Screaming
18 Segredos descobertos
O coração de Logan estava do tamanho de uma ervilha. Sentia algo que não conseguia explicar, era um misto insano de emoções. Sentia medo por tudo o que acabara de presenciar no pomar do colégio, sentia pavor por ter visto Sheeva transformar três pessoas inocentes em zumbis antropomórficos em questão de minutos. Sentia angústia por pensar que ele e as pessoas que mais amavam poderiam morrer a qualquer instante, sentia agonia ao pensar na dor e no sofrimento que lhes aguardavam. Sentia tristeza por ter deixado uma Sophia tão frágil e indefesa deitada em uma cama na enfermaria.
Gritara com a enfermeira que dera assistência à garota, dizendo que tinha todo o direito de permanecer ao lado dela durante a noite, mas a mulher se mostrou irredutível. Dissera que Sophia precisava de um ambiente silencioso e tranquilo para descansar e se recuperar da concussão que a batida causara e que no dia seguinte ele e os amigos poderiam voltar para visitá-la.
Bufando, ele abandonara a enfermaria e passara o restante da noite vagando pelo colégio, sem rumo. Helena e Mel tinham ido para seus respectivos dormitórios, elas estavam com roxo sob os olhos demais para continuarem de pé. Logan também queria ir dormir, mas ele não tinha sono algum. Sua cabeça estava acelerada demais, os pensamentos a mil, e ele sabia que teria pesadelos horripilantes caso se desse ao luxo de fechar os olhos. Andara por todos os cantos, passara em frente à biblioteca, à cantina, à sala de estar, mas nada o atraía. Ele queria fazer parte de um vácuo etéreo. Queria ser a vasta escuridão do vazio.
Quando percebera que já era mais de meia-noite, ele resolveu recuar e voltar para o dormitório. As janelas dos corredores refletiam a luz pálida da lua e aquilo apenas o fazia se lembrar do perigo que rondava o internato. Por isso, apressou o passo e subiu as escadas o mais rápido que pôde. Alguns minutos depois e encontrou a porta do quarto entreaberta. Ela emitiu um rangido quando entrou e percebeu que a janela estava aberta, o que permitia que os raios prateados da lua iluminassem todo o ambiente. Era impressionante o quão forte estava a luz do astro naquela noite. Tommy não estava presente, como era de costume, e sentado na cama sob a janela, abraçando os próprios joelhos e com uma expressão de choque presa em seu rosto, estava Ian.
O estômago de Logan revirou e ele sentiu bile subindo à garganta quando notou o quão abatido estava o pobre garoto. Percebeu que a pele de Ian estava suja de terra em alguns pontos, principalmente nos braços. Suas roupas também estavam imundas e podiam ser vistos alguns rasgos paralelos em sua coxa, como se um leão furioso tivesse cortado o tecido com suas garras. O olhar do garoto era desolador e Logan sentiu vontade de ir até ele e envolvê-lo em um abraço mais do que caloroso.
Ao invés disso, ele sentou ao lado de Ian na cama e pegou em sua mão, que estava tão fria quanto uma pedra de gelo. O garoto pareceu levar um susto e rapidamente retirou as mãos do aperto de Logan e recuou na cama. Os olhos escuros esbanjavam medo e desconfiança.
— Fique calmo. — disse Logan, tranquilamente — Sou apenas eu.
Ian acenou fracamente com a cabeça. Percebeu que os olhos dele estavam úmidos e uma lágrima se abrigou dentro de suas pálpebras no exato momento em que os fechou. Os lábios dele estavam tão rígidos que pareciam ser feitos de aço.
— Eu não entendo. — a voz do garoto estava fraca, era quase como se ele estivesse doente — O que está acontecendo? O que era aquilo?
Como Logan poderia explicar para o pobre garoto? Como poderia olhar dentro de seus olhos e lhe contar toda a sujeira e a podridão que se escondia por trás daquelas criaturas desprezíveis? Seria muito melhor se ele não soubesse de nada, se a vida dele não estivesse correndo perigo, mas Logan sabia que isso estava bem longe de ser a verdade. Ian tinha o direito de saber e não iria esconder nada do garoto.
— Aquilo que você viu é a coisa mais deplorável que existe na face da Terra. — ele voltou a agarrar a mão do garoto e dessa vez ele não recuou. — Você precisa ser forte e precisa me prometer que vai acreditar em tudo o que eu disser.
Naquele momento, Ian já estava chorando de um jeito que partiu o coração de Logan. Havia várias coisas expelindo-se junto àquele líquido salgado: dor, sofrimento, angústia, tristeza... Era quase como uma montanha russa de sentimentos e era devastador.
