Scissors Hand
1 Scissors Hand
Com os olhos paralisados, sem qualquer tipo de reação ou lágrima, olhava para o chão. Quando se tornara aquele monstro? Um ser que descartava os outros do dia para a noite, por mero tédio ou cansaço. Sim.. "Tédio", era essa a palavra e sentimento que a atordoava todas as noites e tardes, ao estar sozinha, sem revelar-se a si. Como uma sombra, mantinha-se sempre atrás dela, e jamais saía. Poderia até não ser notada, mas ainda estava ali. Pode-se cortar tudo, mas não pode-se cortar o tédio. E ela sabia disso.
Agora, em vez de dedos via facas,tesouras,objetos cortantes. Em vez de coração, sentia uma pedra de gelo no lugar. Em vez de amor, sentia ausência. Um corpo de lata. "Sou nada além disso.", pensava. "Agora entendo... um corpo de lata, um coração de gelo. Mãos que ferem, existência que para nada serve se não machucar. ". Virou-se contra a mesa de cabeceira e esticou o pescoço, de forma a olhar para o teto, desamparada. "Por que o homem de lata queria tanto um coração? Fico melhor assim.." , murmurou. "Sim, fico melhor assim..."
Dirigindo-se ao banheiro, olhou seu rosto no espelho como quem vê a si mesmo pela primeira vez. Olheiras denotando o cansaço e stress de tais noites passadas em claro estampavam seu rosto, contrastando com a sua juventude. Tudo em si dizia a mesma coisa: cansaço. Estava exausta de pensar, de estudar, de sentir. Cansada de olhar pela janela e ver sempre a mesma coisa, tudo enquadrado perfeitamente como se estivesse em um museu de arte antigo. O que mais queria era dormir, por uma,duas,três horas. Quantas fossem necessárias. Poderia beber para descarregar os pensamentos, mas não tinha dinheiro. Deitar-se seria o melhor, no momento.
Deitando-se como se nunca mais levantar fosse, antes que fechasse os olhos, pensou um pouco. "Por que deve ser assim?", perguntava. E então, subitamente, lágrimas, como se estivessem embalsamadas dentro de si, escorreram em direção às suas orelhas, finalmente livres; finalmente libertas. Um suspiro de dor seguido de um sorriso de aceitação, e fechou as portas que as libertavam: não se permitia chorar. Não agora, que era como o inverno encapsulado num corpo. Não agora, que já fez tantos chorarem.
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