Se descobrindo lentamente
4 Gay Club
Notas iniciais
“Heaven knows I was just a young boy
Didn't know what I wanted to be
I was every little hungry schoolgirl's pride and joy
And I guess it was enough for me towin the race?
A prettier face!
Brand new clothes and a big fat place
On your rock and roll TV
But today the way I play the game is not the same
No way
Think I'm gonna get me some happy”
– Freedom '90 – George Michael
Fui para casa cedo, estava deitado na cama vendo TV, mas isso não fazia diferença, já que eu estava com a mente um pouco longe. Estava pensando em como foi meu dia com Patrick e Sam, pensei em escrever isso no Notebook mas estava realmente muito cansado. Amanhã a noite nos veriamos novamente, então resolvi descansar.
Quando fechei os olhos, a campainha tocou. Achei estranho naquele horário. Levantei e olhei pelo olho mágico da porta. Era Jennifer. Ergui a sobrancelha achando estranho e abri a porta. Jennifer suspirou e me abraçou, forte. Levei umas das mãos na cintura dela, tentando entender.
Entramos e fechei a porta, indo para sala. Ela se jogou no sofá, um pouco nervosa, me sentei olhando.
– Jennifer, cadê sua chave? – perguntei, cabreiro.
– Fui assaltada – ela respondeu, com a voz esganiçada – levaram meus projetos, meu celular, as chaves, tudo.
Olhei um pouco surpreso:
– Mas...como?
– Levaram, Charlie – respondeu, impaciente – apontaram um revólver na minha cabeça e levaram.
– Eu...não sei o que dizer, sinto muito – respondi, olhando.
Jennifer me abraçou soluçando copiosamente. Envolvi meus braços nela, apertando o abraço.
Ela passou a noite em meu apartamento. Não era o que eu planejava, porém ela tinha sido assaltada e eu não podia simplesmente expulsá-la de lá. Passamos a noite conversando. Tentei distraí-la de alguma forma.
– Amanhã vai fazer alguma coisa? – Jennifer estava deitada do meu lado, na minha cama, com o controle nas mãos, mudando de canal a cada segundo. Aquilo me irritava um pouco.
– Vou sair com uns amigos a noite – disse, forçando um sorriso – são amigos que não vejo a alguns anos, porque me mudei e tudo.
Jennifer me olhou séria:
– E não vai me levar junto?
– Vou marcar um dia pra te apresentar a eles, prometo.
Ela continuou me olhando séria.
– Sair a noite com uns amigos – ela disse, me encarando – Pelo menos posso saber pra onde?
Preferi não dizer boate, muito menos gay. Ela não entenderia.
– Na casa dele – respondi tentando parecer tranquilo – é aqui em Nova York mesmo. Ele não anda bem, por isso prefiro ir sozinho dessa vez.
– Você disse que seriam amigos e não amigo – ela rebateu, me olhando.
– São irmãos – respondi imediatamente, também a olhando.
Jennifer pensou por alguns segundos e respirou fundo.
– Tudo bem – disse, pensativa – me desculpe. É que sair a noite, com amigos...isso não me deixa segura. Com essas meninas oferecidas, tenho medo de darem encima de você, admito.
– Darem em cima de mim? Acho que não – respondi rindo. Aquilo era uma piada, não era?
Ela ficou me olhando por alguns segundos, até abrir um sorriso e levar uma mão ao meu rosto.
– Pára de baboseiras – ela disse, rindo – Sabe que é um garoto lindo.
– Não, eu não sei disso – respondi, também rindo – Linda é você.
Jennifer sorriu ainda mais, se aproximando de mim e selando nossos lábios.
[…]
Abri os olhos com o susto da claridade. O sol invadira meu quarto e a janela estava entreaberta. Eu estava na cama sozinho, mas ela não estava desarrumada, parecia que eu havia dormido sozinho nela a noite inteira.
