Na janela junto à ponte a jovem se debruça absorta. A correntinha brilha em seu pescoço. Na trilha do parque por onde voltou, ereta como se nada tivesse acontecido, arde ainda como um copo fervilhando a devassidão das aparências. Havia lá nas árvores aves como essa – canto de um mundo que a abandonou. Chega a ouvir o barulho do mar exatamente como em sua caminhada matinal. Em cores fortes e reflexos, passam os automóveis. Inquieta respira fundo. Afasta-se da paisagem com um impulso no parapeito e num último relance deixa o sol entrar na sala filtrado, quase líquido, sobre os móveis.

Enquanto procurava entender onde estava ao acordar suando frio no meio da noite, cruzara os braços sobre o peito e levara as mãos em cruz ao calor do ventre. Recordou-se menina. Seu primeiro amor foi uma coleguinha de classe. Um dia saiu de casa e esteve diante da portaria de seu prédio respirando a chuva fina em súplica inócua que se prolongou por quase uma hora. Um dia foi magra e sem indício de atrativos em vestidinhos que ela masculinizava. Uma menina obediente e bondosa. Isso deveria fazer com que merecesse um corpo despercebível em que habitar. Jamais iria usar cremes ou maquiagem. Jamais iria beber ou mentir. Cultivará apenas o saber que tenha um propósito virtuoso claro.

Costumava ter o máximo de cuidado para se proteger quando ia à praia sem que seus pais entendessem a razão. Ama agora a integridade perfeita de um homem e daí passou a amar tudo que lhe diga respeito, incluindo a indócil potência que ele está longe de imaginar que tenha tal efeito apaziguador. Livrara-se enfim do remordimento do passado e de novo pretendia ser e fazer feliz, mas agora está transtornada com o episódio mais recente e descobre ainda ser possível ser surpreendida e renovar a humilhação. A dor de outra perda da inocência. Em que medida era culpada e como conviver com essa culpa? Como conviver com esse ódio?

Gisele Drabska. Uma mulher jovem e simpática que todos achavam belíssima. Que vantagem existe nisso, se a beleza só traz dor? Um dia morrerá e nada ficará além de seu caráter. Dos objetos pessoais impregnando de saudade a pessoa amada. Poemas das horas de maior angústia. Meu irmão, o que te tornou assim corriqueiro e substituiu teu amor dedicado por lassidão tamanha? Nem imagina onde ele esteja. Possivelmente em algum lugar no litoral europeu que adora. Sempre soube se virar longe dos grandes centros. Aqui na megalópole a vida é mesmo difícil e o bucólico recanto, enganoso. Apesar da longa ducha, a sensação se mantém: parece que ainda dorme. Seja como for, é dia. Um novo dia. Precisa ir trabalhar. É o último motivo para que levante da cama.

Sobre a cabeceira o relógio acusa seu atraso. Na penteadeira o perfume que não devia ter recebido no Dia dos Namorados. Veja no espelho o quanto você é de fato bela, lindíssima, dama triste do olhar perdido na sacada da firma. As colegas a imaginam realizada, com os homens que quer. E amaldiçoam, amaldiçoam sempre, às vezes com gracejos, outras com simples e cruel maledicência. Sobre a cômoda antiga as bonecas de porcelana numa cena perfeita de reflexão da protagonista acerca da infância que chegou a ser tão boa durante algum tempo. Uma colina ao longe cuja neblina jamais se dissipa. Saia vermelha e engomada. Uma última ajeitada no cabelo desdenha de qualquer tempo ou contratempo.

Ao sair, numa rápida olhada para cima, percebe que há ainda orvalho nas folhas da árvore em frente, única do quarteirão. A grama ao redor está dourada. Até que horas durará esse brilho? No rosto pálido a resposta se manifesta. Não mais que alguns minutos, o tempo da alegria de alguém. Um carro. Vermelho vivo que passa. Na distância marcada pelo motor se mistura o som do celular. Alô? Não esperava que ele fosse ainda capaz de ligar. Viu-a saindo. Ela não gostaria que terminassem em algum lugar discreto o que haviam na trilha começado? Gisele mantém o andar rápido e decidido. Nem por doença falta ao trabalho e não costuma se atrasar.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.