Logan começou a falar. Contou tudo, inclusive os acontecimentos do ano passado, quando Kofuf aterrorizava a vida dele e de seus amigos. Contou sobre as pessoas que ele matou, sobre o poder peculiar dos zumbis antropomórficos, contou sobre qual era a única coisa posta nesse mundo que era capaz de matá-los e sobre como Logan o destruiu na sala da diretoria. Contou sobre Sheeva, sobre Fanny e sobre a tentativa desesperada da zumbi em construir um exército a fim de aumentar a própria raça. Quando terminou, se deu conta de que estava sem fôlego.
Por um momento, Ian manteve-se inexpressivo, seus olhos inchados não exibiram nenhuma reação aparente. Ele se retesou à cama e Logan sentiu que estava apertando a sua mão.
— Mas por que eu? — ele resmungou — Com tantas pessoas enfurnadas aqui dentro, por que ela escolheu justamente a mim?
Logan considerou essa pergunta. Sempre se perguntava a mesma coisa quando era testemunha dos eventos macabros de Shavely. Por que sempre ele?
— Talvez você estivesse no lugar errado, na hora errada. Acredite, tem muito disso aqui dentro desse internato. — ele quase sorriu ao dizer aquilo. — Mas você precisa me contar exatamente o que aconteceu. Como foi que Sheeva te achou?
Ian olhou calorosamente para Logan, aqueles olhos negros cheios de medo pareciam estar lhe pedindo alguma coisa... Ele apenas acenou afirmativamente a cabeça e começou a falar.
— Eu tinha acabado de sair da cantina depois de tomar meu café-da-manhã e fui naquele corredor que tem um bebedouro porque queria beber um pouco de água. Sempre me perguntei por que ele costuma estar sempre vazio, mas creio que aquela coisa nojenta também tenha percebido isso. Ela estava lá, à espreita, juntamente com outros três. Aconteceu muito rápido, eu fiquei sem reação quando ela veio para cima de mim e me bateu com um pedaço de madeira — Ian virou o rosto para o lado e Logan viu um calombo ao lado direito da cabeça dele — Antes de desmaiar, ouvi ela falando algo sobre mais um para o exército e ordenou que um dos outros me levasse para o pomar. Quando acordei, estava amarrado àquela árvore junto com outras três pessoas.
Os lábios de Logan se contraíram e ele exprimiu um profundo suspiro.
— Eles não tiveram a mesma sorte que você. Eu sinto muito.
Ian abaixou a cabeça e fitou o chão. Talvez fosse triste para ele saber que seus companheiros de confinamento não tinham obtido tanto sucesso quanto ele.
— Quer dizer que eles... — ele parecia não ter coragem de dizer. Parecia que não queria acreditar que tudo aquilo que estava acontecendo fosse verdade.
— Sim, transformaram-se em zumbis. — Logan disse com uma naturalidade que o assustou.
Naquele momento, Ian desabou. As lágrimas saíam descontroladamente e ele soluçava tão alto que se surpreendeu por ninguém ainda ter batido na porta para perguntar o que estava acontecendo. As mãos do garoto procuravam por alguma coisa, passeando por entre as saliências do lençol que estava bagunçado. Quando não conseguiu mais se segurar, pulou sobre o pescoço de Logan e o abraçou. Tão forte que sentiu falta de ar e ficou com medo das costelas se racharem. Sentiu as lágrimas de Ian banhando os seus ombros e ele não recuou. Apenas o abraçou de volta, devolvendo a Ian todo o calor e a solidariedade que poderia encontrar dentro dele.
— Eu estou aqui. — disse Logan, com a voz suave. — Não chore, nada vai lhe acontecer. Existem pessoas aqui dentro que irão nos proteger. Vamos vencer essa guerra sobrenatural se ficarmos juntos. Preciso que confie em mim.
Ian se afastou e Logan controlou o impulso de levantar a mão para secar seus olhos molhados. Os soluços haviam diminuído um pouco, como se a voz de Logan fosse o suficiente para confortá-lo.
— Obrigado. — disse ele, um sorriso mínimo formando em seus lábios — Você salvou a minha vida. Poderia ter salvado qualquer um dos outros antes, mas você escolheu a mim. Eu jamais vou esquecer o que fez por mim.
Logan se pegou pensando nas conversas que tiveram depois que o garoto o beijou à força. Lembrou de toda a admiração que Ian nutria por Logan, lembrou-se da tristeza que ele estava sentindo por causa da rejeição e poderia até ficar com medo que Ian confundisse tudo e pensasse que ao dizer aquilo estaria dando ao garoto algum tipo de esperança de que as coisas mudariam entre eles, mas a tristeza que Ian estava sentindo agora era muito diferente, nem se comparava ao que ele sentia há alguns dias atrás.
Já estou acostumado a sempre desejar aquilo que eu não posso ter.