Me sentei na cama, tentando abrir os olhos, ainda atingidos pela claridade. Olhei para o criado mudo e vi uma folha dobrada, ao abrir, tinha algo escrito:
“Amor,
tive que sair mais cedo porque tenho alguns ensaios
para uma loja de roupas em Nova York. Mais tarde te ligo.
Obrigada por me animar esta noite.
Com amor,
Jennifer.”
Depois disso, me levantei e liguei para Josh, para saber como ficaram os projetos, ele disse que tudo estava ótimo, e isso já havia animado meu dia literalmente. Naquela tarde, aproveitei para finalizar algumas coisas da faculdade, outras do trabalho e quando vi já era fim de tarde.
Marcamos de nos encontrar em uma praça perto do meu apartamento, ás 19h. Era muito cedo pra quem iria a uma boate, porém queríamos conversar um pouco antes de ir.
Fomos a um bar perto dali, era descomunal, sempre passava de carro naquela avenida mas nunca soube daquele bar. Eu não tinha o costume de beber, até aquela noite.
Compartilhamos uma garrafa de vodca, enquanto conversávamos freneticamente, no bar.
– Eu tenho um namorado, Charlie – gritou Patrick, por conta do barulho das músicas alta, animado com a garrafa de vodca na mão – o nome dele é Anthony, precisa conhecer.
– Ele vai conhecer – disse Sam puxando a garrafa da mão de Patrick e dando várias goladas demoradas, eu e Patrick olhamos assustados, em seguida começamos a rir.
Ela cessou a golada e empurrou a garrafa contra meu peito:
– Agora é sua vez, Charlie!
Empurrei a garrafa contra minha garganta e dei umas goladas. Era forte. Fazia um tempo que não bebia daquele jeito. Cessei, olhando para Sam, por alguns segundos.
Patrick pigarreou, chamando nossa atenção.
– Temos que sair sempre agora– ele se posicionou entre eu e Sam e nos beijou no rosto – Ok?
Sam riu freneticamente.
– Do que depender de mim, nos veremos o tempo todo – ela respondeu, me encarando, como se me cobrasse uma resposta imediata. Sorri.
– Vai ser como antes – respondi, sustentando o olhar dela, sorrindo– vamos nos descobrir juntos.
Sam sorriu timidamente.
Patrick nos apertou em um abraço triplo. Correspondemos, animados e rindo.
– Certo, damas, agora vamos para a boate – ele disse, freneticamente empolgado, se desviando da gente e andando na frente, rápido – essa noite promete!
Eu e Sam rimos, indo atrás dele.
Ao chegarmos na boate, me assustei. Era descomunal. Nunca havia ido em um lugar tão grande. Tinha dois andares ou mais, pista de dança e um bar lindo. Me senti perdido. Era alegre e muitas luzes coloridas. Não poderia negar que ao entrar, me deparei com homens se beijando, mulheres se beijando, travestis dançando...era uma mistura louca de pessoas que seguiam a mesma preferência. Pode parecer estranho, mas achei aquilo divertido.
Sam segurou em meu braço e a olhei surpreso.
– Pra não te agarrarem, sabe? – ela disse, rindo – Assim aproveito pra me apoiar em alguém.
Eu ri.
– Vocês quis dizer, nos apoiamos – respondi, ainda rindo.
Sam riu de volta.
Vi Patrick se misturar no meio dos travestis dançando animado. Eu e Sam olhamos um pouco distantes, rindo.
De repente, Patrick olhou para mim, Sam riu enquanto eu o olhava assustado. Ele me chamou fazendo gesto com a mão. Balancei com a cabeça, negando. Patrick revirou os olhos e veio até mim, me puxando pelo braço.
– Vamos dançar – ele disse, animado, me puxando.
Ri timidamente.
– Não sou bom nisso, Patrick – respondi, um pouco alto por conta do barulho.
Alguns travestis e gays me olharam esperando.
Sam riu e me empurrou de leve.
– Vai logo, Charlie, manda ver – ela disse.
Acabei cedendo. Fui para a pista com Patrick. Estava bêbado e parcialmente animado, não tanto quanto Patrick mas estava.
