Se descobrindo lentamente
9 I'm The trouble
Notas iniciais
“I never meant to cause you trouble
And I never meant to do you wrong
And I, well if I ever caused you trouble
Oh no, I never meant to do you harm”
– Trouble – Coldplay
Conversei com Jennifer a noite inteira. Estávamos tensos, e desprevenidos quanto a essa novidade.
Jennifer adormecera na minha cama enquanto amanheci no sofá sem conseguir pregar os olhos. No amanhecer, levei Jennifer para seu apartamento, pois ela queria ficar só por pelo menos um dia e pedir o auxílio da mãe, aquilo me causara um certo alívio para ser honesto.
Era sábado de manhã e eu precisava conversar com alguém. Esse alguém precisava ser o Patrick. Não sei porque mas antes de falar com Sam, eu queria desabafar, conversar, pôr para fora aquela sensação estranha. Ainda não estava preparado para encarar Sam contando a verdade.
Dirigi devagar ainda no centro de Nova York. Liguei para celular de Patrick que insistia em não ser atendido. Por pouco desisti até a chamada finalmente ser atendida.
–Alô! – a voz de Patrick parecia quase irreconhecível, estava praticamente sussurrando.
– Patrick? – perguntei de esguelha.
Ele gargalhou, ainda recuperando a famosa voz, no momento cansada.
– Sou eu, bonitão. Pode falar! – confirmou com mais arroubo, deixando-me mais aliviado.
– Desculpe – respondi, seguido de uma risada sem humor – é que sua voz estava tão cansada que mal a reconheci.
– Ontem bebi demais, minha voz está literalmente fodida, amiguinho. – ele respondeu-me acompanhado de uma risada e eu ri como resposta – Mas...pode falar. Algum problema?
– Preciso conversar com você, Patrick. – minha voz soou mais séria naquele momento, não pude conter o impulso de demonstrar minha tensão, mais evidente que a minha revolta com o retorno de Jennifer – Aconteceram algumas coisas, preciso de alguns conselhos, sei lá...
O ouvi suspirar pesaroso.
– Charlie, o que houve? – sua voz prontamente ficou tão séria quanto a minha.
– Eu...prefiro não falar pelo telefone, sabe, Patrick. – respondi, um pouco aturdido – Eu...posso ir no seu apartamento para conversarmos?
– Você deve, Charlie. Seu coleguinha aqui não anda com condições físicas para sair do apartamento hoje – respondeu-me tentando amenisar o clima com um leve tom de humor, sem deixar o ar tenso sair completamente.
Despedi-me de Patrick e segui até Manhattan, 5th Avenue. Estava aturdido, tonto, mal conseguira dirigir direito. Minha direção estava horrível, eu estava lento demais e errei a rua por duas vezes.
[…]
Por mais ou menos uma hora depois cheguei no apartamento de Patrick. O motivo da demora foi eu ter entrado em ruas erradas e o trânsito não estar dos melhores em Nova York.
Dessa vez Patrick já falara ao meu respeito para a portaria me liberar sempre que quisesse subir.
Patrick me atendeu prontamente na porta de seu apartamento, com um olhar serrado de cansaço acompanhado de olheiras bem visíveis.
– Caramba, Patrick! – exclamei um pouco assustado e ele entrou me convidando com as mãos a fazer o mesmo – Mas...o que fizeram com você?
Patrick andou até o sofá, permita-me acrescentar — de forma lânguida — e se jogou nele. Eu entrei, fechei a porta e me aproximei o fitando um pouco assustado. Haviam garrafas e mais garrafas de bebidas vazias jogadas pelo chão. Me sentei ao lado dele, preocupado.
– Patrick, cara, o que está acontecendo? – perguntei o olhando, não conseguindo esconder a certa aflição.
– Ah...– ele coçou os olhos, sua voz ainda estava rouca, como se tivesse ido a algum jogo de futebol americano e gritado por horas – eu tenho trabalhado bastante, Charlie – ele bocejou – e a banda está cheia de projetos, tive que fazer muitas coisas. Mas nada como uma boa noite de sono.
