Se eu fosse um pinguim
1 1 . ROCK ANTES DA MATEMÁTICA
Estão atrasados para o ensaio. Nada de novo, portanto. Até o energúmeno do meu irmão está atrasado, quando lhe bastava levantar o rabo do sofá e descer até à cave. Fico doido quando eles se atrasam todos ao mesmo tempo, parece que fazem de propósito para me irritarem.
Ensaiávamos aos sábados de tarde e às quartas-feiras ao fim do dia na cave de casa dos meus pais. Quando eramos miúdos este quarto era usado para brincarmos e tínhamos carta branca para fazermos nele o que quiséssemos. Ainda havia um tiro ao alvo, uma mesa de matraquilhos e uma playstation 3 ligada à televisão; mas há muito que os brinquedos tinham sido guardados, juntamente com a pista de carros telecomandados e a rampa de skate improvisada. Há um ano e meio atrás fizemos do quarto a nossa sala de ensaios: montamos o material de som e colocamos todos os instrumentos de música e amplificadores neste quarto. A bateria do Gonçalo já fazia parte da mobília, embora fosse dele, assim como a minha guitarra elétrica, o baixo do meu irmão e os suportes de microfones. O Diogo era o único que trazia e levava a guitarra com ele porque tinha aulas durante a semana na escola de música e precisava de praticar.
— Então, onde é que estão os outros? — perguntei ao João com ar de poucos amigos.
— Estão a chegar – respondeu com um encolher de ombros, dando um golo na lata de coca-cola. — Ainda só passam dez minutos das três.
— Então senta-te e começa a treinar! – Ordenei, segurando as pautas numa mão e a guitarra na outra.
O João é o meu meio-irmão, somos irmãos de sangue do lado do pai, e ele é o nosso vocalista. Quando decidi juntar a banda ficou-nos a faltar um baixista por isso ficou incumbido de aprender baixo, sendo que as lições estavam a meu cargo, o que pressupunha ser um péssimo baixista, ainda que esforçado. O que ele não conseguia tocar, o Diogo improvisava com a guitarra, o que até ali bastava. Para compensar tinha uma voz fantástica, aguda e que se adaptava a quase qualquer registo musical, e a look ideal para ser o homem da frente porque estava à vontade com o palco e com as atenções todas que recebia quando começava a cantar.
O Diogo foi o primeiro a aparecer e só às três e meia é que o Gonçalo mostrou cor de si na cave.
— Ó meu filho da puta, nunca ouviste falar em horários? – berrei-lhe, não que estivesse muito atrasado, mas porque sabia que ele só se atrasava porque ficava a jogar Counter Strike com os amigos gamers e esquecia-se das horas. Coisa que acontecia sempre que havia ensaios.
Nem se dignou a responder, ficou apenas vermelho como um tomate e sentou-se atrás da bateria como se estivesse a esconder. Em defesa dele, era um baterista decente para dezassete anos e nunca mostrava sinais de cansaço, mesmo quando o ensaio se estendia pela noite fora, além de que nunca reclamava do reportório, apanhava a música rapidamente e limitava-se a tocar até ficar perfeito.
Os quatro elementos da banda estavam juntos desde a formação e o nosso reportório era constituído por rock. Tocávamos cerca de dez a doze temas clássicos que nos divertiam e que eram facilmente identificáveis pelos nossos amigos nas festas de aniversário e das escolas. A nossa playlist incluía temas dos AC/DC, Guns n’Roses, Foo Fighters; mas também tocávamos temas dos Nirvana, Aerosmith e The Cult. Mas o concerto só era concerto se tocássemos “Hate everything about you” dos Ugly Kid Joe e acabássemos com “Sex on fire” dos Kings of Leon. Ei! Somos uma banda de adolescentes! Que é que estavam à espera?
O certo é que eramos convidados para tocar quase todos os meses em festas de amigos e nestas férias de Natal já tínhamos dois concertos agendados para uma escola e um colégio. Gostava de acreditar que eramos convidados por sermos bons, mas desconfiava que o facto de tocarmos de borla também contribuía para o nosso sucesso.
— Precisamos de tocar uma balada – murmurei mal fizemos a primeira pausa da tarde às cinco horas.
— Como é?! – Exclamou o Diogo e ficaram todos a olhar para mim espantados.