De repente, começou a tocar o que parecia ser uma música do Village People, YMCA. Todos se animaram bastante e começaram a dançar. Acompanhei o grupo que dançava a coreografia com bastante empolgação, Patrick ria dançando próximo a mim.
Devo admitir que foi bom, eu estava me empolgando bastante, não sei se foi a bebida, ou o fato de eu estar revendo Sam e Patrick, mas realmente estava ficando feliz com tudo aquilo.
Sam dançava de longe, me olhando e sorrindo, correspondi o sorriso enquanto dançava.
Quando percebi, estava dançando no mesmo ritmo que todos da boate, inclusive de Patrick, era como se eu já soubesse a coreografia. Na verdade, apenas acompanhei, mas não fazia ideia que tanta gente me via dançar com Patrick e mais um grupo atrás da gente.
Alguns minutos depois, a música cessou. Patrick e eu rimos animados. De repente, ouvimos algumas palmas falhadas no fundo da boate, que foi aumentando com o passar dos segundos.
Patrick e eu nos olhamos surpresos. Todos da boate estavam batendo palmas pra gente.
Fizemos gesto de agradecimento, abaixando as nossas cabeças.
Em seguida, outra música começou e fui até Sam enquanto Patrick continuava dançando no meio dos outros, sem perder a animação.
– Mandou muito bem, Charlie – disse Sam, sorridente. Correspondi o sorriso.
[…]
Andamos pela boate animados, bebemos algumas bebidas misturadas, não sabíamos ao certo quais eram, mas estavam boas e a sensação de animação era imensa, então preferi não parar.
Conversamos sobre diversas coisas enquanto bebíamos andando pela boate. Cessamos em uma varanda no segundo andar, que eu nem sabia que tinha. Dava uma visão linda para os pédios iluminados da cidade. Respirei fundo, apoiando meus cotovelos nas grades. Estava um vento bom nos nossos rostos. Sam fez o mesmo.
– Os rapazes não param de te olhar, Charlie – disse Sam, rindo – está fazendo sucesso por aqui.
– Se eu fosse gay, isso seria vantagem pra mim – respondi também rindo, sem parar de olhar para a visão das luzes da cidade.
– Lindo, não é? – ela disse, com a voz repentinamente serena. Começou a tocar Careless Whisper do George Michael, aquela música não poderia combinar mais com a situação.
Concordei com a cabeça, me virando para ela. A vi fechar os olhos sentindo o vento bater em seu rosto. Provavelmente não sabia que eu estava a observando. Quando abriu os olhos, viu meu rosto próximo ao dela. Antes que eu pudesse fazer algo, ela levou uma das mãos a minha nuca, puxando meu rosto em direção ao dela, selando nossos lábios. Correspondi mordendo seus lábios, em seguida a beijando rapidamente.
Levei minhas mãos até a cintura dela, enquanto nos beijávamos.
Desci meus lábios até seu pescoço, beijando sua pele macia. Eu não saberia descrever o seu cheiro, mas era um cheiro doce e suave, parecia natural, longe de qualquer substância artificial. Ela respirou fundo, enquanto eu beijava seu pescoço, notando sua pele se arrepiar rapidamente.
Senti meu corpo esquentar como se estivesse em uma praia ensolarada. Sentir sua pele me incendiava. Uma de suas mãos levantou meu rosto a altura do seu, e ela voltou a me beijar, com rapidez, como se quisesse mostrar que queria. Correspondi, me esquecendo de onde estava e quem estava me olhando. Nada me importou naquele momento, até porque não conseguia raciocinar.
Minha língua invadiu sua boca, a beijando intensamente rápido, a fazendo envolver os braços em meus ombros e nossos corpos se chocarem. Logo cessei, mordendo seu lábio inferior, enquanto recuperava o fôlego. Sam levou uma das mãos no meu peito, me fazendo cessar.
– Charlie, estamos em uma boate gay – ela murmurou, rindo em seguida.
