Notas iniciais
Olá pessoas! Eu disse que ia postar quinzenalmente e vou, mas decidi trazer logo o primeiro cap pra vcs! Let's go!

Shikadai

Acordei no dia seguinte mais cedo do que eu gostaria com o barulho de vidro se estilhaçando. Levantei meio grogue e segui até a cozinha, onde minha mãe recolhia os cacos de uma xicara no chão, o leque nas costas e um pergaminho atado a cintura.

—Mãe? –perguntei, coçando os olhos.

—Oh, Shikadai. –ela se endireitou e sorriu pra mim, mas seu sorriso não alcançou seus olhos, que eram tão iguais aos meus –Desculpe, filho, não queria te acordar.

—Você está indo para Suna? –perguntei desanimado.

—Sim. –ela respondeu, desviando o olhar e voltando a pegar os cacos no chão –Vou levar um pergaminho para seu tio.

Eu suspirei, assentindo e voltei para meu quarto sem falar mais nada. Me atirei de volta na cama, chateado. Hoje era minha folga e eu tinha combinado de treinar com Mirai-nee-chan, mas ainda era cedo e eu podia dormir mais um pouco. Fechei os olhos, mas o bolo de chateação em meu estômago não me deixou voltar a dormir. Virei de barriga pra cima, encarando o teto. Pensei em como minha família era unida até dois anos atrás, como meus pais sempre trocavam farpas, mas de um jeito engraçado e logo estavam abraçados na sala, assistindo TV e pedindo para eu ficar junto. Pensei em quantas vezes eu deixei a oportunidade passar e em como eu era idiota de não ter aproveitado mais minha família enquanto ela ainda existia.

Levantei um par de horas depois, ainda desanimado. Meu pai tinha saído cedo, como todos os dias, antes mesmo da minha mãe. O sofá ainda tinha um lençol e seu travesseiro, que minha mãe não se deu ao trabalho de levar de volta para o quarto, apesar de odiar bagunça. Saí de casa para o campo de treinamento, sem vontade nenhuma. Eu já tinha desabafado algumas vezes com Mirai-nee-chan sobre a situação em casa e ela tinha me consolado todas as vezes, dizendo que logo ia melhorar e que casais tinham crises assim mesmo. Ela era uma das únicas pessoas que conseguia me animar, e foi isso e a vontade de vê-la que me tirou de casa.

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Depois de algumas horas de exercício e lutas, eu e Mirai-nee-chan sentamos para descansar. Kurenai-san havia feito um lanche para nós e resolvemos estender uma toalha e começamos a comer.

—E como estão as coisas em casa, Dai-chan? –ela perguntou antes de morder o onigiri, genuinamente interessada.

Fiz uma careta para o apelido infantil que ela insistia em usar e ela riu. Suspirei logo depois e ela ficou séria novamente, me encarando. Bebi um gole do suco que ela havia trazido em uma garrafinha, pra limpar a garganta, e comecei:

—Discutiram de novo ontem a noite. –baixei os olhos, lembrando de algumas palavras ferinas trocadas pelos dois –Ele chegou quase de madrugada, mamãe estava cansada, dava pra ver enquanto a gente jantava, sabe? Ela passa o dia todo pra lá e pra cá, resolvendo burocracias da vila e às vezes de Suna, recebendo papéis, pessoas. Ela estava realmente cansada ontem e mesmo assim a primeira coisa que ela fez quando chegou foi ir preparar o jantar. A gente esperou ele por algum tempo, mas a comida começou a esfriar e nada dele. Daí ela mandou eu comer, mas mal tocou na comida dela. Eu tentei protestar, mas ela não deixou e eu subi, meio bravo. Quando ele chegou, eles começaram a discutir. Ele também parecia cansado, a voz dele, o tom que ele usava, pedindo pra ela parar. Quando eu acordei hoje de manhã, ele já não estava e ela estava saindo.

Mirai-nee-chan me encarou por um momento, o olhar penoso. Ela havia crescido por perto, sempre em casa, a protegida do meu pai. Eu tinha ciúmes dela quando criança, mas nós dois crescemos quase como irmãos, ou primos, e isso passou. Ela gostava muito do meu pai, como se fosse pai dela também. E respeitava e admirava minha mãe. Eu sabia que ela também sofria um pouco com essa situação dos dois.