— Isso mesmo que ouviram! – disse, enquanto me levantava para ir buscar uma garrafa de água. — As miúdas adoram baladas e nós só tocamos rockalhada, por isso vamos lá pôr as cabeças a pensar e escolher democraticamente.
O João revirou os olhos, e escondeu a cara, mas conhecia aquela expressão matreiro bem de mais: estava claramente desconfiado do meu conceito de democracia, uma vez que eu é que tinha escolhido cada uma das músicas que tocávamos.
— Temos três opções: Bon Jovi — bed of roses, Scorpions – still loving you e Police – Every breath you take.
— NENHUMA! – gritaram em uníssono.
Já sabia que iam ter aquela reação. Demasiado previsíveis. Nenhum deles gostava de baladas e eu fiz questão de lhes dar opções que eles iriam rejeitar com toda a certeza. Agora bastava atirar-lhe a minha primeira escolha (Cryin’ dos Aerosmith) e eles acatariam de bom grado porque a alternativa era pior. Por alguma razão é que eu era o líder da banda, aqueles gajos não entendiam a potencialidade de uma balada no meio do concerto: agradávamos às miúdas, os gajos tinham uma oportunidade de se agarrarem à miúda do lado e nunca mais se iam esquecer de nós; o pessoal mais velho sossegava os ouvidos. Todos ficavam a ganhar!
Seguiu-se uma discussão calorosa entre eles, enquanto eu afinava a guitarra. O Diogo a implorar que não fossem os Scorpions, o Gonçalo a queixar-se que as baladas tinham pouca percussão, e o João a propor o November Rain dos Guns porque conseguia imitar bem a voz do Axel.
— PEDRO!!! – gritou o meu pai.
Senti um calafrio pelo corpo todo e mordi o lábio. Num segundo percorri mentalmente a lista de merdas habituais que podiam ter ocasionado aquele berro, mas a única coisa de que me lembrei jazia na secretária do meu quarto sob a forma de livros. Livros de matemática, isto é, que estavam abertos nos exercícios, mas cuja resolução tinha sido remetida para outra ocasião… tipo NUNCA!
Antes de conseguir pousar a guitarra, já o me pai se encontrava à porta do nosso quarto na cave, com um papel impresso numa mão, e a outra a puxar os seus cabelos, num claro gesto de desespero!
— Sabes o que é isto? — empurrou-me o papel para a frente, mas nem era preciso ler para adivinhar o que fosse. – Negativa a matemática? Outra vez?
Pois, a matemática era mesmo o meu calcanhar de Aquiles, de tal forma que estava a repetir o 12º ano só para fazer aquela disciplina. Uma completa e absoluta estupidez da minha parte. Cheguei ao 10º ano, depois de fazer o curso articulado de guitarra clássica, achei que fixe, fixe era deixar a música e seguir o Ciências e Tecnologias, afinal gostava muito de físico-química e ciências no 9º ano, e nesse curso tinha mais opções de escolha quando chegasse ao 12º ano e tivesse de escolher um curso superior. Porém, quando cheguei ao 10º decidi que queria aprender guitarra elétrica e apaixonei-me pelo instrumento. Não que tivesse deixado de gostar da guitarra clássica, mas a elétrica era um outro animal, que exigia um tipo de estudo totalmente diferente. No final do ano passei a matemática com doze valores e notas razoáveis às outras disciplinas, mas o acertado teria sido repetir o ano e voltar à música. Em vez disso, teimei em manter-me na mesma na área das ciências, embora tenha me reinscrito no 11º no curso de guitarra clássica, em regime supletivo. No final do 11º ano passei à rasca a matemática e baixei de notas a todas as outras disciplinas. Só no final do 11º ano é que entendi que o meu futuro era mesmo seguir musica e não ciências. Ainda assim, na altura pareceu-me melhor continuar mais um ano e tentar acabar o 12º ano independentemente das notas. A escola superior de música tem como pré-requisito um teste de aptidão musical e na guitarra sentia-me mais do que à vontade: estudava todos os dias clássica e elétrica aos fins de semana para me divertir. Infelizmente, a minha professora de matemática do 12º ano achou que reprovar à disciplina era absolutamente essencial, uma vez que eu era uma autentica desgraça, independentemente de lhe suplicar que me passasse, argumentando que ia concorrer ao curso superior de Música e que nunca mais iria ver uma equação na vida! Conclusão: estava a repetir a matemática do 12º ano graças à minha estupidez.
