Se o Mundo Ruir

13 Capítulo 13 - Anjo do Mal


Notas iniciais
No caso de alguém ter vindo direto para este capítulo, please volte e leia o 12! Este aqui, Anjo do Mal, costumava ser o 12. Agora o 12 é completamente novo, e este eu reescrevi (não mudando nada de essencial, só melhorando). Boa leitura!
Não podia ficar para sempre deitado nessa cama, remoendo o passado e choramingando. Isso só fazia com que sua cabeça doesse mais, com que se sentisse pior. Sentou-se na cama e de repente viu o quarto girando; colocou a mão na cabeça instintivamente, e aos poucos a tontura passou. Ou era fome, pois não comera praticamente nada desde o almoço do dia anterior, ou o tal do qual era o nome dele, Seiya? havia lhe batido forte demais e soltado alguns "parafusos" do lugar. Sentia-se fraco, fatigado, desanimado.

Mas tinha que reagir! Tinha que se levantar, fazer alguma coisa. Qualquer coisa! Olhou em volta do quartinho. Ergueu o corpo e levantou-se devagar. Ficou em pé, só para se mexer, mesmo não sentindo vontade nenhuma. E agora?

Tentar entender o que estava acontecendo com ele seria um começo. Não compreendia por que havia sido atacado daquela forma brutal, levado a um lugar desconhecido, feito prisioneiro. Por que ele?

Seria isso apenas um sequestro típico, onde os bandidos pediriam um resgate? Não, isso não fazia sentido; seu irmão não era rico, e ele próprio muito menos. Além disso, um sequestrador normal não levaria alguém sem mais nem menos, sem investigar sua situação financeira primeiro. Ou muito menos, diria aqueles absurdos que o Seiya havia dito em seu apartamento. Shun não havia entendido nada, mas fosse o que fosse, era algo claramente pessoal.

Mas então o que poderia ser?!

Não sabia o que queriam dele, o que pretendiam fazer. Pensar nisso lhe dava muito medo, pois coisa boa não poderia ser. O tal do Shiryu não o havia tratado mal até então, fora até bastante gentil na forma como tratara de seus ferimentos. Mas nada o impedia de agir diferente a qualquer momento. Ele era colega do Seiya, era um sequestrador; gente boa não deveria ser.

"Ikki," choramingou baixinho. Mas Ikki não estava aqui para protegê-lo. Com certeza nem tinha idéia de que algo estava acontecendo com ele. E mesmo que soubesse, o que poderia fazer a respeito? Por mais que pensasse no irmão como um semi-deus, alguém praticamente onipotente que era capaz de resolver todos os problemas, sabia que Ikki não era nada disso; era apenas um rapaz de carne e osso. Mesmo se soubesse que Shun fora sequestrado, como saberia onde procurá-lo?

Shun lutou para não retornar a chorar, já que isso só piorava as coisas. Mas estava sendo difícil, pois sua esperança de ser resgatado acabara de diminuir consideravelmente. Dera-se conta que dessa vez, provavelmente, não poderia contar com a ajuda do irmão. Se quisesse sair dessa, teria de ser por conta própria.

Com esse pensamento, caminhou até à porta pela qual o moreno antes saíra. Tentando ser silencioso, girou a maçaneta, só para testá-la. Estava mesmo trancada. Encostou o ouvido na madeira, tentando ouvir algo, mas encontrou apenas silêncio. Espiou pelo buraco da fechadura, que era de um estilo um pouco antigo, mas não viu nada a chave devia estar bloqueando a vista pelo outro lado. Virou-se para o quarto e passou a explorar o local, mas não havia muito o que ver. A cama de solteiro com lençóis limpos. O travesseiro que ele estivera abraçando. A coberta fina, dobrada na borda da cama. A mesinha pequena retangular, de madeira crua, simples, com a cadeira do mesmo material.

Aproximou-se da segunda porta, já esperando encontrá-la trancada, mas para sua surpresa ela se abriu, revelando um banheiro. Esse era pequeno e básico, com vaso, pia, espelho (velho e manchado, mas nas suas condições de refém, um luxo), um box com chão de cimento e cortina de plástico. Havia uma toalha limpa dobrada, um sabonete, e uma escova de dentes nova na pia.

"Aah!", gritou de surpresa quando caminhou até o espelho e viu o estado em que se encontrava. Não podia acreditar no que via! Seu cabelo estava todo desgrenhado, parecia que não via uma escova há uma semana, mas isso meramente completava o visual de filme de terror. Seu rosto estava coberto de tons amarelos, azuis, roxos e pretos por cima de um tom que era normalmente pálido, mas no momento era cor-de-rosa, por conta do choro. Um lado do rosto estava visivelmente inchado, e o lábio inferior partido. Um dos olhos estava roxo e só abria parcialmente; ambos estavam inchados, avermelhados e molhados de lágrimas. Juntando a essa bela imagem a parte de cima da tipóia, visível no pequeno espelho, ele parecia ter sido atropelado por um caminhão. Tinha até receio de ver como o resto do corpo se encontrava!

