Se não fosse por você... Rufy
3 Capítulo 3 – Rafael
Notas iniciais
Acordei, como sempre, recebendo muitas doses de carinho e baba de Rufy. Ele sabia que eu ia fingir me levantar e voltar a me encolher na cama, por isso sempre subia em meu peito e me encarava esperando ver minha reação.
Depois de outra dose de lambidas que chegaram até ao me nariz desisti de lutar.
— Ok amigão, você venceu! Já acordei, bom pelo menos uma parte.
Ele latiu. Sempre achei isso curioso, Rufy era diferente dos outros cachorros, ele sabia exatamente o que eu precisava e parecia compreender o que lhe dizia.
— Bom dia para você também! Obrigado por me acordar com tanto carinho. — e acariciei sua cabeça.
Ele se levantou e correu em direção ao seu prato de ração, pegou-o com a boca e trouxe até as minhas mãos.
— Está bem, espera um pouco deixa eu pegar meus óculos. – Espreguicei com vontade até ouvir meus ombros estalando. Fui até a cozinha e peguei um saco de ração com carinhas, sabor “vegetais”. Coloquei no prato dele.
— Prontinho, aqui amigo, por conta da casa. – E lhe joguei um bifinho de carne que ele amava.
Enquanto Rufy atacava seu café da manhã, coloquei o café para fazer e fui tomar um banho.
Em menos de 10 minutos estava sentado à mesa saboreando um delicioso ceral de chocolate enquanto analisava uns arquivos do meu trabalho. Trabalhar em casa é muito bom, porém exige muito foco e ás vezes é um pouco cansativo.
Quando deu exatamente 10h30minh, senti um focinho quente na minha perna, quando olhei para Rufy, ele segurava uma bolinha amarela que tinha desde que era filhote, nunca a largava.
— Hum, acho que uma pausa seria uma boa, vamos lá. – e fui para o jardim.
Joguei a bola para ele que sempre me trazia, uma vez ou outra ele voltava repleto de folhas de árvore o que dava um grande contraste com seu pelo, na décima vez sem querer foi alto de mais. Ele correu e deu um salto incrível ( se fosse um concurso eu daria 10 e ainda falaria com a voz dos jurados de escola de samba).
De repente ele começou a latir e quando eu menos esperava pulo a cerquinha ( por um instante fiquei pasmo) e comecei a correr atrás dele. Rufy estava eufórico, não conseguia entender o motivo, mas o segui do mesmo jeito, foi quando me joguei para pegá-lo percebi que havia esbarrado em alguma coisa ou melhor dizendo em alguém.
— Eu sinto muito, desculpa. -Já virei me desculpando.
— Nós realmente precisamos parar de nos encontrar assim. – e riu.
Quando olhei, reconheci aquele rosto fino e pálido, os olhos cor de mel e os cabelos marrons presos em um coque, era Aurora.
— Ah, Oi! A menina de ontem, Aurora, certo?
— Sim e me parece que é Rufy queria te levar para passear. – sorriu.
— É verdade, ele sempre arruma um jeito de me fazer correr atrás dele, mas hoje ele escapuliu de casa e ainda não sei como.
— Oh-oh! Que garoto esperto. – passou as mãos nas orelhas dele. – Mas tem que tomar cuidado rapaz.
Ele latiu e cobriu a patinha com o rosto. Sempre fazia isso quando alguém falava sério.
— Bom eu vou dar uma volta no parque antes de voltar para o Pet Shop.
— Se não for incômodo, posso me juntar a você?
— Claro.
— Bom, então qual é a história de vocês?
— Ah, Rufy e eu nos conhecemos por sorte ou destino, depende da forma que você enxergar. Tudo começou numa calorenta noite após passar horas confinado em uma sala de reunião, eu estava em uma época da minha vida bastante complicada, sabe? Quando voltei para casa certa noite, ouvi um latido fraco e o barulho de patinha atrás de mim. Um cachorrinho muito magro quase esquelético, tinha feridas por todo o corpo, mas ao me ver latiu e abanou o rabinho como se fossemos melhores amigos. Todo estresse e raiva que sofri o dia inteiro escorreu como água no cano. Naquele momento eu não sabia muito bem o que fazer com ele. Não podia leva-lo para casa por, bem motivos pessoais. Então comprei um pouco de comida ( preferi omiti que era churrasco) e isso acabou virando um ritual todos os dias eu ia lhe alimentava e cuidava um pouco dele, vi que aos poucos seu rosto foi ganhando uma forma mais cheia de vida e o olhar estava mais brilhante. Bom, eu estava apaixonado por esse garoto. – cocei a costas de Rufy.
— Nossa, fico feliz que você tenha salvado Rufy. Eu nem sei o que dizer. – e secou uma lágrima.
— Na verdade acho que ele me salvou. Mas a história não para por aí, depois que ele estava mais saudável e eu acabei com os “problemas em casa”. Levei-o para casa e durante uma semana eu realmente me sentia muito feliz, até que numa quarta-feira uma senhora apareceu dizendo que o cachorro lhe pertencia. Para encurtar a história, não gosto muito de lembrar dessa parte, ela conseguiu leva-lo para casa, mas cinco dias depois eram 3h da manhã ouvi um choro e algo arranhando a porta, quando abri encontrei um cachorro muito ferido e com o focinho inchado. Descobri que a mulher, Marta, constantemente o maltratava. Por fim consegui ficar com ele e desde então somos como pai e filho.
— Mas que mulher desgraçada! Eu teria lhe dado um soco no nariz!
Eu ri, ela fazia movimentos de lutador de box.
— Mas, fico feliz por você Rufy. Você escolheu seu melhor amigo né? – dizia isso enquanto fazia cosquinha na barriga dele.
— Ele parece gostar de você.
— Ahn, posso perguntar mais uma coisa?
— Claro!
— Da onde você tirou esse nome?
— Ah, bom quando eu era criança adorava o cereal do Rufy e bem...
Pude ver que ela segurou a risada até suas bochechas ficarem vermelhas.
— Nossa o tempo passou tão rápido que quase não percebi, olha só essa hora! Preciso ir, e Rufy continue sendo bonzinho com seu dono.
Depois ela sussurrou algo como “faça ele correr bastante” e foi embora.
Olhei-a partir e virei para Rufy.
— Esqueci que prometi um café para ela.
Ele latiu.
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