— Acabei de receber um email da tua diretora de turma a informar que voltaste a tirar negativa a matemática. Raios, Pedro! Tu tens uma disciplina! É assim tão difícil passar a matemática? É que nem te exijo que tires boas notas, é só passares… — Olhava para mim de frente, menos zangado do que seria suposto, mas com aquele tom de desilusão que eu odiava. Odiava porque o meu pai era demasiado fixe para merecer um filho baldas como eu estava a ser. Por outro lado, a verdade é que a matemática era tão difícil para mim que eu não sabia por onde é que havia de começar a estudar. Faltava-me tudo para conseguir passar: as bases, o método e a disciplina!
— Tens razão. Tens toda a razão. Vou-me aplicar mais agora, no segundo teste. – disse com a voz sumida, envergonhado por estar a receber uma reprimenda dele em frente aos meus amigos, mas mais incomodado ainda por estar a desiludir o meu pai.
O meu pai circulou à nossa volta e foi-se sentar no sofá do canto, com os cotovelos pousados nos joelhos. Estava mais incomodado do que eu, porque não estava habituado a chamar-me à atenção. No final do ano letivo anterior, tivemos uma conversa, expliquei-lhe as minhas intensões de seguir música e notei que havia no seu olhar uma pontada de orgulho, uma vez que ele próprio tinha feito parte de uma banda no liceu. Fez-me prometer que me aplicava neste ano e isso não estava a acontecer, o que me fazia sentir um filho miserável.
— Olha, Pedro, este ano saíste da escola pública e foste para um colégio só para fazeres uma disciplina. Desenrasca-te como puderes, mas sobe o raio da nota. Se não o fizeres…- soltou um suspiro como que a ganhar coragem para completar o que ia dizer – não me deixas outra alternativa senão acabarem com a banda. Pelo menos até as notas subirem. Desculpa lá, filho, mas tem mesmo que ser assim, ou sobes as notas ou acaba-se já com a banda!
Levantou-se, voltou-se de costas e saiu cabisbaixo. O silêncio constrangedor que se seguiu não descreve os nervos com que eu estava e a vontade de bater em qualquer coisa. Felizmente os meus níveis de agressividade eram demasiado baixos para fazer fosse o que fosse, por isso limitei-me a reclinar-me no sofá e a beber um pouco de água para acalmar os ânimos.
— Estamos fodidos! – exclamei.
— Não. Tu estás fodido! Nós estamos a levar por tabela e não temos nada a ver com as tuas notas ou com o teu assunto – disse o meu irmão.
Assenti com um movimento de cabeça e passei as mãos pelo cabelo em sinal de desespero. O mais acertado seria ir já para o quarto estudar, mas o problema é que era mais fácil dizer do que fazer. Matemática era chinês para mim, e cada vez entendia menos como é que tinha conseguido fazer o 10º e o 11º ano de matemática.
— Já pensaste em ter explicações? – perguntou o Diogo.
— Não tenho coragem de pedir dinheiro ao meu pai para explicações. Este ano estou num colégio privado, tenho uma carga horária semanal a matemática superior ao ensino público, supostamente os professores são excelentes… Não tenho coragem de lhe pedir isso, Diogo – declarei com a voz sumida.
Voltamos ao silêncio constrangedor e comecei a imaginar um plano maquiavélico para subornar o meu professor de matemática ou então raptar-lhe os filhos; naquele momento qualquer coisa parecia mais fácil do que conseguir entender a matemática e passar à disciplina.
— Olha, eu tenho um amigo no Karaté que supostamente é um génio a matemática. Posso perguntar-lhe se ele te dá explicações – disse o Gonçalo. – Vou ligar-lhe e logo se vê.
— Bem, maninho, no entretanto, espero que passes o domingo todo enfiado no quarto a fazer exercícios, caso contrário temos que desmarcar os concertos do próximo mês. Ok? — referiu o João, enquanto fazia sinal ao Gonçalo para arrancar com o ritmo e voltarmos a ensaiar.
— …E um, dois… um, dois, três…
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