
― Justo ― concordei. ― Tem certeza que não quer ir para um lugar mais quente?
― Eu estou bem, só se você quiser.
― Estou bem também. Amo o inverno e o verão.
― Isso não faz o mínimo sentido, Felicity.
― É que gosto das coisas exatas, sabe? Outono e primavera são muito subjetivos para mim, afinal, sou da tecnologia da informação.
― Mais exato impossível.
― Exatamente. ― Ri. Como uma conversa de apenas alguns poucos minutos com aquele cara já havia me feito deixar de lado todo meu choro e meus sorrisos já escapavam fáceis assim?
Conversamos por horas. Lhe falei da minha família, meus gostos e desgostos, medos, anseios, coisas que me faziam feliz e ele fez o mesmo, deixando sua ocupação de fora propositalmente para me provocar.
Oliver tinha um humor rápido, era charmoso e inteligente, eu podia ouvi-lo para sempre contar sobre o que costumava aprontar com a irmãzinha menor e com o melhor amigo por Star City.
Mas mesmo sendo tão bom de papo, ele me fazia falar sobre mim, provocava com perguntas que davam margem a respostas longas e com uma profundidade assustadora para dois estranhos.
Já escurecia quando eu tive de ir embora, ainda sem saber o que ele fazia para viver, mas guardando aquela pergunta para a próxima vez que o visse, torcendo secretamente para ser nos próximos dias.
Parte III
Primavera
22 de março
― Felicity? ― O copo de café quase saltou das minhas mãos com o susto de ter sua voz tão perto e logo atrás de mim, um arrepio frio percorrendo minha coluna. Me virei para o descarado que ria com as mãos nos bolsos.
― Eu, hein?! Parece um fantasma, aparecendo do nada! ― fingi drama, mas na verdade estava muito feliz por encontrá-lo de novo.
― Desculpe, não quis te assustar, mas te vi aqui distraída, olhando para o nada. ― Parou ao meu lado, estreitando os olhos na direção da árvore que eu olhava.
― Não é para o nada, estou olhando aqueles dois.
Seu olhar seguiu a direção do meu dedo, que apontava para o casal de passarinhos brincando, talvez namorando. Um tinha as penas coloridas de amarelo vibrante e preto, enquanto o outro era cinza com preto.
― Sabia que o macho é o mais colorido? É função dele conquistar sua parceira com todos os atrativos visuais e auditivos que conseguir.
― Ou seja, é como se eu precisasse usar os cílios postiços, maquiagem e saltos altos para atrair as mulheres? ― brincou.
― Seria uma visão interessante. ― Olhei para ele, não conseguindo não sorrir, a visão do homem daquele tamanho produzido daquela forma. ― Mas talvez atraísse um público diferente do que pensa, Oliver.
Me afastei do ponto de observação de pássaros sentando em um banco, o mesmo que conversamos a última vez antes do Natal. Ele me seguiu, sentando ao meu lado.
― Você é inteligente, Felicity.
― Como assim?
Não que fosse a primeira vez que escutava esse tipo de elogio, mas geralmente ele se seguia de alguma coisa extraordinária que eu fazia no ramo da tecnologia ou matemática. Falar uma coisa sobre pássaros que quase todo mundo já sabia não era grande coisa.
― Você é inteligente ― repetiu. ― Pega assuntos no ar e rebate na hora. Deve ser todo esse café que bebe, sempre que te vejo parece estar com um copo em mãos.
― Sempre que te vejo está com a mesma roupa, não importa a estação ― retruquei e ele riu solto, mas era verdade. Sem dúvidas roupas caras, mas, aparentemente, as mesmas sempre.
― Eu tenho um estilo próprio, Felicity ― justificou-se, ajustando a camiseta sobre os ombros. ― Vai, me conta… Como foram esses meses pra você?
― Normais, eu acho. Ah, uma coisa aconteceu! ― Me virei para ele. ― Cooper quis voltar a namorar.
― Por isso está toda alegrinha? Vocês voltaram?
― Eu não ― neguei na hora. ― Você estava certo, foi uma oportunidade de recomeço. Eu quero mais da vida do que estar apenas bem com alguém, quero um amor que me faça me parecer louca do tanto que estou amando, sabe?
― Você merece parecer louca ― distorceu minhas palavras para fazer piada.
― Mas a melhor parte, foi me redescobrir. Comecei a fazer aulas de pintura, acrobacias em tecidos, cerâmica e jiu-jitsu.
― E você é boa?
― Em nenhuma dessas coisas, mas o que importa é que agora eu sei que não sou, e não saberia se não tivesse tentado, sabe?
― Você está certa. Que bom, Felicity.
