Screaming

9 Ameaça silenciosa.


Depois do almoço, havia um período de uma hora em que os estudantes de Shavely poderiam descansar as cabeças exaustas até que se iniciasse o período vespertino de aulas. Logan estava com o estômago cheio naquela sexta-feira e a única coisa que ele queria era deitar por alguns minutos em sua cama e esticar as pernas nervosas, que pediam por um pouco de repouso. Aliás, queria não só repousar as pernas, mas também o cérebro repleto de pensamentos.

Não conseguia parar de pensar na conversa que teve com Mel no dia anterior. Ela pedira para que aquilo ficasse em sigilo absoluto, pelo menos enquanto eles não tivessem nada em mente que pudesse ser feito. Talvez ele não conseguisse esconder um assunto que também envolvia Sophia, que já havia sofrido demais nas mãos de zumbis antropomórficos, mas ele prometeu não tocar no assunto caso ela também não tocasse. Por enquanto, quanto menos pessoas soubessem, melhor. Mas o que Mel não sabia era que Helena e Tommy também tinham conhecimento de toda essa história, e não só eles, como todos os alunos que não eram considerados novatos. Os quatro amigos — em um ato de desespero — fizeram uma reunião no ano passado na cantina do colégio, alegando a existência de tais criaturas sobrenaturais. Mais da metade não acreditou neles, porém ele não sabia se aquilo tinha sido um erro ou uma vantagem.

Quando Logan abriu a porta do dormitório, encontrou Ian lá dentro. O garoto estava de costas para ele, olhando para o guarda-roupa cujas portas estavam abertas. Ele parecia remexer nas roupas que estavam penduradas nos cabides e algumas das gavetas estavam entreabertas. Logan lembrou-se de como havia ficado difícil dividir aquele pequeno móvel de madeira para abrigar as roupas de três pessoas.

E, imediatamente, também se lembrou da existência de Ian. Havia alguns dias que sequer falava com o novo colega de quarto. As coisas andavam tão turbulentas, que ele só encontrava Ian momentos antes de dormir ou assim que acordava, quando o garoto ainda estava dormindo ou quando já estava se preparando para ir à cantina.

— Ian? — Logan chamou. O garoto pareceu imediatamente congelar — O que está fazendo aí?

Ian se virou e Logan viu que ele estava sorrindo. Ou que talvez só tenha começado a sorrir depois que ouvira a voz de Logan.

— Ah, oi, Logan! — ele exclamou — Não tinha ouvido você entrar. Eu só estava aqui pensando em que roupa usarei na festa de amanhã. — ele tirou duas camisetas dos cabides e estendeu frente ao rosto de Logan — Você acha que devo usar essa verde ou a vermelha?

E quem disse que Logan também se lembrava de que haveria uma festa amanhã? Aliás, não era bem uma festa... Apenas um evento havaiano de boas-vindas aos alunos novos que contaria com a presença de músicas dançantes, uma fogueira gigante e espetinhos de marshmallow para assar. Logan não duvidava nada de que alguns dos alunos dessem um jeito de trazer bebidas alcoólicas ou cigarros para a festa.

— Eu não sei. Que tal a vermelha? — Logan deu de ombros.

Ian pensou por alguns segundos e então colocou a camiseta verde de volta no guarda-roupa. Jogou a vermelha sobre a cama e arrancou uma calça jeans escura de dentro da primeira gaveta, também a jogando na cama.

— A festa é amanhã. — advertiu Logan — Por que você está jogando as roupas em cima da cama?

Ian ignorou-o por alguns segundos e arrumou ambas as peças de roupa uma sobre a outra, como se estivesse vestindo uma pessoa imaginária.

— Apenas estou olhando o conteúdo. Estou me imaginando dentro delas e tentando ver se vai ficar bom.

Logan franziu o cenho.

— Você nunca as usou antes? Aliás, por que está preocupado com isso? Não seria mais fácil se você simplesmente escolhesse a primeira peça de roupa que pegasse do guarda-roupa? Não é como se fôssemos a uma balada de gala onde só existe gente badalada e bonita. Estamos apenas em Shavely.

