Notas iniciais
Este capítulo contém uma cena Tommelsey que foi escrita com a colaboração da leitora Camila Firmo. Dêem os créditos à ela!

De todas as vezes em que se sentiu deprimida, Helena não conseguia se lembrar de algo que fosse pior do que aquela sensação arrasadora. Via-se sempre como uma garota forte e decidida, que jamais se deixava abalar por motivo nenhum. E agora ela estava lá, escondida dentro de uma das cabines do banheiro feminino, sentindo o rímel que passara nos olhos antes de sair do dormitório escorrendo em meio às lágrimas.

Ela não sabia o que pensar em relação a tudo aquilo. Não fazia nem três dias que as aulas tinham regressado e tudo já estava de cabeça para baixo, pedras e mais pedras caindo sobre sua cabeça. Estava sentindo tanto ódio de Paul que seria capaz de matá-lo com as próprias mãos sem hesitar nem por um segundo. Por causa dele, ela estava ali chorando. Chorando porque Tommy agora a odiava mais do que tudo. E ele tinha razão em odiá-la.

Helena conseguia se lembrar do dia em que tudo começara. Ela não podia dizer que sempre fora apaixonada por Tommy porque sabia que não era assim que as coisas funcionavam, pelo menos não para ela. Sentia apenas uma leve atração por aquele garoto estranho e com os cabelos negros jogados sobre os olhos. Todas as vezes em que ela fazia questão de implicar com ele ou de discordar de sua opinião apenas para deixá-lo enfurecido, era um meio que ela encontrava de tentar disfarçar a atração. Tentou até se envolver com outro cara, o que acabou se provando uma de suas piores experiências, já que ela descobriu mais tarde que ele era um zumbi metamorfoseado. Já havia passado por tantas coisas difíceis que nunca pensou que a perda do namorado fosse a pior delas. A que causaria mais dor.

E a dor era lancinante. Atingia-lhe no fundo do peito como uma adaga afiada. Fazia com que os piores sentimentos transbordassem em um turbilhão caótico de emoções. Será que ela também tinha culpa em toda aquela história? Será que todas as vezes em que brigara com Tommy por motivos ridículos não contribuíra para que ele tomasse aquela decisão? Talvez a culpada de tudo fosse Helena. Talvez ela sempre fosse a errada. A menina rebelde e agressiva. A menina que nunca teria nada na vida além de falhas e deslizes.

Cansada de ficar se lamentando e se escondendo de seus próprios medos, Helena se apoiou na parede da cabine e se levantou. Olhar para o vaso sanitário foi uma proposta tentadora para que ela expelisse todos aqueles sentimentos ruins juntamente com a bílis que acabara de lhe subir à garganta. Porém, ela balançou a cabeça e abriu a porta da cabine, revelando o espaço vazio do banheiro. Ou nem tão vazio assim. Fanny estava parada ao lado da pia. Os longos cabelos castanhos da garota esvoaçavam-se em meio aos seus ombros finos, que estavam cobertos por um vestido azul feito de um tecido tão leve como seda. Naquele instante, Helena desejou poder usar as mesmas roupas que Fanny. Elas eram tão lindas e perfeitas. Não parecia algo que alguém usaria em um internato para adolescentes problemáticos.

— Você me assustou. — disse Helena, com o coração levemente acelerado — Você costuma fazer isso com todo mundo ou é só comigo mesmo?

Fanny deu um sorriso enquanto abria a torneira e lavava as mãos, esfregando umas às outras.

— Eu estava lhe procurando. Aliás, o colégio inteiro está. Você desapareceu depois da aula de educação física. Perdeu a noção do tempo? O almoço já foi servido e as aulas da tarde irão se iniciar daqui a alguns minutos.

Helena nem tinha percebido que tinha ficado no banheiro tanto tempo assim. Tinha chorado tanto que não percebera o tempo passar. Em seus pensamentos, não tinha passado nem meia hora. Ela olhou para Fanny, que tinha pegado duas toalhas de papel e estava secando as mãos. Percebeu que as unhas dela estavam pintadas de vermelho.

— O que aconteceu? — perguntou Fanny — Seus olhos estão inchados. Você estava chorando escondida no banheiro?

