Se descobrindo lentamente
2 Just Sam
Notas iniciais
“I'll be there for you
These five words I swear to you
When you breathe I wanna be the air for you
I'll be there for you
I'd live and I'd die for you
I´ll steal the sun from the sky for you
Words can't say what love can do
I'll be there for you”
– I'll be there for you – Bon Jovi
Os sete dias demoraram décadas até se passarem. Foram dias difíceis e mal dormidos, na qual me lembrava dos meus momentos com a Sam, e até mesmo com o Patrick. Falando nele, eu tinha uma curiosidade intrigante em saber o que ele fazia atualmente.
Aquela era minha última noite de agônia, ou talvez o início dela. Amanhã a tarde eu finalmente viria Sam depois de seis anos. Não sei com o que estava mais ancioso, se era para revê-la ou se era para perguntar o porquê de ter sumido da minha vida.
Estava deitado no sofá, refletindo sobre tudo que acontecera na minha vida desde quando Sam apareceu, como um anjo. Não consigo me lembrar de como era antes, dos momentos, apesar de saber que não era bom. Respirei fundo, pensativo e desanimado. Não sabia se fazia certo em aparecer como se a seguisse inconstantemente. Me tornar o que sou hoje me fez ter alguns orgulhos, e se antes eu não tinha medo de ir atrás, hoje tenho receio de estar me expondo ao ridículo.
Adormeci pensando em Sam, e acordei com o sol invadindo minha visão. Eu durmira no sofá e por isso estava cheio de dores pelo corpo. Me levantei desajeitado e de mau humor.
Cheguei no trabalho encarando alguns estresses diários, mas o que me deixava realmente nervoso era saber que daqui a algumas horas eu veria Sam. Milhares de sensações me invadiam.
Não sei se foram os problemas e a correria no trabalho, mas as horas se passaram rápido e sai correndo rumo ao edifício que me foi dito que Sam estaria.
Era um edifício comercial não muito longe dali, e eu estava internamente eufórico, enquanto não esboçava reação exteriormente. O trânsito estava irritante, porém cheguei logo, entrando tranquilamente no edifício, me identificando na portaria para que me deixassem entrar.
Logo subi o elevador. Ao olhar para o relógio no pulso, me assustei, não era tão cedo.
Na verdade, eu perdera a hora. Suspirei preocupado se Sam já tivesse ido embora. A porta do elevador se abriu, me oferecendo o andar que eu almejava, na qual Sam estava gravando o comercial. Respirei fundo e saí do elevador, sem olhar para os lados, estava fixo somente na direção de onde sabia bem onde ela estava.
Era um galpão. O andar era o último do prédio e não eram apartamentos normais e sim cômodos grandes e sem variações.
Aqueles cômodos eram divididos como se fosse um para cada coisa. Respirei tenso e continuei procurando o número do cômodo onde Sam estava, o corredor era longo e não muito silencioso.
Até que a porta do cômodo a frente se abriu e muitas pessoas saíram dali, umas com câmeras, outras com equipamentos que não soube identificar. Ao olhar para o papel com o endereço, vi que o número era o mesmo: 912.
Respirei tenso, me aproximando aos poucos, prevendo que logo ela sairia por aquela porta com as demais pessoas que saíam. Notei que isso não ocorrera e me atrevi a entrar no cômodo. Meu corpo ultrapassou da porta, e vi ao redor, notando poucas pessoas dessa vez, por volta de seis ou sete, ajeitando o salão, descomunal e quase se tornando vazio com a retirada de equipamentos. Ao finalizar minha corrida com os olhos por todo o salão, eles esbarraram cessando, como um choque. E lá estava ela: era Sam, colocando um roupão por cima da lingerie que usara. Estava sozinha e séria, arrumando algumas coisas.
Queria me aproximar para falar com ela, mas não senti minhas pernas, e acredito que minha voz também não sairia naquele momento. Sam estava linda. Não havia mudado muito, a não ser pelos cabelos mais longos e a maquiagem mais marcante em seu rosto. Suspirei. Passei seis anos por um momento como aquele, em que eu a veria novamente. Embora não esperasse que fosse daquela maneira.
Sam se virou em minha direção, com uma sacola nas mãos e veio, provavelmente para sair do cômodo e ir embora. Notei que as gravações já tinham terminado.
Sam estava visivelmente distraída.