Não podia ter Logan e agora não podia mais ter paz com as imagens terríveis que provavelmente se formariam em sua mente. Não pôde deixar de sentir pena de Ian.
— Você não precisa me agradecer. Eu só...
Logan não conseguiu terminar de falar porque sentiu os lábios de Ian pressionando-se contra os seus. Ele não reagiu porque não teve tempo de assimilar o que acontecera. Foi algo suave e macio, os lábios dele não tinham nada de rígidos. Quando o garoto se afastou, Logan notou que ele sentia-se mais leve e até emitiu um sorriso antes de levantar e ir para o banheiro, deixando Logan sozinho no quarto, ouvindo as batidas de seu coração, que estava praticamente subindo pela garganta.
A escuridão daquele ambiente era tão grande que quase chegava a cegar. Sophia estava sozinha e ela não conseguia ouvir nenhum barulho que não fosse do sangue correndo dentro de suas veias e de seu coração batendo. Ela deu alguns passos para frente e esticou os braços, tentando tocar em algo que a fizesse reconhecer onde estava. Depois de andar quase uns dez metros, ela desistiu. Pareceu não haver nada ali, era quase como se estivesse andando no vácuo.
Um ruído chamou sua atenção e ela virou a cabeça para trás. Parecia um rosnado. Ela virou o corpo para trás e apurou os ouvidos para tentar ouvir de novo. Ao invés disso, sentiu uma lufada de vento e uma dor apossou-se de seu braço. Apesar de estar tudo escuro, ela conseguiu visualizar os braços se transformando em rastros sangrentos. Ela gritou quando sentiu outra lufada, mas dessa vez o alvo foi o seu rosto. Uma sucessão de lufadas depois e ela estava caída no chão, com o rosto doendo de um jeito que não conseguia explicar. Ela sentia sangue grudando em todas as regiões de sua face.
Ainda sem entender o que estava acontecendo, sentiu que alguma coisa estava fazendo pressão sobre o seu corpo. Um cheiro podre de carne estragada tomou conta de suas narinas quando fungou e sentiu unhas afiadas rasgando o tecido de sua camiseta. Estava tentando se debater, mas a força sobre ela era grande demais, ela não conseguia se mover. Abriu a boca para gritar, mas nenhum som saiu. Ela estava muda.
Sentiu quando as garras estavam rasgando a pele de seu peito. Ouviu uma risada arrepiante pairando sobre aquele ambiente insólito, algo completamente desprovido de humor. Continuava a se debater, mas não obtinha nenhum resultado. Ela fechou os olhos com força e quando voltou a abri-los estava deitada na cama da enfermaria.
Sophia sentou na cama, com o corpo encharcado de suor. A cabeça doeu imediatamente na hora em que levantara e todas as lembranças da noite anterior vieram quentes em sua mente. Sentiu novamente o pânico apossando-se de seu cérebro e o resultado do que sentia podia ser evidenciado toda vez em que fechava os olhos em uma tentativa falha de descansar. Não conseguia dormir uma noite sequer sem ter pesadelos horríveis.
Ela olhou para os lados, achando que estava sozinha, e encontrou Logan e Helena sentados em duas cadeiras que estavam posicionadas ao lado de sua cama. Eles estavam mudos, olhando silenciosamente para frente. A garota loira pigarreou e ambos os garotos olharam para o lado, os olhos acendendo-se quando viram que estava acordada.
— Sophia! — Logan rapidamente se levantou da cadeira e foi ao lado dela. Helena se levantou também, mas com uma euforia bem menos evidente — Como você está se sentindo?
Ela não sabia responder. Não sabia qual emoção descrevia melhor tudo o que estava sentindo. Por isso, ela resolveu mentir.
— Estou bem. Só minha cabeça e meu rosto que estão doendo um pouco. — ela respirou fundo e seus olhos pareciam estar confusos — E estou me esforçando para me lembrar de como vim parar aqui. Lembro que estávamos lutando com os zumbis e aí tudo se apagou...
— Sheeva empurrou você. — disse Helena — Você caiu e bateu com a cabeça em uma pedra. Sofreu uma concussão.
— Escapamos da aula agora de manhã para checarmos se você estava bem. — foi a vez de Logan falar — A enfermeira nos disse que você apenas sofreu perda de consciência devido à batida e que não houve nenhum prejuízo neurológico ou de memória. Ela disse que você poderia receber alta hoje, mas ela achou melhor você ficar mais um dia de cama por causa dos ferimentos em seu rosto.