Droga. Helena não queria falar sobre isso. Não com Fanny e sua estranheza. Lembrou-se da conversa absurda que teve com ela na última noite. Em como as palavras da garota soavam ligeiramente distantes da realidade. Helena sabia que Fanny queria uma amizade com ela, mas será que ela queria uma amizade com Fanny? Ela não lhe transmitia nenhuma segurança ou confiança.

— Eu acho que isso não é da sua conta.

Elas se encararam por alguns segundos, tempo suficiente para Helena perceber que os olhos de Fanny adquiriam tons mais escuros à medida que ela remexia as íris castanhas.

Dando de ombros, Helena virou o corpo e estava indo em direção à porta do banheiro, quando sentiu a mão de Fanny tocando-lhe o braço. Foi a mesma sensação de tocar um bloco de gelo. A garota ruiva virou a cabeça, erguendo uma das sobrancelhas.

— Lembra-se da nossa última conversa? — perguntou Fanny — Estou tentando mostrar que sou uma pessoa legal, mas você não se esforça para reconhecer isso.

Helena olhou para a mão de Fanny, que ainda estava segurando o seu braço. Com uma leve força, ela pôde notar.

— Você está apertando o meu braço. Tem certeza que esse é o modo pelo qual você mostra às pessoas que é legal?

Fanny ficou levemente corada. Com um pequeno suspiro preso à boca, ela soltou o braço de Helena e voltou sua atenção para a pia do banheiro. Um pequeno fio de água escorria da torneira que Fanny tinha lavado as mãos.

— Eu só queria que você me visse como uma pessoa com a qual você pode contar aqui dentro. Sei o quão difícil é estar aqui. Sei que todos nós passamos por problemas para estar dividindo o mesmo teto durante os cinco dias da semana. É importante que tenhamos um o apoio do outro.

Mas eu não te conheço. Mas você é uma estranha. Mas você é louca. Mas eu não preciso de você para nada, nunca precisei e nem nunca vou precisar.

Várias respostas estavam se formando na língua de Helena. Ela podia dizer o que quisesse. Podia lançar um palavrão à Fanny e sair do banheiro rebolando e lançando o cabelo ao vento, mas adiantaria alguma coisa? Se Fanny quisesse mesmo manter uma amizade com Helena, não seria por causa disso que ela largaria de seu pé.

— Eu fico muito agradecida por você se importar tanto comigo, — disse Helena, suspirando e reunindo toda a calma que existia dentro dela — mas eu tenho Sophia para me apoiar aqui dentro. Ela sim é minha amiga. Você não passa de uma colega.

Mesmo não querendo magoar Fanny, aquilo foi o menos ofensivo que ela conseguiu pensar. Ainda estava com raiva, o rosto de Paul sendo atingido por uma espada afiada formava-se em sua mente e desfazia-se em vários rastros de sangue.

Percebendo que Fanny estava sem expressão e que provavelmente não diria mais nada, Helena virou o corpo e deu dois passos em direção à porta do banheiro. Ela parou porque ouviu a voz de Fanny, um pouco mais grossa do que o normal.

— Sophia não está aqui para você agora.

Quando Helena olhou para trás, podia jurar que a pele de Fanny estava mais escura do que o normal. Poderia até dizer que ela estava bronzeada, mas aquilo era impossível. Fanny era tão pálida quanto flocos de neve. Talvez fosse apenas o banheiro que não estava iluminado o suficiente ou Helena que estava com tanta raiva a ponto de começar a imaginar coisas. Entretanto, ela não ficou mais ali para descobrir. Apressou o passo e saiu correndo do banheiro, sem olhar para Fanny mais nenhuma vez.



Tommy estava acomodado no gramado atrás de Shavely. Ali era um lugar um tanto quanto abandonado, silencioso, de frente para o bosque, e com a grama alta o bastante para algum animal de pequeno porte se esconder por ali. Era raro alguém ir até lá. Tommy começou a frequentar esse lugar durante as férias, principalmente depois das brigas frequentes que tinha com Helena. Ele estava cansado disso. E mais cansado ainda agora, depois da cena que vira algumas horas atrás. Jamais pensou que poderia ver Helena beijando outro garoto, ainda mais alguém que aparentava ter graves problemas psicóticos. Como Helena pôde permitir que aquele garoto tocasse nela? Sendo forte e decidia do jeito que era, por que ela não tinha mordido a boca dele ou lhe dado um chute nas partes íntimas? Era isso que ela faria se estivesse em seu juízo perfeito.

