Seasons
3 Primeira Queda
Notas iniciais
Boa leitura!!
Tia Evye.
A chegada do outono grego trouxe consigo o silencio ao santuário, os treinos diminuíram consideravelmente, os servos apareciam com menos frequência e os próprios habitantes do local quase não eram vistos fora de seus respectivos templos. Os ventos sopravam com toda força, fazendo árvores perderem suas folhagens e pequenos animais esconderem-se, tal como certo cavaleiro que se isolara no mais afastado de todos os templos.
Afrodite mantinha-se no quarto desde a visita de Milo, deitado em sua cama, coberto por grossas mantas de veludo; a única janela do comodo estrategicamente fechada, as luzes baixas ao ponto de deixar o quarto mergulhado em uma aconchegante penumbra iluminado apenas por pequenas lamparinas enroscadas nos arranjos de flores presos ao teto. O cheiro das flores misturava-se com o odor sutil e adocicado das velas acesas ao lado da "cama". Dormia tranquilamente (pela primeira vez em meses), seu corpo estivera tão cansado que simplesmente esquecera de necessidades básicas como comer ou ver a luz do sol, limitava-se a permanecer na suíte, não tinha vontade de encarar os demais cavaleiros, a passagem por sua casa permanecia liberada de dia ou de noite, ninguém mais o procurou. Não que isso o incomodasse.... Tinha perdido seu encanto, as pessoas não o cobiçavam mais, estava desolado demais, deprimido. Fútil? Talvez. Afrodite concordava com quem quer que dissesse: "Suas preocupações são tãão idiotas!", de fato eram, mas o que fazer?! Seu maior orgulho era o poder de fascinação que exercia sobre os outros e agora... Não possuía mais isso!"Merda de vida..."
Revirou-se na cama despertando, o relógio na parede ao lado marcava cinco horas da tarde, uma péssima hora para acordar, bufou irritado, com certeza passaria mais uma noite acordado jogando sedas para o alto e pensando quais peças de roupas jogaria nas malas que aguardavam pacientemente seu destino. Levantou-se esfregando os olhos, a suave túnica escorreu por seu corpo, estava grande demais... Pudera, uma semana sem praticamente ingerir... Nada? É, quase isso...
Caminhou até o banheiro evitando os espelhos que agora eram cobertos pela maior variedade possível de tecidos, odiava a sua imagem como nunca imaginou que um dia aconteceria, desejou, pela primeira vez na vida, ser cego. Não ter que se encarar todos os dias e ver a bela imagem, abençoada pelas mãos de sua deusa protetora. "Minha deusa, minha deusa Afrodite... Perdoe-me por odiar tanto a imagem que você se dedicou a criar... Estou sendo ingrato, eu sei...", tirou a túnica entrando na banheira, ligou o chuveiro deixando que a água caísse pelo corpo, sentia como se estivesse lavando seus pecados, como se a água fosse poderosa o suficiente para lavar-lhe a alma e levar para o esgoto o sentimento de inutilidade que hospedara-se em seu corpo. Voltou ao quarto a passos lentos, envolto em sua toalha preferida, a de linho egípcio, adorava àquela toalha, recordou-se do tempo que deitava-se na cama enrolado na mesma, era um ato simples, jogar-se no colchão enrolado na toalha e perder-se na leitura de um livro, mas... Perdera as contas de quantas vezes fora surpreendido por servos que ao verem a cena se avermelhavam como tomates maduros... "Alguns cavaleiros também... Nunca vou me esquecer da cara do Aiolia...". Lembrava-se da cena perfeitamente, estava jogado de bruços na cama as pernas balançando no ar, as costas nuas e os cabelos presos em um charmoso rabo de cavalo, entre suas sedas de todas as cores perdido em mais um caso de Poirot* quando sua porta foi escancarada e por ela um moreno de cabelos castanhos claro entrou exasperado.... "A cena... Oh deuses... Pobre Aiolia, que sua amazona nunca saiba da carinha babona que ele fez...". O leonino parou bruscamente ao avistar o pisciano, Afrodite apenas virara a cabeça e sua direção, lançando-lhe um olhar interrogativo, as face do outro enrubesceu no mesmo instante, deu alguns passos para trás e o brilho feroz e malicioso que apareceu em seus olhos foi bemperceptível. "Bons tempos...". Um sorriso fraco surgiu nos lábios rosados, apostaria seu jardim de rosas que não conseguia mais aquele fascínio sobre alguém, mal sabia ele...
~
–Boa tarde Máscara da Morte.
–Hum?!
–Creio que sua educação foi esquecida algumas casas abaixo.
–Tsc... E desde quando você se incomoda com meus "bons dia" e "boas tarde", Shaka? Resolveu ser amigável agora que ressuscitamos? Esqueceu que eu também fui um traidor? -Havia um leve tom de desafio na voz do canceriano, que cruzara os braços divertindo-se com a ideia de comprar briga com o guardião da sexta casa.
–Não. Só iria alertá-lo para que não perca seu tempo caminhando até a casa de Peixes. O cosmo dele não está presente.
–Oh... Então o todo poderoso e onisciente Shaka de Virgem dá atenção ao cosmos das pessoas que ele despreza?
O loiro permaneceu em silêncio, Angelo ainda tentou provocá-lo jogando ofensas e indiretas (que por sua vez eram bem diretas...), adoraria arrancar uma mísera reação do loiro, um motivo banal para criar uma discussão e tirar a "criatura metida" de sua habitual posição de lótus.
