Search And Destroy
2 Capítulo 2
Notas iniciais
Kinana estava tomando o dejejum. Estava furiosa por mais uma noite frustrada, na verdade, a noite em si não foi frustrada, mas o final sim. O carinha da vez tinha dito que a amava, mesmo ela sabendo que era mentira. A médica não acreditava no amor masculino, apesar dela e de Cobra estarem saindo há um tempo e dele ser sempre um cara carinhoso, provavelmente ele faria algo pra acabar com ela, coisa que ela não permitiria. Ele não a tomaria, quem faz isso é ela.
Por mais que pareça ok, Kinana também tem seus traumas, mas ela lida melhor com eles, ela tem uma profissão respeitável, fala normalmente e consegue apresentar um comportamento socialmente aceitável, embora seja uma promíscua assumida. Essa é a maneira com a qual ela consegue ter seu controle, a maneira como ela se sente equilibrada no mundo, claro que não é um equilíbrio perfeito, mas é o máximo que ela pode suportar.
Existe um monstro dentro de Kinana, uma cobra que busca por vingança pelo abuso que ela sofreu no passado, em uma época em que ela se viu sem controle sobre o seu próprio corpo, agora, ela o controla. Ninguém a toma sem permissão, é ela quem possui, ela quem ataca. Ela é o predador.
Estava imersa nesses pensamentos quando percebeu que Lisanna estava na cozinha com ela. A albina pegou o celular, escreveu uma mensagem e mostrou o aparelho para a moça.
[Desculpe.]
Kinana não pode deixar de sorrir. Desde que tinha aprendido a digitar sms, a vida das meninas tinha ficado bem mais fácil, sem falar que Lisanna tinha se tornado até uma pessoa comunicativa, dentro de suas possibilidades.
“Está tudo bem, Lis. O dever em primeiro lugar, não?” Kinana respondeu.
A albina assentiu com um sorriso e saiu.
Quando se viu sozinha, a moça acabou de se lembrar que o homem deveria estar em seu aposento, mas quase pediu para que ele não estivesse. Foi correndo e ele estava lá, parecia que esperando-a.
“Kinana, oi. Eu não queria ir embora antes de me despedir, mas fiquei com medo de achar aquela moça no meio do caminho. O que há de errado com ela?” Cobra perguntou.
“Nada Cobra, não há nada de errado com ela. Só veio me lembrar do meu trabalho. Sem falar que eu sei que homens são proibidos aqui. Agradeço a consideração. Eu te acompanho até a porta.” a moça falou estoica.
“Mas o que eu fiz pra você falar dessa maneira? Consideração? Ki, eu não sei e nem quero saber com que tipo de gente você andava, mas acha que eu ia fugir depois de fazer amor com você?” Cobra perguntou
“Não use a palavra com 'A'. Jamais use a palavra com A. Por que a gente não faz o seguinte? Vamos ficar sem nos ver por um tempo, acho que vai ser melhor, não?” Kinana disse estoica novamente.
“Espera! Você tá terminando comigo? Jura? Terminando porque eu falei a palavra com A?? Mas qual é o seu problema??” Cobra gritou.
“Se eu fosse você, eu baixava o tom. Eu estou falando calmamente com você. Não esqueça de onde está, Érick.”
“Você está louca! Só pode estar ficando louca se acha que eu vou...” o homem para porque sente uma lâmina no seu pescoço.
“Erick, se eu fosse você, eu ficaria quieto nesse momento. Não se vire, faça apenas o que eu disser. Os homens são proibidos aqui, porque nesse lugar a vida deles não é levada em consideração. Eu esqueci de lhe dizer. Eu achei que não ficaria e tenho mais certeza que não vai ficar. Não faça nenhum movimento brusco e siga as minhas instruções.” Kinana disse.
Lisanna mantinha a lâmina pressionada contra o pescoço do homem e Kinana percebeu a real vontade dela, a mulher queria ver sangue. Os olhos dela brilhavam, como se fosse um leão pra dar um bote.
“Não faça nada, Deadly, nada. Cobra, vem aqui. Não olha pra trás.”
O homem estava suando frio, mas assentiu. Achou aquilo pavoroso e se sentiu impotente. Quando Kinana pegou em sua mão, ele estava tremendo.