—Temari-san foi pra Suna? –ela perguntou.

Assenti com a cabeça. Ficamos mais um tempo em silêncio quando eu finalmente tive coragem de falar:

—Você acha que... –hesitei, sem querer de verdade colocar aquilo em palavras, suspirei e conclui: -Você acha que meu pai pode estar...Traindo minha mãe, Mirai-nee-chan?

Ela arregalou os olhos e sua boca formou um “o”, suas bochechas coraram. Demorou um momento para ter uma reação, sacudindo as mãos em negação.

—Não, Dai! –ela exclamou –Não acho que isso seja possível! Shikamaru-sensei nunca faria uma coisa dessa! Ele é um homem respeitável e fiel.

Eu a encarei. Achava os olhos vermelhos dela bonitos e pensei nisso por um momento antes de suspirar e olhar o chão.

—Mesmo assim, Mirai-nee-chan... –dei uma pausa –Eu acho que eles vão se separar.

—Não pense assim! –ela disse, batendo em minha cabeça de leve –Shikamaru-sensei e Temari-san se amam. Você é a prova disso. Eles estão passando por maus momentos agora, mas tudo vai melhorar, você vai ver!

Eu suspirei mais uma vez. Apesar de querer acreditar desesperadamente no que Mirai-nee-chan me dizia, eu estava cada vez mais descrente sobre meus pais voltarem a ficar bem. Terminamos de comer em silêncio e ficamos mais algum tempo ali, observando as nuvens. Ela não gostava muito, mas eu tinha adquirido esse habito do meu pai e me ajudava a me sentir um pouco mais leve naquela situação.

—Sabe... –eu comecei depois de um tempo onde nós dois ficamos deitados na toalha –Eu fico pensando se posso fazer algo por eles, mostrar pra eles de alguma forma... Lembrar eles de como era.

—Dai –ela começou – O relacionamento é deles, não é como se você pudesse fazer grandes coisas para mudar o que eles estão passando.

—Eu não sei... –suspirei –Mas eu quero fazer algo. Deve ter uma forma de fazer eles se verem como se viam antes.

Mirai-nee-chan riu.

—Esse tipo de coisa não se resolve com um jutsu, Dai-chan. –ela disse ainda risonha –Nem tudo se resolve com um.

Eu bufei, revirando os olhos, o que ela viu pelo canto do olho e a fez rir de novo. Nós voltamos a treinar alguns minutos depois, mas as palavras dela não saíram da minha cabeça.

Um jutsu. Será que um jutsu podia ajudar meus pais a se reconciliarem em definitivo?

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Depois de voltar para casa e tomar um banho, me sentei de frente ao computador que ficava no meu quarto e comecei a fuçar em sites de busca. Devia haver em algum canto algo que eu pudesse fazer pelos meus pais, mesmo que não fosse de fato um jutsu. Encontrei coisas românticas, como levá-los para piquenique em família ou mesmo fazer um vídeo de lembranças dos dois, ou um álbum. Mas meu pai nunca tinha tempo para essas coisas, o que tornariam as mesmas impossíveis. Passei horas procurando, confabulando, pensando. Nada parecia suficiente, todos os planos tinham falhas, por mais que eu tentasse aprimorá-los. Eu pensei em como seria tão mais fácil se eu pudesse contar com meu pai, mas algo me dizia que ele não gostaria de saber que eu estava me metendo nisso. Ele ia chamar a situação de problemática e dizer que ele e minha mãe se resolveriam. Quando já era noite, parei de procurar e bufei frustrado.

Levantei da cadeira e estiquei meus músculos doloridos por tanto tempo sentado quase na mesma posição. Eu estava com fome e teria que me virar, visto que minha mãe não estava e meu pai só chegaria tarde. Andei até a cozinha, pensando o que eu poderia fazer para comer. Minha mãe tinha me ensinado a cozinhar coisas básicas antes mesmo de eu me tornar um genin, dizendo que eu deveria saber me virar em qualquer situação. Não acho que ela esperava uma situação como essa, pensei com amargura, em que ela largava a casa e meu pai passava mais tempo fora do que dentro dessa. Um sentimento de abandono se apossou de mim e eu me sentei em uma das cadeiras da cozinha, sentindo vontade de chorar.