Ian soltou um longo e demorando suspiro, admirando pela última vez as roupas estendidas na cama e dobrando a calça e pendurando a camiseta no cabide antes de voltá-las novamente no guarda-roupa. Olhou para Logan com entusiasmo, enquanto ele deitava na própria cama, esticando os pés calçados.

— Quero estar bonito. Pretendo fazer uma coisa que eu tenho vontade desde o primeiro dia da semana. Desde que cheguei aqui.

Logan assentiu com a cabeça, não muito interessado em descobrir o que Ian queria fazer. Ultimamente, a mente dele estava pensando somente em Mel e na conversa do dia anterior. Estava ansioso para conversar com ela novamente, para tentar articular um modo de descobrir se havia mesmo um zumbi antropomórfico nos arredores daquele colégio.

— Aliás, falando em festa, eu estive pensando que sou novo demais aqui e não conheço praticamente ninguém além de você. — Ian começou a tagarelar — Quero dizer, tem Tommy também, mas você sabe que eu mal converso com ele. Não sei se é apatia da minha parte, mas sinto que ele não vai muito com a minha cara.

— Fique você sabendo que ele brigou com Helena depois que ela disse aquelas coisas indelicadas a seu respeito.

As bochechas de Ian adquiriram um tom escarlate, mas ele continuou a falar, como se não tivesse ouvido o que Logan tinha dito.

— Eu queria saber se você podia ficar comigo durante a festa. Não quero parecer chato e nem nada, sei que você tem os seus amigos e que provavelmente vai querer ficar com eles também, mas eu realmente não quero ficar sozinho. Não sei o que um bando de adolescentes problemáticos pode fazer com espetinhos de marshmallow na mão.

— É claro, mas acho que você não deveria se preocupar com isso. — disse Logan, olhando de soslaio para Ian, que tinha sentado na cama e estava brincando com a fronha do travesseiro — Ao contrário do que você pensa, nem todas as pessoas aqui são adolescentes esquizofrênicos cheios de crises de bipolaridade. Tenho certeza de que você não tem tanta dificuldade assim em se enturmar com as pessoas. Você é um cara legal.

Apesar de Logan se sentir levemente desconfortável na presença de Ian, ele não falou aquilo da boca para fora. Percebeu que Ian deu um sorriso radiante e ele se sentiu bem consigo mesmo. Gostava de arrancar sorrisos das pessoas, mesmo daquelas que ele não conhecia ou não confiava plenamente.

Naquele momento, a porta do quarto foi escancarada com força e Logan levou um susto. Ele sentou rapidamente na cama e sua respiração ficou levemente ofegante. Esperando encontrar um zumbi repleto de sangue em suas garras afiadas, ele apenas encontrou Sophia e Helena.

— Eu avisei que seria melhor ela bater na porta, — disse a ruiva — mas eu não sei o que está acontecendo com ela hoje. Está eufórica.

Parecia que os papéis naquela cena estavam invertidos: era mais do feitio de Helena abrir portas de dormitórios alheios e ficar olhando a tudo como se estivesse com o maior grau de desconfiança do mundo. Entretanto, era Sophia quem fazia isso. Havia minúsculas gotículas de suor na bochecha dela, que estavam levemente avermelhadas.

— Estou achando engraçado que você ultimamente anda adorando ficar sozinho no quarto com a companhia de outras pessoas. — disse Sophia, observando Ian como se ele fosse uma presa a qual um gavião estivesse prestes a caçar — Mas, francamente, Logan, um menino? Tem alguma coisa que você queira me contar?

Logan e Ian rapidamente se entreolharam, mas foi o outro garoto quem falou.

— Olha, acho que você está entendendo tudo errado. Nós só estávamos conversando, como... amigos.

Ian percorreu o olhar e encontrou o de Helena. Provavelmente deve ter se lembrado de que fora ela quem dissera aquelas indelicadezas na mesa do jantar e por isso ele se retesou à cama, segurando o lençol disfarçadamente com uma das mãos.

— O que vocês duas estão fazendo aqui? — perguntou Logan, cansado — Sabia que não é muito legal invadir o dormitório dos outros?