Tommy se pegou pensando em seu namoro antes disso acontecer. Antes de tudo desmoronar como uma avalanche. Ele tinha que reconhecer: nunca fora do jeito que ele sonhava. Helena era maravilhosa e espetacular, ao jeito dela, obviamente. Sempre esperou que seu namoro fosse bom, já que aparentemente ele e Helena se gostavam. Mas não era bem assim. Talvez eles nunca devessem ter começado a namorar. Talvez eles estivessem melhor antes, quando só implicavam um com o outro. Eles realmente não combinavam tanto assim. À primeira vista, um casal que vive brigando, mas que sempre reata, pode parecer "bonito", mas isso realmente cansa. Tommy estava cansado.

Entre esses e outros pensamentos, ele não notou a presença de outra pessoa ali. Uma garota jogou-se ao seu lado, sentando-se na grama. Tommy lembrou-se dela imediatamente. Tinha esbarrado com ela duas noites atrás, na frente da porta da cantina, logo depois de abandonar o lugar após uma briga com Helena. Era sempre uma briga com Helena.

— Lembra-se de mim? — perguntou a garota.

Tommy estreitou um pouco os olhos, olhando para cima. Ele não havia se dado ao trabalho de olhar para a garota. Esperava que ela se cansasse e sumisse logo dali.

— Nós nos esbarramos na cantina aquele dia. — ele disse — Mas eu não sei o seu nome.

— Kelsey, a seu dispor. — ela sorriu e esticou a mão. Quando o fez, ele percebeu que tinha uma tatuagem em seu braço, onde estava escrito “KELSEY, THE FUCKING BITCH”. Não deixou de se perguntar se fora ideia dela ter feito aquela tatuagem ou se aquilo fora algo mais sério, imposto por pessoas que não gostavam dela. — Pensando na vida? — ela perguntou, com um tom um tanto quanto desinteressado.

— Tipo isso.

Tommy não estava a fim de ser muito direto. Não queria falar com ninguém, não queria olhar para ninguém. Apenas precisava ficar um pouco sozinho, mas talvez aquilo fosse impossível dentro de Shavely. Ele não se lembrava de um momento em que teve paz dentro daquele internato.

— Brigou com a namorada? — Kelsey tirou um maço de cigarros e um isqueiro do bolso. Pegou um dos tubos brancos e o acendeu, pondo-o entre os dentes.

— Como você sabe? — Tommy perguntou, completamente alheio ao fato de que ela estava fumando ao seu lado.

Com o sorriso, a fumaça escapou levemente em meio aos lábios de Kelsey, que estavam alguns milímetros entreabertos.

— Perguntei por aí sobre você. — Kelsey deu outra tragada no cigarro, e o segurou entre os dedos por alguns momentos. — Mas e aí? O que a ruivinha fez?

Tommy pensou no que Helena realmente tinha feito. Poderia olhar para Kelsey e dizer que ela tinha beijado outro garoto bem na sua frente, mas será que ele tinha aquela liberdade? Nunca tinha dirigido a palavra àquela garota e agora, naquele momento, ela era a única pessoa com a qual ele podia contar. Ele optou por ser um pouco subjetivo.

— Ela não parece ser o que eu achava que era. Ela simplesmente briga comigo por qualquer motivo que apareça. E se não tiver nenhum, ela arranja alguma coisa. Estou cansado disso. E meus amigos não ajudam. Eles acham que vamos simplesmente nos pegar e tudo vai acabar bem. Deve ser porque o namoro deles é um negócio digno de romance adolescente.

Aquilo era o que o estava incomodando antes. Antes de Helena e aquele garoto estranho cujo nome ele nem se importava em lembrar se beijarem bem diante de seus olhos. Ele sabia que o que acabara de dizer a Kelsey fora um dos fatos precursores para ele tomar a decisão de nunca mais olhar na cara de Helena. Antes mesmo do beijo, já estava de saco cheio da namorada, mas ele nunca tinha falado aquilo para ninguém. No final das contas, sentiu-se como se um peso de duzentos quilos tivesse sido arrancado de suas costas.

— Resumindo, você foi cegado pela paixão e agora se arrependeu. — Kelsey suspirou e deu uma tragada profunda no cigarro, expelindo a fumaça alguns segundos depois. Ela dirigiu-se direto ao rosto de Tommy — Bem, você não é o único.