Não sei como consegui, mas andei rápido em sua direção antes que ela se aproximasse da minha e passasse por mim sem me notar, parei em sua frente a fazendo cessar os passos, um pouco surpresa, pondo uma das mãos no ombro dela, ancioso.
– Sam! – exclamei, um pouco eufórico.
Sam me olhou de uma forma que não pude descrever. Parecia uma junção de surpresa, susto, alegria, agonia. Assim me olhou por alguns segundos, como se também me analisasse. Engoli seco, sem dizer nada, sustentando seu olhar a mim, imaginando o que poderia dizer em seguida.
– Céus, é você mesmo! – Sam disse, inesperadamente, ficando dessa vez surpresa e alegre ao mesmo tempo, se jogando contra meu corpo com um abraço apertado.
Respirei aliviado, entre o abraço.
Senti nossos corpos sem juntarem, intensamente, e o abraço era quente. Também apertei o abraço por longos segundos, sentindo o perfume de seus cabelos invadirem minhas narinas, fechei os olhos sentindo. Em seguida, ela desviou e assim cessamos o abraço que não tive dela, por seis anos, e que senti muita falta, embora dessa vez eu me sentira diferente com relação a esse contato físico.
Ela me olhou animada, como se me analisasse, em seguida desceu seu olhar por meu corpo todo, de cima a baixo, voltando-o para meu rosto, alcançando meus olhos.
– Você não mudou nada, Charlie, continua com esse olhar...esse rosto jovem – ela substituiu a euforia por um sorriso mais calmo – e está com roupa social, parecendo responsável. Está lindo! Mas...como...?
Hesitei. Mas não porque não sabia o que dizer, mas sim porque a presença dela naquele momento me causara um certo desconserto, não consegui me pronunciar, estava me levando pela beleza única dela, enquanto sorria.
– Charlie! Tem alguém aí? – ela riu, espontâneamente, me olhando.
Acordei de mim mesmo, ainda anestesiado:
– Sam, eu...te procurei por toda parte.
O sorriso de Sam se desmanchou aos poucos e ela suspirou, desanimando:
– Vou me vestir e conversamos melhor, ok?
Assenti apenas balançando a cabeça.
[…]
Sam e eu fomos a uma cafeteria duas quadras depois daquele edifício. Pedimos café e tortas. Sam estava tensa e ainda não tinha se explicado.
A observei assoprar o café na xícara, cuidadosamente, enquanto parecia pensar no que falar. Eu apenas observara, mas internamente estava gritando por explicações e ainda estava desconsertado por tê-la diante de mim depois de tanto tempo.
Sam suspirou, levando a xícara de volta a mesa, e logo me olhou nos olhos, de um jeito triste, e senti um frio imenso na boca do estômago.
– Charlie, eu...aconteceu muita coisa, você não faz idéia – Sam começou, parecendo ficar perturbada por ter que explicar e eu observei calado – eu e o Patrick sofremos muito depois que nos despedimos de você naquela noite.
Olhei um pouco confuso e surpreso:
– Como assim, por que não voltaram?
– Dias depois de ter voltado, nós saimos de carro com nossos pais, estávamos distraídos, felizes com os últimos acontecimentos – Sam respirou fundo, recuperando o fôlego, se contendo – sofremos um acidente na estrada, estávamos fazendo uma viagem...o carro capotou. Eles morreram na hora, Patrick conseguiu se manter acordado, eu desmaiei. Ele me salvou, saindo do carro e me tirando de lá. Depois o carro explodiu.
Fiquei olhando, completamente surpreso.
Sam começou a chorar, e não soube o que fazer no momento, apenas segurei uma de suas mãos que estava encima da mesa e disse:
– Está tudo bem, respira fundo.
– Depois disso, fiquei deprimida e larguei a universidade, eu e Patrick nos mudamos, e moramos juntos em um apartamento durante dois anos – Sam continuou, tentando cessar o choro, enquanto falava – mas ele formou uma banda indie que começou a tomar um rumo bom e ele se mudou para seu próprio apartamento, pra ter mais liberdade. Eu continuo no mesmo apartamento, e ele continua com a banda dele, e assim nós vivemos.
Fiquei surpreso. Patrick com uma banda?
Ergui uma sombrancelha, surpreso:
– Uma banda, sério?