― Mas e você, como foram esses três meses?
― Parados. ― Deu de ombros, olhando em outra direção e não me dando mais do que isso.
― Eu acho que descobri o que você faz, Oliver.
― Hm, estou louco pra saber se vai acertar.
― Você é um… Rufem os tambores. ― Fiz o som do batucar com a boca e o gesto com os dedos. ― Marinheiro! ― Oliver riu alto dessa vez.
― Eu não sou um marinheiro.
― É sim, pensa comigo. ― Me virei para ele no banco. ― Você só aparece de três em três meses, é porque no resto do tempo, você está no mar. Por favor, diz que é.
― Porque se eu não disser…
― Quer dizer que você é um presidiário que só consegue um dia livre a cada três meses e eu sou a idiota que está caindo no seu papinho.
― Eu não sou presidiário ― me assegurou. ― E você não está caindo no meu papinho.
― Tem tanta experiência assim com mulheres? ― Escancarei minha boca teatralmente. ― Você é um prostituto?
― Não, eu só já vi muito de mulheres quando estão sendo seduzidas e começam a dar sinais de volta. Você não faz isso.
― É, eu sei… Sensualidade de uma lesma morta. ― Apontei para mim mesma rindo.
― Vai por mim, não é isso. ― Me surpreendi quando recebi uma encarada sua de cima a baixo. ― Não é mesmo isso, é só que você é espontânea demais para fazer esse tipo de joguinho.
― Você gosta desse tipo de joguinho?
― Não mais, é idiota. Digamos que todas minhas estratégias e modo de levar esse lado da minha vida mudaram quando conheci você. ― Senti todo o sangue ir direto para meu rosto. Oliver era charmoso, mas nunca tinha sido tão direto. Pigarreei de nervoso. ― Falei demais agora, não falei?
― Eu não sei como te responder a isso ― falei sincera.
― Vou reformular então. ― Abriu um sorriso. ― Minhas estratégias e modo de levar a vida mudaram seis meses atrás. ― Mordeu o interior da bochecha, encarando o chão.
Eu não podia deixar de pensar, seis meses atrás foi quando nos encontramos a primeira vez no parque, ou seja, ele não havia reformulado tão bem sua frase. Mas ele já era como o conheço agora, então, o que havia mudado? Será que era apenas sobre mim, acho que não.
― Oliver, você sempre se refere à sua vida como se fossem duas coisas diferentes, antes e depois do outono passado. O que aconteceu seis meses atrás antes de nós encontrarmos nesse parque? ― Tive de perguntar, mas ele apenas negou com a cabeça.
― Não vale a pena falar sobre.
― Falar sobre pode melhorar. ― Eu buscava ansiosamente sobre uma fuga do assunto anterior.
― Ou piorar, o que não saberemos, porque não vou falar sobre. ― Foi mais enfático dessa vez, então apenas encolhi os ombros.
― Entendi.
Resolvi não insistir mais. Não éramos amigos, éramos dois estranhos que se viam raramente e vez ou outra falavam sobre coisas profundas e também aleatórias, e talvez tivessem uma quedinha um pelo outro.
― Acho melhor eu ir. ― Fiquei em pé, pegando minha bolsa. ― Voltar ao trabalho.
― Mas já? ― Também se ergueu, uma urgência estranha em sua voz. ― Nem conversamos direito hoje.
― Nos vemos daqui a três meses.
― Se eu tiver sorte. ― Ainda o ouvi falar, antes de ir embora.
Parte IV
Verão
22 de junho
Eu repetia para mim mesma que não estava esperando por Oliver. Hoje era dia 22 do início de mais uma estação, e era quando ele geralmente aparecia naquele parque, e nem eu conseguia pensar em alguma justificativa para ter saído mais cedo aquela tarde do trabalho que não fosse vê-lo.
Comprei meu café na barraquinha em frente ao hospital e ocupei um banco, o banco de sempre, o nosso banco. Já era quase o pôr do sol, quando ele apareceu.
― Que alívio, fiquei com medo de não te encontrar mais aqui. ― Tinha uma fala ansiosa, e mesmo que eu não soubesse como ele parou ali tão rápido, fiquei feliz.
― Aconteceu alguma coisa? Está todo esbaforido, como se tivesse vindo correndo, só que não aparece cansado. Seu corpo funciona estranho. ― O último comentário deveria ter sido apenas para mim, mas já era tarde demais quando percebi que já tinha escapado.
― Desculpa, foi uma tarde… complicada.
― No trabalho?
― Não, fisicamente. Não dá pra explicar direito.
― Meu Deus, você tá bem?
