Notas iniciais
Sejam bem-vindos, novos leitores! E um abraço querido naqueles que favoritaram! Essa fic cresce mais e mais. Estou realmente surpresa com a parceria de vocês! Bem, o que dizer sobre esse capítulo? Escrevi enquanto rolava uma festa de criança que tocava a música tema do Piratas do Caribe sem cessar. Perdoem-me se qualquer parte soar estranha ou torta, mas músicas repetitivas me causam esse efeito.

Marco estava certo. Ninguém mais me importunou até o final da viagem, e nem quando as aulas retornaram. Não que tudo esteja igual a antes, digamos que eu tenha entrado num limbo da estranheza. Sim, estranheza. As pessoas me olham com uma sombra de espanto nas faces, cumprimentam-me com frases polidas e gestos comedidos, como se eu fosse a filha do Barack Obama ou algo do tipo. É assim que os alunos me tratariam se eu realmente fosse a namorada de Marco Vittorelli?

Acho que não.

Tenho quase certeza de que o italiano mexeu uns pauzinhos, e fez alguma espécie de terror psicológico nos amigos inconsequentes. Se minha tese for verdadeira, então não sou vista como a filha do Barack, e sim como a irmã do Anderson Silva.

O novo “cargo” me propôs certos privilégios, não posso negar. Agora tenho direito a um assento exclusivo ao lado de Marco em todos os almoços; entro e saio da faculdade de mãos dadas com ele chamando mais atenção do que um elefante pintado de zebra; sou tão invejada por todas as garotas que possuo até influência de lançar moda – acredite, misturei estampa quadriculada com listrada sem querer e já vi umas cinco alunas fazendo o mesmo. Contudo, nada disso me deixa satisfeita. Estou na maior parte do tempo triste e desanimada, situação a qual minha mãe já constatou. Um dia desses ela até deixou de fazer a típica sopa de tofu das quartas-feiras para me preparar um apetitoso hambúrguer.

Estar tão perto e tão íntima de Marco me drena como uma substância tóxica. Todas as manhãs, quando cruzo minha mão com a dele e nós sorrimos um para o outro, sinto-me acabada. Ele é a ideia de um relacionamento virtual: estamos juntos, porém sem o contato físico, sem a ternura no toque. Jamais beijaremos de verdade, jamais trocaremos abraços apertados de saudade ou palavras bonitas. E isso me mata por dentro, pois é como me iludir com a própria ilusão de amor que criei, e sabendo qual é a realidade por baixo dos panos.

_ Está tudo bem? – Finalmente pergunta Marco após duas semanas de fingimento, durante o almoço num restaurante francês perto da faculdade, o favorito dele.

Deixo escapar um grunhido que soa como resmungo, e apoio os cotovelos sobre a mesa estampada por uma toalha de renda e afundo as mãos nas bochechas.

_ Claro que não está – Ele mesmo responde, engolindo um pedaço de salmão assado.

_ Eu não gosto muito de frutos do mar. – Minto, fazendo cara feia para as lulas empanadas no meu prato.

_ Então por que continuamos vindo para cá? – Ele questiona, indignado.

_ Porque você fica tão feliz quando vem aqui. Quando come uma ostra, parece até que vai ter um orgasmo...

_ Engraçadinha. – Marco ironiza, com um riso. – Eu sei que não é por isso. Está assim desde aquele dia na praia de Búzios. Nora, eu não faço questão nenhuma de continuar com isso. Faço por você. Mas aconselho manter “o namoro” até mês que vem, para a poeira baixar e as pessoas esquecerem o... incidente.

Solto um suspiro cansado ao ouvir “eu não faço questão nenhuma de continuar com isso”. De fato, Marco deve ser coroado como santo depois que morrer, pois fingir um relacionamento sério com a garota mais sem sal e CDF da turma deve ser um aperto e tanto. Só falta ele me pedir para ajoelhar diante seus pés e venerá-lo como o herói da minha vida.

_ E se eles nunca esquecerem?

_ Não seja boba. Até meus boatos mais cabeludos já foram esquecidos.

O observo garfar outro pedaço da posta de salmão, e ele delicia a carne de olhos fechados.

_ Eu gostaria que você conhecesse o Augusto. Você iria amá-lo. – Marco continua.

_ Assim como você o ama. – Complemento, com um sorriso forçado e sem dentes que logo se dissolve.

_ Acho que está rolando um ciúmes – Ele brinca.

_ Talvez. – Respondo, secamente.

Marco rapidamente interpreta meu tom sério e suas feições se convertem em constrangimento.

_ Nora, eu sinto muito mesmo. Se eu fosse hetero, juro que te pegava, amiga – Ele goza com voz afeminada, e eu não resisto a uma risada contida.

_ Pegava não.

_ Pegava sim.

_ Pegava não.

_ Pegava sim.

_ Aliás, você já pegou alguma garota na sua vida? Tipo, de verdade?

_ Já. Foi assim que eu descobri que sou homo.

_ Mas... mas como foi? Você simplesmente descobriu que era no mesmo instante?