— Você não parece ser do tipo que sofre por amor. — Tommy ergueu as sobrancelhas, olhando diretamente para ela pela primeira vez.

— É com experiências que as pessoas moldam o jeito que querem ser. Eu já sofri por amor e não quero que isso aconteça de novo. Então, eu simplesmente disse um foda-se para isso e comecei a valorizar mais meus amigos do que qualquer coisa no mundo. E estou muito feliz.

— Está feliz mesmo? — perguntou Tommy, imaginando se alguém dentro daquele internato sabia realmente o que significava a palavra felicidade. Parecia um termo distante demais — Porque é só olhar para você que dá para perceber que tem muita amargura guardada aí.

Kelsey apenas sorriu. Tommy não pôde deixar de concordar que um sorriso combinava muito mais com ela do que aquela cara amarrada que sempre parecia sustentar.

— E tem. Por isso mesmo que eu estou feliz. Minha vida agora é mil vezes melhor que antigamente. Eu simplesmente não deixei meus problemas me vencerem. A saída que encontrei foi a loucura. Por isso eu nunca suportaria um grupo de amigos como o seu. Aquelas pessoas são muito certinhas.

Tommy pensou em todas as pessoas que o rodeavam. Logan e o seu bom-senso crítico que sempre ficava em primeiro lugar. Sophia e sua eterna mania de achar que tudo não passa de um conto de fadas. Helena e sua insistência em disfarçar aquilo que realmente sente com ódio e agressividade. Todas aquelas pessoas sempre o apoiaram em momentos difíceis e ele construíra amizades sinceras e especiais. Mas talvez fosse apenas isso. Uma das amizades havia subido um patamar na escala e se transformado em namoro. E olha no que isso resultou. Dois corações partidos. Sabia que Helena também estava escondida em um canto, pensando em tudo o que tinha acontecido. Sabia que ela estava chorando e sofrendo internamente, mas Tommy também estava. Precisava de novos horizontes, novas visões de mundo. Não ia se permitir ficar muito tempo imerso em uma fossa que não era o que gostaria.

— O pior de tudo é que você tem razão. — Tommy resmungou e logo olhou para o cigarro que Kelsey fumava. — Você pode me dar um?

— Com prazer. — a garota tirou o maço de cigarros do bolso novamente, e o estendeu para Tommy, que pegou um. Ele o pôs na boca e usou a ponta do cigarro dela para acendê-lo. — Mais tarde eu vou dar um jeito de sair da escola com uns amigos meus. Quem sabe tomar um porre ou algo assim. Se quiser, pode ir junto.

Novos horizontes, novas visões de mundo. Talvez aquela fosse uma boa oportunidade para esquecer o que tinha acontecido com Helena e experimentar situações ousadas e diferentes. Eventos que poderiam fazê-lo se sentir melhor do que ele estava. Afinal, por que ele ficaria se remoendo por uma coisa que ele percebera — antes mesmo de tudo ir à ruína — que jamais daria certo?

— Eu aceito. — Tommy deu um sorriso torto. Kelsey retribuiu e deu a última tragada no cigarro, antes de apagá-lo nos jeans e jogá-lo em meio à relva.



— Então quer dizer que vocês encontraram sangue em um dos corredores do colégio? — Helena estava gritando — E por que estão me contando isso só agora?

Logan, Sophia e Helena estavam sentados em uma das mesas da cantina, comendo pão com manteiga e tomando leite com café. Era manhã de quinta-feira e dormir tinha sido um pouco complicado para Logan. Depois da conversa com Sophia, sentiu-se mais aliviado e menos propenso a enlouquecer perante todo aquele mistério, mas achou que dividi-lo apenas com a namorada não seria suficiente. Helena e Tommy eram as pessoas mais próximas a ele naquele momento, mas a garota ruiva era a única que estava presente ali. Já o garoto de cabelos negros... Bem, ele se recusara a levantar da cama de qualquer jeito. Logan tentou chamá-lo mais de duzentas vezes, mas a única coisa que fez foi resmungar algo inaudível, como se estivesse bêbado, e cobrir a cabeça com o cobertor.

Porém, Logan já tinha se arrependido de contar o incidente a Helena. Se ela queria ajudar, teria ao menos que manter a discrição e parar de gritar que nem uma desvairada.

