Scream For Me
17 Sempre fica pior antes que melhore - Parte 1
Notas iniciais
John me disse que se você olhar para as nuvens sem parar, bem atentamente, elas ganham formas. Elefantes, rosquinhas mordidas, pessoas... E eu pensei: que coisa mais estupida! Mas ele insistiu e aqui estamos nós, ainda sentados no banco nos fundos da biblioteca, encarando o céu. E tenho que dizer uma coisa, ele tinha razão. Acabei de ver uma bela moto, flutuando entre as nuvens.
Sorrio alegre. Esse é um dos melhores momentos que tive desde que o mundo foi a merda. É tão bom estar em paz, mesmo que seja por menos de uma hora.
– Você nunca fez isso quando era criança? — John me pergunta apontando para uma nuvem que se parecia com o Mickey.
– Não, inacreditável né? Eu passava mais tempo arrancando as cabeças das minhas bonecas do que fazendo qualquer outra coisa.
– Que selvagem!- John diz, fazendo isso soar extremamente sexy. — Mas olhe por outro angulo, você não sabia naquela época, mas estava treinando para arrancar as cabeças de zumbis.
Rimos juntos.
– Isso não era para ser engraçado. — digo, porque é verdade. Nunca imaginaria esse futuro nem em um milhão de anos. Me imaginava casada, com filhos lindos, com uma cerca branca e a grama do jardim bem verdinha. Sim, clichê ao extremo, mas aos oito anos eu não era muito criativa.
– É... — John diz.
Olhamos ambos para o portão ao mesmo tempo, quando ouvimos um baque surdo. John se levanta, pronto para o que estiver por vir, mas então vimos Craig pular pelo portão com uma bolsa nas costas, com armas saindo para fora.
– Cadê o George? — pergunto automaticamente, preocupada.
– Estou aqui. — George diz ao por os pés no chão. Respiro aliviada.
– Então, o que conseguiram? — John pergunta, enquanto já nos dirigimos para dentro da biblioteca. Craig joga sua mochila em cima da mesa e George, a sua. Caralho, são muitas armas.
– Rifles, automáticas, pistolas e até espingardas. — George explica.
Começo a tirar as armas das mochilas e a expô-las sobre a mesa. Conto. Ao todo são treze armas. Tiramos a sorte grande.
– Rapazes, vocês são meus herois. — digo sorrindo, enquanto John verifica as caixinhas com munição.
– Posso ser tudo o que você quiser baby. — Craig diz, numa tentativa falha de me seduzir. Sinto John ficar tenso ao meu lado. Olho para ele, que está com o maxilar trincado, pegando um rifle na mão.
– Então seja o cara que não dá em cima de mim a cada cinco segundos. — Tive que ser grossa. Conheço muito bem o tipo do Craig. Se você der bola, pronto, tá ferrada. E eu ainda não sei no que vai dar esse lance com o John, portanto não é bom cutucar a onça com vara curta não é?
Craig ri sem graça e volta sua atenção as armas a sua frente. Mesmo assim, vejo um sorriso malicioso em seu rosto. Reviro os olhos.
– Acho que vai dar para fazer um belo estrago com essas aqui. — John enfim diz alguma coisa, destravando uma arma violentamente. — Estamos tendo uma sorte razoável ultimamente. Poderíamos não ter comida, nenhum teto sobre nossas cabeças, nenhuma arma, o que aposto que muitas pessoas não tem, mas estamos sendo bastante sortudos. — John continua, se sentando em uma cadeira, esticando suas pernas a sua frente. — Mas sabe? O fato de estarmos tendo essa sorte toda, só significa que logo logo vamos ter muito azar.
Franzo a testa. O que ele quer dizer com isso? É alguma teoria idiota da lei da atração? Aquela que diz que o universo conspira e bla bla bla?
– Você estava falando tão bonito cara. Sério, parecia um daqueles pastores que agradecem a tudo e tal. Me emocionei por um segundo, mas aí você caga dizendo umas coisas dessas. — Craig diz rindo de John, que ri também.
– Estou falando sério. — ele começa. — É um ciclo. Coisas boas acontecem, e então coisas ruins acontecem, mas aí depois coisas boas voltam a acontecerem de novo.
– Como naquela frase? Sempre fica pior antes que melhore. — digo sorrindo.
– Exatamente como essa frase. — John responde, me olhando com aqueles seus olhos verde escuros.