– Não! – protestei com a voz relativamente alta e indignada – Olha pra você, Patrick, parece um mendigo. Fede a bebida e sua sala parece uma adega abandonada. Está mais magro, está abatido...será que poderia maneirar no álcool, por favor? E por gentileza comer direito? Dormir é só um extra a ser acrescentado.
Ele recuou espantado, seus olhos levemente esbugalhados — que por falta de força, receio eu, não conseguira abrir mais que aquilo — e soltou uma risada falhada e esganiçada.
– Calma, amiguinho, paz e amor – ele levantou as mãos, parecendo um hippie com aqueles dois dedos indicando, obviamente paz e amor – e mais, devo admitir que estou fodido feito um morador de rua, ou como se tivessem me jogado em uma máquina de lavar só que em vez de sabão jogaram bebidas. Eu sei, porque me sinto assim. Mas vou melhorar, só preciso de uns dias de mordomia.
Ele piscou para mim e revirei os olhos.
– Se a Sam te ver assim...
– Shiu, shiu! – ele imediatamente ordenou – Não conte nada a Sam, tá? Estamos todos trabalhando muito, inclusive ela. Já chega de darmos tanto trabalhado um ao outro.
Suspirei.
– Certo, cara. – respondi – Mas se cuida, você está horrível.
Ele riu como resposta.
– Isso me ofendeu. – a voz dele, finjindo irritação, fez-me rir – Mas vou dormir esses dias, estou precisando mesmo.
Eu sorri sem humor.
Patrick me olhou e suspirou.
– Mas o que te trouxe aqui? – ele perguntou, se ajeitando no sofá para encarar-me melhor – Você fala de mim mas não me parece estar melhor que eu.
Suspirei com um certo pesar e o olhei.
– Patrick, a Jennifer voltou de viajem. – comecei e ele ergueu uma sombrancelha – Aconteceu um imprevisto e ela não vai mais trabalhar em Ibisa.
– Como assim não vai mais trabalhar em Ibisa? – ele perguntou intrigado – Você já conversou com ela sobre terminarem?
– Ainda não. – respondi – Pra falar a verdade, não sei como será agora.
– Hãn? – ele perguntou, confuso.
– Eu...não sei. – respondi, desanimado.
– Charlie, seu amiguinho aqui é burro, portanto traduza para mim, por favor – ele coçou a cabeça em meio a sua cabelheira negra, me olhando um pouco confuso – Você está me confundindo um pouco, sabe.
– Ok, desculpe. – respondi.
– Ótimo, apenas explique. – ele respondeu-me pegando uma garrafa de Martini vazia, abrindo-a e cheirando pela tampa, entrertido.
Eu estava aturdido e isso provavelmente estava fazendo-me falar de forma confusa e assim confundindo o Patrick, com isso resolvi ser direto.
Respirei fundo.
– Jennifer está esperando um filho meu. – respondi, tenso – Por isso ela voltou.
Patrick congelou, feito um boneco de cera. Cessou o gesto que fazia com a garrafa, parecendo ter sido petrificado. Quis rir apesar do nervosismo.
Ele levantou a cabeça devagar e encarou-me, completamente chocado.
– Puta merda! – ele exclamou, de boca aberta – Puta merda, Charlie!
Eu não sabia o que responder, apenas continuei o olhando reagir.
– Como deixou isso acontecer, cara? – ele continuou, levantando-se do sofá, perdido – Eu … acho que preciso beber.
– Eu não sei. – respondi aturdido – Eu ... não sei o que fazer agora.
– Vamos beber agora, Charlie. – ele respondeu-me, sacando uma garrafa do armário e voltando para o sofá – É a única idéia boa que posso te dar. – em seguida ele se jogou do meu lado e entregou-me a garrafa de vodca lacrada.
Eu o olhei sem entender.
– Te dou as honras. – ele disse, olhando para o nada.
Abri a garrafa de vodca e dei o primeiro gole, empurrando-a para Patrick que fez o mesmo, e em seguida suspirou, olhando para o nada a sua frente.
– Como vai contar isso a Sam? – ele perguntou, me entregando a garrafa – Como vai contar que você vai ter um filho, e não vai ser com ela?
Ouvir aquilo me doeu um pouco, aquela última frase em forma de pergunta. Era uma pergunta que eu estava me fazendo desde ontem a noite.