Sophia instintivamente levou a mão ao rosto e sentiu que várias ataduras o estavam cobrindo. Helena pareceu ler sua mente, pois ela pegou o celular dentro de seu bolso e o entregou para a menina. A câmera frontal estava ligada e ela pôde ver sua face. Emitiu um gritinho quando o fez. Os olhos e os cantos da boca estavam inchados e seu rosto todo parecia uma batata deformada. Havia curativos na região próxima à têmpora, no canto dos lábios e na bochecha direita. A pele perto de seus olhos estava roxa, como se a olheira tivesse se espalhado para todos os cantos. Ela imediatamente largou o celular sobre a cama, como se ele fosse feito de ácido sulfúrico.
Ela fitou Logan e Helena e percebeu que ambos estavam desconfortáveis. Ela também estava, ainda mais depois do que acontecera na noite anterior. Ainda tinha raiva deles, mas será que todo aquele sentimento importava depois de tudo o que enfrentaram? O que era maior, a sua própria birra e seus próprios ressentimentos ou a ameaça constante de que todos ali poderiam estar mortos no dia seguinte? Deveria continuar querendo-os o mais longe possível? Ou deveria passar por cima de seu próprio orgulho caso quisesse ter alguma chance?
Entretanto, o que disse pareceu não ter nada a ver com os seus pensamentos.
— Desculpem-me.
Helena e Logan franziram o cenho, mas foi o garoto quem falou:
— Pelo quê?
Sophia suspirou.
— Tudo o que aconteceu ontem foi culpa minha. Se aquele besouro não tivesse pousado no meu cabelo e eu não tivesse feito barulho, nada disso teria acontecido.
— Você não precisa se desculpar. — a voz de Helena estava serena e Sophia até se assustou por não estar carregada de ironia e sarcasmo — Teríamos que avançar de qualquer modo se quiséssemos salvar os outros que estavam amarrados.
Ela apenas acenou com a cabeça. Seu estômago estava roncando e sentia fome. A última vez que tinha posto alguma coisa na boca fora no dia anterior, na hora do jantar. Ela olhou para o lado e viu que tinha uma mesinha de cabeceira ao lado da sua cama. Repousados ali estavam um vaso com flores e uma caixinha de primeiros-socorros.
— Mel disse que virá ver você mais tarde. — disse Logan.
Sophia sentiu seu corpo se aquecer. Não tinha acreditado quando Logan dissera que Mel era uma caçadora de zumbis e que ela iria proteger a todos. Estava cega pelo ciúme doentio que sentia pela garota. Mas, agora, o conforto preencheu seu corpo e ela se sentiu feliz por saber que Mel se lembrara de ir visitá-la. Não conseguia se esquecer de como a garota lutara com unhas e dentes para combater Sheeva, em como ela parecia experiente em lutas e duelos. Era evidente que ela sabia muita coisa sobre aquela raça maldita.
— Nós temos que ir. — disse Helena, envergonhada — Precisamos voltar para a aula antes que percebam a nossa ausência.
Sophia queria falar para eles não irem embora, queria que ficassem ali. Não queria passar o resto do dia totalmente sozinha, enfurnada em uma cama da enfermaria. Mas seu orgulho estava tão grande dentro de seu peito que ela ficou quieta. Seus lábios estavam rígidos, mas mesmo assim ela apenas emitiu um sorriso, tão fraco que ela não soube se os outros perceberam. Notou que Logan fez menção em pegar em sua mão, mas ele rapidamente se retesou e abaixou o olhar. Helena encostou a mão em suas costas, como se o encorajasse. Aquele gesto fez o coração de Sophia diminuir alguns milímetros.
Logan e Helena estavam a alguns centímetros de distância da porta, quando ela se abriu em um estrondo. Helena teve sorte de ter retirado a mão da maçaneta no exato momento em que ela se abriu. Eles recuaram e Kelsey e Tommy entraram no quarto. Sophia sentiu a tensão que se formou quando o olhar de Helena e Kelsey se encontraram e se assustou por elas não terem imediatamente começado a se atracar. Ao invés disso, elas não trocaram nenhuma palavra, apenas se olharam de um jeito estranho. O encontro dos olhos de Helena e Tommy foi completamente diferente. Olharam-se calorosamente por alguns segundos, fato que provavelmente nenhum outro presente naquele recinto percebera. Logo em seguida, eles desviaram o olhar e jamais ousaram a olhar de volta.
Kelsey estava segurando um prato com uma fatia de bolo completamente envolto por chantilly. No centro do doce, estavam repousadas várias cerejas recobertas por calda vermelha.
— Olá, querida. — entoou Kelsey, aproximando-se da cama de Sophia — Eu trouxe um pedaço de bolo para você, pensei que poderia estar com fome, já que a comida que servem aqui deve ser completamente intragável — ela deu um sorrisinho quando o entregou para Sophia. — Espero que entenda a referência que há nessa fatia.
