Schyler

59 Trinity Churchyard


Notas iniciais
Ooooooi, como vocês estão? E aqui estou eu postando o último capítulo antes do epílogo :( cara, vou sentir falta de escrever Schyler, não só porque foi o maior livro até hoje que eu já escrevi, mas porque eu me dediquei muito. Tomara que vocês gostem, deu o maior trabalhão esse capítulo UHSUHSUHSUHS e nem preciso dizer do próximo, o desfecho vai ser fofo e muito bonito, isso eu garanto ;) Boa leitura, nos vemos lá embaixo!!

Não sei por quanto tempo fiquei encarando Gabriel tentando demonstrar a ele o quão indignada estava. Bom, na verdade eu não estava realmente indignada, apenas queria que ele me explicasse direito o porquê de ter me agarrado de repente e me carregado durante um voo demorado e só pousamos horas depois no que parecia um cemitério.

Eu estava cansada e um pouco assustada pela surpresa, afinal, quando ele dissera “Temos muito o que fazer” eu realmente achara que poderia se tratar de algo em relação ao céu.

Mas, ao contrário do que pensei, pousamos em minha tão conhecida cidade, a mesma que fora palco de inúmeras cenas loucas e inesperadas de minha vida. A grande Manhattan parecia a mesma desde que fomos para o outro lado do mundo em uma viagem para... ahn, digamos que salvar o mundo ou quase isso. O mesmo trânsito louco, as mesmas pessoas apressadas e claro, os arranha-céus imensos espalhados por cada esquina da cidade.

Gabriel pousara em um dos três cemitérios que compunham o Trinity Churchyard, o qual eu considerava o mais belo. Não apenas porque a igreja que se relacionava ao cemitérios era como um pequeno ponto antigo em meio à tanta modernidade, mas porque minha mãe contara a mim e Carrie que fora ali que nossa vó foi enterrada.

Eu jamais conheci nenhum de meus avós e agora, sabia bem o porquê. De parte de mãe, ambos estavam mortos e de parte de pai, bom, eles nem sequer existiam. Havia sempre um motivo para que minha mãe nunca tocasse no assunto sobre meus avós paternos, algo que apenas agora, anos depois de tudo acontecer, eu fora capaz de entender o motivo.

– Gabriel, por que diabos estamos no Trinity Churchyard? – virei-me na direção do anjo caído observando-o sorrir com o canto dos lábios. Claro, ele sempre conseguia me surpreender, até mesmo nos momentos que eu não queria nenhum tipo de surpresa.

– Essa é uma das coisas que precisamos fazer. – ele esticou uma das mãos em minha direção, incitando para que eu a segurasse. – Vamos, você precisa ver isso.

Assim que segurei sua mão, Gabriel me guiou pelo caminho de concreto feito entre o gramado. Passamos por centenas de túmulos, entre os quais pareciam antigos e outros um pouco mais modernizados, com apenas uma lápide na grama. Por mais que fosse um lugar triste, eu sentia uma certa calmaria ali que jamais sentira em qualquer outro lugar, como se o cemitério tirasse todos o peso ruim de minhas costas.

Ou talvez fosse porque estávamos livres. Não havia mais guerras, lutas ou qualquer pessoa ferida. Não haveria mais ninguém nos seguindo ou querendo nos matar, estávamos livres de tudo o que nos perseguira durante os últimos meses. Apenas livres.

Por fim, Gabriel me levou até a parte mais afastada do cemitério, onde havia ainda poucas lápides comparadas ao centro do local. Ali, dentre todas, havia uma lápide um pouco mais delicada, com o mesmo formato que as outras, porém com a escrita em letras douradas e um desenho que não pude identificar na distância em que estávamos.

– Acho que será melhor se você vê-la sozinha. – ouvi meu anjo caído sussurrar baixo apenas para mim, apesar de não ter ninguém além de nós por ali. – Estarei aqui.

Um pouco confusa e com uma ansiedade transbordando de meu corpo, eu segui em passos curtos em direção à lápide pequena mal conseguindo conter os pulos de meu coração agitado no peito. Por mais que eu soubesse muito bem do que se tratava aquela lápide incomum, ainda assim não queria acreditar que pertencia a ela. Aquela seria sua casa a partir de agora, seria apenas um lembrete de que eu jamais a teria ao meu lado.

Quando enfim meus pés pararam de frente à lápide cinzenta, eu desabei. Meus joelhos atingiram o chão ao mesmo tempo em que minhas mãos agarraram-se ao concreto, como se aquilo pudesse ser um substituto para os ombros de minha irmã.