— Tente gritar um pouco mais alto. — sugeriu Sophia, ironicamente — Acho que ainda não te ouviram em Plutão.

Helena terminou de mastigar o pão que estava em sua boca e sorriu sarcasticamente. Uma migalha estava grudada em um de seus dentes incisivos, mas Logan achou melhor não dizer nada.

— É claro que não me ouviram simplesmente pelo óbvio motivo de que não existe vida em Plutão. Logo, se não existe vida, não existe pessoas que poderiam me ouvir, então eu logicamente poderia continuar gritando...

— Cale a boca! — bradou Sophia — Não acredito que consegue ficar fazendo piadinhas depois de tudo que Logan contou.

Helena levantou as mãos na altura dos ombros.

— E toda aquela história de “ai, acho que ainda não te ouviram em Plutão”? — Helena imitou a voz aguda de Sophia — Pelo o que me parece, foi você quem começou com as piadinhas.

Logan percebeu que Sophia estava prestes a responder, porque ela inflou o peito e abriu a boca, mas ele foi mais rápido e interrompeu-a com um pigarro grosso.

— Por favor, vocês duas não vão começar a discutir em plena manhã.

Sophia e Helena se entreolharam durante alguns segundos, mas elas pareceram rapidamente cederem. A garota loira foi a primeira a falar:

— Não se preocupe quanto a isso. — ela desviou o olhar de Helena até Logan — Além do mais, você não terminou de contar a história. Ainda faltam alguns detalhes básicos.

Ah sim.

Logan não sabia se queria incluir o fato de Kelsey e Mel terem tido uma crise de insônia na noite em que toda a bagunça fora limpa. Ele sabia que aquilo era algo sem importância porque tinha certeza que ambas as garotas não tinham nada a ver com aquele incidente. Porém, sua boca estava lançando as palavras inconscientemente à Helena, que escutava a tudo atentamente. Quando terminou, ela arregalou os olhos.

— Espere aí. — ela disse, coçando a parte traseira da cabeça — Nessa mesma noite, Fanny saiu do quarto e disse que estava sem sono. Disse que precisava dar uma volta para ver se conseguia dormir.

Logan não podia acreditar no que acabara de ouvir. O que acontecera em Shavely naquela noite? Uma legião de garotas com insônia começou a andar pelo colégio como se fossem zumbis? Estava muito claro que tinha alguma coisa errada em toda essa história. Alguma peça não estava se encaixando direito.

— Estou começando a ficar assustada. — disse Sophia — Uma crise de insônia generalizada? Será que teremos que sair por aí perguntando mais quantas pessoas ficaram com insônia para conseguirmos obter alguma resposta?

— O que temos que fazer é procurar mais pistas. — disse Logan, com uma leve sensação de que sua voz não estava tão corajosa quanto gostaria — Procurar por rastros de zumbis.

A menção da palavra fez o rosto de Helena ficar totalmente branco. Ela olhou para os dois lados, tentando perceber se nenhuma pessoa tinha ouvido.

— Zu-zumbis? — ela gaguejou — Mas pensei que Kofuf estivesse morto. Logan... Você o matou, não matou?

Logan assentiu com a cabeça.

— Matei. Kofuf transformou-se em um monte de cinzas. Não é ele que me preocupa. — ele fez uma pausa, respirando fundo para reunir coragem — É o que ele vivia nos dizendo. Sempre pensei que era apenas um meio de nos afrontar, mas agora eu sei que não era bem assim. Tem um exército de zumbis se aproximando que quer vingança contra a morte de Kofuf. Nossas vidas estão em risco novamente.

— Ah, só porque você encontrou sangue no chão do colégio, não quer dizer que haja um zumbi antropomórfico por aí. — Helena revirou os olhos — Sério, vocês são paranoicos demais.

Logan e Sophia se entreolharam. Ele ia abrir a boca para responder, mas foi interrompido por barulhos de salto alto. Quando olhou para o lado, percebeu que Mary tinha entrado na cantina. Ela parecia afobada e atarefada, como sempre, mas havia algo de perturbador em seus olhos: estavam completamente revestidos por uma camada grossa e roxa. Ela provavelmente passara a noite em claro.

Logan esticou a mão e fez um gesto, chamando-a. Mary estava indo em direção à parede do outro lado da cantina, mas ela conseguiu enxergar o sobrinho e virou o corpo, mudando o trajeto e quase derrubando os vários papéis que carregava.

