Notas iniciais
Essa, certamente, é a fic mais obscura que eu já escrevi. Adianto que tem que ter um pouco de estômago para ler, já que eu estou precisando do meu estômago bom o suficiente para escrever. Tenham em mente que as personagens estão traumatizadas, todas passaram por experiências medonhas e acharam seu meio de continuar a viver, mesmo que muitas delas não o queiram. Teremos romance sim, claro! Porque a vida é isso, mas essa fic vai tentar demonstrar um lado podre do ser humano. Espero que gostem.

Search and destroy.

A frase entalhada na coxa esquerda de Cana Alberona, a mesma que ela tinha adotado como filosofia, metas de existência e todas aquelas falácias de iluminação e preservação. Na verdade, ela via essa ordem como um preceito divino, assumido com muita devoção, se é que alguma divindade existia por aí.

A eterna busca e destruição eram as duas molas propulsoras da existência como humana daquela pessoa, sua batalha interna contra o bem e o mal, sua vontade em realizar e destruir não podia ser classificada como algo completamente ruim ou ainda algo completamente bom.

Entretanto, se ela se colocasse a pensar sobre as possíveis implicações éticas e relativamente desrespeitosas de suas ações, era só ela modificar o referencial adotado. Ela podia fazer algumas atividades não tão socialmente aceitáveis, mas ela mesma sabia o quão podre a sociedade podia ser. Sem falar que com tanta gente alienada por aí, não seria ela, a diva dos venenos que iria se preocupar em fazer certas alterações para agradar um monstro invisível e sedento por sangue não? Era assim que Cana via a sociedade onde estava inserida.

Ela morava na cidade velha de Magnólia, grande, cinza e morta. Fazia um tempo considerável que aquele lugar a tinha acolhido, não só a ela, como suas amigas também. Claro, Magnólia tinha um orfanato e ela, como órfã que era, só podia ter sido mandada para um lugar desses.

Só que atualmente, Cana não era mais órfã, não se sentia mais solitária, não estava mais sozinha e sua existência também tinha um lado bom.

Era a diretora de uma Organização Não-governamental que ajudava mulheres abusadas pelos companheiros ou afins. Ninguém acreditava que a cidade exemplar de Magnólia precisaria de um órgão como este.

Quando a proposta foi encaminhada para o conselho municipal, a ideia foi rechaçada e suas concebedoras, principalmente Alberona, que era representada por uma outra pessoa, foram acusadas publicamente de promover a desordem e semear a discórdia no seio pacífico da cidade. Entretanto, depois de uma visitinha da “Deadly Little Lis”, os argumentos de subversão foram completamente esquecidos, o projeto foi votado novamente, aprovado com ampla vantagem e até conseguiram um terreno bom e afastado, para

O susto foi perpétuo, quando um metido a jornalista conseguiu uma foto da residência escolhida. Tinham mulheres e crianças literalmente saindo pela janela e aquela maldita foto estampou a primeira página do jornal da cidade. Uma pessoa em particular chamou muito a atenção. A primeira-dama foi fotografada com um hematoma medonho em seu olho direito. Causou uma revolta imensa e a casa quase foi derrubada em nome da moral e dos bons costumes da cidade, mas nada que a “Deadly Little Lis” não pudesse dar um jeito. A lotação da casa podia ter chocado a sociedade de Magnólia, mas não surpreendeu de modo algum nenhuma das responsáveis por aquele empreendimento.

Cana acreditava que o seu papel de buscar e destruir consistia na subversão daquilo que a sociedade acreditava como certo, só que a maneira como ela fazia era muito mais requintada. A sagaz Alberona subvertia de dentro. Era um membro respeitável da sociedade de Magnólia. Era uma benfeitora, lutadora pelo direito feminino e adquiriu um respeito satisfatório perante os cidadãos, que garantia que fosse considerada uma personalidade acima de qualquer suspeita.

Sim....acima de qualquer suspeita.

A idoneidade era a maior qualidade que Cana poderia ter ou ao menos simular. Jamais poderia cair em contradição com seus ideais e seus atos não tão recomendados assim. Porém quando a consciência insistia em dar-lhe um sermão, ela sempre dizia que fazia pela sua mãe. Tudo aquilo era em nome de Cornélia Alberona e dessa forma, seu coração se acalmava. Ela não podia se permitir entrar em um dilema daquela conjuntura, senão todos os esforços seriam em vão.