“Ki, é assim que você se sentiu? Quando aconteceu o que aconteceu com você?”
A moça manteve o silêncio e respirou fundo, ainda se mantendo de mãos dadas com o homem até pra fora dos portões. Antes que ela se virasse, ele a manteve por um momento e disse:
“Não vou desistir de você, não interessa o quão transtornada você esteja. E fala pra essa moça que eu entendo o papel dela aqui. Enfia na sua cabeça, eu amo você, mesmo que você não me ame ainda. Até outra hora.” E saiu.
Kinana só tremia, tremia, mas se virou com dignidade e adentrou os portões e começou a correr, corria como se o demônio a estivesse perseguindo. Quando entrou no recinto, viu que Lisanna estava ali como se estivesse esperando uma ordem para ir atrás do perseguidor.
“Calma, ele não me machucou, ninguém me machuca, Deadly, acho que nem você é capaz disso.” Kinana disse.
A albina deu um sorriso irônico, mas assentiu a razão da outra com o olhar e saiu deixando a violeta sozinha com seus pensamentos.
Kinana sabia que Lisanna não era capaz de machucar outra mulher, não importasse o que acontecesse. Geralmente, a intuição da moça era muito boa, ela não errava quando tinha que proteger alguém. Sem falar que Kinana estava percebendo um comportamento estranho na amiga. Ela parecia feroz, mas menos bestial. Estava se vestindo mais feminina, mas não era o momento de lidar com as alterações de humor de Lisanna, era hora de ver como estavam as recém-chegadas. E quem sabe, ligar pra todos os necrotérios a fim de analisar se Cana já tinha sido morta pelo delegado feroz.
Kinana foi para o quarto das garotas e viu que uma delas tinha acordado, a menor que parecia realmente desorientada. Ela realmente, definitivamente odiava aquilo, aquele olhar de desamparo, de desespero, como se não tivesse mais nenhuma saída. Não podia perguntar se estava tudo bem, porque realmente não estava, entretanto, aquela era a hora de conversar. Sabia que a garota precisava de alguém para ouví-la.
A pequena estava com os olhos aflitos e vermelhos de tanto chorar, mas olhou para a médica com menos medo, mas não parecia que estava se sentindo segura de si mesma no momento.
Kinana respirou e pensou que deveria se apresentar, mas antes de tudo, deveria mostrar que a conhecia e que ela estava segura ali. Cada vez que uma mulher chegava, a mesma situação se apresentava, embora cada pessoa fosse uma pessoa, então, uma rotina obscura se desenhava. Kinana entrava no quarto, observava a pessoa, analisava as possibilidades de reação e então começava o contato.
“Olá Levy, fico feliz que você tenha acordado. Você chegou desacordada aqui, tem ideia do que aconteceu com você? Quando viu que a mocinha ficou em silêncio continuou. “Meu nome é Kinana e eu fui a médica que te atendeu.” Nesses casos, a abordagem deveria ser a mais direta possível, para que a paciente caísse na realidade, que por sinal era uma droga, e os tratamentos psicológicos pudessem ser iniciados.
A moça olhou incrédula para a médica que sentou ao pé da cama e a olhou ternamente. Antes que explodisse em lágrimas, ela perguntou: “Isso já aconteceu com você?”
“Sim. Já.”
“E como foi?”
Essa era a pior parte do atendimento. As moças não queriam se sentir sozinhas, elas queriam que alguém dividisse a dor com elas. Por mais que cada agressão fosse única, saber que mais alguém já tinha passado por isso, dava a mórbida impressão de não estar sozinha e tudo o que uma vítima de abuso precisava era de compreensão, aquela que somente os atingidos sabiam, que apenas quem já tinha passado por isso, podia oferecer. Lisanna não podia conversar, já que era muda, Cana não tinha sido tocada, mas observou algo horrendo e não era justo que as outras revivessem seus dramas. Kinana era o primeiro passo para a cura e para que isso acontecesse, ela tinha que ressuscitar seus fantasmas todas as vezes. Respirou fundo e começou seu relato.