– Por isso queria falar com você primeiro – respondi – queria me preparar pra esse momento. Eu não sei o que fazer agora.
– Eu sei – Patrick começou, olhando para mim – vai ter que aprender a trocar fraldas, tirar dinheiro da sua conta no banco para gastar com berço, mamadeiras e fraldas, vai ter que casar com a Jennifer porque sua família vai te pressionar, e provavelmente a Sam vai se afastar de você por achar injustiça te tirar da Jennifer que, coitada, está grávida e na rua da amargura. É exatamente isso que vai ter que fazer, Charlie.
Por um momento lembrei-me de como Patrick era sincero, dolorosamente sincero.
Suspirei afundando no sofá e Patrick lançou-me um olhar meio piedoso.
– Olha, cara...me desculpa – ele disse entre um suspiro – mas eu só estou dizendo isso porque não quero te iludir. É exatamente o que acontece quando se tem um filho, é o que vejo acontecer. Ser pai é algo perene, e a responsabilidade vai ser perene também.
– Eu sei, Patrick, obrigado. – respondi. No fundo, ele estava certo em querer me afogar na realidade, ela era dolorosa, por isso era a realidade.
– Não adianta eu querer maquiar as coisas pra você se lá fora as coisas serão diferentes. – ele continuou, dessa vez sério e com uma voz sensata – Se vai mesmo ser pai, seja um bom pai, seja uma pessoa responsável. Mesmo que ame a Sam, ame ao seu filho primeiro.
Aquilo me veio como uma faca no peito. Por mais que eu não quisesse reconhecer, ele tinha toda razão, mas pensar naquilo era doloroso demais.
– Vou ter que desistir da Sam? – perguntei, á essa altura minha voz não queria mais sair.
Patrick suspirou e levou uma mão ao meu ombro.
– Isso já é com você, amigão. – respondeu.
É claro, isso era comigo. E esse era o problema.
[…]
Conversei e bebi com Patrick. Valeu a pena, ele me deu ótimos conselhos e abriu minha mente. Foi um dia difícil, pois eu sabia o que veria pela frente.
– Obrigado, Patrick. – suspirei, forçando um sorriso – Você é um ótimo conselheiro, de verdade.
Patrick gargalhou.
– Que ironia, não? Eu ser considerado um ótimo conselheiro. – ele disse, com humor – Mas já que não consigo me resolver, pelo menos ajudo os outros a fazerem isso.
– Mas...como você está? – perguntei, ao me lembrar de seus problemas com o ex.
Patrick suspirou entre um riso ofuscado e sem graça.
– Ah, cara...eu sei lá como estou. – ele respondeu-me em um estranho desânimo – A única certeza que tenho é que beber é muito bom.
Suspirei.
– Te entendo. – respondi.
– Eu prefiro que não entenda – ele respondeu-me – porque entender seria sentir o mesmo que eu sinto e isso não seria nada feliz pra você.
Rimos juntos.
– Logo vai aparecer um cara legal, Patrick – o respondi – e você vai ser feliz.
Ele olhou para mim e riu, como se ouvisse uma piada. Ergui uma sombrancelha sem entender.
– É melhor deixar isso pra lá, seu amiguinho anda meio louco das idéias ultimamente. – ele devolveu, levando uma mão em minha coxa e batendo umas três vezes, em seguida se levantou do sofá, fugindo do meu olhar.
– Acho melhor eu arrumar essa bagunça. – ele mudou de assunto, pegando as garrafas vazias no chão da sala, olhei cabreiro.
Naquele momento, a campainha tocou.
Patrick e eu nos olhamos, um pouco sérios.
– Quem será? – perguntei, um pouco tenso.
– Não é o Anthony novamente, relaxa. – ele respondeu-me, rindo e indo até a porta.
Patrick olhou pelo olho mágico e voltou o olhar para o meu.
– É Sam. – ele disse, sério e abriu a porta sem hesitar.
Sam o encarou com um sorriso largo e em seguida me fitou atrás, vendo-me levantar do sofá.
– Que surpresa boa! – ela exclamou, animada e abraçou Patrick, que apertou o abraço quase fazendo os pés de Sam saírem do chão e ela riu.