A menina loira também não conseguiu esconder o sorriso que escapou de seus lábios. Tommy se aproximara da garota e repousou a mão sobre a dela. Ele não disse nada, mas enxergou em seus olhos que ele estava preocupado.
— Como vocês sabiam que eu estava aqui? — ela perguntou, já com a boca cheia de bolo e cerejas. O gosto doce espalhando-se por suas papilas gustativas foi a melhor coisa que sentiu nos últimos dias.
— Achei que a essa altura do campeonato você já tivesse se acostumado com o quão rápido as notícias se espalham por aqui — disse Kelsey — Ouvimos rumores de que você tinha se machucado muito e que estava aqui, aí resolvemos vir conferir. O que foi que aconteceu?
Sophia engoliu em seco o último pedaço do bolo que praticamente tinha devorado. Ela não podia contar para Kelsey o que tinha acontecido no pomar, ela jamais entenderia e muito menos acreditaria nela. Não queria envolvê-la naquela história sórdida. Olhou para Tommy, que olhava para os lados, tentando disfarçar. Ele não estava lá presente, mas era evidente que sabia o que tinha acontecido, já tinha tido experiências o suficiente para compreender que existia apenas uma coisa nesse mundo capaz de causar um estrago como aquele. Ela ia abrir a boca para inventar alguma coisa, mas Helena, que ainda estava parada ao lado da porta com Logan, foi mais rápida:
— Não aconteceu nada! — ela praticamente gritou, parecia desesperada.
Kelsey virou o corpo e olhou para Helena como se ela fosse um verme.
— Sophia está com o rosto roxo e inchado, cheio de ataduras, em uma cama de hospital e você tem coragem de me dizer que não aconteceu nada?
— E desde quando você se importa? Por que você quer saber o que aconteceu a ela sendo que você nem a conhece direito? Não tanto quanto nós.
Sophia percebeu que Kelsey cerrou os punhos. Viu que as dobras de seus dedos estavam esbranquiçadas e ela teria explodido uma maçã caso estivesse segurando uma.
— Eu não vou discutir com você, sua ruivinha nojenta. Não dentro de uma enfermaria. Inclusive, eu vou continuar fingindo que você e esse seu amiguinho lamentável não existem e não estão aqui dentro.
Helena pareceu se ofender com o comentário. Sophia viu que os olhos dela brilharam, mas a garota ruiva transportou o olhar para Logan, como se pedisse ajuda silenciosamente, implorando para que ele lhe dissesse o que fazer.
— Então, como eu estava dizendo... — Kelsey continuou — O que aconteceu com você?
Ela novamente foi poupada de responder porque Tommy estava falando:
— Kelsey...
A garota bufou e lançou as mãos para o ar.
— Por que ninguém pode me contar o motivo de Sophia estar assim? — ela estava gritando e o piercing no septo parecia pulsar — O que foi? Vocês a espancaram e agora estão com vergonha de admitir e com medo de que eu possa fazer o mesmo com vocês?
Sophia enxergou o desespero no olhar de Logan e Helena e eles estavam acenando negativamente a cabeça, como se dissessem para a garota continuar de boca fechada. Olhou para Tommy e ele fez o mesmo gesto. Ela poderia mentir e inventar qualquer outra história, mas naquele momento ela pensou nas pessoas que tinham sido capturadas e amarradas à árvore. Elas não faziam ideia do que estava acontecendo e quando foram pegas, não puderam se defender porque não sabiam o que fazer, não entendiam com o que estavam lidando. Foi quando percebeu que Kelsey tinha o direito de saber. A vida dela também estava correndo perigo, assim como a de todos os outros estudantes de Shavely. Ela e os amigos não poderiam manter aquilo em segredo sendo que uma guerra estava acontecendo. Foi quando decidiu abrir a jogo.
— Foi um zumbi que fez isso comigo. — ela revelou, sem rodeios — Um tipo especial de monstro sobrenatural que é capaz de absorver a energia vital de uma pessoa ao se alimentar de seu coração, podendo, assim, se transformar nela.
Helena e Logan bateram com a mão na testa e rapidamente transformaram seus olhares, que ficaram raivosos e acusatórios. A garota ruiva estava fuzilando Sophia com o olhar. Tommy estava balançando a cabeça de um lado para o outro, com os lábios franzidos. Kelsey, entretanto, começou a rir de um jeito que fez Sophia se assustar. Seus olhos estavam repletos de lágrimas e ela levou a mão à barriga, gargalhando sem parar.
— Um zumbi? Ah, essa é boa! Que droga que deram para você nessa enfermaria? Diga para a enfermeira que eu quero uma dose também!
— É verdade! — Sophia estava indignada — Você tem que acreditar em mim. Para o seu próprio bem, há uma guerra se iniciando...