— Você não pode falar nada, garotinho. — disse Helena, com uma voz maliciosa — Você também já invadiu o meu dormitório e quase me viu pelada.

— Ele o quê? — gritou Sophia, segurando fortemente na mão de Helena e ficando vermelha como um pimentão.

— Ai, meu Deus, Sophia. — Helena revirou os olhos — Pare de ser paranoica! Eu disse que ele quase me viu pelada. Eu joguei um travesseiro na cabeça dele e o obriguei a manter os olhos fechados até que eu estivesse totalmente vestida. Um episódio que eu gostaria de esquecer, é claro.

O que vocês duas estão fazendo aqui? — repetiu Logan, com uma urgência incessante. Ele já estava começando a ficar constrangido. O que Ian pensaria dele? Um garoto tarado que invade o quarto de garotas para observá-las nuas?

Entretanto, depois que Logan repetiu a pergunta, as garotas se entreolharam. Elas pareciam preocupadas e nervosas, pensamentos vagos provavelmente se passando pela cabeça de ambas.

— Nós queríamos te mostrar uma coisa. — disse Sophia.

Helena assentiu com a cabeça.

— Uma coisa que encontramos no nosso quarto hoje de manhã.

Logan olhou para Ian, que estava sentado sobre sua cama, dando de ombros. Os olhos esverdeados do garoto pareciam tranquilos, mas também havia certo interesse neles. Logan sabia que ele estava curioso para também saber o que as garotas queriam lhe mostrar, mas aquilo provavelmente era algo particular. Algo que não dizia respeito a novatos.

— Deve ser algo bem sério para vocês terem quase arrombado a porta do meu quarto.

Os olhos de Sophia iluminaram-se com fúria e ela deu alguns passos para frente, os punhos cerrados e os braços ligeiramente grudados ao corpo. Logan assustou-se de imediato, os olhos se acostumando a ver uma pessoa que não fosse Helena fazendo aquela cena.

— Ah, qual é, Logan! O que está acontecendo com você? É sério que você prefere ficar aqui dentro dessa porcaria desse quarto com esse garoto que você nem conhece direito a ir conosco ver o que temos para mostrar? — ela estava puxando o pulso de Logan e o forçando a ficar de pé.

Quando o fez, Logan empurrou a mão de Sophia para trás e fez um sinal com a boca que indicava que ela deveria parar com toda aquela cena ridícula. Ela provavelmente entendeu, pois deu alguns passos para trás e ficou novamente ao lado de Helena, que estava observando a tudo com um olhar entretido e algo parecido com um sorriso no rosto. Logan percebeu o fato de que ela estava fazendo força para não sorrir. Ou talvez simplesmente não estivesse conseguindo tal façanha que ultimamente parecia tão impossível.

— Tudo bem. — ele olhou para Ian — Hã, eu tenho que ir. Você entende como são garotas enfurecidas, não entende?

— Na verdade, não. — Ian deu de ombros — Mais tarde a gente continua o nosso papo.

Logan fez que sim com a cabeça e foi na direção de Sophia e Helena. A garota loira já estava impaciente, batendo os pés incessantemente no chão e olhando para Ian com um olhar predador. O garoto de olhos esverdeados acenou com a mão para Logan, que não soube o que fazer a não ser exibir um sorriso fraco. Alguns segundos depois, Helena bateu a porta vagarosamente e os três amigos estavam do lado de fora do dormitório.

— O ciúme e seus ossos do ofício. — disse Helena, jogando os braços para cima — Sempre fervilhando uma relação.

Logan abriu a boca para responder, mas Sophia foi mais rápida.

— Posso até ter aceitado você ter resolvido passar a tarde de ontem dentro do quarto daquela menina estranha que me parece suspeita demais, mas quero que saiba que exijo que você tome cuidado com Ian. Você sabe que ele joga no outro time.

Logan sabia que um pouco de ciúme fazia bem e era até mesmo saudável para qualquer relação, mas Sophia estava indo longe demais. Ela estava o tratando como se ele fosse um objeto que ela comandava, um objeto que era infiel e que não sabia se controlar quando estava ao lado de outras pessoas.

