Se o Amor é uma Ilusão, Deixe-me Ser Iludida
32 Capítulo 31
Meus olhos se incomodam com a nesga de luz que trespassa as barras de ferro da janela, e eu me espreguiço lentamente. Aproximo-me para mais perto do pescoço de Tomas, e encontro um espaço aquecido entre seu ombro nu e a curva de sua garganta. Um resquício de seu perfume ainda jaz sobre a pele, e a respiro com vontade. Apoio minha mão sobre seu peito, e posso sentir o conjunto de seu coração batendo com o ritmo da sua respiração, lenta e prolongada. Escuto algo ao longe, parece que alguém está chamando meu nome. Ignoro. Deve ser minha imaginação.
Até que sinto o toque de uma mão chacoalhando meu braço, e então abro os olhos num sobressalto. A míseros centímetros de distância, dois olhos verde-oliva me encaram confusamente, a boca gesticulando palavras incompreensíveis. Ergo a cabeça de súbito e observo onde me situo: a cama de solteiro pequena, o peito desnudo de Tom que ainda está dormindo profundamente e nossos corpos enrolados num lençol quadriculado. Levo uma fração de segundo para relembrar a noite passada, e não sei se meu rosto se converte num sorriso ou em vergonha.
_ O que está fazendo aqui? – Interrogo para Marco, tentando me cobrir o máximo possível com o lençol, porém este é pequeno e preciso me curvar para que o pano me proteja.
_ Sério mesmo? Eu já vi você do jeito que veio ao mundo, sabia? E além do mais, nem curto a fruta! – Ele retruca, o que me faz contorcer meu nariz de raiva. – Tá bom, tá bom. Infelizmente preciso retirar vocês deste ninho de amor, pois o dono dele é meu jardineiro e o mesmo está reclamando que tem dois pervertidos na cama dele.
Cubro o rosto com a mão, embaraçada. Tomas acorda com a conversa e também leva um susto com a presença inusitada do amigo.
_ A noite foi boa, hein? – Marco brinca com um sorriso gozado.
_ Ah... – O inglês perde a fala, aparentemente atônito.
_ Tudo bem, Tomazito. Vou dar dois minutos para vocês se aprontarem – Ele diz, saindo do quarto com passos desleixados.
Me volto para Tomas, cujas bochechas estão ardentes de vergonha. Não demora muito para nos desfazermos em risadas, e trocamos um selinho rápido. Colocamos nossas roupas de volta e saímos da casa feito um foguete, e mal consigo encarar os olhos do jardineiro impaciente na porta.
Marco está nos esperando na sala de estar, contemplando elegantemente a lareira que nunca apaga. Os seus clássicos óculos Ray-Ban descansam sobre o topo da cabeça, enquanto que um copo de energético ocupa uma de suas mãos.
_ Desculpe pelo incômodo, Marco... – Inicia Tomas, mas o italiano o interrompe logo em seguida.
_ Pode guardar toda essa gentileza britânica para outra pessoa. Nada deve para mim – Ele responde, com um sorriso cansado para nós dois.
_ Nossa, parece que já amanheceu né? Acho que está na hora de ir para casa... – Brinco, observando o céu azul límpido que faz do lado de fora.
_ Ah, mas vocês ficaram tão pouco tempo – Continua Marco, sarcasticamente. – Eu levo vocês até em casa.
_ Não é preciso, podemos pegar um táxi. Você está bastante cansado – Contrapõe Tomas, já sacando o celular.
_ Tsi. Você nunca me viu realmente cansado, senhor Ferreira Parker.
Assim sendo, vamos para a garagem do casarão onde está estacionado o Veloster de Marco, e logo atrás está uma reluzente Rolls Royce preta que deve pertencer aos seus pais. Entramos na Veloster prata e caímos nas ruas de paralelepípedo do condomínio luxuoso, podendo-se vez com maior nitidez agora as estatuetas de mármore e os jardins planejados, com seus parques nos quais crianças uniformizadas vão para escola de mãos dadas com suas babás.
Marco põe uma música agitada em um volume moderado, e não demora muito para que Tomas volte a cair no sono ao seu lado, no banco do carona. Meus olhos relaxam contra minha vontade e assim sou rendida também ao mundo dos sonhos, e a última coisa que vejo é as mãos do italiano sobre o volante, com seu sorriso para mim através do retrovisor.
A vida é uma eterna roleta em movimento, e nunca sabemos em qual casa podemos cair nessa roda da fortuna. Acontece que nem sempre nos acontece a fortuna, e às vezes – ou muita das vezes – sofremos nas mãos do azar. Enquanto saíamos do condomínio de Marco, acalentados pelo torpor da sonolência, jamais nos passou pela cabeça – principalmente na minha, ainda repleta de memórias frescas dos beijos e sensações do corpo de Tomas – o que estava prestes a acontecer. Eu não culpo nenhum de nós. Simplesmente não consigo culpar Marco. Ele sempre transpareceu a ideia de alguém que sabe o que faz, e fomos iludidos por tal ideal, e creio que ele também tenha sido vítima da própria ilusão.
Lembro-me apenas de um som estridente muito forte se aproximando de mim, que rapidamente me resgatou das profundezas da inconsciência. O que ocorreu em seguida foi extremamente rápido: os pneus do carro cantando sobre o asfalto, fazendo o veículo atravessar a pista horizontalmente e projetando meu corpo contra a porta e o banco dianteiro. Sinto minha cabeça bater contra a estrutura do teto, e ao mesmo tempo os pés saírem do chão inexplicavelmente. Por uma fração de segundo me sinto livremente no ar, e o Veloster perde a estabilidade, fazendo com que seu lado esquerdo levante voo e rodopie sobre o chão. Perco a noção de minha posição no espaço, e assisto apavorada os vidros das janelas se estilhaçarem, os air-bags explodirem, à medida que meus membros se chocam contra o arquétipo do carro em mil pontadas de dor.
Quando finalmente a sessão de terror parece ter acabado, estou dobrada sobre mim mesma entre o banco coberto de cacos de vidro e o teto amassado que está de encontro com o asfalto quente. Sofregamente localizo minha mão perante a balbúrdia e a esfrego sobre a cabeça que lateja ferozmente, vendo os dedos se tingirem de sangue vermelho vivo. Involuntariamente, sinto minha mente se entregar à fraqueza, e perco a consciência.
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