As letras douradas formavam o nome completo de minha adorável irmã mais velha, Carrie Jackson e logo abaixo, a data de seu nascimento e o ano em que estávamos. Eu senti as lágrimas enfim encharcando meu rosto e os soluços que reprimi por tanto tempo se apoderando de mim. Não havia mais porque disfarçar ou reprimi-los, estava na hora de eu deixar todo o sentimento de culpa, raiva e frustração deixarem meu corpo.

Fiquei segundos, minutos e talvez horas ali ajoelhada em frente ao túmulo sentindo que o choro poderia jamais acabar. Porém, fui interrompida com um toque macio em meu ombro da mão de Gabriel, o qual se erguia diante de mim com uma expressão de entendimento em seu rosto e um pequeno arranjo de margaridas tão brancas quanto as asas de um arcanjo em sua mão oposta.

– Eu trouxe isso. – ele disse calmamente abaixando-se para ficar da mesma altura que eu. De leve, ele pegou minhas mãos que agarravam-se com força ao túmulo e envolveu meus dedos no papel que cobria os galhos das flores.

Entendendo o recado, coloquei o arranjo sobre a grama em frente à lápide deixando que elas se encostassem ao objeto cinzento. Ali, eu deixava uma pequena lembrança para minha irmã, como um recado dizendo que eu sempre me lembraria dela não importava o que aconteceria em minha vida.

Aos poucos, acalmei-me o suficiente para que o choro não fosse nada além de uma única lágrima que deixara meu olho direito.

– Como fez isso? – perguntei virando-me para ele.

– Gail. – Gabriel sorriu com o canto dos lábios enquanto seus dedos brincavam com meu cabelo. – Deve se lembrar que ela não estava presente no julgamento. Eu só sabia que ela fez isso quando fomos mandados para a terra e durante o caminho, eu a vi arrumando o túmulo. Foi como um aviso e uma forma de dizer adeus.

E de fato, Gail não estava presente no julgamento e eu fora boba o bastante para não notar isso até aquele momento. Na verdade, nem ao menos tinha certeza da última vez que a vira, talvez fosse durante a guerra, quando a vi derrubando alguns demônios ou quando enfim conseguimos acabar com a fúria de Aliha um pouco antes de sermos mandados para o Salão negro.

Agora, apesar de feliz por ela ter feito isso, eu me arrependia mentalmente por nunca poder dizer obrigada por tudo o que ela fizera por mim.

– Ela é como Bastian, eu acho. – disse Gabriel interrompendo meus pensamentos. – Deve estar perambulando pelo mundo, conhecendo pessoas e se tornando uma delas.

Juntos, levantamos da grama em frente a lápide e só assim eu notara que não havia tirado meus olhos das flores brancas que agora balançavam ligeiramente com a brisa de Nova York.

– Parece que não vamos ver ninguém de novo. – resmunguei não conseguindo esconder a frustração. – Todo esse tempo lutando pela mesma causa e agora que conseguimos, parece que eu só perdi meus amigos.

Deveria ter soado triste e melancólica, porém no momento em que eu ouvi a gargalhada de Gabriel, percebi que deveria ter soado um pouco mais birrenta do que deveria.

– Nós vamos ver eles de novo, Schyler. – ele disse envolvendo-me pela cintura apertando meu corpo contra o dele. – Não sei como e muito menos onde, mas vamos vê-los e com certeza, teremos muitas surpresas pela frente.

– Nada de demônios, anjos negros e muito menos fúrias querendo arrancar minha cabeça, eu espero.

Ambos rimos de minha piada de muito mau gosto fazendo com que o silêncio do cemitério fosse tomado por ecos e mais ecos de nossas risadas.

Eu observei Gabriel aproximar nossos rostos indicando o que ele faria a seguir, mas quando nossos lábios estavam a ponto de se tocar, tudo o que fiz foi afastá-lo nada delicadamente.

– Nem pense nisso, eu não vou beijar você em um cemitério! – exclamei caminhando para longe dele e deixando-o parado entre as lápides provavelmente com uma expressão confusa.

– Schyler! – ouvi-o gritar atrás de mim, porém tudo o que eu fazia era caminhar e rir baixinho. – Mas que... Schyler, espere ai!

Apenas depois de longos segundos caminhando sozinha para a saída do cemitério, eu senti que Gabriel agarrara meu braço impedindo que eu sequer pensasse na possibilidade de continuar andando. Sua expressão era leve e seus olhos violeta me repreendiam apesar de ele não parecer nem um pouco irritado. Essa era uma das vantagens e desvantagens de se apaixonar por um anjo caído: Você nunca fazia a menor ideia do que ele estava pensando.

– Será que você pode parar de sempre escapar dos meus braços quando enfim não existe nada querendo nos separar?!

Franzi o cenho.

– E quando isso aconteceu antes?