— Você deveria parar de falar como se soubesse tudo a respeito dos outros. — disse Logan, com os dentes cerrados — A garota estranha a qual você simplesmente não conhece para dizer que é uma garota estranha, tem nome. Ela se chama Mel e acho que você deveria começar a chamá-la assim também. E o que você tem a ver com a vida de Ian? E se ele for gay mesmo? Você sabe que eu não sou e deveria confiar mais em mim.

Logan não esperou para ver a reação de Sophia. Ele virou o corpo e começou a andar em direção aos outros dormitórios, que se localizavam por toda a extensão do terceiro andar do prédio, tornando-se um labirinto de portas. Até hoje Logan nunca tinha conseguido contar o número de plaquinhas com os nomes dos alunos que existiam penduradas centímetros acima das maçanetas — ele apenas sabia que o dormitório das meninas era naquela direção, dado ao incontável número de vezes que já estivera lá.

— Esse foi um fora e tanto! — disse Helena, alcançando-o, com Sophia em seu encalço. — Sophia provavelmente vai demorar a pegar no sono quando deitar a cabeça no travesseiro.

— Cale a boca. — disse a garota loira. — Não me vê falando nada a respeito do término do seu namoro com Tommy.

Logan estava a alguns passos na frente, portanto não conseguiu ver a cara que Helena fez ao ouvir aquilo. Provavelmente, ela deve ter exprimido uma careta e olhado para Sophia com um olhar odioso.

— É claro que eu não vejo, porque eu sei que você tem a plena consciência de que fazer isso pode lhe trazer graves consequências. Você sabe como eu fico quando estou nervosa. Se uma folha de papel sulfite estiver na minha mão, consigo fazê-la se transformar em um minúsculo pedaço de fibra amassado.

Logan suspirou bem alto para interromper aquela discussão. Ele nunca tinha paciência quando Helena e Sophia começavam a se alfinetar, principalmente porque ele sempre sabia que a garota ruiva se dava melhor.

— O que vocês têm para me mostrar, afinal?

Helena estava prestes a responder, quando o grupo todo repentinamente parou de andar. Estavam quase contornando o primeiro corredor que levaria ao quarto das garotas, quando uma pessoa impediu que eles continuassem o caminho. Logan olhou levemente para trás e percebeu que as pálpebras de Helena estavam tremendo, os olhos piscando incessantemente.

Tommy estava com um olhar rígido demais, que ele simplesmente dirigiu a Helena. Provavelmente, para ele, ela era a única dentro daquele corredor, porque não parecia ter notado a presença de Logan ou de Sophia. Ele ergueu uma das sobrancelhas, como se estivesse provocando-a.

— Nos dê licença. — pediu Helena — Está atrapalhando o caminho.

Logan não pôde deixar de notar em como Tommy estava diferente. Não diferente no sentido de não ser mais aquele garoto estranho e tímido, que ficava pelos cantos com um fone de ouvido na orelha ouvindo músicas depressivas. Ele estava decidido e firme. Parecia forte. Os cabelos estavam jogados sobre os olhos e quando ele assoprou para tirá-los, os fios esvoaçaram-se e a testa ficou levemente à mostra. A roupa que usava também era diferente: uma jaqueta de couro negra cobria a camiseta que usava por baixo, enquanto uma bota preta estava incrustada sobre uma calça jeans bastante escura.

— Dê licença você. — ele disse. — Eu atrapalho o caminho, mas você atrapalha a vida das pessoas. Aliás, atrapalha não. É uma palavra simples demais. Você destrói.

Logan ficou sem reação quando Tommy passou por eles, esbarrando propositalmente em seus ombros e logo em seguida nos de Helena. Ela esticou o braço para tentar tocá-lo, mas foi como se uma força eletromagnética empurrasse-a para longe.

Tommy — o seu tom de voz estava praticamente suplicante.

Ele parou, mas não se virou. Logan percebeu que os braços estavam retos e as mãos fechadas, os dedos roçando-se uns aos outros como se ele estivesse coçando as próprias mãos.