Ainda havia resquícios de risadas na voz de Kelsey quando ela a interrompeu.
— Eu sinto muito, Sophia, mas não dá para acreditar nessa baboseira. Francamente, todo mundo sabe que essas coisas não existem. Se não quer me falar o que aconteceu de verdade com você, não tem problema, só não precisava inventar uma desculpa dessas.
Ela ia abrir a boca para protestar, quando foi interrompida pelo ranger da porta. A enfermeira entrou no quarto, completamente furiosa. Ela carregava uma bandeja com um prato repleto de uma substância vermelha e gosmenta que Sophia julgou ser gelatina de morango. Repousou-a na mesinha ao lado da cama antes de começar a brigar com eles.
— O que está acontecendo aqui? Que balbúrdia é essa? Eu pensei que tinha sido bem clara quando disse que apenas duas pessoas por vez poderiam visitar a garota. — ela estendeu as mãos e começou a dar tapinhas nas costas de Kelsey. — Vamos. Andando! Ela precisa de repouso.
Logan e Helena imediatamente abandonaram o quarto, sem nem ao menos olhar nos olhos de Sophia. Kelsey e Tommy foram em seguida, a garota ainda segurando o riso. A menina de cabelos loiros se sentiu tão pequena que ela se perdeu em meio ao lençol quando deitou na cama e se escondeu sob ele.
O resto do dia passou de uma maneira extremamente rápida para Logan. Ficara surpreso com o fato, já que os dias em Shavely tendiam a se arrastar, ao ponto de você pensar que uma eternidade se passou e se abismar quando olhar para o relógio e constatar que, na realidade, passaram-se apenas dois minutos.
Helena ficou todo o tempo reclamando de Sophia. Repetiu mais de oitocentas vezes o discurso de que ela não tinha nada que ter contado toda a verdade para Kelsey, não daquele jeito torto e conturbado. Podia ter se safado da saia-justa de outra maneira, mas Logan a entendia. Ele também tinha contado toda a verdade para Ian, mas a grande diferença era que o garoto havia presenciado tudo, coisa que não aconteceu com Kelsey. Quando contaram a Mel o que tinha acontecido, ela disse que Sophia fizera a coisa certa. Apesar de frisar que preferia que poucas pessoas soubessem sobre o que estava acontecendo, ela sabia que aquilo era injusto e inevitável com a guerra que se aproximava. As pessoas tinham que saber. Entretanto, toda aquela discussão fora desnecessária porque Kelsey não acreditara em nenhuma palavra que saíra dos lábios da garota de cabelos loiros. Logan só torcia para que ela não descobrisse da pior maneira possível, assim como Ian.
Quando a noite caiu, Logan fez uma coisa que não fazia há vários dias. Foi visitar sua tia, que, como era de costume, estava completamente atarefada e escondida atrás de várias pilhas de papéis. Na realidade, Logan tinha tomado uma decisão naquele dia. Não ficaria parado esperando o pior acontecer. Ele agiria e precisaria de ajuda para isso. Iria contar tudo o que estava acontecendo para Mary. Mesmo que não pudesse fazer nada para ajudar, ela tinha que saber o que acontecia nas dependências de sua propriedade.
— Finalmente você decidiu criar vergonha nessa cara e veio me ver — disse Mary assim que Logan abriu a porta e entrou na sala. Ela estava com uma caneta presa em meio aos dedos e assinava alguns papéis que se sobressaiam da enorme pilha a sua frente — Eu achei que você tinha se esquecido da minha existência.
Logan deu um sorriso quando se sentou na cadeira que estava vaga. Não deixou de sentir um arrepio na espinha quando olhou em volta e lembrou-se de todo o horror que passara dentro daquele lugar. Passou o dedo sobre a mesa de madeira escura apenas para se certificar de que não tinha nenhum resquício de cinza de zumbi no móvel.
— O que eu realmente tinha me esquecido é em quão dramática você pode ser. — Logan olhou para tia e viu que seus dentes brancos e brilhantes ficaram à mostra. O sorriso de Mary era tão cativante. — Mas eu vim aqui porque preciso falar com você, tia. Preciso te contar uma coisa.
O olhar de Mary tornou-se sério. Ela elevou as sobrancelhas como se estivesse momentaneamente curiosa em saber o que o garoto teria para lhe falar. Ela largou a caneta na mesa e repousou os braços, cruzando os dedos ao fazê-lo.
— Ai, meu Deus. Quando adolescentes vêm como esse papo é porque coisa boa não pode ser. Vamos, me diga, o que foi que você andou aprontando?
— Eu não aprontei nada, mas não posso dizer a mesma coisa quanto aos zumbis.
Mary estremeceu à menção daquelas criaturas abomináveis. Ela se retesou à mesa e suas unhas compridas e pintadas de azul fizeram uma pequena rota sobre a madeira.