Levei uma mão para tocar seu rosto, será que ele estava doente? Mas com habilidade, ele se esquivou do meu toque, se arrastando pelo banco até tomar a maior distância que conseguiu. Eu não o culpava, da última vez que nos vimos, o questionei sobre coisas que ele não queria falar sobre.
Não éramos amigos, eu mesma dizia isso sempre para mim mesma, mas ainda considerava aquilo um vínculo. Um que acontecia raramente e com datas marcadas, ainda assim um vínculo.
― Desculpa.
― Não, me desculpa. Estou sendo um imbecil, me desculpa ― se repetiu, aproximando-se de mim novamente. ― Nem acredito que já estou aqui há minutos sem dizer como você está linda.
― A exatidão do verão ― respondi ao seu elogio de modo tímido, como uma adolescente. ― Só isso para me permitir usar vestidos com alças. ― Torci o tecido florido da saia entre os dedos, os encarando.
― Hey ― chamou minha atenção para seus olhos. ― Você é linda, e essa luz laranja te faz quase uma pintura.
― Oliver…
― É, eu sei, apenas amigos. ― Soltou um suspiro pesado. ― É seu momento, de você se amar e se descobrir, não ficar presa ao que nem é um relacionamento.
― Oliver…
― Tudo bem, Felicity, eu entendo, não tem problema, de verdade. Mas você não pode me impedir de me apaixonar por você.
Ok, como fomos do oito ao oito mil tão rápido? O que começou discreto do nada havia virado uma declaração dele, enquanto eu não conseguia nem falar uma frase completa ou qualquer palavra que fosse o nome dele.
― É, isso aí, acho que estou me apaixonando por uma pessoa que só vi três vezes minha vida toda, e eu não consigo…
Levantou do lugar ao meu lado, andando nervosamente, as mãos no cabelo. Então eu fiz o que jamais tinha tido coragem antes, nem com Cooper ou com qualquer outro namorado ou paixonite.
― Oliver, me deixa falar! ― Cheguei até ele, e quando seu olhar encontrou o meu, havia lágrimas em seus olhos. Por que ele parecia prestes a chorar? ― Eu acho que eu também estou me apaixonan...
― Não, não termina essa frase ― me cortou.
― Por que não? Você pode dizer o que quiser para mim e eu não? Me apaixonei por você, e dane-se. ― Joguei as mãos para cima, em um gesto de pura rendição. ― Me arrumei para te ver hoje, mesmo tendo a certeza que estaria com as mesmas roupas, e me achando louca por amar seu minimalismo fofo. Pensei em você direto e nem sei com o que ganha a vida, só me importando com seus olhos e a droga do seu sorriso perfeito. Eu me odiei por não ter seu telefone, já que era pra você que eu queria ligar ao fim de cada dia, pra falar sobre o que aconteceu comigo na empresa, e me odiei ainda mais por não conseguir aceitar um convite sequer pra sair, já que na minha mente eu te devia isso. Logo eu, que nem nos considerava amigos!
Digamos que foi libertador colocar tudo para fora. Como ele disse antes, eu não fazia joguinhos, não tinha mais idade ou paciência para isso. E mesmo com sua negativa anterior, meu coração ansiava por sua declaração de volta.
― Você não pode sentir isso por mim. ― Balançou a cabeça para os lados, trincando os dentes.
Meus ombros caíram em pura decepção, mas o que me matou de verdade por dentro foi a expressão em seu rosto, como se me dispensar estivesse doendo mais nele do que em mim. Como paramos assim? Aquela conversa estava estragando meu verão!
― Não é sua escolha decidir como eu me sinto ― murmurei baixinho, me abraçando, pois precisava daquele conforto, mesmo que viesse de mim mesma.
― Você merece bem mais do que posso te oferecer, Felicity. Você é a pessoa mais gentil, compassiva e inteligente que eu conheço, você merece o melhor. Alguém melhor.
― Novamente, não é sua escolha. ― Aquele papo de Oliver estava me irritando.
― É minha escolha te deixar ir.
― E se eu não quiser ir?
Tomei um passo de coragem, chegando perto o bastante sem tocá-lo, encarando seu rosto, até parar na boca. Oliver mantinha os olhos presos aos meus, então os desceu para meus lábios. Prendi a respiração.
― Droga, eu queria tanto poder te beijar agora.
― Vai em frente ― o incentivei.
― Não posso, me desculpa. ― Negou com a cabeça, dando uns três passos para trás, e virando as costas para mim.
― Então é isso, acaba aqui?
― Por favor, não! ― Se voltou em minha direção, pareceu querer pegar em minhas mãos, mas desistiu na metade do caminho. ― Felicity, você pode ter bem mais do que eu, mas pra mim… Você é tudo que eu tenho.
