Seasons
9 Último Inverno
Notas iniciais
A nevasca caia com força e destreza do lado de fora do templo, um preocupado Afrodite encostava-se em uma das pilastras de mármore observando a escadaria que levava até sua casa, estava fora há algumas horas e desde o inicio da tempestade ficara impossibilitado de subir até Peixes. Suspirou. "Minhas flores... Como elas estão?!"
–Não se preocupe, Afrodite, elas estão bem.
Um meio sorriso desenhou-se nos lábios rosados do loiro, voltou a face lentamente para a voz que vinha do fundo do templo, passou uma mecha de cabelo para trás da orelha caminhando silenciosamente até onde o guardião de virgem se encontrava, como sempre, meditando.
–Ah, eu não tinha intenção de ficar tanto tempo aqui o incomodando, me desculpe por isso Shaka.
–Não incomoda, fique a vontade.
O vento uivava do lado de fora e o frio seria suficiente para congelar qualquer ser humano insano para se expor à nevasca, porém, dentro daquele lugar (apesar de construído a base de pedras frias), a temperatura era aconchegante e suave, o calor que exalava de ambos os corpos parecia ser o suficiente para aquecer o universo. Observava com curiosidade o homem a sua frente, era mais novo que si e ainda sim possuía feições mais maduras, os traços adultos, os cabelos longos e dourados como os raios de sol (não louros como o seu, mas de um amarelo forte), os braços proporcionalmente trabalhados; mordeu o lábio inferior tentando afastar os pensamentos nada castos que dominavam sua mente.
"Pelos deuses, Afrodite... Você não tem sequer o direito de imaginar esse tipo de coisa! Ele não é como você!"
Voltou a face corada para a outra saída do templo disfarçando o rubor que coloria seu rosto, os joelhos perto do peito com o braços apoiados sobre os mesmo, o olhar distante e um terrível amargor na boca.
"Droga..."
Shaka notou a movimentação de Peixes à sua frente, percebeu que algo incomodava o colega. Sabia que não se tratava apenas das flores, havia algo escondido por trás dos olhos azuis de Afrodite, algo que nem mesmo ele conseguia decifrar. Levantou-se caminhando silenciosamente para onde o pisciano encontrava-se, perdido em suas disputas e brigas internas.
–Afrodite? -Baixou o corpo ficando na altura do outro, tocou-lhe o ombro como se assim pudesse tirá-lo do transe. "Tão absorto e distraído...."
O pulo de Afrodite fez ambos se assustarem, fazendo o sempre tão concentrado Shaka de Virgem recuar meio centímetro e afastar a mão. Encarou o amigo por alguns segundo até cair em gargalhadas com a careta que o virginiano mantinha. "Ele realmente é adorável!" , levou as duas mãos até as pálidas bochechas do amigo apertando como se brincasse com uma criança.
–Não faça essa carinha Shaka! É adorável demais!
–Pelos deuses Afrodite...-Segurou as mãos do sueco as afastando de seu rosto, Afrodite ainda ria e continuaria assim se não tivesse percebido o olhar atento que o guardião do sexto templo dirigia a uma cicatriz especifica... Puxou o braço disfarçadamente, tentando ao máximo esconder a expressão de pânico em sua face. -O que é essa cicatriz, Afrodite? Não me parece o tipo de corte que se obtêm em batalhas.
–Não é nada.
A voz saiu em um sussurro baixo e frio, na esperança de finalizar aquele assunto, o pisciano escondeu as mãos embaixo da cocha e tentou falar sobre o quanto estava frio lá dentro e quando será que a tempestade iria acabar, sua indignação por ter deixado suas flores sozinhas e a raiva que sentia do fato de ter de preparar seu substituto; porém notava que todo rodeio a qual se dava ao trabalho de criar não estava tendo efeito nenhum, o loiro continuava a "observar" com indiferença as mãos que permaneciam protegidas sob seu corpo. Engoliu seco, não queria explicar o que eram aqueles cortes e não sentia-se inclinado a contar suas origens, eram marcas de uma época que era fraco e não podia defender-se, uma época em que sua beleza fora a perdição de homens e mulheres, sua maior maldição, uma época em que a vida não tinha sentido nenhum... "E ela tem agora?!"