_ Hmm... não. Na minha adolescência, tive duas namoradinhas de narizes grandes e comportamentos brutos. Sabe como é, italianas. Elas sempre me diziam que eu era um homem sem atitude, o que eu considerava um tanto injusto, porque minha barba ainda estava começando a crescer e o papel das mulheres sempre foi amadurecer antes dos homens. Eu gostava tanto da Marcella quanto da Caterina, e confundia esse “gostar” com amar. Mas até então nunca soube o que era amar. Apenas descobri o real sentido dessa palavra numa tarde de verão no sítio de meu avô em Genova, quando estava acompanhando meu pai até a plantação de vinhedos e avistei o filho do caseiro, Enrico, limpar as folhas da piscina. Foi uma conexão... imediata. – Ele faz uma pausa para pigarrear, com o olhar perdido para a janela atrás de mim. – Ele era igual um anjo, e fiquei hipnotizado com tamanha beleza. Lembro-me ainda como seu cabelo loiro irradiava conforme caía pela testa castigada pelo sol. Quando ele levantou o rosto e olhou diretamente para mim, com íris tão azuis quanto o fundo de um oceano, meu corpo inteiro estremeceu. E eu quis ficar ali para sempre, o admirando feito um quadro. Naquela noite não consegui dormir, por estar com a mente perturbada demais. Eu não conseguia tirar a imagem de Enrico da cabeça, e estava espantado com a grande atração que senti por ele. Eu tinha dezesseis anos, e estava no final do relacionamento com Caterina. Refleti como nunca tinha a admirado com tal intensidade, e concluí que talvez estivesse indo longe demais. Enrico era apenas um rapaz bonito, e chamaria a atenção de qualquer outro. Você quer ir para casa? Parece entediada.

_ Que isso, imagina. Quero saber mais sobre esse Enrico.

_ Tudo bem, então. No dia seguinte, lá estava o filho do caseiro novamente, colocando os pães recém-assados sobre a mesa da varanda. Meu pai e vovô discutiam sobre a safra de vinho produzido naquele ano pelo vinhedo do sítio, e nem perceberam quando me retirei da mesa e fui atrás de Enrico. Não fazia ideia do que falar para ele, e dizer “oi, te achei mó gatinho” com certeza não era a coisa certa. O segui até a cozinha, e foi quando ele finalmente notou minha presença e logo abaixou o rosto, com súbita subordinação. Perguntou se estava faltando algo na mesa, e respondi que não. Ficamos em silêncio, claro, e de repente eu pedi para que ele levantasse o rosto para mim. Confuso, Enrico me obedeceu, e outra vez fui tomado pelo tremor de fitar aqueles olhos marítimos. Foi quando concluí que jamais senti algo parecido por Marcella, Caterina ou qualquer outra. Eu queria passar dias fitando aqueles olhos, afagando aqueles cabelos loiros queimados e sentir aquela pele bronzeada com a minha mão. Desculpe, seigneur Lorenzo. Meu pai precisa de mim. Foi o que ele disse, e depois se retirou com a cabeça baixa de novo. Porém, desde aquele dia, Enrico sempre levantou o rosto para me cumprimentar. E assim ele se tornou meu objeto de fascínio até o final daquelas férias, enquanto eu me escondia atrás da coluna da fornalha para observá-lo limpar a piscina, na qual eu propositalmente despejava sacas de folhas secas para que limpasse no dia seguinte. Até que, na última semana de minha permanência em Genova, soube através de uma notícia contada num tom indiferente por meu avô que Enrico fora mandado para Torino, para “ser um escravo mais bem pago por outra família”, como ele bem disse. Nunca mais vi Enrico. Nem preciso dizer o tamanho da minha dor, que apenas se acentuou quando descobri que não sabia o porquê de todo aquele sofrimento. Com o tempo, aprendi a decodificar aquele sentimento como um livro de estudo. Percebi que achava Brad Pitt melhor que Angelina Jolie, e que barba malfeita era mais sexy do que decote de seios fartos. Depois veio Pietro, com o qual tive um romance de verdade.

Ergo as sobrancelhas, digerindo o enredo.

_ E você? Como descobriu que também gosta de homens? – Ele interroga, divertido.

_ Aaah... você tem uma vida amorosa muito mais complexa que a minha. Não tenho grandes histórias de amor para contar.

_ Fale-me do cara especial.

_ Que cara especial? – Devolvo, com as maçãs do rosto enrubescendo.

_ O cara que você mencionou na praia. Durante a choradeira e ataque histérico.

_ Aaaah... ele... ele é um amigo distante. Mora em São Paulo.

_ Hmm. Desapareceu igual ao Enrico?

_ Não, não. A gente mantém contato. Agora nem tanto, porque resolveu arranjar uma namorada.

_ E você ainda gosta dele?

_ Hã... não sei se já cheguei a gostar, gostar. Sabe, eu estava meio ocupada direcionando minha paixão a você.

_ Oh. Peço mil perdões.

_ Mas sempre senti algo a mais por ele. Ele é um doce, sempre à disposição e muito atencioso. E sinto em dizer que a namorada dele é uma nojenta.

_ Então roube o lugar dela, oras.

_ Enlouqueceu, Marco? – Contraponho, em risos.

_ Vamos lá, eu te ajudo. Até vou para São Paulo conversar com ele pessoalmente. Convencê-lo de que Eleonora Santos da Silva é a namorada mais perfeita do universo, porque sabe, eu já fiz um test-drive e posso dar uma resenha fiel.

_ É Eleonora Silva e Santos – Corrijo, envergonhada.

_ Essa mesma, você também a conhece?

Nós gargalhamos.

Eu até que estou gostando de fantasiar com Marco sobre meu improvável amigo paulista, mas um relance de dúvida me percorre. Será que algum dia ele poderá realmente me ajudar a ter uma segunda chance com Tomas?

Notas finais
Bateu até vontade de escrever uma one-shot sobre Enrico. Hahahaha beijos e até!