― Oliver, não tente me deixar maluca!
― Desculpa, só... Não importa quão babaca estou sendo hoje, com tanta raiva você esteja de mim agora ou na próxima estação, mas promete que vai voltar? ― implorou, seus olhos úmidos novamente.
Como negar algo para aqueles olhos?
― Eu vou voltar.
― Obrigado. ― Suspirou aliviado.
― Bom… Melhor eu ir me recuperar desse fora longe daqui, então. ― Dei de ombros, fingindo que meu coração não estava dilacerado.
― Desculpa.
― Tudo bem, Oliver. Nos vemos por aí. ― Peguei minha bolsa e já ia saindo quando ouvi o sussurro.
― Eu te amo.
― O que disse? ― Ergui meu rosto para o seu em surpresa.
― Até mais, Felicity.
― Até mais, Oliver.
Parte V
Outono
22 de setembro
― Eu não devia ter vindo! ― expressei alto os pensamentos que já me assolavam nas últimas duas horas.
― Falou comigo, Felicity? ― o vendedor da banquinha de café me questionou, e apenas neguei com a cabeça, recebendo de suas mãos a segunda dose do líquido naquele dia.
Em todo esse tempo, e com minha frequência quase diária nesse parque, conversávamos às vezes e já éramos até conhecidos, o que era bem menos do que eu poderia falar da pessoa que era o motivo de eu estar tanto por aqui. E esse motivo alto, loiro e de olhos azuis, eu só tinha visto quatro vezes.
Quando Oliver me disse que seguisse a vida sem ele, teve o efeito completamente oposto. Tipo aqueles testes psicológicos onde colocam um botão grande e vermelho com um aviso de "não aperte" bem ao lado. Todos os seus pensamentos são em torno de apertar o botão, mesmo que a ordem fosse clara desde o início.
E outra, eu não estava pronta para fazer o que ele queria, só porque era o que ele queria. Eu tinha uma opinião oposta sobre como resolver aquilo e não abriria mão dela, era teimosa demais para isso.
Só que agora Oliver não apareceu, mesmo que tenha pedido ou quase implorado para que eu estivesse aqui.
É, Felicity, esse pode não ter sido o fechamento que pediu, mas era um fechamento no fim das contas. Uma resposta clara o bastante. Hora de esquecer esse parque, que já era meu lugar preferido da cidade e talvez do mundo, e o bonitão nele.
― Não falei nada, obrigada pelo café ― agradeci, pagando a bebida e saindo daqui.
Minha cabeça cronicamente distraída me fez perder o momento em que um casal passou por mim em direção ao hospital, e acabei esbarrando na garota, sua bolsa indo ao chão, vários itens se espalhando.
― Me desculpe.
Me agachei para ajudá-la, assim como o cara também fez, mas foi quando peguei em seu celular para lhe entregar e a tela de bloqueio acendeu ao meu toque, foi que senti meu coração disparar.
No descanso de tela estava Oliver. Ele a carregava nas costas e estava de perfil, parecendo sorrir e conversar com outra pessoa que não aparecia na imagem, enquanto ela sorriu para a câmera e descansava a cabeça na dele. Não era uma foto recente, ele parecia um pouco mais jovem e ela com certeza era, o que eu notei pelos longos cabelos ondulados e rosto mais cheio.
― Oliver? ― minha voz saiu em um murmúrio, e eu ainda não havia lhe entregado o celular de volta.
― O quê? ― Ela me encarou com seus grandes olhos verdes que estavam cheios de lágrimas. ― Você conheceu meu irmão?
― Então você é a irmã dele?
― Você conhece ela? ― A garota se direcionou ao moreno, que negou com a cabeça, me olhando esquisito. ― De onde você conhece Ollie?
― Daqui mesmo, ele deveria me encontrar hoje. Você sabe onde eu posso achá-lo?
― Você não brinque com isso, sua… ― Se interrompeu para não soltar um xingamento para mim. ― Fica longe de mim, maluca! ― Pegou o celular das minhas mãos, indo a passos rápidos em direção ao hospital.
― Eu disse alguma coisa errada?
― Desculpe o mau jeito dela, a pobrezinha está tendo o pior dia. Nós estamos. ― Suspirou. ― Prazer, Tommy. ― Me estendeu a mão, que apertei. O melhor amigo.
― Felicity, e aquela deve ser Thea. Oliver me falou mesmo como ela consegue ser espirituosa.
― Tem certeza que ele não usou os termos "inconveniente e mimada"? ― Meu queixo caiu, pois foram esses exatos adjetivos que Oliver usou na nossa conversa no inverno para descrever a irmã, mesmo que tivessem sido dito com carinho.