—Tadaima. –a voz do meu pai soou da entrada.

Eu levantei a cabeça rapidamente e ele já chegava na porta da cozinha. Os olhos escuros encontraram os meus e ele sorriu, mas, como minha mãe mais cedo, o sorriso não chegou aos seus olhos, que também tinham olheiras. Ele se aproximou e bagunçou meu cabelo.

—Okaeri. –eu resmunguei para ele.

—Que cara é essa? –ele me perguntou.

—Nada. –respondi rapidamente e ele levantou uma sobrancelha, como quem não acredita. –Como foi o trabalho?

—Bem. –ele respondeu vagamente e olhou para a direção da saída da cozinha –Cadê sua mãe?

Eu segurei um suspiro. Ele tinha chego muito mais cedo que o habitual, mais ou menos no horário que minha mãe já estava preparando o jantar pra gente. Perguntei-me se isso era uma forma de se redimir por ontem, não querendo brigar de novo com ela. Ao mesmo tempo, ele era o braço direito do Hokage. Me parecia um tanto desleixado ele não saber quando sua esposa era mandada em uma missão.

—Foi pra Suna. –respondi com a voz desanimada.

Ele voltou seus olhos para mim e me encarou por um momento, sua expressão se tornou abatida. Ele suspirou e coçou a nuca.

—Vá pegar um casaco que está frio. –ele disse –Nós vamos comer no Ichihaku, estou cansado demais pra cozinhar.

—Pai... –chamei, pensando que talvez não fosse um desperdício de tempo tentar conversar com ele. –Você e a mamãe...

—Eu não quero falar sobre isso agora, Shikadai. –ele me cortou, o rosto neutro de uma forma que eu vira poucas vezes. –Vá buscar o casaco.

Suspirei, vencido. Meu pai era maleável e geralmente permitia que eu me expressasse quando eu assim desejava, e escutava tudo que eu tinha a dizer com atenção. Porém, se ele dizia que não iríamos falar no assunto, nós não iríamos falar no assunto, mesmo que eu insistisse. Levantei da cadeira, os ombros e a cabeça baixa, e fui para meu quarto pegar o casaco.

OoOoOoOoOoOoOo

No dia seguinte, cumpri uma missão simples pela manhã e recebi o resto do dia para descansar. Resolvi enquanto andava até minha casa que, já que na internet eu não tinha achado nada de muito útil, a biblioteca de Konoha podia me ajudar.

Passei o resto da tarde entre livros e mais livros, pergaminhos e papéis. Novamente, nada parecia me ajudar. Nem as “dicas” comuns, nem os de arte ninja. Eu estava ficando frustrado e estava quase conformado que não havia o que fazer. Meus pais iam de separar.

Eu tinha desistido de procurar. Comecei a guardar os livros cada um no seu devido lugar, mesmo sabendo que havia alguém que faria isso se eu deixasse na mesa. Crescer com dona Temari como mãe te ensina a não deixar as coisas que você bagunçou sem arrumar, minha orelha lembra bem da lição. Coloquei o último livro na prateleira correta e fui levar os pergaminhos na parte da biblioteca destinada a eles, assim que adentrei naquela área mais antiga e um pouco abandonada da biblioteca, um dos pergaminhos se desequilibrou da pilha e foi ao chão. Bufei, irritado com tudo aquilo e coloquei os outros pergaminhos em seus devidos lugares antes de voltar e pegar o que tinha caído.

O maldito pergaminho tinha se enfiado em baixo de uma das estantes mais altas e eu tive que deitar de barriga no chão para conseguir ver onde o pedaço de papel tinha se enfiado. Tive que encostar a bochecha no chão, mas consegui finalmente vê-lo. Enfiei o braço lá em baixo e puxei. Levantei do chão rápido, não querendo ser visto pela bibliotecária, ela surtava sempre que alguém deixava cair algo no chão, dizendo que nós, jovens, não tínhamos cuidado com nada.