Sam cessou o choro, secando os olhos e abrindo um leve sorriso:
– Sério, não soube? A banda dele é bem conhecida. Ele é o vocalista e compositor da banda. O nome é The Bad Children.
Sorri, um pouco animado:
– Nome interessante, que bom. Fico feliz por ele.
Sam sorriu radiante.
– Também estou muito feliz – suspirou, se animando – O Patrick é muito talentoso.
A olhei por alguns segundos. Não fazia idéia do que ela havia passado. Me senti mal por ter sentido raiva dela inúmeras vezes e tentado esquecê-la.
– Por que não me procurou mais? – deixei escapar, ainda inconformado – Eu senti tanto a sua falta. Passei esses seis anos me fazendo essa pergunta todos os dias, e cheguei a te procurar inúmeras vezes nos lugares que frequentávamos mas ninguém sabia responder. Sam, por que fez isso?
Não consegui conter minha voz séria e alta, quase que brava. Não que eu quisesse, mas acabou saindo. E só depois notei.
Sam me olhou entristecida, sem responder.
– Não gostava mais de mim? Que pelo menos me mandasse uma carta se não quisesse mais ficar comigo – continuei, impulsivo – eu não iria ficar bravo, eu iria entender. Sei que nunca fui um dos mais animados e populares. Eu realmente iria entender se me falasse, mas sumiu sem me dar respostas.
Bufei, como forma de finalizar, e a olhei, como se cobrasse respostas.
Sam continuava a me olhar, com duas expressões juntas ali, uma de surpresa com a minha reação e outra com tristeza. Depois de pouco mais de um minuto calada e pensativa, abriu os lábios para se pronunciar. Olhei esperançoso.
– Nós não queríamos te atrapalhar – disse lentamente, com cuidado – estávamos deprimidos e sem família, não queríamos te alugar com nossas tristezas. Queríamos te animar e não desanimar. Decidimos enfrentar isso sozinhos e algum dia retornar.
Olhei um tanto indignado. Era como se eu não tivesse capacidade de ajudar.
– Eu podia ter ajudado vocês no que fosse preciso – falei, demonstrando indignação, olhando nos olhos de Sam – não acredito que sofreram calados e ainda me deixaram sem nenhuma informação. Teve horas que pensei que estivessem mortos. Sabia? Foi difícil pra mim, de verdade.
Sam suspirou:
– Me desculpe, Charlie. Não tive intenção, apenas queria te deixar evoluir sem estar por perto. Não queria ser uma presença que te atrapalhasse a se descobrir.
De repente, a olhei um pouco surpreso. Me descobrir? Acho que essa era a última coisa que tinha acontecido comigo durante esses anos.
– As únicas vezes que consegui me descobrir você estava por perto, Sam – respondi sem hesitar, e ela me olhou surpresa – depois disso, nunca mais soube o que de fato queria ou era.
– Do que está falando? Olha pra você, está bem sucedido, cursando sua segunda faculdade, num bom emprego – rebateu Sam, me olhando nos olhos.
A olhei, suspirando, desanimado, enquanto ela continuava falando.
– Está numa boa posição, escolheu um bom caminho – continuou Sam, segurando uma das minhas mãos, na mesa, enquanto me olhava nos olhos – não sou o melhor exemplo do mundo, Charlie. Você está bem assim. E olhe pra mim, sou apenas uma atriz de teatro fracassada, tentando fazer comerciais de TV com a ilusão de ser enxergada por alguém que goste do meu trabalho e me contrate para algum filme.
Sam respirou fundo, olhando para a própria xícara, pensativa.
– Vou te passar o número do Patrick, ele vai adorar te ver – ela sorriu, como se quisesse mudar de assunto – e vai se assustar por ver que não mudou nada desde então.
Sorri timidamente, mas não pude parar de pensar em tudo que ela disse, ainda estava processando de forma lenta e calculista. Queria tentar compreender e acreditar que tudo que aconteceu era de fato motivo forte para que ela se afastasse de mim, mas parte de mim não achava aquilo justo.
Me assustei de meus devaneios ao ouvir sua voz falar mais alto, como se repetisse a pergunta, pois eu não escutara, e pude ouvir perfeitamente:
– Charlie! Está namorando?
A olhei confuso, como se acabasse de acordar de uma noite de sono.
– Sim – respondi, conçando os olhos – já tem um tempo.