— Olá, queridos. — ela disse quando se aproximou à mesa em que eles estavam sentados.

— O que você está fazendo? — perguntou Logan, com o cenho franzido.

Mary suspirou e arrancou o primeiro papel da pilha que carregava. Esticou-o e Logan pôde vê-lo com facilidade. Havia a foto de um garoto estranho que ele nunca vira na vida: os cabelos negros estavam completamente espetados por gel, os olhos eram da mesma cor e a pele era bronzeada. Tinha um alargador de uns bons seis milímetros na orelha direita e um piercing na sobrancelha. Pelo seu olhar, Logan conseguia notar que era um adolescente amargurado e cheio de dúvidas na cabeça. Mas o que mais lhe chamou a atenção era o que estava escrito embaixo da foto, em letras vermelhas e garrafais: PROCURA-SE, PIERRE. Parecia até um cartaz de filme de velho oeste onde os xerifes espalhavam vários deles pela cidade em busca do bandido que roubara um saco de moedas.

— Estou espalhando pelo colégio todo. — disse Mary, nervosa — Não sei se vai adiantar alguma coisa, mas preciso achar esse garoto. Ele deveria fazer aulas particulares comigo, mas faz mais de dois dias que ele está desaparecido. Ninguém tem notícias dele!

Os três amigos trocaram olhares ansiosos. Será que Logan era o único que nunca tinha visto ou ouvido falar sobre esse Pierre?

— Eu acho que sei quem é esse garoto. — comentou Helena — Eu lembro vagamente dele nas minhas aulas de inglês do ano passado. Mas nunca cheguei a sustentar uma conversa que durasse mais do que um minuto.

— Você não o viu em nenhum lugar, Helena? — perguntou Mary, quase suplicando por uma resposta.

A garota ruiva apenas acenou negativamente a cabeça, enquanto Mary exprimiu um muxoxo de insatisfação.

— Hum, obrigada de qualquer jeito. — ela disse, batendo com os cartazes na mesa e ajeitando-os em uma fila única. — Vou continuar tentando. — virou o corpo e estava voltando em direção à parede, quando deu dois passos para trás, virou-se novamente e sorriu para os garotos. — Ah, eu já estava me esquecendo. Não se esqueçam de irem à quadra de esportes depois do almoço. Preciso mantê-los a par da festa de sábado.

Quando Mary já era apenas um pontinho colando cartazes na parede da cantina, Helena manifestou-se. Logan teve que cobrir os ouvidos com o grito que a garota ruiva expeliu da boca.

— Festa?

Seria de se assustar se Helena não desse um escândalo toda vez em que ouvisse a palavra festa. Logan agradeceu mentalmente por a festa de sábado não ser praticamente um evento cósmico à fantasia com um show de uma cantora famosa. Não gostaria de ter que enfrentar o baú de Helena por uma segunda vez.

— Não se anime tanto. — disse Logan. — Minha tia não tem tanto dinheiro e essa festa será apenas um luau. Você sabe. Fogueira. Espetinhos de marshmallow. Músicas calmas e dançantes. Uma coisa bem simples, se comparada à última festa à fantasia.

Helena e Sophia estavam franzindo o rosto. Era óbvio demais que nenhuma delas tinha gostado dessa ideia econômica.

— Mas luaus costumam ser em praias. — lembrou Sophia — E duvido que Mary alugue um ônibus para levar dezenas de alunos problemáticos para o litoral.

— Foi como eu falei — disse Logan, dando de ombros — Uma festa simples e improvisada de boas vindas aos alunos novos. Pelo menos foram essas as palavras da minha tia.

— Se esse for o tipo de boas vindas que a sua tia está planejando, — resmungou Helena — pode ter certeza que eu não iria querer nenhum tipo de recepção ou hospitalidade.

Logan foi poupado de responder com a presença de mais uma pessoa ao lado da mesa. Ele escutou o pigarro grosso que escapou da boca do garoto loiro que estava parado ao seu lado. Nem ao menos o conhecia, mas Helena parecia conhecê-lo muito bem. Parecia tanto, que ela começou a espumar. O rosto da garota tornou-se da mesma cor dos seus cabelos e ela levantou da mesa em um estrondo, dando dois socos que fizeram todos os pratos repousados saltarem.