Virei meus olhos para o pergaminho para identificar onde devia colocá-lo e franzi o cenho. Aquele não era um dos pergaminhos que eu tinha pego. Todos os que eu peguei tinham números que identificavam seu gênero do lado de fora e esse não tinha nada. Voltei a abaixar e consegui localizar outro pergaminho embaixo da estante e, quando o puxei e levantei, vi que era este o que eu tinha pego anteriormente. Olhei de novo para o pergaminho sem identificação e pensei no que fazer com ele. O mais lógico seria levar até a bibliotecária e informar que alguém tinha largado em alguma mesa, porque ela surtaria obviamente se eu dissesse onde estava o pergaminho, mas a curiosidade falou mais alto.

Eu olhei em volta, tentando identificar se não havia ninguém me observando, e voltei para a área das mesas. Abri o pergaminho e lá havia instruções sobre a realização de um jutsu. Não haviam explicações sobre o que o jutsu fazia exatamente, mas uma frase escrita em letras destacadas me chamou atenção:

“Colocar um no lugar do outro e, assim, fazer entender o que o outro passa.”

Eu não sabia o que aquilo significava exatamente, mas parecia ser o tipo de coisa que eu estava procurando.

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A semana seguiu, o pergaminho não saiu de minha mente. Eu o escondi em meu quarto, depois de retirá-lo da biblioteca sem dizer nada a ninguém. Eu sabia que era uma atitude errada, mas o fiz sem pensar, o que vindo de mim era uma grande novidade. Eu tentei saber mais sobre o jutsu do pergaminho nas pausas entre as missões e numa ou outra folga que eu tive, mas não achei nada além do que estava no pergaminho, que ele era usado para uma pessoa saber como era ser a outra. Não havia dados dele na internet e nem em nenhum outro livro e eu estava achando que ele nem se quer iria funcionar.

Três dias depois de sua partida, minha mãe ligou para avisar que tinha chego em Suna. Ela quis saber se eu estava bem, como estavam as missões e se eu estava me comportando, o que me fez revirar os olhos e bufar e ela ralhar comigo. Ela dizia que eu agia como criança, mas ela me tratava como uma às vezes.

—E como está seu pai? –ela perguntou depois de alguns segundos de silêncio e sua voz soou normal.

Me senti desapontado pois esperava uma pontada de sentimento. Suspirei, pensando em responder que ela devia ligar pra ele se quisesse saber, mas sabia que receberia outra bronca se falasse dessa forma com ela.

—Normal. –respondi. –Chegou cedo o dia que você foi pra Suna... Chegou mais cedo ontem também... Fomos jantar na vovó, mas voltamos logo. Ele parecia cansado... Aliás, vovó mandou um beijo e pediu pra você ir vê-la quando voltar.

—Entendi. –ela respondeu –Se ver sua vó, diga que logo que eu voltar passo lá.

—Você vai demorar? –perguntei.

—Não sei. –ela respondeu e pela primeira vez sua voz se mostrou hesitante.

—Sua missão não era só entregar um pergaminho? –resmunguei.

—Sim. –ela respondeu –Não se preocupe, logo eu estou em casa.

—Mãe... –eu comecei hesitante também, mas resolvi continuar –Você não pode só... Sentar e conversar com ele como vocês sempre fizeram?

Ouvi minha mãe suspirar do outro lado da linha. Pensei que ela ia mandar eu cuidar da minha própria vida com sua voz autoritária, mas ela soou bem diferente disso.

—Eu já tentei, filho. –ela respondeu com sinceridade. –Seu pai... –ela deu uma pausa, pigarreou e sua voz soou firme novamente quando disse: –Eu não sei o que há com ele, mas ele não quer que eu saiba e eu não vou mais me intrometer nisso. E nem você.

—Mas, mãe... –tentei novamente.

—Agora eu preciso desligar. –ela me cortou –Quando eu estiver voltando, eu aviso.

E ela desligou antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa.

Que problemático.

Notas finais
Nesse capitulo temos um pouco mais da rotina atual dos Naras. A situação não ta facil e o Shikadai está cada vez mais preocupado e desanimado. Ele achou um pergaminho estranho, o que será que vai acontecer? =O Teve um pouco de MiraDai aqui, eu juro que não foi intencional e vou evitar ao maximo, mas eu shippo, só avisando hauahua' Obrigada a todos que comentaram no cap anterior ♥ Amei a repetividade da fics logo de cara *O* E me digam o que vocês acharam desse primeiro cap! O segundo cap. já começa com a visão da Temari e do Shikamaru sobre a situação, então esperem ansiosamente HUAUHAHU'