Se eu parar no hospício
3 "Quero ajuda" e a Guerra de Água
Notas iniciais
Point of View (POV) – Dani
– Tudo bem, Dani? – perguntou Tati. O uniforme da escola me incomodava um pouco, era muito mais apertado do que o dos Estados Unidos, e se usado de maneira incorreta, poderia me deixar parecida com uma mini prostituta ou algo parecido. Eu fico pensando como eu amava usar esta roupa há dois anos.
– Sim. Mas você sabe, é como se fosse meu primeiro dia de aula. E bem, tem tanta gente nova que fica me encarando como se eu fosse um alienígena. – mostrei algumas garotas com a cabeça, que me olhavam e riam.
– Tinha até esquecido disso! Preciso te apresentar alguém, vem... – ela me puxou e nós seguimos até o meio do pátio.
A Tati se achava meio que em obrigação de me apresentar a todas as pessoas do mundo. Mas tudo bem, eu até que gostava disso.
– Oi Tatu! – Tati abriu um sorriso largo ao me mostrar um garoto sentado sozinho em um dos bancos do pátio, enquanto ouvia uma música qualquer.
– Tati! – ele sorriu – Quem é sua amiga?
– Daniela. – respondi – Mas se você for inteligente o suficiente, vai me chamar de Dani. – ele sorriu.
– Eu sou o Tatu. – (“TATU? KKKKKKKKKKK, QUE NOME LINDO, VAI SER O NOME DO MEU FILHO” eu disse, mas é claro, só disse na minha cabeça porque não quero parecer mal educada para alguém que acabei de conhecer). – Bonita a sua amiga, Tati.
– Eu sei, eu sei. Mas as pessoas insistem em ficar repetindo isso a cada instante. – afirmei, extremamente modesta. Tatu e Tati riram. – Dá onde vocês se conhecem?
– Digamos que ele tem sido minha companhia quando a Ana e o Binho estão ocupados se pegando. – respondeu Tati.
– Ah.
As pessoas têm que me lembrar disso a cada instante.
– Que música você ta ouvindo? – perguntei ao Tatu, ele me ofereceu um dos fones de ouvido dele e eu comecei a ouvir a música também.
"Vou deixar a vida me levar
Pra onde ela quiser
Seguir a direção
De uma estrela qualquer
Não quero hora pra voltar
Não!
Conheço bem a solidão
Me solta!
E deixa a sorte me buscar"
Comecei a cantar a música e ele cantou junto. Era muito difícil achar alguém que gostasse desse tipo de música. E pra falar a verdade, eu curto bastante.
Point of View (POV) – Binho
– Binho, Binho, Binho! – ouvi a ruiva gritar meu nome, enquanto corria pelos corredores da escola. Girei nos calcanhares e ela quase caiu por cima de mim.
– O que foi? – Ana respirou fundo, e assim que conseguiu, finalmente disse o que queria.
– Só tava te procurando... Não vejo você desde ontem, e tava meio estranho hoje mais cedo. Aconteceu alguma coisa?
Eu só vi o Thiago quase beijando a Dani e isso me deixou meio... triste, só isso.
Mas triste por causa dos quinze reais que eu ia perder, claro. Nada a ver com a Dani.
– Nada. – respondi.
– Certeza?
– Absoluta. – sorri pra ela e ela sorriu de volta, imediatamente, a prendi contra a parede e começamos a nos beijar.
***
– Parece que eu quase ganhei a aposta, não é mesmo? – Thiago me perguntou.
– Negativo. A aposta era namorar uma menina, não ficar com uma. – respondi – E até onde eu lembre você não ficou com ninguém. – completei.
– Até agora. – revirei os olhos enquanto ele começava uma longa lista de maneiras para “conquistar” as meninas.
– Serião, Thiago. Não podemos dizer logo que eu venci essa aposta e você me dá os quinze reais? – perguntei.
– Nem pensar! Sexta tem festa, e não pensa que eu vou deixar que a Carol ou qualquer outra pessoa me impeça de ir. – Quanto sangue da vida lokisse correndo em suas veias, tio. To impressionado.
Point of View (POV) – Bia
Eu odeio matemática.
Não vejo a menor lógica em tudo que aquela mulher estranha (que eu sou obrigada a chamar de professora) fala. São coisas muito sem sentido.
Então eu viajei na vida.
Porque nada melhor do que pensar nos pôneis cozinheiros da Noruega de chocolate num momento desses, não é verdade?
Principalmente quando tem uma Cristina enlouquecida do seu lado, te mandando bilhetinhos a cada segundo dizendo como o Duda é bonito ou você viu que ele olhou nos meus olhos e sorriu????!!!!
Ou qualquer merda que ela pense sobre o Eduardo.
Ah, não, desculpa Cris, eu não posso falar merda e Eduardo na mesma frase.
Opa, falei de novo. Sinto muito.
Mas a aula passou rápido, e quando eu menos esperei, o sinal já tinha tocado para o fim da última aula. Ou seja, todos os alunos saíram correndo desesperadamente, como se tivessem saído da prisão.
Ao contrário dos outros, eu saí caminhando normalmente, enquanto ouvia música. Mais do que música, aliás. Eu ouvia rock.
– Beatriz... – ele sorriu e começou a caminhar junto comigo.
– Eu. – sorri.
– Você.
– Dois filhos e um cachorro. – comecei a cantar e ele riu. – Diga, o que você quer agora, Janjão?
– Eu quero ser rico. Eu quero ser feliz. Eu quer...
– Você entendeu o que eu disse. – arqueei as sobrancelhas, interrompendo Janjão, que sorriu.
– Quero ajuda.
– Não diga? – perguntei, ironicamente – É só isso que você quer. Mas enfim, ajuda pra que? Não me fala que é com as suas namoradinhas de novo! – ele concordou com a cabeça, envergonhado e eu dei uma palmada na minha testa.
Point of View (POV) – Dani
– Binho, me ajuda aqui? – perguntei enquanto ele vinha passando pelos fundos da escola (“Ajuda pra quê?” ele perguntou) – Eu quero pregar uma peça na Janu. – menti, na verdade, eu queria pregar uma peça na Ana. Mas ele não ia me ajudar a fazer isso nem morto.
– E o que eu tenho que fazer? – ele perguntou.
– Seguinte: eu falei pra Janu passar por aqui porque eu tinha que falar com ela, então, quando ela passar, você joga água nela desse lado que eu jogo do outro.
– Mas isso não é meio... cruel? – ele perguntou de novo. Já tinha sido a milésima pergunta dele em uma conversa só. Entre os meninos, o Binho era o que tinha menos rivalidade com a Janu e o André, os vizinhos lá do Orfanato, que a Tati tinha me apresentado mais cedo.
– Tipo isso? – perguntei, mirando a mangueira nele e o deixando coberto de água – Ops...
– Daniela! – ele gritou e foi em direção à outra mangueira, então ele começou a me jogar água também e começamos uma guerra, em meio a risos e muita, mas muita água.
– O que está acontecendo aqui?! – gritou a diretora, após quase ser molhada. – Vocês dois, já pra diretoria, agora!!
Ferrou.
Ainda não sei bem o que passou pela minha cabeça pra molhar o Binho. Talvez tenha pensado que ele não iria molhar de volta... AH É, CLARO QUE ISSO IA ACONTECER.
Só que nunca.
E cá estou eu, sentada junto ao Binho na frente da mesa da diretora, esperando que a Carol chegue para nos livrar daquela bruxa que fica fazendo barulhos estranhos para nos incomodar.
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