– Bom, espero que você esteja errado John. — George diz, se deitando no chão, com sua mochila servindo como travesseiro. — Tô bem assim, não quero que nada fique pior mais do que já está.
Ficamos animados com as armas, que serão muito úteis, e passamos o resto da tarde ali. Nos alimentamos com a comida que eu e George pegamos no supermercado, nos acomodamos o melhor possível e esperamos a noite chegar, o que não demora muito para acontecer.
Já me acostumei com a falta de energia elétrica, mas agora olhando para o escuro da biblioteca, eu gostaria muito que houvesse luz.
– Ei. — alguém me chama baixinho. Estou deitada no chão, perto de uma estante, e me viro para o lado da voz. John está me olhando, deitado voltado para mim. Estamos lado a lado.
– Ei. — digo. Mal posso enxergar o seu rosto, mas sei que está perto o bastante para eu sentir o calor do seu corpo.
– Você se importa se eu ficar aqui? — ele me pergunta, com a mais inocente das vozes. Sorrio.
– Não, não me importo, mas você vai ter que me servir de travesseiro. — cochicho para ele. John sorri no escuro e chega mais perto de mim.
– Tudo tem um preço, não é? — posso escutar o humor quando ele fala.
Me aproximo mais dele e deito minha cabeça em seu peito. Oh ele é um excelente travesseiro. John passa o braço ao meu redor e me aconchego mais nele. Tudo está tão silencioso.
– Confortável? — ele me pergunta, brincando com o meu cabelo.
– Aham. — digo e fecho meus olhos. Minhas noites poderiam ser sempre assim que eu não acharia ruim.
O silencio se apossa mais uma vez do lugar, e John continua mexendo calmamente em meu cabelo. É tão relaxante...
– Boa noite America. — John diz por fim.
– Boa noite John. — e assim caio no sono.
Acordo com barulhos de passos e quando abro os olhos, vejo que John não está mais aqui comigo. Me sento, esfregando os olhos, tentando afugentar a preguiça matinal. Olho ao redor da biblioteca. Craig está em uma das mesas, se divertindo em montar alguma arma. George está mexendo na mochila de comida distraidamente. Nem sinal de John. Me levanto e vou até George, que ergue a cabeça ao me ver.
– Olá rouxinol! — ele diz cantarolando. — Parece que alguém passou a noite bem.
Levanto uma sobrancelha ao ver um sorriso malicioso cruzar o rosto de George. O que foi que ele viu? Rio.
– Você e o senhor mau humor estavam muito bonitinhos quando eu acordei. Um abraçado no outro e tal. — ignorando-o, pego uma barra de cereal da mochila. — Ficar quieta é sinal de culpa Mare.
Mare? Essa é nova!
– Mare? — pergunto, olhando-o com humor.
– America é muito comprido as vezes.
– Ok. — simplesmente digo, dando mais uma mordida na barrinha.
George não desiste.
– Sou seu melhor amigo aqui. O que rolou entre vocês?
– Nada demais. — dou de ombros. — Apenas um quase sexo, uma fumada descontraída e ele me servindo de travesseiro.
George balança a cabeça rindo alto. Craig olha para a cara dele, mas logo perde o interesse, voltando para a sua arma.
– Um quase sexo? — ele pergunta ainda rindo.
– Ah você sabe... Sou uma garota esperta. Sem camisinha, sem transadinha. — rio, terminando com a barrinha de cereal.
George abre a boca e esbugalha os olhos. Quando me dou conta, lá está ele se dobrando de rir na minha frente. Vá entender esses homens... Reviro os olhos, sorrindo. George se vira para a mochila e começa a procurar algo dentro. Apenas observo quando ele aparece com um pacotinho de camisinha. Agora é a minha vez de abrir a boca esbugalhar os olhos.
– Mare, se você tivesse me dito antes que tinha a intenção de avançar para a terceira base com o Maddox, eu já teria te dado isso. — ele me entrega o pacotinho e eu fico intercalando meu olhar entre ele e o preservativo.
– Onde conseguiu isso?
– No mercado. — ele diz como se eu fosse louca. — Nunca se sabe né? — George ri novamente.