— O que aconteceu com você? — perguntou Helena. — O que aconteceu com o amor? Eu pensei que você ainda... — ela se interrompeu, mordendo os lábios — Apesar de tudo o que aconteceu, eu ainda amo você.

Logan nunca pensou que poderia ver uma Helena tão frágil. Sempre teve uma imagem nítida da garota formada em sua mente: alguém forte, decidido, intransponível, sem nenhuma fraqueza aparente. De repente, aquilo se desfez e deu espaço a uma pessoa sensível e que poderia se espalhar em vários pedaços com um mínimo sopro. Ele desejou que as coisas não acontecessem dessa maneira.

— O amor. — Tommy começou a rir. Ele ainda não estava olhando para ninguém. Nenhum dos três conseguia olhar para os olhos dele. Era impossível captar qualquer tipo de emoção, qualquer coisa que pudesse indicar que ele estava com os mesmos sentimentos de Helena. — O amor está morto. Talvez você devesse ter dito isso antes, porque essa é a primeira vez que ouço você dizer que me ama. Bem, acho que agora é um pouco tarde demais.

Sem dizer mais uma palavra e também sem olhar para trás, Tommy continuou a andar até se transformar em um minúsculo ponto no final do corredor.

Os olhares foram lançados a Helena e ela estava boquiaberta, fitando o nada como se fosse a única coisa que ela pudesse fazer. Logan percebeu a tristeza escapando dos olhos dela, viu o brilho lacrimoso formando-se em meio às suas pupilas dilatadas. Foi quando a primeira lágrima escorreu, seguida por outra, o que rapidamente se transformou em uma sucessão de soluços incontroláveis. Logan reconhecia aquele choro. Chorara dessa mesma maneira no fatídico dia em que os pais foram assassinados: aquilo significava perda. A emoção que Helena estava expelindo era o fato precursor para ela saber que nunca mais teria Tommy de volta.

— Helena... — sussurrou Sophia, esticando a mão para alisar o cabelo ruivo da amiga.

Ela se esquivou do toque e começou a correr na direção contrária, indo de encontro ao dormitório no final do corredor. Era rápida demais e em menos de alguns segundos já estava em frente à porta, abrindo-a com toda a força. Logan ouviu o estrondo que tremeu o corredor inteiro quando a porta se fechou.

Logan e Sophia se entreolharam rapidamente e correram atrás dela. Enquanto corriam, o garoto percebeu o pescoço esticado de uma pessoa que observava o que estava acontecendo através da porta de um dos quartos. Logan não teve tempo de discernir se era um garoto ou uma garota.

Quando alcançaram o dormitório de Helena, encontraram-na jogada sobre a cama de Sophia, a cabeça enterrada no travesseiro. Ela ainda estava chorando, mas não tão desesperadamente quanto no corredor. Sophia olhou para Logan e ele acenou com a cabeça, encorajando-a para ir até lá consolar a amiga. Ela sentou na borda da cama e colocou a mão no ombro de Helena.

— Helena, não fique assim... — ela se interrompeu e Logan percebeu que não estava encontrando as palavras certas. Aliás, o que ela poderia dizer naquele momento conturbado? Helena deveria estar arrasada para ter descumprido uma das principais regras do seu código de conduta: jamais chorar na frente de ninguém.

Ao invés de gritar com eles e ordenar que saíssem do quarto para que pudesse ficar sozinha, ela apenas inverteu a posição do corpo e sentou na cama. Os olhos eram fossas lacrimejantes, que exibiam um brilho avermelhado. Ela enterrou as mãos na cabeça, escondendo o rosto que estava levemente corado.

— Ele me odeia.

— Não odeia... É só uma questão de tempo até tudo se resolver.

— Vocês não entendem! — Helena explodiu e bateu com as mãos no colchão da cama — Kelsey está fazendo a cabeça dele! Ela está o levando para o mau caminho. E tudo isso porque eu não consegui demonstrar que eu realmente o amava. Ele tem razão, eu destruo tudo que toco. Sou uma desgraça.

Sophia suspirou. Ela virou a cabeça para olhar para Logan. Um olhar desesperado, como se estivesse pedindo ajuda, buscando algo que pudesse dizer para confortar suficientemente a amiga.