— O que você está fazendo aqui, seu verme inútil? — ela cuspiu as palavras e Logan ficou realmente impressionado. Helena sempre tinha a capacidade de ser estranhamente incompreensível.

— Eu vim aqui por dois motivos. — disse o garoto loiro. Logan estava tentando não olhar para ele, já que ele não fazia questão de perceber que ele e Sophia também estavam na mesa. Parecia só ter olhos para Helena — Queria me desculpar por meu comportamento de ontem. Você simplesmente não entenderia como me sinto. É muito complicado.

— Você foi o responsável pelo término do meu namoro e agora vem aqui achando que tem o direito de me pedir desculpas? Ora, Paul, você realmente têm problemas psicóticos.

Paul. Então era esse o nome do garoto? E o que Helena tinha dito mesmo? Ele era o responsável por ela ter terminado o namoro com Tommy? Agora Logan não estava entendendo mais absolutamente nada.

— Você e Tommy terminaram? — perguntou Sophia — Por causa dele? — ela apontou para Paul.

Helena descartou Sophia com um gesto manual. O rosto dela ainda estava pulsando de raiva e ela estava em pé, com os punhos cerrados. Logan tinha medo que a qualquer momento ela pudesse ir correndo na direção de Paul e esganá-lo com as próprias mãos.

— Eu apenas sinto muito. — disse Paul e ele realmente parecia sentir — Qualquer dia, quanto tiverem menos testemunhas, eu posso lhe contar o que realmente acontece comigo.

Helena revirou os olhos.

— Quem disse que eu quero saber? A única coisa que quero é que você saia daqui e nunca mais apareça na minha frente. Aliás, não, eu quero que você morra. Eu quero que você seja destruído do mesmo modo que você destruiu a minha relação.

Mesmo Helena não se dirigindo a Logan, ele sentiu o corpo todo se arrepiando. A voz de Helena estava sombria e rancorosa, de um jeito que ele nunca tinha ouvido antes. Olhou para Sophia e notou que ela encarava a amiga com certo tom de piedade, como se estivesse tentando encontrar onde estava a verdadeira Helena.

— Não tiro sua razão. Você tem todo esse direito. — Paul estava tão calmo que ele nem parecia esse monstro que Helena estava descrevendo — Ah, quero que saiba mais uma coisa. Eu vi o seu... ex-namorado saindo do colégio com uma garota que usava um piercing no septo nasal. Eles estavam pulando o portão e não estavam sozinhos. Tinha mais três garotos fortes e tatuados junto a eles.

Naquele momento, Helena explodiu de tal maneira que o berro que ela emitiu da boca foi responsável por chamar a atenção de todos os outros que estavam na cantina. Ela teve sorte por Mary já ter saído de lá.

— O quê?! — ela berrou — Tommy saiu do colégio com a vaca da Kelsey? Eu vou matá-los!

Sem dizer mais nenhuma palavra ou demonstrar mais nenhum pingo de sanidade mental, Helena empurrou tudo o que estava em sua frente e saiu correndo em direção à porta da cantina. Com esse ato, ela conseguiu derrubar a pilha de pratos que Sophia tinha feito logo depois que eles terminaram de comer. Logan e Sophia se entreolharam, constrangidos, enquanto os outros alunos os observavam e davam início a conversas sussurradas. Paul ainda estava parado lá e a voz dele foi a única coisa que Logan conseguiu ouvir depois do barulho das louças quebrando.

— Perdoem-me. Eu sei que sou um lixo de pessoa, mas não quero ser um transtorno na vida da amiga de vocês. Prometo que me esforçarei para que ela nunca mais me veja.

Logan sentiu algo estranho dentro de seu coração. Com tantas coisas estranhas e misteriosas acontecendo, os sentimentos das pessoas que o cercavam pareciam tão distantes e sem o menor sentido. As pessoas estavam se destruindo aos poucos, relacionamentos indo à ruína, defeitos e medos tornando-se estorvos na vida de alguns. De repente, ele estava sentindo pena de Paul. Ele era apenas um pequeno ponto comparado a tudo de ruim que ainda estava por vir. E Logan sabia que não seria pouco. Ele podia sentir que aquilo era apenas o começo de uma sucessão de fatos que destruiria ainda mais a vida de todos. O colégio inteiro estava correndo perigo.