Notas iniciais
Agora temos 30 leitores para acompanhar os dramas de Nora! Se eu pudesse ir à casa de vocês e agradecer de um por um pelos comentários e favoritos, eu iria. Então se sintam abraçados fortemente por mim. Enjoy!

Nem preciso comentar sobre a enxaqueca que me aterrorizou na manhã seguinte, enquanto dormia na escada de emergência do prédio até que minha mãe acordasse e eu pudesse entrar pela porta após uma suposta noite de fofocas na casa da minha prima. Estou trancada no quarto desde então, na companhia de uma caixa de dipirona e um balde em caso de emergência. Mesmo com a dor que explode minhas têmporas, ainda tento discernir a noite anterior, entre sorrisos embriagados e dúvidas.

Muitas dúvidas.

Por sorte, minha memória não deu um blecaute igual à minha última bebedeira, e consigo lembrar de todas as partes do manual de como passar uma noite com Marco Lorenzo Vittorelli numa crise existencial. Quer dizer, não foi uma noite ruim, afinal jamais será ruim passar qualquer tempo com um deuso daqueles, seja em Copacabana ou no Morro do Vidigal. Mas com certeza poderia ser uma noite melhor. Meu rosto se contorce em expressões desgostosas e constrangedoras ao lembrar de trechos como minhas lágrimas caindo, o beijo forçado ou a parte em que ele confessa um amor oculto. Porém, acima de tudo, o que mais me deixa instigada foi a brincadeira (que rezo por todos os santos da Igreja Católica, Buda, Alá e Shiva) que realmente seja apenas uma brincadeira. Marco, gay? Totalmente improvável. Afinal de contas, ele é um tremendo galinha. Antes de tudo, um príncipe libertino.

No meio da tarde, meu celular apita enlouquecidamente e aperto o display, abrindo o grupo de Whatsapp das mattildinhas. Semicerro os olhos para conseguir ler, e as mensagens surgem na mesma quantidade de peixes numa piracema:

Natmusa: acooorda Nora! Conta logo esse bafo!

Gabidiva: ele chupou teus dedos, menina? Rsrsrsrsrs

Natmusa: ai decepção... espero que não, hein! Nora merece orgasmo múltiplo!

Gabidiva: você já teve um, por acaso?

Natmusa: VÁÁÁRIOS! A-do-ro

Gabidiva: que inveeeja. Eu só pego cara frouxo mesmo. Mais gato + mais egocêntrico = você na merda

Nora: boa tarde, gente

Natmusa: que boa tarde o quê! Desembucha logo! E aí, como foi como foi como foi?

Nora: aaah, romântico até. Fomos para a praia de Copacabana.

Natmusa: Oi...?

Gabidiva: Oi...?

Nora: sim, ele quis ir para lá. Não me pergunte o porquê. Conversamos bastante, acabei aprendendo muito sobre ele.

Natmusa: tá, o.k. E depois ele te comeu na areia?

Gabidiva: ele literalmente comeu seu ** com areia? Rsrsrsrsrrsrs

Natmusa: você não vale nem a sua calcinha fio-dental, Gabi!

Nora: não rolou nada. A gente só deu um beijo.

Natmusa: hmmmm

Gabidiva: também foi o SENHOR beijo né?!

Nora: sim, com certeza. O melhor da minha vida!

Natmusa: ele chegou na sua segunda base ao menos?

Nora: que base menina

Natmusa: segunda base é o linguajar de adolescente, besta. Ele pegou no teu airbag??

Nora: não. Ele foi muito gentil, mesmo.

Gabidiva: que gay.

Nora: hahaha... né...

Natmusa: não se preocupe, Nora. Ele tá mais devagar com você porque... é você, né! Uma menina de bem, de família

Gabidiva: trabalhadora

Natmusa: responsável

Gabidiva: respeitosa

Natmusa: mas a gente dá um jeito, a gente sempre dá.

Nora: tudo bem, gente. Eu nem estou num frenesi tão grande assim por ele. É só uma vontadezinha de nada, que nem vontade de comer fandangos.

Gabidiva: fandangos engorda.

Nora: sério...? Bem, chega de falar sobre mim. O que aconteceu com a Renata e a Isa?

Gabidiva: a gente desceu as unha nelas. Até arranquei um chumaço daquele cabelo cheio de química barata da Renata. Vê se pode, querer guardar o Marco só para elas? Eu não entendo o que passa na cabeça dessas vadias egoístas. Como se o Marco aceitasse ir para cama apenas com elas pelo resto da vida...

Nora: é...

Gabidiva: mas então, o tempo não para, só voa... fds que vem você já tem um compromisso: casa de praia em Búzios da Natasha. Todo mundo vai estar lá, inclusive Marco. E aí... PEEEW!

Nora: hã?

Gabidiva: sabe, PEEEW! O coelho vai pra toca. O ganso se afoga. Você e o Marco vão para uma noite caliente de amor.