“Bom, eu tinha 8 anos quando o marido da minha mãe me tocou pela primeira vez. Não teve penetração, mas foi a pior coisa que me aconteceu. Ele fez isso mais algumas vezes, mas no dia em que estava planejando consumar, minha tia tinha vindo mais cedo para casa e o pegou. Nunca tinha visto ela tão brava, ela pegou uma faca e foi direto para o coração dele. Claro, não foi tão fácil assim, mas minha tia lutou e ele estava quase matando-a quando eu peguei a faca e o espetei no estômago com toda a minha força. Ele me bateu bem forte e queria me violentar mais ainda, mas minha tia voltou e me tirou dali. O resto, eu não lembro, mas essa experiência fez com que eu visse o quão limitada eu era. Que a infância não existia.” Kinana disse exacerbada.
“Aconteceu mais alguma coisa?” Levy perguntou.
“Bom, parece que sempre tem algum querendo nos dominar. Já teve ex querendo forçar a barra, já teve chefe dando em cima, já teve.” Kinana respondeu resignada.
“Como você chegou aqui?”
Kinana se surpreendeu com a curiosidade da garota. Geralmente, as mulheres paravam na segunda pergunta. Kinana não estava acostumada a responder sobre a chegada dela no time da Alberona, só que era uma parte da vida dela que ela se orgulhava, não era só de promiscuidade e escuridão que Kinana era feita.
“Bom, eu trabalhava no hospital Municipal e as vítimas de estupro não eram tantas, só que sempre aparecia uma ou outra. E isso sempre me deixava doente. Só que um dia chegou uma moça bem-apessoada, mas estava toda machucada, entende? A moça era lindíssima. Nunca tinha visto alguém tão linda daquela maneira e as roupas dela estavam meio rasgadas. E ela chegou à recepção morrendo de vergonha, dizendo que tinha sido violentada. A reação do recepcionista foi perguntar a roupa que ela estava usando e eu surtei. Fui até lá, dei um sermão medonho no cara, falei que não era culpa da moça e a conduzi para o atendimento. Só que o recepcionista era amante do dono do hospital, que claro, me chamou para uma conversa. E no dia em que conversamos, Cana estava lá, tentando conseguir um atendimento especializado para a ong e tinha sido descartada já, mas ela não sabe o porquê, mas ficou esperando, junto com a moça de cabelo branco, sabe?”
“Sim.”
“Então, o meu chefe chegou a um ponto onde ele chamou a moça de piranha e disse que ela tinha sim, merecido ser estuprada e que se eu não ficasse esperta, seria a próxima. Fiquei morrendo de ódio e comecei a gritar e ele veio pra cima de mim, só que Cana me salvou.”
“Mas como?” Ela abriu a porta e foi pra cima dele, disse que tinha gravado a discussão e fez com que o hospital me cedesse pra ong, sem falar que não sei como, ela conseguiu desmantelar uma rede de prostituição que rolava no hospital.”
“E o que aconteceu com o dono?”
“Se matou com um tiro na cabeça.”
“Que bom, não?”
“É.”
Kinana constatou com pesar que a escuridão tinha chegado na vida da menor, que agora ela estava com aquele desejo de ver tudo sangrando e morrendo, então, ela tinha morrido também. Pigarreou e foi pegar alguns remédios quando percebeu que a pequena queria falar também. Voltou o rosto e sentou-se novamente.
Levy começou dizendo que ela e Juvia voltavam alegremente para casa depois das provas finais, os exames eram sempre dificílimos e elas faziam parte da iniciação científica. Deveriam ter médias excelentes. Como saíram da universidade mais tarde do que o normal, decidiram tomar um atalho que passava dentro da floresta. Muitas pessoas passavam por ali, nunca tinha acontecido nada com elas, então acharam que não estavam fazendo nada de errado. As roupas eram decentes, tinham o tamanho normal. Ouviu com pesar a garota dizendo que nunca tinha se vestido como uma qualquer antes. A mulher só suspirou fundo e estava a ponto de julgá-la como uma fútil quando ouviu a moça perguntando.
“Será que eu provoquei isso, doutora? Foi minha culpa? Eu só queria chegar em casa e parece que eu não vou chegar nunca mais” Levy começou a chorar.
Aquilo era demais pra pobre moça, demais. Entretanto, era uma situação que estava ficando comum. Kinana lutava com o monstro do conformismo que dizia que isso era apenas mais um caso, que aquilo era comum, tranquilo até. Que pelo menos elas não tinham morrido, que elas poderiam se recuperar, que poderiam se vingar.
