Se o Amor é uma Ilusão, Deixe-me Ser Iludida
9 Capítulo 9
Notas iniciais
Hoje é o penúltimo dia da semana de provas, e me sinto extasiadamente aliviada por faltar apenas dois testes. Nenhuma nota fora lançada no sistema ainda, mas prevejo que me fud… ferrei bonito na prova de Prática Jurídica. Estou rezando fervorosamente para que o professor do piscar de olhos malucos não se lembre de quem é Eleonora Silva e Santos, a eterna atrasada.
Clarice já se considera automaticamente reprovada, e provavelmente me acompanhará em somente três disciplinas no 2° período. Na verdade eu estou mais preocupada com Clarice do que ela mesma, pois ficarei sozinha no próximo semestre e não tenho grandes intenções para procurar uma amizade que seja falsa e regida por interesses.
_ Como foi na prova? – Pergunto para Clarice, que sai da sala arrastando os pés e fazendo uma bola de chiclete.
_ Um cu – Ela responde, com a mesma naturalidade que a Rainha da Inglaterra acena para os seus súditos.
_ É, eu também não fui grande coisa… — Minto, pois tenho a esperança de que ganharei a maior nota nessa matéria. – Acho que a gente poderia afogar as mágoas numa coxinha com catupiry – Sugiro, ocultando a animação na minha voz. Só almas gordas se animam com coxinhas de catupiry.
_ Acho que não vai rolar – Diz Clarice, torcendo o nariz. – Preciso mesmo é de uma boa vodka. E tequila. E qualquer merda que me tire do sério. – Ela continua, levantando as sobrancelhas e perdendo o olhar cansado e depressivo pelo chão de carpete.
_ Então tá – Dou de ombros, oferecendo um sorriso sem dentes como consolo. Talvez não seja tão ruim Clarice e eu nos separarmos. Afinal, somos amigas, mas simplesmente não temos nada a ver uma com a outra: ela bebe, fuma, não se interessa pelos estudos e de vez em quando me conta umas paradas bizarras que ela faz como orgias (não que eu tenha algo contra), quanto que eu vivo a prática saudável da dieta sem glúten e açúcar (ok, sou forçada), e sou a típica nerd que faz todo o trabalho em grupo e se desespera com uma nota nem tão ruim.
Na faculdade, os estereótipos criados na escola não seguem a mesma regra. Uma nerd como eu pode muito bem ser popular ou fumar e beber feito um gambá, assim como o bonitão qual Marco Lorenzo Vittorelli pode ser o mais calado e esquisitão do período. Porém, não sei se estou pronta para sair do meu casulo. Sinto que posso me reinventar, ser a Nora totalmente diferente de antes e ser aceita por essa gente vestida de Gucci e perfumada de Dolce&Gabbana. E mesmo que seja contra a minha vontade, talvez a futura solidão acabe me vencendo.
Clarice vai para casa e eu discretamente sigo para o corredor que leva à praça de alimentação. Não preciso de companhia para cometer o pecado da gordice. Acho que Tomas ainda está fazendo a prova, então isso significa que irei de transporte coletivo (porque falar ÔNIBUS é uma palavra muito forte para ser pronunciada nos metros quadrados da Maria de Mattias). Vou para a cantina e compro a minha tão desejada coxinha com a mini garrafinha de Coca-Cola, e dou uma mordida na massa crocante e quentinha enquanto caminho para a saída. Sou pega em flagrante no meu delito de gula, e olho atordoadamente em volta quando alguém de sotaque inconfundível grita meu nome:
_ Noura! Noura!
Viro para trás e vejo Tomas erguendo o seu braço, sentado na mesma mesa que seus amigos Leonardo, Bernardo e Marco. Estou encurralada. A única opção existente é a gente ir até a mesa, eu e a divina coxinha. Aproximo-me devagar e dou um sorriso sem graça para todos, dizendo:
_ E aí gente – Ai meu Deus, será que tem frango entre meus dentes?
_ Oi – Responde desanimadamente Leonardo e Marco em uníssono, ao passo que Bernardo não tira os olhos do seu Iphone 6 Plus. É necessário enfatizar o Plus.
_ Estou indo daqui a pouco, se quiser carona. Só estamos acertando as contas para a social na casa do Bernardo – Explica Tomas, apontando para os dois afundados nas cadeiras baratas da praça de alimentação.
O engraçado é que gente rica não faz festa, faz social.
_ Pode convidar sua namorada – Diz Marco, levantando seu olhar verde límpido para mim.