Ela foi bem-sucedida em criar duas identidades completamente diferentes, duas mulheres completamente opostas convivendo em relativa harmonia em um mesmo corpo. Era isso. O que uma fazia, a outra não podia e nem queria interferir e a vida de Cana ia bem dessa maneira.

Quando chegou à Ong naquela manhã, viu que tinham mais duas mulheres ali, recém-chegadas e se preocupou. Elas estavam realmente machucadas e não parecia que tinha recebido algum atendimento médico, pareciam que tinham ido direto pra lá.

A moça chamou sua assistente para ajudá-la a transportar as moças para dentro. Sim, as duas mulheres tinham noções básicas de primeiros socorros, mas as habilidades especiais de Lisanna destacavam-se na arte de ferir em vez de curar, então Cana tinha que se virar.

Enquanto a albina movia a maca rapidamente para a sala de primeiros socorros, Cana tentava conseguir o máximo de informações para montar o plano de ação. Descobriu que as duas foram atacadas na rua por completos desconhecidos. Uma delas conseguiu ver o rosto, enquanto a outra que era a menor, tentava se defender o máximo possível.

A mulher maior se chamava Juvia Lockser e a menor se chamava Levy McGarden, elas eram amigas e estudavam na Universidade de Magnólia. Juvia estudava Oceanografia e Levy estava estudando Literatura. Não conseguiam articular mais que isso e Cana ficou chateada quando elas disseram que não tinham família.

“Mais abandonadas, não Lis?” Cana perguntou.

A albina só assentiu com um menear leve na cabeça.

A morena se voltou para as duas e perguntou porque elas não foram para o hospital.

“Ah, senhorita, você sabe como é. Eles sempre começam a perguntar como estávamos vestidas, o que a gente fez pra provocar, sabe?” a maior respondeu rapidamente e chorosa

“Vocês precisam de tratamento médico, pegar o kit de estupro e tudo o mais. Não podemos permitir que fiquem mais machucadas do que estão. Não se preocupem, vamos providenciar. Temos uma médica de plantão. Lis, vai chamar a Kinana.”

A albina só olha de soslaio para a morena e sai rapidamente.

“Ela não fala?” Juvia perguntou

“Não.”

“Por quê?”

“Algo semelhante ao que aconteceu com vocês. Mas eu não acho bom dividir as confidências dela, não se preocupem, ela vai protegê-las com a vida, mas não vai falar com vocês. Então, vou precisar que vocês tentem descrever essas pessoas pra nós, pra providências.” a morena disse misteriosa.

Juvia tentou articular, mas não conseguiu de tanto pavor e Levy ainda continuava desmaiada e passou dois minutos e Lisanna chegou com Kinana em seus braços, em trajes menores, claramente insatisfeita em estar ali.

“Cana, você fala pra esse cão de guarda que eu tenho as minhas necessidades e eu preciso de 8 horas de sono. Ela entrou no meu quarto, espantou o Cobra e me trouxe aqui. Ela até rosnou pra ele.”

“Kinana, você tem sorte que ela só rosnou pra ele e você também sabe que homens são proibidos aqui. Agora veste uma roupa e me ajuda a cuidar dessas mulheres aqui, porque é pra isso que você está aqui.”

Antes que a violeta respondesse, deu uma olhada para as duas. Assustadas, ensanguentadas e trêmulas. Aquilo não era vida, ser mulher não era vida!!! Até quando ela iria cuidar de mulheres que eram abusadas somente por serem mulheres? Até quando ela iria se fechar pra sentimentos e sair por aí tratando todos como objetos? Até quando?

A médica se vestiu e foi em direção à desacordada. Fez um exame preliminar e percebeu com pesar que a moça foi violentada de duas maneiras, tinha escoriações anais e vaginais e ainda tinha material ali. Kinana coletou o material e mandou para análise, fez os procedimentos necessários e esperou a moça acordar. Com Juvia, o processo foi mais delicado, já que a moça não estava desmaiada.

“Não vou machucá-la. Estou aqui pra te ajudar. Permita que eu te ajude, ok? Como é seu nome?” Kinana perguntou com ternura.

“Eu...meu...nome é Juvia, por favor, você não sabe como eu estou me sentindo.”