"Você não vai ganhar nenhum concurso de Miss Japão nos próximos dias-"

"Aaaaaah!!!" Shun pulou sem querer e virou-se. Deparou-se com alguém na porta do banheiro, que havia se aproximado silenciosamente, sem que ele percebesse.

"-mas nenhum dano é permanente. Quem sabe." O intruso sorriu sarcástico, com algo de maldade. Estava escorado na porta, de braços cruzados confortavelmente, mirando-o atento.

Shun reconheceu aquele rosto. Arregalou os olhos gradativamente. "É o anjo!" deixou escapar, dizendo para si mesmo. Um sorriso minúsculo foi nascendo. O mesmo anjo do seu sonho! O que lhe protegeu e lhe deu uma sensação de paz depois da surra, enquanto esteve desacordado! Os mesmos cabelos loiros, aquela pele, aqueles olhos azuis...

O pequeno sorriso morreu, sendo substituído por um olhar completamente confuso. Mas como isso era possível? O anjo havia sido apenas um sonho, uma maquinação do seu cérebro para ajudá-lo a lidar com uma realidade dolorosa, dar-lhe uma medida de conforto. Mas e como...? Teria sido realidade, não um sonho?!

O loiro franziu o cenho. "Não sou anjo nenhum, garoto," disse ríspido. "Você pode ter apanhado bastante, mas não morreu ainda. Isso aqui não é o céu. Muito pelo contrário," sorriu maldosamente de novo.

O garoto de cabelos verdes o estudou. Seu anjo era parecido com esse cara só na aparência mesmo. De resto, não podia ser mais diferente. Seu anjo era bondoso e o confortara, enquanto o loiro à sua frente era claramente uma pessoa má em fato o estava ameaçando. "Quem é você?"

"Pode me chamar de Hyoga." Pareceu pensar por um momento, e adicionou: "Mas para seu próprio bem, melhor não me chamar de coisa alguma. Restrita-se a falar apenas o necessário, não faça perguntas cretinas, e faça o que lhe for mandado. Não torne as coisas ainda piores para si mesmo."

Os olhos do garoto se encheram de lágrimas novamente. Mas que droga! Não conseguiria parar de chorar tão cedo, se as coisas continuassem nesse ritmo!

Por que o loiro estava sendo tão cruel consigo? Já devia ter esperado que seus sequestradores não seriam exatamente seus amiguinhos, tratando-o com chá e biscoitos, mas essa atitude do sósia do seu anjo lhe doía mais do que deveria doer.

O tal Hyoga viu suas lágrimas e revirou os olhos, mas não comentou.

Afinal das contas que diabos estava acontecendo? Esse cara era mesmo o anjo do seu sonho? Ou apenas parecido? Mas como Shun sonharia com alguém que nunca vira antes? E se tudo fosse real, se o loiro realmente houvesse segurado-o nos braços e o protegido, como explicar a mudança radical de atitude?

Shun já estava cansado de tantas coisas não fazerem sentido num espaço tão curto de tempo.

Cruzou o braço bom no peito, como se estivesse abraçando a si mesmo. Sentiu-se exposto e desprotegido diante do loiro, por alguma razão. "O que farão comigo?" finalmente perguntou, num fio de voz. Duas lágrimas grossas rolaram pelo rosto ferido, ardendo pelo caminho.

"Isso vai depender do seu irmão, Amamiya," o loiro disse com uma frieza de gelo. "Se ele cooperar conosco, nada de mal vai lhe acontecer. Mas se ele forçar a nossa mão..." Deixou o resto no ar.

Ah, então era mesmo um sequestro por resgate. Muito baixo, muito mesquinho, claro, mas pelo menos não era algo pessoal contra ele.

Como eles sabiam que ele tinha um irmão?...

Respirou fundo e criou coragem para falar tudo de uma vez. "O meu irmão com certeza vai cooperar, senhor Hyoga. Não há necessidade para mais violência. Ele vai lhes dar as economias que tiver. Mas ele não é rico, então não esperem muito. E eu não tenho nada no meu nome, nem muito dinheiro, mas lhes darei o que tiver no meu apartamento. Já vou avisando que não temos família ou parentes para vocês estorquirem... somos só nós dois."

Pronto, disse o que tinha para dizer. Pelo menos agora tudo estava esclarecido, e encaminhado à uma resolução positiva para todos os envolvidos.