Sam entrou e Patrick fechou a porta, nos olhando como se esperasse algo começar, provavelmente eu falar de Jennifer e minha grande novidade.
Sam veio até mim dando um abraço apertando-me forte, eu correspondi e ela desviou, abrindo-me um sorriso.
– Como está, Charlie? – perguntou, me olhando.
– Bem, e você? – menti, com um sorriso artificial.
Ela suspirou.
– Bem, apenas cansada. – ela devolveu, olhando para Patrick – E você, Patrick, o que te fizeram?
Ele riu um pouco surpreso.
– Vocês querem mesmo acabar com minha alto estima. – ele devolveu, cruzando os braços – Só estou cansado dessa semana difícil com a banda. Posso?
– Está com olheiras, abatido e fedendo a bebidas. – ela respondeu, imitando o irmão, também cruzando os braços – Por que não vai tomar um banho?
– Minha nossa! – Patrick fingiu estar ofendido, com humor – Está me chamando de fedido?
– Claro que não. – ela respondeu, rindo – Se bebida fosse perfume, você estaria super cheiroso.
– Ok, ok, Sam, você venceu! – ele respondeu, revirando os olhos – Vou tomar uma ducha enquanto vocês conversam.
Engoli seco, pois sabia exatamente o que ele queria dizer com “enquanto vocês conversam”.
Em seguida, ele saiu da sala e foi direto para sua suíte, enquanto me sentei no sofá com Sam.
Suspirei tenso e ela olhou-me séria.
– O que houve? – perguntou.
A olhei nos olhos com certo desânimo. Como dizer isso para Sam? Eu não queria perdê-la de novo, eu não poderia. Quando tudo parecia perfeito, o mundo parecia desabar novamente.
Sam parecia conhecer-me mais que eu mesmo. Ela sabia quando eu estava bem de verdade, quando eu estava tentando maquiar o que sentia, e tudo isso me deixava ainda mais tenso, o que provavelmente fazia-me deixar a tensão mais exposta.
– Charlie, o que está acontecendo? – ela insistiu, após eu me perder a olhando.
Desviei meu olhar, encarando o tapete verde oliva no chão da sala. Não saberia por onde começar, estava atordoado com tudo aquilo.
– A Jennifer voltou de viagem. – comecei, suspirando em seguida, Sam me olhou mais atentamente e a olhei nos olhos novamente – Ela não vai mais trabalhar em Ibisa, tudo teve que ser cancelado.
– Por que, Charlie? – Ela perguntou-me tensa, como se soubesse exatamente o que iria ouvir a seguir – O que aconteceu?
Engoli seco naquele momento, não poderia enrolar a conversa, a resposta era apenas uma.
– Ela está esperando um filho meu. – respondi rapidamente, com uma voz fraca.
Sam olhou para o nada a sua frente assustada, sem resposta.
– Por isso vim aqui – continuei – eu queria pedir uns conselhos ao Patrick, não sabia como te contar isso, estou...sei lá, eu não sei por onde começar.
Esperei Sam me dar alguma resposta, porém continuou olhando para o nada, com aquele olhar assustado, e um pouco pensativo. Aquilo me deixou ainda pior do que se tivesse falado pelos cotovelos, mesmo que com raiva.
– Eu...eu não queria que isso acontecesse. – continuei, cada segundo mais tenso – Não queria me prender ainda mais a Jennifer. Estou...
Suspirei. Minha mente pensava muitas coisas e ao mesmo tempo nada. Estava atordoado, tenso e com medo do silêncio absoluto que Sam adotou como resposta.
– Desculpe, Sam, eu não queria...
A ouvi suspirar e com isso meu coração martelou violentamente.
– A culpa não foi sua. – ela sussurrou, repentinamente.
E então ela não falou mais nada, novamente.
– Claro que foi, sabe disso. – devolvi, desanimado – Eu sou um problema.
De repente, ela se virou para mim, olhando-me seriamente nos olhos.
– Charlie, não fala isso. Deveria agradecer a Deus porque vai ter um filho, porque existem pessoas que nunca terão. – ela rebateu, com a voz um pouco fraca – E você não é um problema, você é maravilhoso. Pare de se julgar, não tem motivo para isso, estavam namorando, normal que isso acontecesse.