Nora: aaah tá. Meninas, estou com uma dor de cabeça dos infernos. Vou tirar um cochilo, mais tarde a gente se fala. XOXO

Gabidiva: XOXO

Natmusa: XOXO

Deixo o celular sobre a mesa de cabeceira, enterrando o rosto no travesseiro. Entre a tênue linha que conecta a realidade ao mundo dos sonhos, meus pensamentos viajam ao longe, recapitulando todos os acontecimentos dos últimos seis meses da minha vida. Tudo mudou tão drasticamente, e espero que eu também não esteja mudando. Gosto de ser eu, apesar de ter muitos motivos para não gostar. De repente, a lembrança de Tomas me surge à mente, com seus olhos profundamente azuis debaixo das sombras das plantas trepadeiras naquele jardim de inverno. O modo doce como sorria para mim. Suas palavras tão delicadas. Uma saudade súbita pelo inglês me invadiu, e ponderei duas vezes antes de apanhar o celular novamente. Deveria eu voltar a falar com ele? Talvez nos reaproximarmos de novo poderia magoá-lo ainda mais, agora que a Operação Dionísio está de vento em popa. Quer dizer, não exatamente. Se uma das informações estiverem corretas, a operação pode ser cancelada de imediato.

Arrasto o telefone até mim, e mordo o lábio inferior ao encarar seu nome na lista de contatos. Clico sobre o ícone de mensagem. A caixa de texto se abre. Há tantas coisas que eu gostaria de compartilhar com ele, tantos sentimentos que se enovelam feito uma avalanche inconsequente... embora eu tenha as mattildinhas para contar o que sinto, elas nunca servirão para mim como uma amizade verdadeira. Afinal, elas não confiam nem entre o próprio grupo!

E aqui estou eu, à deriva do mar da solidão, procurando um trecho de terra para me estabelecer em meio às serpentes. Tomas seria a minha ilha perfeita...

Digito cuidadosamente, letra por letra, a singela pergunta que pode acender novamente uma conversa natural e agradável, como as quais nós jogávamos fora antigamente.

Por onde você anda?

A resposta, como de se esperar, não vem tão cedo. Abraço o travesseiro e contemplo a tela vazia do aparelho, alternando o olhar para minha janela onde o vizinho gordo rega seu cacto uma vez por ano. Acabo me rendendo ao sono embalado por ressaca, onde minha visão se turva ao breu.

***

Sonho que estou num voo doméstico para o Caribe. Já por aí desconfio de que é um sonho, porque se minha mãe não pode pagar nem uma viagem para Búzios quem dirá uma viagem internacional. Repentinamente, minha poltrona começa a tremer continuamente, assim como o resto do avião. Os passageiros se desesperam e eu também, mas como é típico de um sonho filho-da-mãe, estou presa à poltrona e não consigo me desgrudar dela.

Meus olhos se abrem num espanto, e os pulmões ofegam uma golada de ar. Avisto o celular soterrado pelos meus cabelos, recebendo uma ligação e assim fazendo vibrar toda a superfície da cama, explicando porque eu nunca consegui chegar ao Caribe, nem pelos sonhos. Provavelmente é Tomas, e meu coração dispara pelo nervosismo. No entanto, ao ler o identificador de chamadas, é um número desconhecido. Franzo o cenho e relaxo o corpo, decepcionada. Atendo com a voz rouca e sonolenta, e do outro lado, o timbre do meu inconfundível príncipe libertino ressoa:

_ Hmm, eu adoro uma voz rouca matinal. Mesmo que seja às 5 da tarde.

Minhas bochechas pegam fogo, e pigarreio no mesmo instante.

_ Marco? Como conseguiu meu número?

_ Desculpe, eu não sabia que era um segredo de Estado. Brigue com a Natasha.

_ Aah... foi mal. Só que eu não esperava... tipo nunca... que você me ligasse algum dia.

_ Eu sei que você é uma garota de grandes exigências, por isso agradeço por me dar uma oportunidade. Novamente, perdoe o meu atrevimento.

_ Pare com isso, Lorenzito! – Nós rimos. – Mas ao que devo a grande honra?

_ Bem, antes de tudo, peço desculpas pela terceira vez hoje. Confesso que fui um porre a noite inteira com o lance da crise existencial. E meu quarto pedido de desculpas vai para o beijo involuntário. Foi horrível, eu sei. Para corrigir esta lembrança hedionda, convido-lhe para um encontro decente, no horário e dia que você decidir. Estarei à sua disposição, até para um beijo de verdade, se quiser.

Tomo uma expressão confusa, seguida de uma surpresa e terminando por uma encabulada. Os fatos não se encaixam, e concluo que Marco também não. De um dia para o outro, ele voltara a ser o safado genuíno. Pondero se devo perguntar ao respeito da brincadeira que desfechou a madrugada, ou sobre o suposto amor que partiu para Europa. Porém, engulo tudo garganta abaixo. Fala sério, esse é o pedido da minha vida: Marco está do jeito como quero, e para melhorar, sou eu quem está no controle da situação. Ou ele esqueceu de que é gay, ou foi somente uma piada, como várias outras que ele costuma fazer. Com tantos argumentos a meu favor, respondo:

_ Fechado.

Notas finais
Aah, estou começando uma nova fic, quem quiser dar uma olhada, o link está abaixo. Calma, não irei abandonar esta!! Até porque essa outra está bem adiantada, e por enquanto só vou postando os capitulos sem precisar escrevê-los. Beeeijos! https://fanfiction.com.br/historia/627229/O_Outono_e_a_Cor_dos_seus_Olhos/