― Quis ser gentil. ― Dei de ombros. ― Ou te chamaria de depravado e intrometido.
― Oh, tão Oliver! ― falou com um sorriso saudoso. ― Então, você falou que o conheceu nesse parque. Quando?
― No outono passado. Na verdade, hoje faz um ano.
― Não pode ser.
― Eu tenho certeza. E em dezembro, março e junho.
― Impossível.
― Não, não é. Por que vocês ficam me tratando como se eu fosse uma doida ao dizer que conheci Oliver?
― Hm, ok ― Tommy murmurou, unindo as mãos prestes a começar uma explicação, então parecendo desistir em seguida, sem encontrar um modo bom. Por mim, ele falaria de qualquer jeito, bom ou ruim, eu só precisava saber. ― Ok.
― Só fala, criatura!
― Melhor eu te mostrar. Pode vir comigo? ― convidou hesitante, apontando para o hospital.
― Eu não…
― Se eu te falar, não vai acreditar, então… Por favor?
Tommy não era exatamente como Oliver descreveu. O moreno não era o tipo conquistador descarado e sem noção que o melhor amigo falara. Em cada uma de suas palavras para mim até o momento, eu só conseguia ver gentileza e até uma pontinha de preocupação.
O acompanhei para recepção, onde ele conversou por dois minutos com a enfermeira e já voltou com dois adesivos-crachás de visitante, colando um em sua camiseta e me entregando outro.
Movida pela curiosidade e uma angústia que crescia em meu peito, fazendo meu estômago revirar, o segui até o elevador, até o quinto andar então mais alguns corredores. Sozinha não encontraria esse lugar nem que desenhassem um mapa dele, mas Tommy parecia conhecer como a palma da mão.
― Chegamos.
Primeiro avistei Thea, sentada a beira de um leito de UTI, então um casal parecendo muito distinto. O homem estava em uma poltrona, corpo curvado para frente, cotovelos nos joelhos, e a mulher, ocupava o lado oposto da garota, também segurando a mão da pessoa deitada na cama de hospital.
Oliver.
― Hoje faz um ano do acidente, ele tem estado assim desde então ― Tommy começou a narrar baixinho, logo atrás de mim. ― No começo, a gente tinha esperanças, o cérebro dele tinha essas pequenas reações esporádicas, meio que no fim de alguns meses, mas daí já faz três meses. ― A cada palavra, sentia meu coração inchando a ponto estar na garganta, os olhos enchendo de lágrimas. ― Oliver sempre foi do tipo aventureiro, não parava quieto, eram tantos pequenos acidentes anuais que já tínhamos perdido a conta, até esse. Foi por isso que os Queen marcaram a data para hoje, um ano depois. Se ele não acordasse, eles desligariam tudo.
― Como é? ― Me voltei para ele em choque, falando alto o bastante para chamar a atenção das pessoas na sala.
― O que ela faz aqui?
― Thea, pega leve, ela e Oliver são amigos. Eram ― Tommy se corrigiu triste.
Só que nesse ponto, eu já tinha atraído a atenção do casal, que me olhavam como se eu fosse algum tipo de unicórnio mágico.
― Malcom Merlyn, padrasto, essa é Moira ― o homem ergueu a mão para mim, apresentando a si e a esposa.
Queen-Merlyn. Moira Queen e Malcom Merlyn. Como o Conglomerado Queen-Merlyn.
Me achei a pessoa mais burra do mundo por não ter feito a associação logo que os vi. Aquele era o casal todo poderoso de Star City, tinha uma série de negócios com meu chefe e que agora lembrava de ter visto de longe um par de vezes na Palmer Tech.
Malcom ainda me olhava com misto de curiosidade e estranheza, com a mão estendida.
― Felicity ― minha voz saiu em um murmúrio tão baixo, que duvido que ele tenha entendido, mas não perguntou, apenas apertou minha mão.
― Você conhecia Oliver? ― Moira parecia esperançosa, quase como se precisasse de alguma informação nova sobre o filho a que se agarrar nesses últimos momentos. Mas eu não podia lhe dar nada.
Até onde eu sabia, minha relação com ele poderia não ter passado de um surto psicótico, onde, no auge da minha carência e problemas com namorado, imaginei várias conversas com alguém impossível, que eu possa ter visto em algum jornal ou revista.
Talvez fosse a hora de aproveitar que estava em um hospital e ir direto para a ala psiquiátrica procurar ajuda profissional.
― Por que vão fazer isso? ― Resolvi não contar mentiras, indo direto ao ponto que mais me incomodava. ― Oliver é… ele não ia… Por quê?