“Juvia, infelizmente eu sei como você se sente. Todas aqui sabemos. Todas nós passamos por situações semelhantes, ok? Ninguém aqui vai julgar você, vai perguntar como você estava vestida, nada disso. Sabemos, ok? Sabemos que não foi sua culpa.”

“Então todas vocês já...” a frase morre nos lábios de Juvia.

“Sim, todas nós.” Kinana responde. “Você vai ficar bem Juvia, vamos te ajudar, ok?”

A moça assente e deixa a médica fazer seu trabalho.

Depois que as duas já estão medicadas e devidamente instaladas, Kinana sai alterada e vai para o escritório de Cana onde vê a chefe mergulhada em papéis e em pensamentos obscuros.

“Cana..até quando isso vai continuar? Faz dois meses que estamos recebendo mulheres com esse mesmo padrão de agressão...a polícia não está fazendo nada. Parece que agora é mesmo uma cruzada contra as mulheres. Que merda é essa?”

“Você conseguiu as características?” Cana pergunta séria.

“A mesma de sempre: moreno, musculoso, cabelos curtos e uma tatuagem no peito. Como que ninguém pegou esse homem?” Kinana fala exacerbada.

“O problema é o tipo de crime Ki. Você sabe como é...a culpa é sempre nossa..” Cana suspira

“Cana, você já pensou como seria se fôssemos homens? Se fôssemos mais fortes? Será que alguma coisa seria diferente?” Kinana pergunta.

“Seria se tivéssemos convivido com pessoas diferentes, pelo menos no nosso caso, no da Lis, eu acho que não, já que a coisa com ela foi feita por estranhos, né? Não tem como determinar que só o fato de sermos mulheres faz com que sejamos abusadas, contudo, não nego o fato de que recebemos no mínimo 10x mais mulheres do que homens e que dificilmente recebemos um homem adulto. Eu já tentei mapear Ki, não consegui. Eu não sei mais o que fazer.” Cana fala.

“Eu queria ser homem Cana, eu juro que eu queria, pra saber o que é esse instinto assassino, se é coisa da testosterona, pra eu estudar. Não sei o que pensar, mas isso está saindo de controle. O que o chefe da polícia fala? Aquele gigantão?”

“O Delegado Dreyar diz que a resolução dos estupros está em suas prioridades, mas as investigações são prejudicadas pelo fato das vítimas sempre virem pra cá antes de irem para a polícia. O cretino hipertrofiado praticamente joga a culpa da dificuldade das investigações em mim! Em nós!!!” Cana exaspera.

“E como estão as investigações sobre ele?!” Kinana pergunta

“Como você sabe que..” Cana responde.

“Eu estou com você desde o começo e eu sei o que aquela animal da Lisanna é capaz de fazer e sei o que ela faz, Cana e eu realmente não me importo. Só que uma hora ou outra, vamos precisar falar sobre ela, hein. O que a Erza acha disso?”

“Ela diz que o trauma da Lis é praticamente insuperável. Eu não acho que seja, não esqueça que ela tem um grande interesse em naquele cara da polícia, aquele de anos atrás. Aquilo deve ter deixado uma ligação entre eles, sei lá. Eu vi que ela tem uma foto dele, mas qual eu peguei a foto que estava caída, ela quase me esquartejou, literalmente.” Cana explica.

“Pra mim, ela não era capaz de sentir nada além de ódio e justiça.” Kinana disse.

“Ela sente e isso é o suficiente pra nos manter protegidas, não é? Cana responde.

“Sim, e como é.”

Depois de deliberarem e Kinana preparar os relatórios, era hora de ligar pra polícia. Cana já estava até desenvolvendo um relacionamento com o delegado Dreyar. Eles se falavam toda a semana, incrível. Era o homem com quem ela mais falava e o papo era regado a informações, sarcasmo, ironia e acusações, contudo, Cana estava cada vez mais ansiosa por isso. Outro sentimento estranho.

“Eu acho que é melhor levar esses relatórios, não?” Cana perguntou.

“Liga pra ele! Não é assim que vocês funcionam?”

“Vou levar os relatórios, quero saber o que ele está fazendo pra parar essa pessoa. Lisanna está procurando, eu estou procurando, eu fiz o retrato falado, mas a única coisa consistente é a cor do cabelo e a tatuagem no peito. Isso não é certo. Eles tem mais recursos. E finalmente eu vou encará-lo.”

“Se você acha que é melhor assim, mas fala pra Lis te acompanhar de longe.”