Coloco o pacotinho de Prudence no bolso de traz da minha calça jeans e quando abro a boca para agradecer, John entra pela porta da biblioteca, ainda vestindo apenas a parte de baixo de sua farda e uma camiseta lisa. Suspiro mentalmente. Seus olhos param em mim e ele dá o mais suave dos sorrisos. Sorrio de volta. George nos observa atento. Ele começa a assoviar animadamente, mas por trás disso há uma certa malicia. Tenho vontade de socar sua cara.
John vira sua atenção para George e logo fecha a cara, vindo até mim.
– Bom dia. — ele nos cumprimenta.
– Bom dia. — digo.
– Bom dia Maddox. — George começa, bem humorado. — Dormiu bem?
– Sim, eu dormi. Não que isso seja da sua conta. — John diz, seco. George ri mais uma vez e balança a cabeça.
– Acho que devemos ir embora. — Craig entra na conversa. Ele deixa sua arma na mesa e se junta a nós.
– Por que? — pergunto, não entendendo sua ideia. Estamos bem aqui, tranquilos na medida do possível. É raro encontrar um pouquinho de paz desde que o mundo foi a merda. Coloco minhas mãos na cintura.
– Estamos a tempo demais aqui, melhor sairmos antes de dar merda. — ele simplesmente diz.
– Não faz nem dois dias que chegamos aqui. — George começa. — Você está se sentindo bem cara?
– Estou, mas acho que temos que ir. — Craig começa. — Sei lá, procurar por mais pessoas, por mais sobreviventes.
– Você está falando sério? — John pergunta, semicerrando os seus olhos desconfiados para Craig. Ele balança a cabeça concordando.
– É claro que estou, seria bem melhor para nós. Além do que, movimento é vida. Ficar parado no meio disso tudo só vai fazer com que sejamos mortos. — Craig conclui.
Não sei de onde ele tirou essa ideia, sinceramente, mas eu concordo em partes. Movimento é vida. E eu não tenho certeza se depois de tudo o que aconteceu, depois da merda que o mundo virou, eu conseguiria apenas ficar quietinha em um lugar, brincando de casinha. Não acredito que isso seja possível, não mais.
– Craig pode estar certo. — digo e John automaticamente me olha feio. Encaro de volta. Não é como se eu fosse mudar de opinião só porque ele não concorda. Craig vira pra mim e me dá o mais cafajeste dos sorrisos. Reviro os olhos. — Acho que o segredo de continuarmos vivos, é continuarmos em movimento. Arriscamos nossas vidas saindo daqui? Sim, é claro. Mas me digam no que a gente não arrisca a vida hoje em dia?
Todos ficam em silêncio por alguns longos segundos.
– Tudo bem. — John diz por fim, indo até uma das mesas e enchendo a bolsa com as armas. Nossa, essa foi fácil. Vou até ele, enquanto George pega as duas mochilas com a comida.
– Tudo bem mesmo? — pergunto ao senhor bipolar que está concentrado guardando as armas.
– Aham. — ele diz e me dá um sorriso que não chega aos seus olhos. — Mas eu confesso que a ideia tola de ficar aqui por um bom tempo me parece bem mais atraente do que sair pra se aventurar de novo nessa porra.
– Ele está certo John, você sabe. — digo me referindo a Craig. John me encara e levanta uma sobrancelha. Ele não vai admitir isso, não mesmo.
– Tanto faz. — ele fecha o zíper da bolsa e a joga por um ombro. — Todos prontos?
Saímos da biblioteca, pulamos o portão, e logo já estamos do lado de fora do carro. Olho ao redor procurando por algum problema. É sempre assim. Mas franzo a testa ao encontrar a rua totalmente deserta. Estranho.
– Eu vou dirigir então. — Craig diz, já indo para o lado do motorista.
– Não, eu dirijo. — digo com as mãos na cintura. — Fala pra ele John.
– É um lance dela cara. A America sempre dirige. — John diz, balançando a cabeça. Vou para a direção e me sento no banco do motorista, fechando a porta em seguida. Espero. George entra no banco de trás.
– Ok ok. Então vou no banco da frente. — Craig volta, perto da porta do passageiro.
– Não, eu vou no banco da frente. — John diz, abrindo a porta e se sentando ao meu lado, carrancudo. Você está brincando que eles estão brigando por causa disso? John arruma conflito com todo mundo.
– Parem de encrenca porra! Craig, isso é uma coisa deles. — George reclama no banco de trás, enfiando sua cabeça para fora da janela. — A America dirige e o John é o copiloto. Deixe os dois serem felizes, senta logo atrás e cala a boca.
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