― Oliver tinha ciência dos perigos que envolvia saltos de bundee jumpee e escaladas sem cordas ou proteção alguma ― Thea explicou, bem mais receptiva a mim.
― Ele já tinha uma ONR, que ignoramos por um ano ― Robert completou. ― Meu filho não iria querer ficar preso a uma cama e fios por anos.
De repente, aquele não era mais o Oliver que conheci no parque. Eu me sentia estranhamente segura perto dele, e por mais que nunca tivesse me dito a profissão, ainda achava que seria algo tranquilo, não um aventureiro maluco.
― Por que não vamos procurar um café e damos um tempo à Felicity com Ollie? O médico só chega uma hora, de todo jeito ― Tommy propôs e eles saíram, mesmo que Thea fosse relutante a isso.
Me aproximei até estar parada ao lado do corpo imóvel, seu rosto parecia tranquilo, mesmo com todos aqueles tubos ligados a ele. Peguei uma de suas mãos entre as minhas. Era quente como imaginei que seria.
― Sabe, é estranho que a primeira vez que eu consiga tocar em você sejam nessas circunstâncias ― murmurei, um sorriso sem humor escapando de meus lábios ao ver nossas mãos unidas. ― Eu imaginei você? ― Minha voz de quebrou ao dizer essas últimas palavras, e sem que eu pudesse controlar, já senti as lágrimas rolarem. ― Com certeza imaginei você, já que acabei de descobrir quão diferente você é do que pensei. Eu tinha certeza, você trabalhava em um escritório e não deixaria ordens para que não fosse ressuscitado se algo acontecesse. Lembra, foi você que me disse como a vida valia a pena ser vivida, as partes ruins também. Droga, Oliver! ― Deitei minha testa em nossas mãos e aumentei o aperto dos meus dedos nos dele, e foi quando senti uma pequena e muito leve resistência. ― Espera, você acabou de… ― Ergui meu rosto, meu estômago dando uma revirada de expectativa. ― Você está escutando? Se você estiver, aperta minha mão de novo.
Só que nada mais aconteceu.
Já estava sendo patético meus apelos para que ele retribuísse de algum modo, mas era como falar com uma casca vazia. Na certa, eu havia apenas imaginado o pequeniníssimo aperto, assim como vinha imaginando muitas coisas durante o último ano.
Quando a família de Oliver voltou, já trouxeram uma pequena equipe médica consigo. Tommy não me deu escolha a não ser ficar ali também, como se eu fosse parte daquela família. O moreno era esquisito, receptivo e confiava demais em pessoas estranhas, mas de algum modo isso o tornava adorável.
― Bom, vamos lá... Eu vou explicar a vocês o procedimento ― o médico começou, seguido pelo falatório onde ele explicava todos os procedimentos ao desligar os aparelhos.
Moira e Thea seguravam as mãos de Oliver, derramando uma torrente de lágrimas, enquanto Tommy assumiu um lugar na poltrona, mordendo o punho fechado, falhando ela segurar as próprias lágrimas, sendo consolado com um afago nas costas por Malcom.
E eu? Me mantinha quieta em um canto, chorando em silêncio e me achando estúpida por estar tão abalada. Era a primeira vez que via Oliver, já todos os nossos outros encontros não passaram de coisas da minha cabeça, como poderia estar mal como se fosse o amor da minha vida ali?
― Quando eu desligar essa máquina que mantém a respiração, vai demorar só mais um pouco. Os sinais vitais do Oliver vão diminuindo até parar, vamos monitorar tudo pelas máquinas. Mais alguma dúvida?
Como ninguém falou nada, o médico seguiu com o que disse que ia fazer, desligando a ventilação mecânica e tirando o tubo grosso que estava em sua garganta.
Secretamente eu tinha os dedos cruzados o pedindo que reagisse. Mas assim como esperava que Oliver aparecesse hoje no parque e ele nunca veio, aconteceu aqui. Nem parecia que só fazia um par de horas que tudo havia desmoronado ao meu redor.
Quando o bipe que marcava seu ritmo cardíaco foi diminuindo de volume e intensidade até ser um ruído constante indicativo de uma linha reta, meu coração se partiu, e quando notei, já estava sentada no chão, chorando com o rosto entre os joelhos. Era o pior barulho do mundo, e duvido que pudesse esquecê-lo algum dia.
Mesmo sem olhar para as pessoas, eu podia sentir e ouvir o pesar que carregava o quarto. Oliver com certeza havia sido alguém muito amado enquanto em vida, e se apenas a ideia de sua presença por alguns dias me deixou assim, nem conseguia imaginar como se sentia a família.