“É. Mas eu acho que é melhor a Lis ficar aqui. Tem um homem aqui, sem falar que ela não é minha guarda-costas. Eu consigo fazer isso sozinha.”

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Na delegacia de polícia o clima estava tenso. Essa onda de estupros estava deixando a cidade alarmada e por mais que o delegado detestasse admitir, aquela Cana Alberona fazia a vida deles mais fácil, principalmente em relação às vítimas. A nova modalidade de tomada de depoimentos fazia com que a presença de psicólogos, médicos e terapeutas fosse frequente no recinto e aquela mulher parecia que tirava todos eles da cartola. Até mesmo seus homens estavam se consultando semanalmente e apresentaram algumas melhoras.

Chegando na delegacia, deu de cara com um de seus colegas mais competentes dormindo na mesa e percebeu que ele estava tendo um pesadelo com aquele fato do passado.

“Natsu? Natsu? Acorde homem!!! Laxus fala.

O garoto acorda ofegante e suado. “Oi Laxus.” e dá um sorriso amarelo.

“Natsu, você vem tendo pesadelos quase todos os dias e dá pra ver que você tá mal, cara. O que está acontecendo, com o que você sonha?” Laxus indagou.

“Nada Laxus, eu só ando pensando em muita coisa, não liga não.” Natsu respondeu.

“Natsu, temos uma terapeuta à disposição. Consulte-a. É uma ordem.” Laxus falou.

“Ordem?”

“Sim. Quase todos estamos consultando. Só falta você. Ninguém vai achar que você é menos homem por precisar de terapia, cara. Não tem problema. Até eu estou fazendo. Não se preocupe.” Laxus falou.

“Vou pensar Laxus, obrigado mesmo.” Natsu disse baixinho.

O delegado ficou preocupado, mas assentiu. Não era interessante pressionar o amigo para procurar tratamento, apesar dele precisar.

O caso de Natsu é um dos mais misteriosos que se tem notícia, já que logo no começo de sua carreira, ele foi emboscado por um bando de tarados e quase foi violentado, ou foi e não quer falar pro pessoal. A questão é que ele nunca mais foi o mesmo depois disso. E também nunca disse como foi que todos os homens foram esquartejados em sua frente, ele não viu a pessoa que o salvou. Só sabe que tem cabelos brancos e que é uma mulher.

O interessante é que a pessoa acabou com os agressores em segundos, o vestiu e o carregou saltando pelos telhados e andando de patins. Ela o deixou na porta da delegacia e saiu correndo sem nem esperar por agradecimentos. O moço logo acordou e percebeu o que aconteceu, teve uma crise nervosa e escreveu tudo antes de bloquear as lembranças. Então, ele realmente não se lembra de mais nada do que aconteceu com ele, a não ser os pesadelos e a moça de cabelos brancos o salvando sempre.

Claro que isso faz com que o desempenho de Natsu de uma forma geral caia pra menos da metade, ele é o mais interessado em fazer com que os estupros acabem. Trabalha sem descanso para descobrir quem é o meliante, faz os atendimentos de forma correta e quando tem alguém que começa a perguntar da roupa da vítima, ele já interfere. Ele é o indicado para o atendimento com as vítimas que não vão primeiro no abrigo de Cana Alberona, sendo praticamente indispensável para qualquer procedimento que envolva esse tipo de ocorrência.

O delegado ainda estava exacerbado quando ouviu passos chegando à sua sala, saltos altos, finíssimos e achava que era sua secretária para lhe passar as notícias do dia, entretanto, ele não esperava que tivesse uma mulher escultural, com cabelos castanhos em ondas e botas 7/8 tão perfeitas, combinando com um terninho preto e uma camisa branca. O homem sentiu a boca secar e os olhos arregalarem quando percebeu que a moça olhava firmemente em seus olhos. Ela parecia que o desvendava com o olhar e a ouviu dizendo divertida:

“ Realmente, as fotos do jornal não lhe fazem justiça, delegado. Você é maior do que parece.” Cana diz.

O homem percebe que já ouviu aquela voz e reza pra que ele esteja errado.

“ E você é?”

“Cana Alberona, muito prazer em conhecê-lo, delegado.”

Notas finais
Bom, o começo é esse, mais confundindo do que esclarecendo...espero que curtam essa coisa mais dark...até mais.