– Eu … só queria que fosse com você. – devolvi, olhando para o maldito tapete verde oliva, meu rosto ficou quente, estranhamente quente e eu suspirei.
Ela não respondeu, apenas se aproximou e encostou no meu ombro.
– O que vou fazer? – perguntei, desanimado.
Estava praticamente sem voz, quase sussurrando, e Sam exatamente da mesma forma.
De repente, senti meu ombro ficar mais leve. Olhei para o lado e ela desviara, me olhando.
– Fica com ela, Charlie. – Sam respondeu-me, sua voz adiantava um choro e seus olhos obedeceram, sendo tomados pelas lágrimas no segundo seguinte.
Meu coração martelou seguida de uma dor intransponível.
– Vai ser a melhor decisão que poderia tomar. – ela continuou, soluçando.
– Sam...
– Não, Charlie. – ela descordou antecipadamente, chorando – É pelo seu filho.
Eu não conseguira aceitar aquela resposta, não era justo depois de tudo.
– Mas eu amo você – rebati, com a voz levemente desesperada – e não a Jennifer, entenda.
Ela ficou me olhando enquanto chorava, seus olhos fecharam por alguns segundos enquanto soluçava intensamente.
– Sam...não faça isso, por favor! – insisti – Eu não aguentaria.
Ela abriu os olhos e suspirou.
– Não é justo fazer isso com seu filho, Charlie. – ela respondeu-me com a voz esganiçada – Já nascer com pais que não estão juntos. Não sabe como uma criança sofre com isso.
Lembrei-me da história dos pais dela, que embora ela parecesse encarar tão bem, ela me parecia comparar estranhamente naquele momento.
– Vocês eram felizes juntos antes de tudo acontecer, Charlie. – ela continuou – Além do mais, podemos ser amigos.
Ela segurou na minha mão e suspirou, tentando cessar o choro.
– Eu te amo. – devolvi, desanimado. Minha voz já não queria mais reagir.
O choro de Sam intensificou e senti minha garganta apertar violentamente.
– Eu também te amo, Charlie – ela respondeu-me – e sempre vou te amar. Mas não podemos ficar juntos nessas condições.
Sam soltou minha mão e se levantou do sofá, seu choro não cessava nem por um segundo. Não consegui respondê-la, a minha voz tinha simplesmente desaparecido.
– Eu sinto muito. – ela finalizou, com um choro intenso – Agora eu preciso ir, com licença.
Não consegui respondê-la e ela se foi, batendo a porta da sala, sem se despedir de Patrick.
Em menos de um minuto, Patrick apareceu na sala, como se adivinhasse que Sam saíra. Ele se aproximou, sem camisa e de calça jeans, sentando ao meu lado.
– Eu escutei.– ele disse, desanimado e sem jeito – Pode me chamar de fofoqueiro, tá? Mas só por hoje. É um bônus por não estar bem.
– Não, tudo bem. – respondi, suspirando – Eu estou bem.
Não consegui levantar a cabeça naquele momento, olhar para o tapete parecia menos desconfortável, ou pelo menos eu gostaria que fosse.
– Olha, eu sinto muito, Charlie, queria poder dizer alguma coisa, mas sei que nada que eu disser vai te ajudar nessas horas. – ele continuou – Eu sei que gosta muito dela.
Lavantei a cabeça e olhei para Patrick.
– Eu … estou bem. – murmurei, desanimado.
De repente, Patrick abraçou-me forte. Foram segundos de tormenta naquele abraço, como se sugasse algo preso dentro de mim para ser exposto. Foi tão automático que vi algo cair, molhando o ombro dele, eram meus olhos reagindo. Sim, eu estava chorando, estranhamente chorando. Coisa nova pra quem fazia isso escondido desde criança, por não querer demonstrar-se fraco, e lá estava eu, sendo fraco naquele momento.
Depois que as lágrimas começaram a cair, não queriam mais cessar, e tentei secar meus olhos antecipadamente antes delas caírem, porém era impossível, elas vinham excessivamente. Eu tinha vergonha disso, eram um sinal de fraqueza e isso eu evitava mostrar desde sempre. Eu preferia sentir raiva naquela hora.