Foi quando algo bizarro aconteceu. O ruído da linha reta voltou a ser um pulso, que foi ficando forte e mais forte. Ergui meu rosto e tudo estava mais agitado.
O médico de antes tirou o estetoscópio do pescoço e colocou no peito de Oliver, que eu conseguia ver subir e descer sozinho.
― Isso é normal, doutor? ― Moira se apressou em ir até ele, segurando em seu braço e até atrapalhando um pouco o processo de ausculta.
― Não se não for um milagre ― falou baixinho. ― Ele está respirando sozinho. Ok, preciso que todos saiam, eu e minha equipe precisamos fazer alguns testes.
Quase não foi possível tirar Thea e Moira do quarto de UTI, Tommy e Malcom quase as arrastaram para fora dali.
A sala de espera foi nosso pesadelo seguinte. Ninguém trazia notícias e eu me sentia intrusa ali. Não era família, e de verdade, não era nem amiga, mas não conseguia ir embora sem saber como ele estava ou talvez nunca mais vê-lo.
Os médicos vieram nos avisar que Oliver estava reagindo quase uma hora depois, somente após testes cerebrais complexos e uma série de exames laboratoriais. Apenas família foi autorizada a entrar, e não forcei minha presença, mas também não iria embora. Esperaria o tempo que fosse preciso para vê-lo, nem que fosse apenas por uma janelinha de vidro.
― Felicity? ― Meu coração parou de susto quando fui acordada por Tommy. ― Desculpa.
― Que horas são? ― Minha coluna doeu quando levantei do sofá que havia cochilado toda torta, torcendo para não ter babado na frente de quem passasse.
― Quase duas da madrugada. ― Sentou na poltrona ao meu lado, também parecendo exausto. ― Ele está acordado.
― Sério? ― Levei minha mão à boca, as lágrimas turvando minha vista, só que dessa vez, o choro era de alegria. ― Deus!
― É, eu sei, um milagre de verdade. E o pior é que vou ter que passar o resto da vida pagando todas as promessas que fiz pro bastardo acordar ― falou com falsa indignação. ― Quer vê-lo? ― perguntou sorrindo.
― Não acho que deveria, sei lá. Deve ser meio particular, coisa de família.
― E daí, você o conhecia e o amava, além de ter ficado aqui o tempo todo. E eu estou curioso sobre como se conheceram, já que você não conta uma história que faça sentido desde que chegou aqui.
Nem que eu quisesse teria uma história com sentido. Segui Tommy, na esperança de que tudo não tenha sido uma alucinação e eu não tenha ficado falando sozinha em um parque nos últimos meses.
Quando entrei no quarto, um alívio imenso inundou meu coração ao vê-lo ainda na cama, mas está estava inclinada, os olhos exatamente como eu me lembrava. Não tinha como ter imaginado eles, não havia foto que mostrasse todo aquele calor que só era possível ver quando se olhava direto para eles.
― Ollie, olha quem eu trouxe!
Tommy estava animado, e Oliver me olhou diretamente, não como fazia antes no parque mas como deveria fazer com qualquer outro que não conhecesse, um sinal claro apenas para mim que ele não me reconhecia.
― Ele ainda não pode falar, está com a garganta prejudicada pelo tubo ― o moreno me explicou. ― Vai lá, garota! ― Me incentivou com um pequeno empurrãozinho nas costas, foi quando notei que estava congelada no lugar na entrada.
― Vamos tomar um café, família?
Quando eles saíram, me aproximei relutante da cama.
― Oi, eu sou Felicity. Você não me reconhece, não é? ― Ele negou com a cabeça. ― Nossa, eu tinha tanto para te falar hoje mais cedo, e agora… Você vai me achar maluca. ― Neguei de leve e Oliver deu um pequeno sorriso. O mesmo sorriso. ― Mas como a gente provavelmente não vá se ver depois que eu for embora, melhor dizer tudo de uma vez. Vai ser uma história legal pra você contar para as pessoas sobre sua recuperação. Bom, eu conheci seu fantasma ou sei lá. ― Ele franziu a testa, já devia estar quase chamando alguém para me expulsar daqui. ― Quer dizer, achei que conheci você, então acho que só queria dizer obrigada. ― Eu tinha noção como a história era absurda, até para os padrões Felicity. ― Você me ajudou quando eu precisei, foi um amigo, me escutou, me fez rir, me consolou, e estou muito feliz por estar bem ― concluí, deixando sem falar tudo que eu queria, e saindo dali rápido.