Meu corpo estremece por dois motivos: primeiro, ele está ridiculamente lindo. Seu cabelo castanho de matiz dourada está sexymente bagunçado, como se tivesse acabado de acordar. A blusa polo está desabotoada e se pode ver a divisão do seu peitoral bronzeado, e estou fazendo uma concentração tremenda para tirar os olhos dali. E além disso, ele está me encarando. Não há sensação mais demolidora do que sua paixonite secreta saber que você existe.
O segundo motivo, é claro, a palavra “namorada”. Como assim, namorada? Pelo amor de Deus, Marco Vittorelli! Sou solteiríssima! E virgem ainda por cima! Tire essas ideias absurdas dessa sua cuca linda imediatamente antes que…
_ Ela não é minha namourada – Declara Tomas, o rosto pegando fogo que nem uma pimenta malagueta.
_ Vai dizer que nunca rolou nada nessas caroninhas? – Debochou Leonardo, fazendo um gesto obsceno com as mãos que até onde eu sei, significa um ato sexual.
_ Parem com isso, vocês estão a deixando sem jeito – Replica Tomas, com um quê de ameaça. Por um instante ele não me pareceu mais o garoto sem atitude e com rosto de bebê.
_ Liga não, lindinha. A gente está só de zoa – Fala Marco, demonstrando que já havia incorporado o jargão carioca. – Senta aí, daqui a pouco vamos embora. – Ele oferece, passando a mão nos cabelos como quem já está de saco cheio.
_ Então, quem vai ficar encarregado de levar o gelo para as cervejas? – Prossegue Leonardo, batucando a mesa num ritmo irritante.
_ O Bernardo, ele não fez merda nenhuma até agora – Retruca Marco aborrecidamente, enterrando o rosto entre os braços.
_ Ôh chupa-dedo, você só pode estar de sacanagem com a minha cara! A casa é minha, deixo vocês quebrarem e fazerem a porra que quiserem e ainda reclamam que não faço nada?! – Brada Bernardo, finalmente deixando seu celular de lado.
Chupa-dedo? Mas que apelido é esse? O Marco chupa dedo? Não dá para acreditar. Enquanto os dois brigam para ver quem leva o maldito gelo, observo minuciosamente seus dentes. Não, não são tortos. Perfeitamente alinhados. Logicamente o apelido se deve a outro fator que estou curiosíssima para descobrir.
Enquanto a conversa rola e eu me prendo aos dentes de Marco, noto que Tomas está olhando diretamente para mim. Meus olhos se encontram com os dele em frações de segundo, e Tomas rapidamente desvia para Marco ou Leonardo. Assim eu também desvio, e momentos depois, novamente nos encontramos e nos esquivamos como dois veículos que escapam de uma colisão.
Parece que eles finalmente decidiram o necessário, e todos se levantam da mesa. De um por um, eles se despedem de mim com um singelo “tchau”, no entanto Marco vem até a mim e me dá dois beijos no rosto, como é de costume aqui no Rio de Janeiro.
_ Fiz certo? – Ele brinca, tão perto de mim que sinto seu perfume de tom levemente adocicado.
_ Praticamente um carioca nativo – Respondo, com um sorriso tão largo que mal coube no meu rosto.
_ Vejo vocês dois amanhã – Marco se despede, e em seguida, lança uma piscadela marota para Tomas.
Aaah! Desde que o mundo é mundo e piscadela é piscadela, isto significa flerte! Marco realmente está acreditando que há algo entre mim e Tomas. E isso atrapalhada absolutamente todo o andar da operação Dionísio. Marco pode pegar qualquer garota da faculdade, mas nunca ficará com a garota que o seu amigo quer!
Mas que beco sem saída. Agora a única alternativa é jogar a realidade nua e crua para Tomas, e mostrar que não tenho interesse algum nele. Amigos, e mais nada. É isso que somos, e o que seremos. Marco é a minha grande paixão!
Estamos caminhando para o estacionamento, de cabeça baixa. Ele se oferece para carregar a mochila, e eu digo que não, um não seco. Silêncio novamente. Talvez não esteja tão silêncio, se o turbilhão de pensamentos na minha mente estiver fazendo tanto barulho que ele consiga ouvir. Eu sei que o Tomas não tem culpa nenhuma, muito pelo contrário, ele está sendo incrível comigo. Porém estou sentindo uma pontada de raiva dele, uma raiva irracional, daquelas que nós sabemos que somos os próprios culpados, contudo nos aborrecemos com outras pessoas.
_ Sorry, Noura. Meus amigos são meios inconvenientes. – Tomas se desculpa, destravando as portas do Grand Livina.
_ Ah, tudo bem. – Nós entramos no carro e nos aconchegamos nos assentos, porém o ar da situação permanece desconfortável. – Marco acha que temos algo somente por causa das caronas?