Isso me lembrava quando fiquei internado para voltar a uma vida normal, eu chorava a noite com o rosto enterrado no travesseiro para que ninguém escutasse, e quando alguém chegava, eu fingia estar dormindo para não verem meu rosto vermelho.
E de repente, lá estava eu, me mostrando totalmente vulnerável por estar sem Sam. Isso doía mais que saber da gravidez de Jennifer. Alguns segundos depois, comecei a soluçar alto, feito uma criança. Por mais que eu tentasse segurar, as coisas pareceram piorar. Era como um choro acumulado. Eu estava chorando não só por Sam sair por aquela porta dizendo que tudo acabou, eu também estava chorando pelos seis anos que passei longe dela, sentindo saudades, lembrando-me de quando ela me salvou do poço de tristeza em que eu me encontrava, e pela aflição de simplesmente não saber o motivo de seu sumiço.
[…]
Depois de alguns minutos abraçado a Patrick, nos desviamos e Patrick me olhou, visivelmente preocupado. Olhei para o tapete, um pouco envergonhado, admito. Não que isso não fosse normal, mas no meu caso seria algo inadmissível depois de tantos anos me segurando.
– Eu sei que você a ama. – ele respondeu-me finalmente – E ela também te ama, amigo.
– Eu...preciso ir. – levantei meu olhar para Patrick e respondi, desanimado e sentindo o sono chegar como resposta – Preciso dormir um pouco, essa noite não dormi.
– Sim, você precisa e eu também – ele respondeu-me e nos levantamos do sofá – mas acho melhor você lavar o rosto primeiro.
– Não, eu estou bem. – respondi, um pouco apressado e assim chegamos até a porta, Patrick a escancarando para que eu saísse – Mas...Patrick, me desculpe por vir atrapalhar seu descanso, e obrigado pelos conselhos, eu...
– Ah, sem cerimônias, por favor! – ele me interrompeu, gesticulando com a mão exatamente como falava – Quantas vezes te aluguei por causa dos meus casos mal resolvidos. Além do mais, somos amigos. Agora vai pra casa, dorme e depois resolva com a Jennifer o prejuízo futuro das fraldas.
Naquele momento, uma moça parou ao meu lado. Parecia uma adolescente, usava uma jaqueta com camisa dos Smiths. Tinha cabelos curtos, mas mesmo assim estavam presos num rabo-de-cavalo.
– Cheguei numa péssima hora. Certo? – ela encarou Patrick, que parecera irrijecer com a presença dela – Se quiser, volto outra hora.
– Não, eu já estou indo, não se preocupe. – respondi por Patrick, um pouco sem jeito.
Ela ergueu a mão em direção a minha, esperando ser cumprimentada.
– Sou Jane, a famosa terapeuta dele. – ela disse educadamente e apertei sua mão. Para uma terapeuta ela me parecia muito jovem, mas para uma terapeuta que se dava bem com ele, achei que fazia muito seu estilo – Você deve ser o Charlie. Se eu estiver errada, me corrija.
– Sim, sou o Charlie. – devolvi, sem entusiasmo – É bom te conhecer, Jane.
Patrick apenas olhava, impaciente.
– Agora preciso ir. – continuei antes que ela puxasse algum assunto – Tenho que...preciso ir.
A moça me olhou, provavelmente achando que eu era um louco, mas estava sem ânimo para tentar ser sociável naquele momento, assim desci pelo elevador, entrei no meu carro e fui embora para meu apartamento.
Patrick's POV
Eu não sabia o que estava deixando-me mais aflito, ter presenciado minha irmã e o Charlie terminarem daquele jeito ou receber três visitas críticas em menos de cinco horas.
Jane então lançou-me um olhar dos pés a cabeça, eu estava sem camisa, e sim, me senti estranho por isso. Ok? Ok.
– Oi, Patrick. – sua voz saiu com serenidade.
– Érrr...Oi, Jane! – entrei e deixei que Jane fizesse o mesmo, fechando a porta da sala. Não consegui esconder meu desconforto, tensão e minha pouca vontade de receber sua visita.
