Notas iniciais
Capítulo curto porque precisei sair correndo às pressas... Aproveitem!

Os boatos sobre Marco Lorenzo Vittorelli estouravam dia após dia, como milhos de pipoca. Alguns eram mais brandos, outros mais cabeludos, porém sempre chegavam à mesma finalidade: Marco era um galinha filho-da-mãe. Ouvir todas aquelas maledicências partia meu coração, e eu tentava colar cada pedaço desprendido até que meu sentimento por ele se transformasse num verdadeiro bolo de esparadrapos e band-aids. Entenda que eu não gosto dessa minha parte que está seduzida por ele. Entenda que no fundo, eu odeio estar apaixonada por Marco, eu odeio esta sensação de querer alguém que jamais terei. É como um grande tumor pútrido, que eu adoraria amputar mesmo que me deixasse aleijada. Ultimamente ando mais dentro do meu quarto que fora dele, com o pensamento a quilômetros de distância o qual navega pelo mar profundo daquelas íris verde-oliva. Eu ainda sinto o beijo em minha mão, cálido e levemente úmido, e seu sorriso maroto ao insinuar que sou bonita. E aí eu rio e rio de mim mesma, pensando “Ah, mas que cantada mais barata!”

E de repente, lembro de todos os comentários depreciativos sobre ele, e penso como um anjo de olhar tão pueril poderia cometer tantos despudores. Eu ainda tento imaginar a cena dos três sobre a cama, Marco por cima de Renata enquanto Isabella o beija (conforme havia descrito Matheus para metade da turma) e um calafrio de repugno me percorre a espinha toda vez, sentindo-me culpada por querer alguém que curte um ménage à trois. Os outros boatos diziam a respeito de que Gabriela, uma ruiva falsificada, pagou um boquete para ele no meio do pedágio da Linha Amarela, e que ele havia contado que comera a prima mais velha na última viagem à Milão.

Oh céus, talvez minha paixão não se tratasse por um anjo, mas sim por um Dionísio! E então quando a realidade cai dura e fria feito um machado que divide minha cabeça, eu me ponho a chorar feito uma tola. As lágrimas caem uma por e uma e eu as coloco na ponta dos dedos, contemplando-as e as odiando. Elas não deveriam cair por um motivo tão nefasto. Elas não deveriam cair porque nunca seriam reconhecidas. Marco provavelmente está num evento social regrado de bebida e boa companhia numa hora dessas, e eu aqui sofrendo no anonimato.

Respiro fundo e me apoio no parapeito da pequena janela do meu quarto, o qual dá vista para a parede de tinta velha do prédio ao lado e uma varanda onde um homem gordo e sem camisa varre o chão. Preciso tomar uma decisão importante. Eu não sou o tipo de garota que se deixa levar pelas circunstâncias, e quando vejo que a minha felicidade está em jogo é sinal de que preciso tomar uma providência, seja esta errada ou certa, mas alguma coisa tem de ser feita. E se eu não posso deixar de querer Marco Lorenzo Vittorelli, então a minha única opção é consegui-lo. Nem que seja só por um dia, nem que seja só por uma única noite para constatar de que ele realmente é o babaca dos comentários. Talvez este seja o remédio para as minhas feridas: ver com meus próprios olhos quem é o Marco, e não pelas palavras proferidas da boca de outrem. Sim, eu estou decidida.

Uma alegria me invade, pois estou a um passo a frente para alcançar o meu objetivo mesmo que eu não tenha chegado nem perto de sentir o perfume daquele italiano. Agora eu só preciso de um plano para por em prática. Mas qual? Enquanto penso sobre o assunto, abro o feed de notícias e começo a rolar o dedo pela tela do celular. De repente, surge a foto de Marco e seus amigos da faculdade juntos num quiosque de praia. Observo cada um deles: Marco, vestindo apenas uma bermuda de tecido fino e exibindo seu peitoral bronzeado e definido, porém seu abdômen não é estilo tanquinho, parecendo um lugar confortável de se deitar. Matheus, com seus cachos loiros e rebeldes esvoaçando ao vento da maresia, carregando num dos braços sua prancha de surf. Leonardo, conhecido pela fama de o bobo da corte, pois sempre faz piadas fora de hora e leva a turma às gargalhadas. Tomas, o mais tímido de todos, enfeitando seu rosto de bebê com um pequeno sorriso. E por último, Bernardo, com sua típica cara de enfezado e estilo badboy, segurando o seu mais novo brinquedo Iphone 6 Plus na mão.

Eis que uma ideia aflorou claramente na minha cabeça: se eu não conseguia atingir diretamente o meu alvo, que eu começasse a atacar pelos arredores. Faria amizade com um de seus amigos e assim me infiltraria no seu grupo aos poucos, até chegar ao meu pote de ouro. Claro que o plano ainda é bem abstrato, e poderá apresentar muitas falhas futuramente. Porém, o amadurecei de acordo com as necessidades e o arquitetarei com bastante precaução. Primeiramente, devo escolher a minha primeira vítima. Estudo a foto e decido quem do grupo deve ser o lado mais fraco da corda. O alvo mais fácil. O mais aberto para investidas. Sem dúvida, é Tomas. Seria fácil atraí-lo com uma conversa jogada fora. Sua personalidade tímida não seria capaz de ignorar minha presença, e ele querendo ou não me daria uma chance para a amizade. Até porque, segundo a psicologia, pessoas tímidas sentem carência e se entregam completamente a novas relações.

Jogo-me na cama de braços e pernas abertas, com minha mente já trabalhando no arquétipo do meu inocente plano. Aos poucos sou traída pelo sono, e acabo adormecendo com a meu macaco de pelúcia Bananinha em meus braços. Enquanto não tenho os lábios de Marco colados aos meus na realidade, eu os tenho em meus sonhos.