Os grandes olhos azuis se voltam com receio para mim.
_ Sim, Noura. Só pode ser por isso, Marco é um idiota. Believe me, i didn’t say anything about us… – Tomas bate o punho no volante, e eu me espanto um pouco. – Desculpa, desculpa. Estou fazendo isso outra vez.
_ Isso o quê?
_ Bem, quando fico um pouco nervoso eu… acabo falando em inglês sem parar. É ridículo.
_ Não há nada de errado, Tom. É a língua do seu país natal. Eu sei que é muito difícil se acostumar com um idioma, uma cultura, uma nação totalmente diferente da sua. Eu te entendo. – Digo com calma, apoiando a minha mão sobre a dele que repousa no câmbio da marcha. Sua pele é branca o suficiente para enxergar as veias azuis de seu pulso, e eu contemplo a minha pele parda contrastando com a dele. Tomas estica os dedos, e eu também estico os meus, que são bem menores e não conseguem recobrir totalmente sua palma macia. Uma pequena camada de calor se forma entre nossas mãos.
_ É por isso que gosto tanto da sua companhia. Você não me faz sentir diferente. – Ele diz quase que num sussurro, enquanto também fita nossas mãos juntas.
Como eu posso ser tão egoísta? Como eu pude sentir raiva do Tom? Ele gosta de mim, realmente gosta. E independente das minhas intenções com ele, devo desejá-lo bem, e acima de tudo, preservá-lo.
_ Pode contar comigo, tá? Eu estou aqui. Quando precisar. – Afirmei, entrelaçando meus dedos nos dele. Agora estamos de mãos dadas sobre a marcha, e nossos olhos se firmam num fio inquebrantável.
E ele continua olhando para mim, abre um sorriso de lado, um sorriso sincero. Meu coração está palpitando forte. Algo me diz que não é natural um homem e uma mulher estarem sozinhos num carro, de mãos entrelaçadas, fitando um ao outro sem que nada depois aconteça. Antes que ele decida avançar mais um passo, recolho a minha mão para o meu colo e respiro fundo, desviando o assunto:
_ Que social é essa na casa do Bernardo?
_ Uma comemoração para o término das provas. Coisa simples.
_ Hmm.
_ Se não quiser ir, tudo bem. Mas se quiser, seu chofer está aqui de prontidão – Ele brinca, e nós rimos.
Tomas dá a partida e o carro entra na confusão infernal do engarrafamento na hora do rush.
_ Falando em Marco ser um idiota, o que significa o apelido chupa-dedo? – Indago inocentemente, fingindo desinteresse.
_ Well… é uma história indecente, Noura. Uma dama como você não deve ouvir as imundícies que os homens fazem.
_ Deixa de machismo, Tom! Já ouvi tanta fofoca cabeluda que nem me surpreendo mais.
Mentira.
_ Então… ok. Numa de tantas festas que o Marco vai, ele se encontrou com a Natasha, sabe quem é?
_ A loira da pinta esquisita?
Se for a Natasha que estou pensando, uau, ela é perfeita.
_A pinta dela é esquisita? Enfim, ela mesma.
Merda.
_ O que houve?
_ Eles acabaram indo para um motel e… sabe… na hora dele… ah, como posso dizer isso para você?
_ Penetrar? Gozar? Chupar? – Disparei, nem acreditando que aquelas palavras estavam saindo da minha boca. Eu só quero mostrar que não sou tão ingênua quanto os outros pensam.
_ Noura! – Tomas exclama, e caímos na gargalhada. – A terceira opção. Na hora dele fazer a terceira opção na Natasha, ele acabou não fazendo, entende? Ficou enrolando enquanto chupava os dedos dela e acabou não… chupando o que deveria. Por isso chupa-dedo.
_ Aaaah! E deixa eu adivinhar, Natasha que contou isso?
_ Óbvio. Marco apenas nega e não diz mais nada.
Então os primeiros defeitos no príncipe libertino estão começando a surgir, feito furos numa parede que retém uma piscina. Tomas e eu conversamos o caminho inteiro, e ao chegar à casa, passamos pelo rotineiro ritual de despedida. Um abraço demorado, um beijo no rosto pretensioso. Porém desta vez ele passa a ponta do dedo sobre meu lábio, tão suave, que posso jurar que ele está prestes a me beijar.
_ Está sujo de alguma coisa – Ele alerta, e mostra migalhas de fritura sobre o dedo limpo.
_ Que estranho! – Logo exclamo, embaraçada.
Ah, essa minha tara por coxinha apenas me mata de vergonha.
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