Ri, me distanciando um pouco, a olhando. Sam era incrivelmente linda, me hipnotizava apenas por estar por perto. Era algo inexplicável.
– Eu sei – respondi, suspirando – melhor sairmos daqui e darmos uma volta.
– Sim, então vamos – Sam me puxou pelo braço, rapidamente e saímos da boate.
Não vimos Patrick no caminho, nem preferimos incomodá-lo, já que parecia se divertir tanto.
[…]
Patrick's POV
Aquela noite estava maravilhosa. Era tanta gente feliz junta, muita música boa, eu estava tão bêbado que nem sentia mais meus pés no chão mas dane-se, aquilo estava muito bom e ninguém iria estragar aquela noite.
Depois de dançar por mais de uma hora, saí da pista desejando uma vodca bem gelada. Saí esbarrando em algumas pessoas, todas dançando ou bêbadas como eu. Em meio as pessoas que se divertiam no caminho, meus olhos passaram por uma visão que não desejava ver nunca. Um rapaz alto, de cabelos lisos e negros beijava outro, por sua vez afrodescendente, da mesma altura. Ele me parecia familiar, dolorosamente familiar. E eu preferia ignorar isso, mas meu desespero foi maior e não contive o impeto de ir até o rapaz, levando uma das mãos ao seu ombro, chamando.
– Ei! – chamei, gritando pelos pulmões.
Ele se virou para mim, sem hesitar, provavelmente sem saber quem se encontrava atrás dele. Encarei o rosto jovem e de pele pálida, coberto pelo cabelo negro e liso. Aquele olhar, não teria como negar e logo tive a triste confirmação. Era Anthony, meu namorado. Agora ex.
Ele me olhou assustado, e eu o olhei idgnado. Não consegui encará-lo por muito tempo, saí correndo, esbarrando nas pessoas, saindo da boate sem hesitar.
Não, eu não queria ouvir o que ele tinha a dizer porque nada que ele dissesse iria mudar, eu vi tudo. Ele numa boate gay, beijando outro homem. Ok, eu sei que estava em uma boate também mas não o traí, fui pra me divertir com Charlie e Sam. É diferente.
Corri em direção ao carro, que estava no estacionamento. Entrei e me tranquei, chorando sem conseguir parar. Minhas lágrimas estavam molhando todo volante do carro. Juntei toda a força de vontade que me restara para ligar o carro e sair dali rapidamente. Um ganido atormentado escapou da minha boca e antes que eu pudesse me controlar, já estava devastado pelo choro.
Meu choro não era silencioso dessa vez, era assustadoramente alto e desamparado. Eu estava soluçando e tremendo tempo depois.
Não consegui pensar em outra coisa que não fosse ir até a casa da Jane, minha terapeuta, sempre me salvava nesses momentos. Dirigi até sua casa com uma certa rapidez. Estava bêbado, e pra ser honesto eu não sei como consegui chegar até a casa de dela sem bater com o carro. Estava chateado, triste, com raiva, tudo junto.
Alguns minutos depois, estacionei meu carro em frente ao seu apartamento. Respirei fundo, sem conseguir cessar meu choro. De repente, eu estava batendo no estofado do carro. Eu esmurrava o estofado de couro e gritava em meio ao choro desesperado que parecia jamais cessar. Talvez se eu me cansasse o suficiente poderia ficar com sono e esquecer, mesmo que temporariamente, o pesadelo de ter aquela visão em minha mente.
Eu conhecia o Anthony a cinco anos, e éramos amigos acima de tudo. Estávamos juntos á dois anos, e mantínhamos um relacionamento secreto por conta da banda. Não sabíamos como os fãs iriam encarar meu relacionamento homossexual, como vocalista da banda e também sex simbol de muitas garotas. Eu realmente o amava com todas as minhas forças, e não esperava por aquilo. Ele era o único motivo da minha felicidade naquela altura, e tudo isso se fora muito rápido.
Respirei fundo, cessando o choro desesperado. Peguei o celular, ligando para o número de Jane, que atendera rapidamente.