— As pessoas trilham os caminhos que julgam ser necessários — disse Logan —, mas isso não significa que esses caminhos sejam sempre os corretos. Não podemos impedi-lo de nada, Helena, se é assim que ele quer que as coisas sejam. Não fique se remoendo por algo que você já não pode mudar. As coisas ruins servem para que possamos absorver ensinamentos profundos.

Não sabia se as palavras seriam suficientes para fazer com que Helena se sentisse melhor, mas, surpreendentemente, ela elevou um pouco os lábios, o que se revelou um sorriso fraco, porém radiante ao seu modo.

— Se tem uma coisa que eu estou aprendendo com tudo isso é que nunca mais quero saber de relacionamentos. Isso é coisa para malucos.

Logan não sabia se podia concordar. Ele olhou para Sophia, que ainda estava sentada ao lado de Helena, acariciando a mão da amiga fragilizada. Será que Helena tinha razão? Ter entrado em um relacionamento com Tommy só havia trazido problemas para sua vida. Será que aconteceria o mesmo com ele? Será que o ciúme de Sophia se tornaria algo possessivo e doentio ao longo do tempo e eles seriam os próximos a irem à ruína, assim como os amigos? Ele preferia não pensar naquilo. Não naquele momento.

Ele pensou no turbilhão de coisas que aconteceram em tão pouco tempo durante o período em que deveria estar descansando antes do início das aulas vespertinas. Por um momento, tinha se esquecido do motivo de ter sido arrancado do próprio quarto e de estar ali. Helena e Sophia tinham uma coisa para mostrá-lo. Uma coisa que provavelmente deixaram-nas apreensivas.

— Bem, vocês tinham algo para me mostrar?

As garotas se entreolharam e Helena suspirou. Sophia se levantou e apontou para a cama de Fanny, que estava vazia e com os lençóis em perfeita ordem. Logan acompanhou o trajeto que o dedo da garota fez e visualizou uma folha de sulfite dobrada em vários pedaços repousada sobre o travesseiro.

— Estava próximo à porta quando encontramos. — disse Helena, com a voz um pouco rouca por causa do choro excessivo — Alguém provavelmente deve ter jogado pelo vão ou uma pessoa em especial deixou aqui dentro do quarto antes de sair para o café da manhã, naquele lugar específico, dando a impressão de que alguém de fora tinha jogado aqui.

Logan não precisou nem racionar por mais de um segundo para perceber que a “pessoa em especial” que Helena se referiu era Fanny. O garoto avançou em direção ao pedaço de papel e trouxe-o para mais perto, levando-o na altura dos olhos. Desdobrou-o cuidadosamente e leu o que estava escrito com letras recortadas de revistas, que tinham sido coladas estrategicamente no papel:

Quatro menos um é igual a três.

— O que isso significa? — perguntou Logan, com uma sensação estranha de pavor percorrendo todo o seu corpo.

Helena deu de ombros.

— De acordo com todo o meu conhecimento sobre filmes e séries policiais, quando você recebe uma carta ou um bilhete feito com letras recortadas de uma revista, é sinal de que está sendo ameaçado de alguma coisa e que o remetente não quer que sua caligrafia seja reconhecida.

— E, pelo o que pudemos concluir até agora, — Sophia tratou de completar o raciocínio de Helena — esse bilhete indica que alguém será eliminado de um grupo de quatro pessoas, o que fará com que sobrem apenas três. Helena e eu discutimos sobre esse pedaço de papel a manhã inteira, mas não tivemos as mesmas aulas que você e também não poderíamos ter falado sobre isso no almoço, com tantas pessoas em volta.

Logan precisou de alguns segundos para absorver tudo aquilo. Olhou novamente para o pedaço de papel que estava em suas mãos e viu as palavras lhe assombrando como se cada letra fosse saltar da folha branca e atacar violentamente o seu rosto.

— Esse bilhete é uma ameaça de morte. — disse Logan, estupefato demais para olhar para algum ponto fixo. — Eu, vocês e Tommy... Estamos correndo risco de vida. Eu sabia que isso era uma vingança, eu sabia! — gritou Logan, dando socos no ar.

