Se Essa Rua Fosse Minha...
1 Se essa rua fosse minha...
“Se essa rua
Se essa rua fosse minha
Eu mandava
Eu mandava ladrilhar
Com pedrinhas
Com pedrinhas de brilhante
Só pra ver
Só pra ver meu bem passar”
Despediu-se dos amigos em meio à noite gelada, ajeitou o cachecol entorno do pequeno pescoço para tentar aquecer-se, talvez em vão. O vento soprava farfalhando as poucas folhas secas na ponta dos galhos levemente amarronzados. Inverno calmo.
Deu meia volta percorrendo a rua de forma infantil, correndo com passos tão pesados que ecoavam entre as casas. Já era tarde da noite, logo os antigos sinos da igreja badalariam doze vezes. Barulho irritante, porém há muito estava acostumado.
Cabelos ruivos revoltos contra a brisa gelia, fazendo a criança arrepiar-se. Esfregou a mão enluvada uma na outra enquanto assoprava-as, mas seus lábios carnudos saiam apenas fumaça deixando assim os dedos dormentes.
Distraído tentando em vão aquecer-se, não percebeu um pequeno paralelepípedo fora do lugar, mais alto que os outros. Andando rápido tropeçou neste e salvou sua face por conta do rápido reflexo.
Caído sobre o chão úmido perecendo um cachorro abandonado. Mirou o céu escuro com seus orbes castanhos perguntando-se o porquê de tanto azar. Logo iria levantar, mas antes virou o rosto emburrado.
Triste, abandonado, largado. A palavra que melhor definia aquele pequeno bosque era solidão, pois esta sensação que transmitia na calada fria da noite.
As flores pareciam mortas, talvez por não desabrocharem no inverno. As árvores encontravam-se secas, cinzas de tão geladas, sendo que um ou outra trazia na ponta dos galhos cinzentos gelo incrustado.
Sentiu atração pelo espaço. Colocou-se de pé limpando seu casaco bege, por fim caminhou lentamente adentrando no local perigoso, ao menos naquela hora.
Assustou quando uma coruja travessa atravessou sua frente, deu passos para trás. Parecia um aviso para não prosseguir, por segundo até cogitou tal possibilidade, toda via a magia ao redor parecia mais excitante.
Voltou ao percurso seguindo resquícios de uma antiga trilha. Aquele bosque outrora tinha sido muito movimentado, agora não passava de estepe morta. Parou quando chegou ao fim encontrando uma figura encolhida rente ao pinheiro morto, soluçava enquanto tentava cessar as lágrimas magras.
Beleza igual não havia, não há. Cabelos loiros compridos caiam desajeitados sobre as costas de forma a parecer ondulados. Os olhos lembravam duas rubis ou o céu de verão sem nuvens. Lábios finos, incrivelmente avermelhados como de uma rosa para buquês enamorados.
Aproximou-se daquela beldade, só podia ser mitologia, talvez a ninfa do bosque. De certo não, pois o vestido usado era uma bata branca tão límpida que tornava aquela criança chorosa mais imaculável. Um anjo, isso que ele era.
“Nessa rua
Nessa rua tem um bosque
Que se chama
Que se chama solidão
Dentro dele
Dentro dele mora um anjo
Que roubou
Que roubou meu coração”
Quando percebeu a presença de outra pessoa engoliu o pesar observando o garotinho a sua frente. Corou de leve, envergonhado tentou esconder o rosto avermelhado, a ponta do nariz parecia de um palhaço.
O ruivo, com passadas mansas, chegou ao menino sentando ao seu lado. Tocou de leve na pele pálida sentindo-a extremamente fria, causava arrepios. Apiedou-se, retirou o próprio capote e cobriu-lhe.
— O que houve? – Recebeu apenas murmurinhos em resposta.
Esperou mais algum tempo até que o outro sentisse mais a vontade ou mais aquecido. Talvez ambos.
— O que você é? – Reformulou a pergunta.
O verdadeiro motivo é que não conseguia acreditar que tal ser, com tal beleza poderia ser humano. Dos olhos azulados trasbordava ingenuidade, pureza, não havia sido corrompido pelas maldades.
— Eu, un? – A voz tão suave quando o azeite, chegava aos ouvidos do menor fazendo-o suspirar. – Sou um anjo...
Parecia brincar, ao menos era isso que seus orbes demonstravam, por outro lado continha a face seria, como se aquela fosse uma verdade inquestionável.
— Um Anjo? – Questionou sem entender.
A criança sorriu docemente deixando-o ainda mais belo em meio à neve, em meio ao céu escuro de inverno. A lua saiu de entre as nuvens para iluminar aqueles cabelos dourados. Lindo.
— Sim. – Abraçou o menor – O seu anjo.
“Se eu roubei
Se eu roubei teu coração
Tu roubaste
Tu roubaste o meu também
Se eu roubei
Se eu roubei teu coração
Foi porque
Só porque te quero bem”
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