Sam forçou um sorriso educado.
– Imaginei – ela deu um gole em seu café e continuou – um menino inteligente e bem sucedido, claro que estaria comprometido.
Parte de mim preferia que ela não fosse educada, que se mostrasse inconformada, mas só a vi sorrir, mesmo que educadamente e sem expressão de emoção sincera.
– E você? – devolvi a pergunta, com medo da resposta, mas ao mesmo tempo curioso.
Ela sorriu timidamente, partindo o cookie em dois pedaços e olhando para eles, pensativa por alguns segundos.
– Não estou numa fase onde quero pensar em relacionamentos, Charlie – ela respondeu, desanimada – nada me interessa, muito menos pessoas. Não quero mais preocupações, já chega.
A observei por alguns segundos. Realmente, nunca vira Sam daquele jeito. Parecia deprimida, e não fazia questão de esconder aquilo. Queria dizer algo, mas não sabia o que exatamente, nem como.
– Por favor, não suma novamente – foi a única coisa que consegui pensar em dizer, mesmo que egoísta – eu senti muita a sua falta, e se está deprimida ou não, eu gostaria de estar ao seu lado para ajudar. Só não repita isso.
Sam abriu um sorriso largo, quase que rindo. Finalmente parecia mais sincero.
– Não vou fugir – ela levantou os olhos até os meus novamente, senti meu estômago queimar intensamente – eu prometo, Charlie. E muito obrigada por me procurar, por se importar comigo. Eu nunca te esqueci, e também senti sua falta.
Suspirei, a olhando sério. Se sentiu minha falta, por que não me procurou? Lembrando que meus pais moravam no mesmo lugar, apenas eu me mudei. Eu ainda não havia ingerido aquilo. Eu acreditava que era verdade, mas não entendia a forma dela pensar.
Sam pegou um guardanapos e anotou algo com uma caneta que tinha no bolso, em seguida botou na palma da minha mão e a fechou.
– Estes são os números do Patrick – ela disse, com um sorriso – ele vai adorar te ver, vai por mim. Não sou a única que não está bem.
– Eu vou ligar para ele – respondi – com certeza. Também sinto falta dele.
Sam me olhou pensativa, como se me analisasse.
– Ela é famosa? – ela perguntou e olhei questionável – A sua namorada.
– Ela é modelo – respondi, sem emoção – Jennifer Williams.
– Meu Deus! – Sam exclamou, surpresa – Eu a conheço, ela é muito famosa, e também é incrivelmente linda, Charlie. Meus parabéns!
Sorri apenas.
[…]
Sam e eu conversamos a tarde inteira, até o anoitecer, e também andamos pelas ruas enquanto conversávamos. Eu não fazia isso a tempos.
Quando deu por volta das 21h, olhei para o relógio no pulso, e me surpreendi com a hora. Estávamos andando pelas calçadas, um pouco húmidas e iluminadas pelas luzes dos comércios ainda abertos.
– Já está tarde, Charlie, melhor ir – disse Sam, ao notar que olhei para o relógio.
– Desculpe, Sam – falei enquanto andava – é que tenho faculdade amanhã cedo, e logo depois tenho trabalho.
– O que fez pra sair cedo do trabalho hoje? – Sam me perguntou, rindo.
– Disse que iria fazer uns exames – respondi.
– É melhor ir então – Sam parecia mais animada – e não esquece de ligar para o Patrick. Ele vai adorar a surpresa.
[…]
Peguei meu carro que estava a alguns quarteirões dali e dei uma carona para Sam. O apartamento dela era modesto, porém se situava em uma parte boa de Nova York.
A deixei lá, já sabendo onde ela estava morando.
Fui embora para casa pensando, ela estava tão perto o tempo todo e nunca imaginei isso. Aliás, imaginei tantas coisas com o passar dos anos que até perdi as contas sobre o que já pensei ou o que não pensei. Estava cansado, porém feliz. Tinha visto Sam novamente. Ela estava viva, estava perto de mim, estava a mesma Sam de sempre, eu não poderia deixar de ficar feliz com tudo isso.
Naquela noite, demorei a dormir pensando em tudo que aconteceu no meu reencontro com Sam. Eu não parava de pensar em possibilidades, em coisas que ela disse, gestos que fez...tudo que era relembrado mexia comigo. Logo adormeci assim, pensando em Sam.
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