– Alô! – ela disse.
– Jane, sou eu, Patrick...estou na porta do seu prédio – respondi, secando o rosto – preciso te ver.
– Patrick! – ela disse, surpresa – Claro, vou avisar a portaria pra liberar pra você. Ok?
Alguns minutos depois, eu estava diante da porta do apartamento de Jane, batendo.
Ela abriu sem pressa, me encarando.
– Ei – ela me olhou, séria – O que aconteceu?
Jane sabia quando eu não estava bem. Era uma terapeuta de verdade, me conhecia.
Não me contive e a abracei, soluçando novamente.
Entramos e ela me fez sentar no sofá, com um copo de água.
– Precisa se acalmar – me disse, colocando o copo d'água nas minhas mãos – não posso te ajudar se continuar desesperado assim. Respira fundo e se foca no presente, em você aqui, respira.
Fiz o que ela me pediu, e de fato me acalmei.
Ela me olhou, cuidadosa.
– Muito bem – ela disse – agora pode me dizer o que aconteceu. Certo?
Respirei fundo novamente, de olhos fechados.
– Fui na boate gay de Nova York, com Sam e um velho amigo que eu não via a anos – comecei, pausadamente, tentando me acalmar.
– O Charlie? – perguntou.
Por um momento me assustei, mas lembrei que falei sobre o Charlie com ela. Aliás, eu sempre falava do Charlie pra ela. Ela sabia tudo sobre meus sentimentos, minha vida...
– Sim – confirmei, continuando – foi uma noite incrível, nós bebemos, conversamos, fizemos planos de sair mais vezes...tudo parecia perfeito. Eu fiquei na pista dançando, talvez mais do que uma pessoa normal ficaria. Tempos depois, me esgotei e saí esbarrando em algumas pessoas, na frente vi dois caras se beijando, e um era exatamente igual ao Anthony.
Naquele momento, comecei a soluçar novamente, Jane segurou minha mão com um olhar piedoso.
– Era ele? – perguntou, me olhando nos olhos.
Respirei fundo, continuando:
– Eu o chamei e ele se virou. Era ele. Com outro cara. Os dois estavam se beijando como se não houvesse o amanhã, Jane.
Conforme eu ia falando, soluçava mais alto.
Jane segurou minha mão, se aproximando:
– Patrick, calma!
Ela chamou diversas vezes, até que eu cessasse, mais calmo.
Ela ficou me olhando, minunciosamente, como se analisasse minhas reações. Ás vezes me incomodava mas ela era minha terapeuta e sabia o que estava fazendo.
– Está mais calmo? – perguntou, paciente.
– Sim – respondi, respirando fundo, desanimado – eu acho. Não sei, Jane. Estou desolado, não sei o que fazer. Eu o amo muito.
– Não pretende conversar com ele? – ela perguntou, com a voz um pouco falha, como se já soubesse minha resposta naquele momento.
– Não aceito traições, Jane – respondi, com a voz mais segura – eu não quero mais olhar na cara dele, nunca o traí, durante todo esse tempo. Sou um rockstar, vocalista de uma banda, e sempre me apareciam caras bonitos dando encima. Nunca me sujeitei a nenhum deles, e se eu quisesse transar com um e outro, eu não namoraria sério com ninguém, porque não sou assim.
Ela assentiu, visivelmente compreensiva, abriu um sorriso calmo.
– É, eu sei de tudo isso, e não faz ideia de como admiro isso em você – ela respondeu – mas pessoas como você são raras de encontrar, Patrick. Não espere que os caras com quem fica, sejam com você o que você é pra eles, porque não serão. Cada um tem uma personalidade, e se relacionar com pessoas é descobrir defeitos e qualidades. Isso nos machuca.
Mas é claro, Jane sempre me compreendia, e sempre sabia o que me dizer. Eu não conseguia vê-la como uma terapeuta exatamente, embora fosse, mas ela já fazia parte da minha vida, como uma grande amiga.