Vingança. Era a palavra que fazia com que todas continuassem vivendo, era o mote de vida de todas aquelas responsáveis pela Organização. Vingança era o propulsor, era a razão delas ainda estarem vivas.
“Levy, você quer se vingar?” Kinana perguntou de súbito.
“Como?”
“Quer se vingar? De quem fez isso com você?” Kinana perguntou, se recriminando pela vontade de ver sangue e morte.
“Eu não me lembro de quem é.”
“Quando você se lembrar, faremos com que ele se arrependa disso. Pode apostar. Agora vá dormir, vou te dar esse chá pra você descansar efetivamente, ok?”
“Obrigada, doutora.”
Depois que saiu do aposento, Kinana começou a pensar em como ela tinha mesmo mudado. Como todo esse contato com a brutalidade a deixou fria e calculista e como essa necessidade exacerbada de sexo estava moldando a maneira como ela estava encarando os homens. Ela tinha se perdido, tinha plena consciência disso. E realmente não queria se encontrar. Pegou o telefone e fez uma ligação. “Hibiki? Disponível hoje? Que bom. Onde eu posso te encontrar? Ah sim. Deixa que eu te busco. Até mais.”
Foi para o consultório, onde encontrou Lisanna com a boca toda borrada de batom, que por sinal, ela não tinha a menor ideia de como usar.
“O que aconteceu com a sua boca?”
A albina só apontou os lábios e o batom como se esse fosse a representação satânica personificada.
“Você só tem que desenhar os lábios, nenhum segredo nisso. Você faz cortes com precisão cirúrgica. Passar batom é bem mais fácil do que isso.”
Lisanna olhou pra Kinana com olhos suplicantes, uma cena que não era comum.
“O mundo vai acabar! Você está realmente me pedindo alguma coisa? Sério? Ok, eu passo o batom.”
Lisanna sorriu docemente e chegou perto de Kinana lhe estendendo o batom. A médica pegou um guardanapo e limpou os lábios da amiga com delicadeza.
“Eu queria saber pra quem você está se arrumando assim. Temos que agradecer essa pessoa.”Kinana disse divertida.
A espadachim apresentou um rubor inédito e quase se afastou quando Kinana lhe disse: “Não faz mal algum. Só não o mate que está tudo bem.” Lisanna sorriu quando ouviu esse comentário e assentiu.
“Você está muito bonita Lisanna, esse vestido ficou lindo, mas não é conveniente levar uma espada desse tamanho quando você vai fazer um passeio. Tente uma faquinha, ok?”
A moça fez um bico e deixou sua espada em casa, conformando-se com a faca que estava presa em sua coxa e com as shurikens guardadas em sua bolsa. Mas algo estava faltando e Lisanna não sabia bem o que era.
“Ai Lis, você é um caso perdido. Espera. Você vai patinar ou andar. Ou vai de carro? Não é bom sair descalça. Vamos escolher um sapato, ok?
Lisanna esperou até Kinana chegar com uma sapatilha vermelha e colocar nos pés da amiga que ficou muito charmosa.
“Não demore, mande as sms e tome cuidado.E divirta-se. Você está linda.”
Quando a moça saiu, Kinana voltou ao seu trabalho.
Lisanna foi correndo até a rua da delegacia de polícia. Viu quando Cana saiu furiosíssima, mas averiguou que ela estava bem, viu o delegado na porta, se despedindo e o viu. Viu o homem de cabelos rosados que dominava seus pensamentos desde o dia em que o viu pela primeira vez e o salvou daqueles homens cretinos. Ela sabia que ele não se lembrava, ela garantiu isso, contudo, não entendia o motivo pelo qual tinha essa necessidade de vê-lo sempre e protegê-lo também. Ela o vigiava. Já tinha pego pelo menos uns 3 ladrões que iam arrombar a sua casa e alguns engraçadinhos que iriam roubá-lo. A albina se livrou de todos eles. Não, ela não os matou. Lisanna só extermina estupradores. É a regra dela, regra de Cana e de Kinana. Mas nada de pensar em trabalho. Ela quer vê-lo sorrir, faz tempo que ele não sorri e hoje, quem sabe ela o deixe vê-la?
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