— Não é só isso. — Helena começou a dizer. — Quando eu me referi à “pessoa em especial”...

Logan a interrompeu rapidamente.

— Eu sei. Você estava se referindo a Fanny. Acha que ela pode ter feito esse bilhete?

— Talvez. — as palavras de Helena não pareciam estar recheadas de certeza — Ela foi uma das garotas com crise de insônia naquela noite, não foi? E ela tem acesso livre a esse quarto. Ela dorme aqui!

— Mas você mesma disse que alguém de fora também pode ter jogado o papel sob o vão da porta.

— Sim, essa é outra possibilidade. — Helena suspirou — Eu não sei mais o que pensar. Não sei o que está acontecendo.

Sophia, que ainda não tinha falado muita coisa a respeito da suposta ameaça de morte, olhou para a porta do quarto que estava fechada. Os olhos dela esbanjavam preocupação.

— Acho que deveríamos mostrar isso a Tommy também. Se esse bilhete está nos ameaçando de morte, ele também faz parte dos quatro. A vida dele também corre perigo.

— Ele provavelmente tem Kelsey para protegê-lo. — Helena resmungou, virando a cabeça para o outro lado e olhando para a parede lisa ao lado do beliche.

— Não estamos falando de pessoas, Helena. — disse Sophia, com urgência na voz. — Estamos falando de zumbis antropomórficos. Você os conhece e sabe do que essas criaturas são capazes. Logan tem razão, eles estão aqui para vingar a morte de Kofuf, e Tommy está tão envolvido nessa história quanto nós três.

— Vocês ainda estão com a ideia maluca de que há um zumbi aqui dentro só porque Logan encontrou sangue no corredor? Além do mais, se há mesmo um bando de zumbis do jeito que Kofuf alegava, como que podem saber da existência de Shavely se o único zumbi que poderia contar a eles está morto agora?

Logan estava começando a ficar desesperado. O papel ainda pendia em meio aos seus dedos trêmulos. Ele tinha que mostrar aquilo para Mel. Ela com certeza saberia como lidar, saberia dizer a ele o que fazer. Mas, naquele momento, ele só podia contar com Sophia e Helena, as únicas pessoas que estavam ali. E pessoas que estavam sendo ameaçadas pela fúria de um zumbi que queria vingança a qualquer custo.

— Eles vivem pelas redondezas. — argumentou Sophia — Com toda a certeza viram o colégio e sabiam que Kofuf estava aqui. Aliás, eles fazem parte do mesmo bando, não fazem? Deveriam estar espionando e de algum modo descobriram que Kofuf morrera. Eles são como animais carnívoros que buscam por uma presa em conjunto. Nesse caso, as presas somos nós.

O comentário vagou pelo ambiente e fez-se silêncio por alguns segundos. Uma rápida entreolhada entre eles antes de Helena abrir a boca para falar:

— Tá, tá, tá! Não vamos fazer esse momento ser mais mórbido do que de costume. Logan pode mostrar isso a Tommy, já que eles dividem o mesmo dormitório. Mas não contem comigo caso resolvam fazer uma reunião com o quarteto fantástico em crise constante. Como se já não bastasse ter que me encontrar com Tommy nas aulas e durante as refeições, seria uma lástima ter mais uma oportunidade de ver o cara que acabou de partir o meu coração em pedaços ainda menores do que da última vez.

Logan suspirou. Era triste ver que a união deles não era mais a mesma devido a picuinhas internas. Não existia mais aquele quarteto formado de amigos de verdade, amigos que estariam dispostos a enfrentarem todos os problemas juntos, mesmo se “problema” pudesse ser traduzido como legiões de zumbis antropomórficos sedentos por vingança. Eles estavam enfraquecidos e aquele era o momento menos propício para fraqueza. Logan nunca se sentiu tão longe da paz que tanto buscava e tão perto da destruição que estava por vir: esta que não só o bilhete ameaçador indicava, mas todos os acontecimentos estranhos e maléficos daquela semana.