Sorri, com o rosto um pouco inchado.
– Quer um vinho? – ela perguntou, mais descontraída com meu sorriso – Não sou de oferecer vinho aos meus pacientes, mas você é meu amigo também.
– Claro que sou! – respondi, em tom de brincadeira e ri – Eu aceito um vinho sim. Beber sempre ajuda.
Jane pegou uma garrafa em seu estoque, dentro de um armário de frente para o sofá onde estávamos sentados e dois copos.
– Não é o mais velho, mas é fino e caro – ela disse, me entregando um dos copos para abrir a garrafa. Ela enterrou o saca-rolhas e puxou, com uma certa força que eu não esperava.
Jane era apenas três anos mais velha que eu, mas isso não fazia diferença, pois ela era pequena, como uma boneca. Tinha olhos negros e cabelos curtos, me lembrava uma adolescente. Provavelmente ninguém diria que ela era uma terapeuta. Mas segundo a mesma, estudou desde cedo para se focar nessa profissão. Usava óculos e fumava bastante. Se ninguém a conhecesse, a tomaria o cigarro por achar que era menor de idade. E não, eu não sabia da vida pessoal dela, mesmo frequentando a casa dela ás vezes, mas provavelmente porque ela não tinha uma. Estava sempre sozinha com seu cigarro.
Ela me serviu e se serviu, levando a garrafa encima da mesinha central da sala.
A sala não tinha uma iluminação forte, era um pouco escura, algumas luzes fracas nos cantos, pareciam velas. Eu achava aquilo engraçado. Minha terapeuta era uma louca.
– O que pretende fazer, Patrick? – ela perguntou.
Sério isso? Eu estava querendo esquecer aquele assunto, e quase conseguira.
– Eu não sei – respondi, tentando não me importar com o assunto – e prefiro não saber, aliás, não vou fazer nada. Acabou.
Jane ficou me olhando por alguns segundos, pensativa.
– Por que não analisa como conviveu com ele nos últimos dias? – ela insistiu – Pode achar alguma falha que te faça pensar melhor.
– Não há falhas – respondi de imediato – eu era um ótimo namorado pra ele e ele jogou tudo isso pelo ralo, feito shampoo enxaguado. Eu o amei, e ele me machucou, Jane. Não sou de voltar atrás, por mais que isso me machuque.
Ela ficou olhando, sem responder, como se soubesse que eu estava certo.
– Tudo bem – ela respondeu calmamente – eu compreendo. Então vamos beber, você descansa aqui e amanhã vai levantar leve e mais calmo, pra fazer o que tiver que ser feito.
– Você quis dizer de ressaca e morrendo de dor de cabeça – devolvi entre algumas risadas – mas obrigado, Jane, você não existe.
– Na verdade, sou sua terapeuta e me preocupo com você – ela respondeu, rindo – não quero que saia bêbado e de cabeça quente pra bater com o carro no meio da estrada.
– Eu vim bêbado da boate, então deveria saber que dirigi bêbado pra cá também – respondi, ainda rindo – e bebi tantas misturas que já nem sei. O Charlie também bebeu umas e...ai, meu Deus! Eu me esqueci completamente!
Jane me olhou assustada.
– Eu me esqueci da Sam e do Charlie – falei, um pouco nervoso e peguei o celular – vou ligar e avisar que saí da boate, senão eles vão achar que fui sequestrado por aqueles homens musculosos que estavam dançando comigo na pista.
Jane riu incontrolavelmente:
– Me desculpa mas isso foi de fato engraçado.
Ri junto, a olhando, pensativo. Logo deixei o celular de lado.
– Ai, quer saber? Amanhã eu ligo – falei, pegando a taça de vinho na mesinha – tenho certeza que eles estão bem, e se não ligaram até agora, é porque nem notaram minha ausência. Vamos beber.
Jane e eu bebemos durante horas. Acabamos com a garrafa de vinho e conversamos sobre o Anthony. Os conselhos dela foram bons. Me ajudaram a pensar.
[…]
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