Levantou-se irritado, entendia agora, estava sendo um objeto de estudo para o guardião de Virgem, ou pelo menos, sentia-se assim. E, este, era um sentimento que não apreciava nem um pouco.
–Não é aconselhável sair, Afrodite.
–E posso saber porque não? -A voz saiu ríspida e entredentes, esforçava-se para manter a calma e não mandar Rosas Piranhas em todas as direções a fim de extravasar seu ódio.
–Não é uma nevasca comum. -Shaka ergueu o rosto em direção ao teto como se pudesse transpassar a camada de pedra que os protegia e entender o que significava cada floco de neve que caia brutalmente do lado de fora. -Essa neve... É o anúncio da volta de Hades.
Os olhos azuis arregalaram-se, volta de Hades? Ele dizia este tipo de coisa com uma calmaria anormal! O que era aquela criatura afinal?! Os dentes se trincaram e suas unhas cravaram-se na palma das mãos com uma força sobre-humana seu estomago deu reviravoltas desconfortáveis e seus lábios fecharam-se em uma linha fina, nem parecia que há alguns minutos ria como uma criança que ganha o brinquedo mais esperado do ano. Baixou os olhos deixando-se cobrir pela franja, nunca estivera tão assustado em toda sua vida diante tudo que acontecia. Seus lábios tremiam e suas mãos subiram automaticamente pelos braços abraçando-se, como se assim pudesse proteger-se de tudo que acontecia ou iriar acontecer.
"Ah, minha deusa... Por que....? Por que? Como isso pode acontecer? E por que demônios estou tão assustado com a ideia da volta de Hades?!
Perdeu-se alguns momentos nas divagações que sua mente criava, caia nas próprias armadilhas criadas pelo ego ferido e a depressão palpável, há muito havia percebedio que a morte se aproximava e que, a ideia de deixar o santuário, desde o principio não era apenas para "Livrar-se dos cavaleiros estúpidos e mal amados, que morriam de inveja de si", na verdade, apenas tentava fugir da realidade que batia em sua porta, a que dizia que era covarde e agia como um cachorrinho assustado, "A realidade que diz que a morte não desistiria de mim tão cedo...", um sorriso tremulo lutava para manter-se na feição tristonha do cavaleiro, "eu sabia que ela viria... Eles juraram me buscar, mas... Tão rápido?"
Perdeu-se em memórias e pensamentos por segundo até ser surpreendido por algo totalmente inesperado, dois braços... Dois braços pálidos e torneados pelos anos de treino o envolvia, o cosmo que transmitia paz e calma conflitando totalmente com o seu quase tão revolto quanto o mar em ressaca, Shaka o abraçava, com uma delicadeza descomunal, se dissesse que algum dia imaginaria ser abraçado por alguém como ele, mentiria. Jamais imaginou que pudesse receber tamanha caricia do outro.
Um sorriso tolo brindou os lábios rosados do sueco, sentia uma das mãos delgadas do amigo acariciando os cachos de seus cabelos, desde o topo de sua cabeça até o final dos fios, enrolando-se ali, como ele mesmo fazia há algumas horas atrás, permitiu-se retribuir o gesto envolvendo os ombros do companheiro de batalhas em uma retribuição desesperada por apoio e segurança, o rosto escondido na curva do pescoço do indiano que continuava em sua tarefa de acalmar o cosmo tão turbulento que espalhava-se por sua casa. Shaka manteve-se na posição, tentando ignorar as batidas descompassadas do outro, batidas que estranhamente sincronizavam perfeitamente com as suas, sempre tão ritmadas e indiferentes.