– Não aconteceu, mas eu estou com a impressão que você fará isso todas as vezes que eu tentar beijá-la a partir de agora. – logicamente, eu comecei a gargalhar muito. Mas muito mesmo. – O que, vai se fazer de difícil agora?

– Claro que sim, achou que eu seria fácil de conseguir agora só porque não temos mais um bando de demônios querendo me matar?! – questionei ainda que estivesse rindo muito.

Gabriel ignorou minhas risadas no instante em que segurou meu rosto de leve pelo queixo, fazendo com que eu ficasse bem de frente para ele. Nem um pouco hesitante, senti-o novamente envolver minha cintura com os braços puxando meu corpo contra o dele. Apesar de toda a conversa sobre ser difícil, eu não estava nem um pouco a fim de interrompe-lo e por sua expressão misteriosa e sedutora de anjo caído, ele também parecia que nada pudesse pará-lo agora.

Nossos lábios estavam a ponto de se tocar, entretanto um som estridente de algo tocando fez com que eu me afastasse dele.

– O que... – meus dedos tocaram algo no bolso de trás de minha calça jeans e pude sentir um objeto retangular ali. Confusa, levei meus dedos para dentro do bolso e puxei o objeto para fora tendo uma surpresa. – Meu celular ainda existe?

Gabriel parecia tão atordoado quanto eu.

Não conseguia me lembrar da última vez que vira o objeto comigo, talvez fosse pouco antes de irmos para a China ou quando enfrentamos Johnny possuído por um demônio. Fazia muito tempo e nenhum sentido a presença do objeto em minha calça depois de tudo o que acontecera.

Rapidamente, procurei por qualquer sinal de o porquê de ter tocado e mais uma vez – a terceira surpresa no dia – uma mensagem aparecera na tela.

Sétima avenida, número 70. Quinto andar, apartamento 51.

– O que é isso? – perguntei só reparando depois que saíra em voz alta.

Gabriel pegou o aparelho de minhas mãos e ficou um longo tempo lendo e relendo a mensagem, provavelmente imaginando de quê outro aparelho ela poderia ter sido enviada.

– Só tem uma maneira de descobrir. – ele me entregou de volta o aparelho e fez um sinal para a rua tumultuada do lado de fora do cemitério. – Precisamos ir até a sétima avenida.

[...]

Horas depois dentro de um táxi ouvindo o motorista contar suas histórias sobre como a cidade anda perigosa demais e ele fora assaltado algumas centenas de vezes, finalmente chegamos à sétima avenida. Eu estava ansiosa demais para entender de onde surgira aquela mensagem e, principalmente, o porquê de estarmos sendo mandados para lá. Milhares de possibilidades me vieram em mente – talvez uma armadilha, pois os demônios poderiam ainda estar atrás de nós, Lúcifer querendo se vingar e até mesmo Bastian fazendo uma surpresa. Eram opções demais e nenhuma delas parecia ser realmente o que estava acontecendo.

Gabriel permaneceu a viagem toda em silêncio ao meu lado apenas movendo-se enquanto seus dedos traçavam círculos imaginários em minha mão entrelaçada a dele. Os olhos violeta fitavam o lado de fora do carro como se para ele, a imagem das pessoas apressadas fosse algo formidável. Poderia até ser, pois Gabriel queria se tornar humano e ser como aquelas pessoas do lado de fora. Seria complicado apesar de ele ter vivido por tanto tempo em meio à humanos antes de me conhecer. Mas eu sabia que ele conseguiria, afinal, usar um táxi apesar de ter asas já era um grande avanço.

Por fim, o táxi estacionou próximo a calçada do lado esquerdo da avenida bem em frente a um prédio branco residencial. Pagamos o motorista nos despedindo e agradecendo pelos milhares de avisos sobre não andar desprevenido e não segurar o celular em mãos durante uma caminhada.

Enquanto Gabriel terminava o assunto com o homem, eu observei o prédio tentando entender o que estávamos fazendo ali.

– Isso não faz sentido nenhum. – murmurei comigo mesma.

– Talvez faça quando chegarmos ao apartamento. – ouvi Gabriel dizendo logo atrás de mim. – Vamos.

Juntos, seguimos para a portaria do prédio, onde um próximo obstáculo teria que ser enfrentado para entender o porquê da mensagem.

– Posso ajuda-los? – perguntou o porteiro do prédio colocando sua cabeça para fora da guarita. Era um homem de meia idade sorridente e um pouco calvo.

– Nós, ahn... meu nome é Schyler Jackson. – eu disse ainda que um pouco envergonhada. – Nós...

– Ah, Srta. Jackson! – exclamou o porteiro surpreendendo a mim e Gabriel. – Por que não disse antes?! Podem subir os dois.

