Se eu chorei?
5 Agora eu tenho um “Richard”
Notas iniciais
Agora eu tenho um “Richard”
A verdade é como poesia,
Ninguém gosta.
—Autor desconhecido
Quarta-feira, 22 de janeiro de 1962. Waterbury, Connecticut.
Eu definitivamente não estava preparado para isso, eu nunca tinha visto meu pai ou se quer sabia a aparência dele. Minha mãe havia apagado tudo relacionado ao mesmo e eu não fazia questão alguma de saber sobre, ele nos deixou e eu não correria atrás, mas tudo mudou com essa repentina aparição.
Respirei fundou e contei até três em minha mente, olhei para minha mãe com os olhos vermelhos e com toda a coragem que eu nunca tive abri a porta e o vi, com uma moto preta a jaqueta de couro e seu cabelo banhado em gel. Minha primeira impressão era que ele provavelmente já havia sido preso ou que era de alguma gangue, depois me ocorreu que talvez ele fosse só um aventureiro com estilo e finalmente que aquele homem na minha frente, era ninguém menos que meu pai.
Ele se virou e me olhou nos olhos e sorriu, ele me olhava com admiração e talvez carinho, mas tudo isso se foi quando ele falou:
—--- Quem é você amiguinho? —--- Seu filho talvez?! Antes que as palavras ganhassem vida em minha boca ele completou:
—--- Porque sabe, eu estou procurando pelo meu filho, mas eu ouvi dizer que ele gosta dos Nuddle’s e essa camiseta aí definitivamente não é dos Nuddle’s! —--- Um sorriso genuíno surgiu em seu rosto e eu momentaneamente me senti mal por brigar com ele mentalmente:
—--- Os Nuddle’s estão tendo uma temporada difícil, então escolhi outro time. —--- Eu sabia que a minha mãe estava bem atrás e ouvindo tudo, mas eu não tinha a mínima vontade de parar de conversar com aquele desconhecido:
—--- Você vai deixar os Nuddle’s por causa de um temporada? Eles foram os melhores por três anos consecutivos!
—--- Mas eles perderam por três jogos consecutivos.
—--- Sim, mas todos merecem uma segunda chance, mesmo com erros. —--- Eu entendi a referência. Ele queria um segunda chance, uma segunda chance para entrar na minha vida à na de Janet, uma segunda chance para mudar:
—--- E por que eles não iriam errar mesmo com a segunda chance?
—--- Porque eles precisam recuperar o que foi perdido e eles não jogariam essa chance fora. —-- O encarei firmemente e pensei em todas as vezes em que Janet chorou baixo por causa dele, me lembrei de cada festival dos dias dos pais que eu fui sozinho e de quando o pai do Elliot me ensinou a andar de bicicleta. Ele não fez nada daquilo, ele perdeu cada uma dessas coisas e agora ele vem, depois de onze anos, me pedir por uma segunda chance.
Não sei exatamente o que se passou na minha cabeça no momento, mas eu o abracei. Um abraço triste e ao mesmo tempo caloroso, um abraço que eu estava recebendo pela primeira vez. Fechei os olhos e decorei o seu cheiro, alguma coisa misturada com cigarro e chocolates, eu tentei encontrar esse cheiro anos depois, mas nunca de fato o achei. Ele me abraçou de volta e neste momento, neste pequeno momento, eu descobri o que era a mais pura felicidade.
lll
Eles estavam conversando já fazia três horas, meu quarto já estava ficando chato e Elliot não dizia uma única palavra. Nós já tínhamos jogado cada um dos jogos e contado cada novidade que possuíamos, falamos sobre o clube que iriamos criar e, como previsto, ele reclamou sobre a resposta de Schimdt:
—--- Você está feliz? Digo, com a volta dele? —--- Perguntou Elliot jogando a bola de baseball para cima:
—--- Sim, estou feliz e surpreso. Achei que nunca iria conhece-lo, ele é bem diferente do que eu imaginava.
—--- Ele tem um moto bem legal... Ele parece ser legal.
—--- É... Será que ele já foi preso ou coisa assim? —--- Perguntei virando para meu amigo:
—--- Talvez... Pelo menos aparenta que sim. —--- Voltei a encarar o teto e pensei nas possíveis razões pela qual ele poderia ser preso...
—--- Elliot?
—--- Diga.
—--- Pelo que um homem poderia ser preso? —--- Ele não me respondeu imediatamente, ficou pensando e finalmente disse:
—--- Minha mãe vive dizendo que o Jonh Lennon deveria ser preso por ser tão bonito! Não que eu concorde.
—--- Hmmm... Então eu acho que ele já foi preso. —--- Olhamos um para o outro e soltamos uma gargalhada da minha resposta final:
—--- Sobre o que vocês estão rindo? —--- Olhei para a porta de madeira no canto do quarto e vi Janet sorrindo, esperando por uma resposta, logo depois ele apareceu. Sorrindo também, com um olhar brincalhão:
—--- Assuntos Janet, assuntos! —--- Respondeu meu amigo exagerando na gesticulação e se jogando na cama logo depois. O silêncio então pairou, um silêncio confortável, como aquele silêncio de quando sua família está almoçando, o silêncio do cinema quando o filme vai começar. Esse era o silêncio que estava entre nós. Em minha mente eu acreditava que os dois tinham se resolvido, mas a minha curiosidade estava a mil, eu precisava perguntar. Mas então a resposta veio, o olhar que os dois trocaram, um olhar cheio de desculpa, amor e felicidade, me fez perceber que finalmente teria uma família completa:
—--- Hãmmm... Janet? Eu estou com fome... Tem bolo? —--- Eliot tinha que quebrar o momento, minha mãe riu junto a Richard logo olhando para o garoto ao meu lado e lhe respondendo:
—--- Sim Eliot, tem bolo! Vou preparar um lanche para vocês! —--- Ela logo se colocou a descer a escada sendo seguida pelo meu pai.
Era estranho pensar que agora eu teria alguém para chamar de pai, passei minha vida inteira com uma “Janet” e agora eu teria um “Richard”, era estranho e perigoso ter um Richard, você não sabe nada sobre ele, ele não sabe nada sobre você. É como ter um estranho andando pela sua casa, mas um estranho que você amava por natureza e do qual você poderia chamar de Super-Homem, esse era o “Richard”, um estranho que eu já nasci amando mais do que ele me amou.
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