Não saberia dizer o que o levou àquilo, mas admitia o aperto no peito quando via o sempre tão pomposo e frio Afrodite de Peixes baixar sua guarda tantas e tantas vezes, a presença do pisciano o acalentava e lhe trazia uma paz diferente da que convivia. Sempre julgou o outro como o tipo de pessoa que preferiria manter afastado, mas agora já não tinha mais ideia do que se baseava seus julgamentos apenas havia dado uma chance ao colega para aproximar-se e agora revia totalmente seus ideiais, sempre se perguntando o porquê do cosmo hostil, das oscilações de humor, dos sorrisos fracos e dos olhares vagos. Afrodite nunca fora o que demonstrava ser, e agora, pela primeira vez em sua vida, percebia que aos poucos o guardião da décima segunda casa deixava seu real eu a mostra, um eu que era tão humano quanto ele mesmo.
"Nos jogaram sob um altar e colocaram a culpa em nós, alegando sermos perfeitos demais e eles mortais demais... Como são tão cegos a ponto de não enxergar que também viemos do pó?"
O abraço intensificou-se por parte do indiano que agora sentia-se sutilmente indignado, claro que a ideia de ser tratado com certa distância pelos outros nunca o incomodou e sabia que por muito tempo não incomodava Afrodite também, mas as coisas mudam, a morte vem e mostra a verdade fria e cruel que reserva a todos.
"Não somos deuses, somos humanos."
Separam-se lentamente, Shaka mantinha as mãos apoiadas nos ombros do outro enquanto este mantinha-se cabisbaixo, os olhos arregalados, o coração acelerado e a face tão vermelha quanto um tomate, mordeu o lábio inferior forçando-se a levantar os olhos e encarar o jovem a sua frente, a visão o fez sorrir abertamente, como uma brisa de verão refrescando sua alma.
"Ele sorri"
O pensamento cruzou sua mente inocentemente apreciando o discreto meio sorriso que desenhava-se nos lábios pálidos do virginiano, soltou um risinho discreto, sua própria mente montando frases irônicas e maldosas para provocar o outro em um tipo de brincadeira, mas não teve tempo de pensar muito e sentiu dedos longos e frios deslizarem de seus ombros vagarosamente até suas mãos, seu corpo arrepiou-se e sua expressão saiu de "divertida" para "intrigado" em questão de milésimos, observou o caminho que os longos dedos traçavam por seus músculos levantando o olhar vez ou outra em direção ao loiro como se perguntasse o que ele tentava fazer, as mãos passeavam discretamente por seus membros fazendo e refazendo o caminho até finalizarem sua "exploração" nas palmas das mãos, tomou ambas levando-as em direção ao corpo, abriu os olhos cuidadosamente observando como se pedisse permissão a Afrodite.
"Ah, minha deusa..."
Permaneceu indiferente, não conseguia falar nem esboçar nenhum tipo de reação sem ter ideia do que o outro planejava, acenou positivamente com a cabeça temeroso do que iria acontecer, afinal, o que estava esperando?! Não tinha ideia! Sabia que as borboletas em seu estômago batia contra as paredes do mesmo causando um reboliço estrondoso, sabia que suas pernas bambeavam discretamente e seu coração podia saltar dali e entrar como baterista em uma banda de rock!
O guardião do sexto templo entrelaçou a mão ao do pisciano ainda observando as marcas que jaziam ali.
–Você sabia, Afrodite, que somos opostos?
Os olhos azuis celestes arregalaram-se, ergueu uma sobrancelha genuinamente confuso, simplesmente balançou a cabeça negando a pergunta feita, curioso com o real significado de tudo aquilo e com o que esperar, a ideia do que poderia acontecer no futuro lhe assustava como fizera no passado... "Mas no passado eu não temia a morte, eu apenas queria tê-lo para mim... Eu era estúpido."
–Opostos.
–Como assim?
–No zodíaco, Afrodite, nossas estrelas protetoras são opostas.
Os olhos azuis piscina o encarava cheio de significado, como se apenas o brilho misterioso pudesse explicar tudo que estava implícito naquelas palavras, mas, infelizmente Afrodite era uma tanto distraído demais para decifrar tudo que estava escondido e conseguia captar apenas algumas coisas, bem, talvez, nem todas devessem ser lidas, afinal, tratando-se de dois cavaleiros como Afrodite e Shaka, há muito a esconder...
–E o que isso quer dizer?
–Que no final, os opostos se atraem, não?