Atordoada, virei-me na direção de Gabriel na esperança de que ele estivesse entendendo alguma coisa, porém o anjo caído parecia tão confuso quanto eu quando fez um sinal com a cabeça para que eu entrasse no prédio e seguisse o porteiro. O homem – o qual agora eu podia ver o quão baixinho ele era – nos guiou para o elevador e desejou um bom dia antes de voltar para sua guarita sem em nenhum momento tirar o sorriso dos lábios.

Juntos, eu e Gabriel seguimos para o quinto andar e ao chegar, não sei por quanto tempo fiquei encarando a porta de madeira clara. Era surreal, como se tudo aquilo fosse um sonho interminável e confuso. O porteiro sabia meu sobrenome e agia como se já me conhecesse e recebemos uma mensagem de algum desconhecido nos mandando até lá. Isso não fazia sentido algum.

Retomando a coragem, fiz o que qualquer pessoa normal teria feito num momento como aquele:

Bati na porta.

Passaram-se segundos e enfim minutos e não ouvimos qualquer movimento que fosse do lado de dentro do apartamento. Todo meu ser já estava ansioso demais para esperar, então frustrada, afastei-me da porta lutando para acabar não chutando a madeira.

– Isso é ridículo, o que estamos fazendo aqui?! – esbravejei. – Está óbvio que não tem ninguém ai! Quem diabos mandou aquela mensagem?!

– Schyler, silêncio! – sibilou Gabriel fazendo uma careta. Sua atenção estava voltada para algo colocado de baixo do tapete vermelho posto em frente a porta. Uma ponta branca parecendo ser papel saia dali e junto a ele, algo feito de metal parecia ter sido posto há pouco tempo. – O que é isso?

Em uma única puxada, Gabriel retirou o bilhete junto a uma chave de metal, indicando que deveria ser da porta do apartamento bem a nossa frente.

“Eu sei que é um pouco tarde para me redimir por tudo o que fiz para você, minha filha, mas ainda assim acho que deveria tentar. Vaguei por muito tempo neste mundo, conheci pessoas e claro, lugares que eu deveria tê-la trazido comigo. Mas a vida é uma caixinha de surpresas e eu fui bobo o bastante para deixa-la, Schyler. Perdoe-me, filha, por nunca tê-la defendido quando necessário e não ter sido o pai que você merecia. Esse é meu presente para você e Gabriel, para que passem a vida juntos e em um lugar onde eu possa encontra-los daqui algum tempo. Espero que aproveitem meu presente e quem sabe nos veremos logo. – B.”

– Acho que agora tudo faz sentido. – resmunguei passando os dedos pelo bilhete como se isso fosse trazer meu pai de volta. Um sorriso brotou de meus lábios. – Pelo menos não é nenhuma armadilha.

Meus olhos se dirigiram para ele, o homem ao meu lado que olhava para a porta de madeira como se ela pudesse dizer algo, responder a seja lá qual fosse a pergunta em sua mente. Apenas alguns segundos depois, ele percebeu que eu o encarava e um sorriso erguera o canto de seus lábios. Eu o vi aproximando-se devagar avaliando minhas reações à presença dele. Pousou uma mão em minha bochecha e a outra, desceu pela lateral de meu corpo fazendo a trilha de curvas sinuosas de minha cintura até o quadril. Só então, ele veio até mim e diminuiu a distância de nossos lábios em um beijo único, resultado de um turbilhão de sentimentos retraídos.

Era como se nosso beijo tivesse vida própria e pudesse dizer “Estamos livres”.

– E pensar que você deveria ter medo de mim como todo humano sente ao ver um anjo caído. – ele murmurou por cima do beijo, arrancando um riso meu.

– Caso não se lembra, amor, — respondi fazendo com que nos separássemos e só assim eu me desse conta de que estava contra a parede. – eu não sou humana.

– Schyler Jackson, pare de ser tão corajosa. – eu conhecia aquelas palavras. Eram as mesmas do dia em que nos conhecemos, do dia em que eu fui atrás dele no restaurante em que trabalhava e ainda usava o nome Caleb para se esconder de Aliha e os demônios.

– Você é louco. – repeti minha mesma resposta, porém ao contrário daquele dia em que eu fugia do restaurante, eu me agarrei ao cabelo dele, sentindo-o ficar ainda mais colado em mim.

Gabriel, ou meu eterno Caleb, jogou-me aquela mesma expressão repleta de mistério fitando-me com os olhos violeta que, vários meses atrás, teriam me assustado de uma forma que eu jamais seria capaz de explicar.

– E realmente sou, Nefilim. – ele disse. – Louco por você.

Notas finais
TO EM PRANTOS AQUIIIIIII Quero comentários hein u.u por favor, é o último capítulo narrado pela Schy!!!! Beijocas :) x