–Pezzo de mierda...
Voltou os passos que fizera, era essa sua rotina, passou a semana toda tentando visitar o colega (por assim dizer), mas sempre algo o atrapalhava e dessa última vez fora a última pessoa que se incomodaria em pará-lo, Shaka de Virgem deu-se ao trabalho de falar com ele e ainda para alertá-lo sobre Peixes, "Ele que enfie essa sabedoria no...Tsc."
~
–Onde está o Afrodite?
–Se estivermos com sorte, morto.
–Controle-se Milo... -Camus repreendeu o amigo dando-lhe uma cotovelada nas costelas.
–Estou falando sério, preciso dele nesta reunião, ignorei sua ausência por esses dias, mas dessa vez eu real-...
–Estou aqui.
–Ah... Que pena... Não foi dessa vez.
–Na próxima vez, experimente me envenenar ou por fogo em meus aposentos, Milo querido, quem sabe assim, você não garante minha morte?! Porque, sabe, palavras ainda não matam! "Fisicamente..."
O olhar de Milo para Afrodite foi de puro desagrado e desprezo, nunca gostara do sueco, mas desde a descoberta de suas traições e algumas coisas mais, arranjara milhares de razões para realmente odiá-lo!
–Silêncio, os dois! Eu os convoquei aqui por que temos relatos de ataques misteriosos em um dos vilarejo vizinhos ao santuário, bem, eles não são tão próximas de nós, fica a cerca de doze horas de viagem, mas mesmo assim há algo de estranho acontecendo por lá. Por isso, designarei alguns cavaleiros para me acompanharem até lá.
–Minha deusa, você irá também?! Não há necessidade de tanta exposição, tenho certeza que apenas os cavaleiros serão o suficiente para lidar com o problema.
–Agradeço sua preocupação Mu, mas prefiro ir com vocês, tenho que mostrar aos habitantes que estou pronta a protegê-los. Sendo assim, alguém gostaria de voluntariar-se a ficar no santuário?
–Com certeza eu quero...
–Para variar o peixe está se excluindo no mundinho cor de rosa dele... Se essa coisa vai ficar, eu vou na missão! E o Camus também, certo Camus?
–Que seja...
–Irei também, Atena.
–Certo, por enquanto temos Mu, Milo e Camus, mais alguém?
–Ah, não poderei acompanhá-los nessa missão, eu e Aiolia estamos trabalhando em outra.
–Oh sim, Aldebaran, agradeço, mas já os dispensaria, não se preocupe quanto a isso. Shura e Máscara da Morte, os dispensarei também, preciso de ambos para resolver alguns "problemas" que surgiram na Itália. Os demais estão dispensados para permanecerem protegendo o santuário.
Afrodite foi o primeiro a se retirar do templo da deusa, um comixão em seu estômago fazia-se presente toda vez que encarava alguns dos companheiros, não tinha mais paciência para permanecer sob aqueles olhares julgadores, até mesmo Mu o observava com receio... "Isso só poder ser coisa daquele loiro oxigenado enchendo a cabeça do roxinho de minhocas e..."
–Espero que essa hostilidade em seu cosmo não esteja relacionada a mim, Afrodite.
O pisiciano deu um pulo ao ouvir a voz atrás de si, era calma e branda como as águas, mas carregava o peso de mil elefantes quando dirigida a si.
–Oh, Shaka, quanto a isso, não se preocupe! Afinal, o que sou eu, um mero mortal, para ser abusivo o suficiente a ponto de pensar em ser hostil com vossa divindade?!
–Sua ironia já foi melhor em tempos passados, Peixes.
–Sim, e minhas traições também... -Murmurou olhando para o lado infantilmente enquanto o guardião de virgem continuava a descida pelo jardim de rosas.
–Passaremos os próximos dias no santuário, como Mu irá com a deusa Atena pediu que revesássemos a guarda da primeira casa, apenas por precaução.Ela me passou os horários e dias da guarda, Saga ficará com a primeira semana, você com a seguinte e a minha será a última.
–Mais alguma coisa senhor comandante?
Shaka parou ao lado de Afrodite, este sentiu um calafrio quando o louro virou-se para ele, os olhos permaneciam fechados e o ar de indiferença penetrava sua alma rasgando-lhe os sentidos, mas não iria demonstrar fraquezas, por mais que aquele ser humano o oprimisse apenas com sua presença.
–Seus cabelos... Cresceram.
O virginiano virou-se para frente e seguiu rumo a sua casa, acompanhando os demais que agora deixavam o templo de Atena. Afrodite viu-se estático, os olhos arregalados e as mãos cerradas ao lado do corpo, ignorara o aceno de boa noite de Máscara da Morte e Aldebaran, as provocações de Milo e os risos de Aiolia ao passarem por ele. Simplesmente esquecera que havia um mundo ao seu redor.
"Mas o que..."
A noite caiu, as estrelas brilhando no céu e na décima segunda casa o mais belo e temível cavaleiro de todos permanecia em pé olhando o mármore na vã tentativa de fazer seu cosmo parar de elevar-se ao acompanhar as batidas de seu coração.
Notas finais
É isso queridos, agora, vejo vocês no terceiro capítulo (que provavelmente sairá no final de semana). Até lá!
Tia Evye.
Continua...
Fale com o autor