Um sorriso discreto dançou na face de Afrodite, ele havia captado o essencial, estavam presos na mesma cela, aprisionados na mesma maldição. Ele era a personificação da beleza e Shaka o quase deus. Ambos eram adorados como divindades e tratados como tal, os demais se afastaram alegando não poder lidar com isso, sim, ele sempre soube disso, ele podia ver nos olhos dos demais cavaleiros...
"Eles temem o que não podem tocar e é assim que somos vistos, não?! Sim, é como se houvesse um precipício entre nós e eles... No final, os opostos eram mais parecidos do que imaginariam, irônico não?!"
–Opostos, é?! He, quem diria... -Uma pitada de malicia não pode deixar de ser sentida nas palavras do sueco, mas, fazer o que?! Era um sedutor nato, e certas coisas simplesmente saiam sem que percebesse. — Mas, opostos não apenas se atraem, Shaka... -A outra mão buscando auxilio, entrelaçando-se. -Eles se completam.
Água e fogo. Paz e guerra. Tempestade e calmaria.
Virgem e Peixes.
Eles eram opostos, considerados divindades e colocados sob pedestais. Um fora humilhado e rejeitado, outro obtinha o maior respeito e temor. Porém, no fim, ambos se atraíram como dois ímãs, não era apenas o percurso das estrelas ou o destino que definia isso, era o físico e o científico. O sangue que corria em suas veias, eram os deuses que tanto amavam um quanto o outro.
Era a vida, que mais uma vez, planejava suas cruéis artimanhas unindo o que preparava para separar, era, como sempre, a doce e sutil ironia.
~
Um templo abaixo de Virgem, Máscara da Morte encontrava-se olhando incomodado ao companheiro que sorria bobamente ao seu lado, revirou os olhos bufando irritado com a presença do brasileiro em sua casa, não gostava de visitas, ainda mais quando elas eram supostamente forçadas a permanecer por mais de cinco segundo em sua casa com o pretexto ridículo de "Ah, Máscara, qual é, olha essa nevasca! Eu já vou embora, prometo!".
–Por que diabos você ainda está aqui mesmo?
–Ora, eu já disse, está nevando muito! E eu vou acabar morrendo congelado lá fora!
–Morrendo congelado? Olha o seu tamanho Aldebaran!
–Mas eu nasci e fui criado em um país tropical! Nunca vou me acostumar a esse frio!! -Defendeu-se fingindo indignação com a falta de tato do outro.
–Tsc, saia logo.
–Qual é, Mask?! Vamos jogar cartas, eu preparo uma caipirinha para você, pode ser?! Eu sei que você adora essa bebida!
Os olhos azuis índigos brilharam momentaneamente com a ideia de encher a cara e passar as próximas horas fazendo apostas estúpidas e fumando charutos cubanos, era uma ideia tentadora e ótima opção quando não se podia deixar as quatro paredes que os envolvia, mas, seu mau humor e a contatação do cosmo de Peixes próximo a sua casa fez toda a alegria da ideia esvair-se rapidamente, trincou os dentes percebendo a oscilação do cosmo de Virgem e Peixes, em sintonia como se cantassem a mesma música e se encaixassem com perfeição. Não pode negar a inveja que sentia de Shaka por conseguir manter-se tão próximo a ele, mas jamais admitiria isso a ninguém e preferia desmentir as resoluções para si mesmo alegando que o que o incomodava era todo o "ar de viadagem" que se espalhava pelo santuário, e não o pequeno bichinho do ciúmes que o mordiscava quando via o protetor do último templo engraçar-se para outros cavaleiros. "Putanna". Revirou os olhos socando a parede e afastando-se do taurino ignorando as exclamações de Aldebaran que o chamava freneticamente.
Um triste sorriso brindou os lábios do moreno quando percebeu o que tanto incomodava o colega, bem sabia da admiração que Máscara da Morte reservava a Afrodite, quer dizer, todo o santuário sabia, não?!
–Hei, Máscara!
–O que você quer?
As palavras saíram entredentes e vagas, como se tivessem sido jogadas ao ar para quem quisesse tomá-las como ofensa.
–Você deveria falar com ele.