Me dirigi até o sofá, um pouco impaciente, confuso, e quem sabe prestes a me jogar pela gigantesca janela ao meu lado, era uma proposta irrecusável afinal.
Jane entrou e fechou a porta da sala, apenas me fitando.
– Desculpe vir sem avisar. – ela disse, se aproximando de mim, e isso começara a me incomodar bastante, mais que quando a vi chegar – É que eu realmente queria ver como estava. Sei que está cansado, vou ser breve, não quero te incomodar.
Tarde demais, gatona.
Joguei-me no sofá tentando agir normalmente, como se isso fosse possível para uma pessoa efusiva feito eu. E como sou uma pessoa muito sortuda, por fim ela se sentou ao meu lado.
– Sem problemas, sininho! – respondi, com humor, notando que ela fizera um rabo-de-cavalo.
– Gostou? Está crescendo! – disse, mexendo no cabelo e rindo em resposta.
Se eu gostei? Ela estava linda, com aquele maldito rosto angelical e aqueles olhos castanhos que ficaram ainda mais expressivos com os cabelos presos.
– Claro, está um arraso! – gargalhei excessivamente, na verdade de nervosismo.
Eu estava sem assunto. Eu, Patrick, sem assunto? Maldição. Era possível se sentir mais embaraçado do que isso? Agora se Deus tivesse aberto um buraco no chão da sala pra eu desaparecer, deslizaria para dentro dele com somente um murmuro de agradecimento.
– É, obrigada. – ela respondeu-me, olhando com uma mistura de preoculpação e confusão em sua face – Mas como você está? Têm falado com o Anthony?
Suspirei, irônicamente de alívio, por ela tocar num ponto que poderia me causar tensão e quem sabe assim desfocar minha atenção para algo que me deixasse menos embaraçado.
– Não, e nem quero. – respondi com um sorriso irônico – Estou num momento onde evito falar com quem me incomoda, ele em especial.
– Sabe que estou aqui para o que der e vier – ela começou, se aproximando mais de mim naquele maldito sofá. Droga! – e você vai superar tudo isso. Tenho certeza. Te conheço a alguns anos e sei quantas coisas já superou.
Suspirei, sem conseguir focar-me no que ela falava. Aliás, eu nem conseguira ouvir o que ela falava ao certo. “Barney, pensa no Barney” minha mente pediu enlouquecidamente.
– Estou pensando cá comigo que precisa sair para lugares diferentes, assim vai conhecer gente nova, vai se sentir melhor – ela continuou, sem notar minha aflição. Até sua voz me causava uma sensação doente de incômodo total – e então vai esquecer o Anthony bem rapido, tenho absoluta certeza disso. As coisas vão melhorar pra você, Patrick. Só não pode se trancar nesse apartamento e apenas sair quando for trabalhar com a banda. Isso vai acabar te deprimindo.
Suspirei impaciente enquanto ela falava. Ouví-la falar, estar tão próxima a mim no sofá, aquilo era uma tortura tão grande quanto colocar-me ao lado de uma pizza cheirosa e quentinha após uma semana sem comer. Uma comparação um pouco estranha, mas era a mais realista.
– E precisa parar de beber um pouco, encarar as coisas estando sóbrio pode te fazer bem – ela continuou, sem sequer notar que eu estava enlouquecendo ali – digo isso porque sou sua terapeuta e me preoculpo bastante com a sua saúde mental e física.
Em um reflexo, levei minha mão a boca de Jane, que olhou-me com olhos muito largos.
– Por favor, não fala nada. Ok? – respondi, com a voz um pouco trêmula.
– Você está bem? – Jane perguntou-me, sua respiração e seus lábios acariciando a palma da minha mão, fazendo-me arrepiar de forma devastadora. Mas qual era o problema dessa garota? Ela queria me provocar, fazia de propósito, só poderia ser.
– Sim. – policiei minha voz ao responder, tentando soar certo de mim mesmo, porém Jane me olhou de esguelha e tirei a mão de seus lábios – Desculpa, tá legal? Eu...estou cheio de dor de cabeça.
Gargalhei desvairadamente tentando disfarçar a tensão.