Era inútil, ele não lembrava e como poderia? Estava desacordado em uma cama de hospital há um ano. Agora o que deveríamos fazer era seguir nossas vidas, que por um milagre poderiam ser vividas, e tentar ser felizes, eu guardando as boas lembranças do estranho bonitão do parque.
Parte VI
Outono
22 de outubro
Merda de colar que não consigo viver sem! Alguém por favor, costura ele em mim, assim paro de perder essa droga!
― Parece alguém que precisa de ajuda.
Prendi a respiração e minhas mãos estacionaram nas folhas que eu remexia em busca da bendita joia. Precisei de dois segundos para processar a voz, então levantar e encarar um Oliver em pé na minha frente, completamente recuperado, mais lindo do que nunca. E com uma roupa diferente, quem diria.
― Parece que viu um fantasma ― brincou, mas eu ainda o olhava séria, mesmo que só ouvir aquela risada e ver aquele sorriso, me fizessem querer sorrir também. ― Foi mal, não resisti. É isso que está procurando? ― Ergueu um pouco o braço, onde ele trazia enrolado o cordão na mão, o pingente com o F e o D balançando livres.
― Oliver... ― Meus olhos encheram-se de lágrimas, e eu sorri emocionada. ― Você está mesmo aqui?
― Sim. E eu lembrei ― falou apenas isso antes de eliminar a distância de dois passos que havia entre nós e alcançar meu pescoço com as mãos e minha boca com a sua.
Apertei sua camiseta entre os dedos quando seu corpo investiu contra o meu e aprofundando o beijo que esperamos e ansiamos por tanto tempo. E só pra constar, era melhor do que sequer ousei imaginei.
― Então… ― Me aconcheguei melhor em seus braços, nós dois sentados na sombra da árvore, a Deus sabe quanto tempo. ― O que vamos dizer pras pessoas quando perguntarem como nos conhecemos? ― Ouvi sua risada gostosa às minhas costas.
― Será uma história interessante, vou admitir. Ou talvez a gente deva omitir alguns detalhes para evitar que nos mandem para alguma entidade psiquiátrica. ― Senti um beijo em meu rosto.
Desde o nosso primeiro beijo apenas alguns minutos atrás, Oliver não parava de me tocar segundo algum. Depois de um ano inteiro sem conseguirmos encostar um no outro, eu tinha de admitir que não conseguia nem imaginar como seria quando tivéssemos que nos afastar, para ir para casa, por exemplo.
― Você está certo. ― Me virei para encostar meus lábios nos seus mais uma vez.
― Obrigado, meu amor ― declarou sincero, seus olhos azuis presos aos meus.
― Por quê? ― Eu estava realmente confusa dos motivos porque ele estava agradecendo, quando eu achava que deveria, apenas por tê-lo de novo em minha vida.
― Por um ano, tudo que eu tinha na vida era você, Felicity. Era tudo escuridão, frio e solidão, até conseguir falar com você, aqui nesse mesmo lugar e todas as outras vezes depois disso.
― Talvez fosse tão frio porque você ao ficava de camiseta o tempo todo ― tentei amenizar meu desconforto em ter tantas declarações seguidas com a piada ruim. Oliver me olhava como se não esperasse que eu falasse aquilo. ― Desculpa, não sei o que responder quando você fala esse tipo de coisa pra mim. ― Encolhi os ombros e seu sorriso aumentou.
― Ei, olha pra mim ― chamou minha atenção, segurando meu queixo quando encarei minhas mãos. ― Te amo.
― Oliver, eu…
― Não precisa dizer de volta, tudo bem ― me interrompeu, mas não parecia triste de modo algum pelo que falava. ― Você tem uma vida, muitas coisas aconteceram com você esse ano, você se redescobriu e deve ter sido maravilhoso, só que não posso evitar. Felicity, você é a pessoa mais incrível que já conheci e não estou dizendo isso porque, de algum modo, só conseguia falar com você.
― Oliver...
― Eu te amo e é isso. Ponto final.
― Também te amo. ― Segurei seu rosto e o beijei mais uma vez. ― E não é porque você é provavelmente o homem mais lindo que anda sobre a Terra. ― Oliver sorriu e negou de leve com a cabeça, olhando para o chão. ― Se me descobri e me amo mais, é porque você fez parte disso. Me fez amar mais minha própria vida. Obrigada, meu amor. ― Voltei a sentar de costas para ele, aconchegada em seu peito.
― Quer saber de uma coisa? ― murmurou ao meu ouvido, o ventinho de sua respiração me fazendo cócegas na minha nuca. ― Nunca estive tão feliz.
― Quer saber de outra coisa? Estou começando a amar o outono também!
Notas finais
Obrigada aos que leram até o fim.
Nos vemos por aí.. Bjs*
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