Se cuida, Luís

1 Capítulo 1 - Razão de fuga


Eu fugi de casa algumas vezes. Muitas vezes, na verdade, mas nunca durava mais que cinco horas. Eu saía bravo com a vida, porque me sentia judiado por ela em vários aspectos. Queria largar tudo e deixar as coisas para trás. Mas eu lembrava que nem tinha tanta coisa assim pra abandonar, senão minha mãe, alguém que nunca me abandonou e não merece o meu abandono. Chorava um pouco, gritava para o mar, jogava umas pedras na água, comia alguma coisa e retornava pra casa.

Eu morava com minha mãe e o namorado dela, Edilson. Um nojo de homem e um dos maiores causadores das minhas fugas temporárias. Ele morava conosco há sete anos e atormentava minha vida desde quando eu tinha onze. Sempre me perguntei onde estava a beleza que minha mãe via naquele homem. Faria algum sentido, mesmo que pouco, se ele tivesse dinheiro ou trabalhasse para ajudar na casa, mas ele não fazia nada além de assistir futebol com os pés na mesa de centro e apodrecer a casa de cigarro. Vez ou outra, ele arrumava algum bico de pedreiro.

Edilson se apresentou para mim como um rapaz de boa conduta e foi se revelando aos poucos, de mês em mês, ano em ano, um homem nojento, folgado e oportunista. Nos meus treze, bravo por eu não ter feito o que ele pediu, inventou uma história de que tinha me visto aos beijos com um garoto em frente ao colégio e contou para minha mãe, esperando que ela brigasse comigo. Foi uma tentativa falida. Minha mãe chegou até mim, se sentou ao meu lado e perguntou se aquilo era verdade. Eu disse que não. Ficamos calados, até que eu a assumisse que mesmo não ficando com um garoto naquele dia, talvez eu viesse a ficar, até porque eu gostava de garotos e se isso foi o que ele quis dizer, então disse a verdade. Minha mãe me abraçou, disse que tudo estava bem e que ela confiava em mim. Minha sexualidade nunca importou para ela, o que ela mais temia era que algo de ruim me acontecesse. "O problema não é com você, é com o mundo", ouvi algo parecido. Foi uma surpresa pra mim. Nordeste é terra de gente cabeça fechada, de gente intolerante e preconceituosa. Mas eu fui abençoado, minha mãe não era assim. Ela me amaria de todos os jeitos.

O que nunca entendi é como ela poderia amar um homem como Edilson. Me sentia mal todos os dias ao vê-la chegar do trabalho, após uma longa rotina de domestica e receber o selinho que ele a dava, o abraço por trás com o roçado daquela barba suja. Ele parecia tão dócil. Tão amável. Nunca me permiti achar que ela acreditaria no que eu dissesse sobre aquele homem. Porque, de certa forma, ela parecia sentir algo por ele. Por muito acreditei que o amor realmente nos torna cegos, cegos para algumas verdades que nos cercam e que são acobertadas pela fantasia do amar. Mesmo com o nojento do Edilson, ela ainda parecia mais feliz do que foi nos anos em que passou sozinha logo após a morte do meu pai. Eu teria que levar aquilo (ele), e seguir em frente. Um dia eu apenas iria embora e deixaria aquela casa para nunca mais voltar.