Se eu fosse árvore, seria namorada do vento, e hospedaria ninhadas de aves em minhas ramagens. Em mim romperiam muitos frutos numa exultante eclosão de vida, e a minha sombra refugiaria as almas solitárias do mundo: poetas, profetas, virgens sonhadoras, amantes exilados na inigualável ternura do amor.

Se eu fosse árvore, o vento e o sol e a chuva quedariam em carícias amorosas sobre o meu corpo, como declarações apaixonadas à minha florescência. O suspiro das minhas folhas seria o exalar da minha eterna gratidão a Deus. De mim se evolaria um doce perfume num raiar de pétalas de acácia. Eu vibraria com o canto dos pássaros e me abrasaria à luz das manhãs. Eu prantearia com a chuva o lamento dos céus. Sondaria com as minhas raízes os mistérios que germinam na profundidade da terra, e ali eu palpitaria, como um coração na sombria clausura do peito.

Se eu fosse uma árvore, suportaria a dolorosa gestação das sementes, só para dar à luz o figo adocicado que satisfaria a fome de Jesus. No Jardim do Getsêmani, eu seria a oliveira sob a qual ele orou em agonia de morte; e ali eu ficaria imóvel, não ousaria sequer respirar; mas quando uma gota de sangue escorresse de sua fronte perlada para regar a terra espalhada aos meus pés, uma única folha se desprenderia do meu galho, como uma lágrima pura derramada no silêncio da noite.

Ah, se eu fosse uma árvore! Então, seria a gentil mãe dos nômades, abrigo eterno das crianças que, abraçadas ao meu tronco, buscariam sentir em mim a vida que pulsa no seio da terra. Poetas louvariam a brancura das flores que brotariam de mim com a candura de afetos infantis! Muito mais do que como mulher, eu seria amada, incomparavelmente amada, se tão somente eu fosse uma árvore! Como a mulher que sou, triste e olvidada, minha glória é atrair para a minha existência de pó, a compaixão do Deus Altíssimo. Eu vivo para respirar: “ah, Deus, Deus meu!”, e essa é a prece que ressoa em mim como um suave tremor de folhas. Elevo as minhas mãos como se fossem galhos suplicando aos céus a clemência de chuvas. A resposta de Deus surge como um frescor de vento, como uma brisa mansa que me faz suspirar aliviada: “ah, Deus, Deus meu!”.

Se eu fosse árvore, morreria em meio ao fulminante esplendor de um raio, que vibraria no céu tempestuoso antes de infundir em meu corpo uma imanência de alma. Em ardente explosão de eletricidade, eu, sendo árvore, resplandeceria como uma mulher.

Se eu fosse árvore, Deus olharia para mim através das nuvens, e decretaria: “Isto é bom”. Como sou mulher, é com a benevolência de um pai que ele volta os olhos em minha direção, para dizer num arquejo de dor sangrenta: “Ainda hoje, estarás comigo no paraíso”.

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