— Zu-zumbis? — ela começou a gaguejar — Do que é que você está falando? Eu pensei que essa ameaça tivesse sido aniquilada. Melissa...
— Ela está a par de tudo. — disse Logan, com a voz firme — Ela me contou sobre o acordo que vocês fizeram e pode ter certeza que ele não será quebrado, ela está fazendo o que pode para nos proteger. A ameaça agora é Sheeva. Ela tem um poder peculiar que Kofuf não tinha, sua mordida é capaz de transformar um ser humano em um zumbi antropomórfico e ela está capturando vários estudantes para montar um exército de zumbis.
A cor do rosto de Mary se esvaiu completamente, ela estava tão pálida quanto um fantasma. Levantou exacerbada da cadeira e começou a andar em círculos, tão rápido que Logan se assustou pelo chão sob os pés dela não ter se afundado. Seus olhos esbanjavam um pavor tão intenso que ela começou a olhar para todos os lados, completamente desvairada, como se estivesse procurando por alguma coisa que estava escondida em algum lugar.
— Isso é sério. Muito sério. — ela parecia estar falando sozinha, deixando os próprios pensamentos tornarem-se palavras que ela parecia não controlar. — Preciso fazer alguma coisa. Preciso proteger aos meus alunos.
Logan soltou um muxoxo de insatisfação.
— Infelizmente, não há nada que possamos fazer. Eu apenas estou contando isso porque achei que você tinha o direito de saber, assim como todas as pessoas que moram sob o teto de Shavely também têm.
O olhar de pavor de Mary se transformou em pura irritação.
— Como pode dizer uma coisa dessas? É claro que podemos fazer algo! — ela cerrou os punhos e Logan teve medo do que podia vir em seguida. Ele nunca viu aquele tipo de determinação nos olhos da tia — Esse colégio é meu. Meu! Não deles. Eles não têm o direito de quererem destruir o que é meu! — ela olhou novamente para Logan — Me fale onde eles estão, me conte onde essas malditas criaturas se escondem.
— Tia...
— Me fale! — ela gritou tão alto que Logan pulou na cadeira. Os olhos de Mary estavam vermelhos em fúria, quase assassinos. A única vez em que viu a tia assim foi no dia em que ela e o pai tiveram uma das brigas mais sérias de todas, onde ele a proibira de ver o sobrinho. Nunca se esqueceu do modo como Mary olhara para o irmão, como se pudesse matá-lo com as próprias mãos.
— Eles estão se refugiando no pomar do colégio. — respondeu Logan — A área é grande e perfeita para que eles possam passar despercebidos. Sheeva disse que pretende arrastar todos os alunos para lá, para que a transformação seja feita sob a luz da lua cheia. Segundo ela, é mais eficiente e instantânea. Mas eu suponho que vez ou outra eles saíam das dependências de Shavely e vão para as florestas da redondeza, ainda mais agora que o exército está aumentando.
Foi tudo o que Mary precisou ouvir. Ela virou e começou a andar em direção à porta, mas Logan foi mais veloz e rapidamente ficou na frente da tia. Ele não podia deixar que ela saísse completamente insana de raiva e cometesse a maior loucura de sua vida.
— Logan, saia da minha frente. Agora!
Ele se impressionou pelo quão firme sua voz soou.
— Não! Você precisa colocar a cabeça no lugar, tia, pelo amor de Deus, o que está pensando que vai fazer saindo assim completamente cega de raiva?
Percebeu quando os ombros dela se encolheram e ela começou a chorar, lágrimas grossas escapando do canto de seus olhos e escorrendo por toda a extensão de seu rosto. Ela voltou a sua posição original e desabou na cadeira. Abaixou a cabeça e estava soluçando desesperadamente, o corpo todo tremendo como se estivesse exposta a uma temperatura abaixo de zero. Logan a seguiu e começou a afagar seus cabelos perfeitamente lisos.
— Eu sei que é difícil de aceitar, mas não podemos nos desesperar. Eu sei o quão intragável é saber que eles estão por aqui, se escondendo, nos espionando, espreitando-se por todos os cantos, mas somos mais espertos. Vamos ficar alertas. Vamos dar um jeito de destruí-los de uma vez por todas, mas todos nós precisamos que você se mantenha forte. Você é o cérebro desse internato, é você quem o mantém vivo e não somos nada se você desistir.
Mary levantou a cabeça e seus olhos vermelhos ficaram a mostra. Toda a maquiagem que passara agora estava completamente borrada, manchando ainda mais aqueles olhos que estavam marcados pelo desespero. Rímel escorria por todos os cantos, pingando de seus cílios finos e delineados. Ela suspirou e acenou afirmativamente com a cabeça. A mão dela se agarrou à de Logan e o aperto foi tão forte que ele sentiu as ondas caloríferas sendo transportadas de um corpo ao outro.