– Tem certeza que é só isso? – ela perguntou, parecendo se privar de falar mais que o necessário.
– Pensou que eu fosse te fazer de refém, não foi? – apontei para ela com humor, gargalhando feito um retardado porque era isso que eu era – Eu estou com muita dor de cabeça, por isso tapei sua boca. Acho que preciso deitar e dormir por um mês.
Ela me olhou como se eu fosse um verdadeiro louco. Na verdade ela não estava errada.
– Precisa parar de beber, Patrick, é sério. – ela tocou no meu ombro, falando – Você têm bebido muito, por isso essa dor de cabeça. Melhor eu ir e deixá-lo dormir.
Antes que ela levantasse do sofá, não contive o ímpeto de segurá-la pela mão em meu ombro e puxá-la até mim, nossos rostos se encararam, o dela estava assustado, porém nem tanto. Choquei nossos lábios com certo desespero e a puxei pela cintura, juntando nossos corpos. Ela correspondeu levando uma mão em minha nuca, assim invadi sua boca e nossas línguas se juntaram alucinadamente, numa fusão tão viciante que pareci já conhecer a anos.
E só então mais uma vez fiz jus a minha triste reputação de louco de pedra. Que diabos eu pensava que estava fazendo? Beijando minha própria terapeuta no mesmo sofá onde na noite anterior eu havia me masturbado pensando nela também? Se aquilo era carência, eu precisava me livrar dela o mais rápido possível, antes que rasgasse a roupa de Jane ali mesmo.
Ok, então já chega, Patrick, a brincadeira acabou.
Cessei o beijo imediatamente e olhei assustado para Jane, que olhou-me sem jeito.
– Jane...melhor você ir embora. – dessa vez não rolou piadinhas. Eu não sabia o que fazer, o que dizer e muito menos o que estava fazendo. Suspirei tenso, sem conseguir olhar nos olhos dela, dessa vez eu não estava tão bêbado pra isso, não tinha porra de desculpas pra dar. Legal.
Ela olhou-me por alguns segundos e suspirou.
– Não acha melhor falarmos sobre isso? – ela perguntou, com a voz um pouco tímida.
Gargalhei ironicamente.
– Falar o que? Que sou um louco esquizofrênico e indeciso? Oh, não, Jane, não sei se quero ter essa grande conversa reveladora, mas obrigado mesmo assim. – respondi, com a voz carregada de ironia e sarcasmo, simplesmente porque eu estava puto da vida – Eu só acho melhor você ir embora agora, não foi uma boa idéia ter vindo afinal.
Jane me olhou mostrando-se claramente chateada, seu rosto estava sério e decepcionado.
– Desculpe, apenas queria ter certeza de que estava bem, mas tudo bem. – ela respondeu-me, se levantando do sofá em seguida – É melhor eu ir e conversarmos depois.
Me senti incomodado e levantei-me em seguida, a seguindo até a porta.
Bufei, impaciente.
– Ok, olha, me desculpe Tá legal? – corrigi, aturdido – Eu não queria te magoar. Na verdade é por isso que não achei uma boa você vir aqui. Eu não ando com a cachola no lugar, ando cansado e com um par de chifres reluzente que ainda pesa na minha testa.
Jane não conteve o ímpeto de rir com minha última frase, ri junto demonstrando alívio.
– Tudo bem, você tem razão. – ela concordou, mudando a expressão séria do rosto – É melhor você descansar, tirar uns dias pra pensar e depois nos falamos. Apenas...não suma, por favor.
– Pode deixar, Pedrita. – respondi e ela revirou os olhos.
– Quantos apelidos vai me dar, Patrick? – cruzou os braços por entre o riso – Foi apenas um rabo-de-cavalo.
– Eu achei que ficou legal, realçou seus olhos. – falei, desviando o olhar para o chão.
Jane sorriu como resposta.
– Obrigada. – respondeu-me e se aproximou, beijando meu rosto.
Minha mente estava entrando em pânico por medo daquele beijo demorar e eu não conter-me novamente. Não me conhecia mais, afinal.
Ela desviou e suspirei de alívio.
– Mantenha contato, prometo não te encher mais. – ela respondeu, com humor e se foi.
[...]
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