O tal Hyoga o encarava com uma expressão muito estranha... como se não tivesse acreditado em uma palavra que ouvira. Por fim descruzou os braços, deu um passo à frente em uma atitude ameaçadora, e disse em um tom perigoso, "Que jogo é esse, rapaz? Não brinque comigo. Você sabe muito bem dinheiro não faz parte da equação."

Shun deu um passo inconsciente para trás e arregalou os olhos. "Mas... se não querem dinheiro... querem o quê então?"

As possibilidades que passaram como um flash por sua mente não eram nada boas. Sua virgindade? Sua vida? Seus órgãos, para o mercado negro? (E se fosse uma dessas coisas, o que o Ikki tinha a ver?) O venderiam como escravo em um país exótico e selvagem? Mas ele não era muito forte para fazer serviços pesados e-

Hyoga perdeu a paciência. Caminhou até o garoto e o empurrou de encontro à parede. Shun sobressaltou-se, logo congelou, de olhos muito abertos. O rapaz mais alto aproximou-se bastante, encostando ambas as mãos na parede ao lado da cabeça do menor, inclinando-se contra ele, com uma atitude totalmente intimidadora. Shun não tirava as esmeraldas muito abertas dos olhos frios do outro, arfando.

A ameaça física era iminente. Shun sentia tanto... Se o loiro o atacasse, não poderia fazer nada! Já era fraco normalmente... o que faria com apenas uma das mãos, contra um rapaz maior e aparentemente bem mais forte? Ainda mais com um pulso e costelas danificados, servindo de pontos fracos! Não haveria defesa possível para ele. Nada além de lágrimas, que não comoveriam o outro em absoluto. Certamente nunca comoveram os garotos do orfanato quem dirá um sequestrador...

Com calma e deliberação, Hyoga falou, pronunciando bem cada palavra: "Eu já disse que hoje não estou para brincadeiras, Amamiya. Sei que nos conhece muito bem, pois há dois anos o Fênix comete atentado contra atentado contra nós. Sei que está envolvido no último "projeto" dele."

Ãhn? Mas que...?

"Aliás, que papel você faz no time, ein? Ajuda a testar qual o melhor revestimento para as balas?"

A voz do loiro era baixa, e a expressão em seu rosto era neutra, mas nem por isso era menos intimidador. Seus narizes estavam quase se encostando . "Talvez ajude o seu irmão a contratar projetos de cavaleiros como capangas, que vocês provavelmente usam uma vez ou duas apenas, e logo morrem no enfrentamento? Ou quem sabe, você fica encarregado de distrair algum professor tarado com sua carinha infantil, enquanto o Fênix coloca uma bomba no laboratório da universidade? E então?"

Shun estava completamente confuso com as palavras de Hyoga, e por isso ainda mais apavorado. Faziam tanto sentido para ele quanto as de Seiya. Que atentados, que balas, que time, que capangas, que bomba, meu Deus?!

Céus, no que estaria metido?! Só podiam tê-lo confundido com alguém! Ou eram todos loucos fugidos de um hospício!

Shun gaguejou, tentando escolher as palavras para responder ao outro, mas não sabia o que dizer. "E-eu... a-ah..."

"Vamos, fale!" o loiro finalmente elevou a voz. "Te fiz uma pergunta! Quero saber qual o seu papel nessa trama suja!"

"Eu não tenho idéia do que está falando!" Shun gritou descontrolado. Ele estava uma pilha de nervos, seu corpo todo tremia, mas não tinha como controlar essa reação. Em contraste, o outro era todo calma e controle; as orbes azuis eram tão frias quanto as geleiras da Sibéria, que Shun vira em um documentário na tevê. "Só um monte de maluquices sem o menor sentido! Você e seus amigos são loucos de pedra! De pedra!"

Em contraste com os berros do menor, a voz de Hyoga se fizera pouco mais do que um sussurro. "Então nega que é cumplice de Fênix na construção da arma?"

"Nego, é claro que nego!" Shun baixou a voz a um tom mais razoável. Esse cara tinha que acreditar nele. "Eu juro que não conheço nenhum Fênix!"

Hyoga o agarrou pela blusa com força, com uma expressão retorcida de quem queria esganá-lo, muito diferente da expressão gélida e inabalável de antes.

"Aah!!!" Shun soltou um grito agudo de dor. O loiro havia tocado na área da sua costela lesionada.

Hyoga o soltou imediatamente e deu um passo para trás. Olhou-o por mais um momento, com uma expressão de... culpa? Impotência? Confusão? Por fim voltou-se e saiu daquele banheiro, sem mais. Shun ouviu a porta da frente bater e o barulho das chaves.

Dando-se conta de que estava sozinho novamente, e (ao menos por hora) seguro, encolheu-se em um canto, abraçou os joelhos com o braço não-enfaixado, escondeu o rosto e fez-se o menor que pode, para deixar novas lágrimas e soluços virem livremente.

Continua...