— Você tem razão. — ela confessou — Não sei o que deu em mim, é que senti um desespero tão grande em pensar no perigo que todos estão correndo. E é meu dever zelar pela segurança de todos. Como diria Janeth, Shavely está sempre pensando no bem-estar dos alunos.
— É assim que se fala! — disse Logan, liberando a mão de Mary e afagando seus ombros — Agora sim você está parecendo a minha tia preferida!
Mary conseguiu dar uma mínima risadinha depois que passou as mãos pelos olhos borrados e viu que seus dedos ficaram completamente negros.
— Você só diz isso porque sou a única tia que você tem! — olhou para a mesa, onde os vários papéis continuavam repousados. Suspirou lamuriosamente — Ah, lembrei que preciso dar uma passada na biblioteca. Ainda não consegui encontrar ninguém que queira ficar com um cargo permanente de professor de reforço, então continuo dando aulas extras de matemática para alguns alunos. Preciso de um livro para preparar a aula da semana que vem. Você vem comigo?
Logan acenou afirmativamente com a cabeça. Mary se levantou e ficou em pé ao lado de Logan, dando tempo suficiente para o garoto se levantar e segurar na mão dela. Eles caminharam juntos, cada um deles acariciando os dedos do outro. Os corredores estavam escuros, iluminados apenas pela luz da lua que entrava pelas janelas entreabertas. Não esbarraram com nenhuma pessoa, o que pareceu estranho para Logan, já que não era tão tarde assim. Provavelmente estava todo mundo jantando na cantina. Naquele momento, ele percebeu que estava morto de fome e que seria capaz de comer um boi em questão de minutos.
Eles permaneceram em silêncio durante o trajeto, cada um imerso em seus próprios pensamentos. O único barulho que podia ser ouvido era o sapato de salto alto de Mary atritando contra o chão. Contornaram a cantina e a porta de entrada da sala de estar, até encontrarem a porta da biblioteca. Ela estava entreaberta e todas as luzes dentro do cômodo estavam acesas, o que gerava um contraste muito forte com o ambiente do lado de fora. Mary e Logan se entreolharam antes de entrar.
Tudo estava um caos. Várias prateleiras estavam derrubadas ao chão. Havia livros espalhados por todos os cantos, grande parte deles estava aberta, com as páginas para baixo e a lombada para cima. Outros estavam rasgados e as páginas recobriam o chão como se fosse um tapete literário. A mesa da Sra. Strauss estava destruída e o caderno vermelho que ela usava para registrar os empréstimos dos livros estava caído ao chão, com as páginas viradas para cima. Tinham algumas gotas de um líquido vermelho sobre o papel e Logan rapidamente percebeu que não era tinta de caneta. O fluido parecia formar um desenho, uma seta apontando para o outro lado da biblioteca. Logan e Mary tiveram que dar alguns passos e contornar uma prateleira que estava caída para ver todo o horror.
Logan imediatamente sentiu vontade de vomitar. O estômago revirou com o cheiro que fazia suas narinas arderem, era quase como se houvesse ali vários quilos de carne em decomposição. Mary não conseguiu segurar e retornou alguns passos, expelindo no chão todo o seu conteúdo estomacal.
Havia um corpo pendurado por uma corda que estava amarrada no lustre da biblioteca. O material envolvia o pescoço do cadáver e ele parecia estar flutuando, os pés não tocavam o chão. O peito estava completamente aberto, as vísceras estavam todas expostas e algumas poucas moscas já estavam pousadas. O sangue ainda pingava de dentro do corpo, deixando marcas assustadoras no chão. Logan percebeu, sem nenhuma surpresa, que o coração tinha sido arrancado. O terror que sentiu impediu que enxergasse de quem era o rosto daquele cadáver no exato momento em que o viu, mas ele rapidamente o reconheceu quando olhou para aqueles olhos, que estavam abertos e vidrados em uma expressão de puro terror. Era a Sra. Strauss.
Quando Logan olhou para trás, para além do corpo pendurado, ele viu que tinha uma mensagem escrita com sangue na parede. Ele leu com os olhos cerrados:
É disso que os zumbis antropomórficos gostam: sangue, morte, destruição... Quem será o próximo?
Com o coração acelerado, ele olhou novamente para a última expressão que a Sra. Strauss emitira e ele enxergou todo o medo que transbordara daqueles olhos que suplicaram para que Sheeva não a matasse. Mais um inocente tinha morrido e Logan estava começando a perder as esperanças. De repente, tudo o que tinha falado para encorajar Mary não fazia mais o menor sentido.
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