Os olhos arregalaram-se e o corpo voltou-se ameaçadoramente em direção ao outro cavaleiro, o olhar fuzilantes, os punhos cerrados e os dentes travados uns aos outros, o que diabos Aldebaran queria dizer com aquilo?
–Do que está falando, touro?
Suspirou longamente dando os ombros como se fosse tentar explicar a uma criança porque o céu é azul e não rosa, aproximou-se lentamente sob o atento e desconfiado olhar de Câncer, sorriu amavelmente pousando a grande mãos nos revoltos cabelos azuis do colega que tirou sua mão negligenciando o ato com o perigoso olhar que exigia uma explicação muito boa para aquelas palavras.
–Sabemos o quanto você se importa com o Afrodite, ficar brigado com ele não vai adiantar nada Máscara.
–Não seja rídiculo Touro, eu não tenho nada com aquele enviado do inferno!
Aldebaran riu animadamente, era visível como o canceriano mudava seu jeito tratando-se de Afrodite. "Ah, Máscara, seria melhor se não negligenciasse tanto seus sentimentos..."
–Eu também adoro o Afrodite... -O sorriso animado nos lábios pendeu para algo nostálgico e saudoso, os olhos perdendo-se nas paredes do templo como se pudesse assistir a uma doce e gostosa memória. -Ele é uma ótima pessoa!
–Não sei do que está falando. -Voltou o olhar para o outro lado, tentando controlar o cosmo que irritara-se consideravelmente, não entendia como alguém podia ser tão sincero com os próprios sentimentos, Aldebaran era, definitivamente, uma pessoa estranha!
–Não precisa fechar a cara assim, Mask! Afinal, eu imagino como você se sinta...
O guardião do quarto templo voltou o rosto rapidamente para o grande homem parado a sua frente, os olhos castanhos baixos o encarando diretamente e o sorriso, não mais tão alegre ou nostálgico, mas sutilmente triste e conformado. O tipo de sorriso que se dá quando temos certeza da derrota e para não dar razão ao inimigo, esboça-se com esforço. Suas mãos tremeram levemente, pedindo aos deuses para que aquele homem não estivesse dizendo o que entendia e pedindo ainda mais para que ele não estivesse lendo sua mente, alma e coração.
–Ele está longe demais de nós, não?
Máscara da Morte trincou os dentes e baixou a cabeça involuntariamente, jamais daria razão a ele, mas lhe faltava forças e palavras, simplesmente não tinha ideia de como rebater os argumentos do brasileiro, não conseguia formular uma frase irônica nem ofendê-lo pelo que demonstrava. "Isso é ridículo".
Balançou a cabeça negativamente virando-se rumo a parte residencial do templo, disposto a apagar tudo que vira e ouvira e a simplesmente ignorar o acontecido na tarde, tinha certeza que não "adorava" a Afrodite, então, por que diabos todos falavam isso?! Eram todos estúpidos?
–Hei, Máscara!
Parou bruscamente, sem olhar para trás, alguns segundos de um incomodo silêncio se fez presente no grande salão de passagem, até que se ouviu um suspiro longe e pesado e sentiu os olhos castanhos voltados a si, penetrando sua carne e rasgando-lhe a alma com a sinceridade e franqueza excessiva.
–Você realmente deveria falar com ele, afinal... Amanhã pode ser tarde demais, não?! Nunca se sabe quando vai perdê-lo... Não arrisque uma segunda vez.
Os passos pesados ecoaram até a saída diminuindo aos poucos seu ruído conforme afundavam na neve fresca, no quarto templo dois olhos azuis permaneciam arregalados, as mãos cerradas ao lado do corpo, os lábios crispados em uma linha fina e na mente as palavras do colega martelando constantemente, indo e vindo, gravadas como uma tatuagem, a ferro e fogo. Ergueu os olhos engolindo em seco, analisando o significado daquela frase.
"Tarde demais, é?"
Um sorriso cruel desenhou-se nos lábios do moreno e uma gargalhada insana pode-se ser ouvida aos arredores do quarto templo.
"Você está errado, Aldebaran, não posso perder o que nunca tive..."
Notas finais
Tia Evye.
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