Schyler
29 Desentendimento
Notas iniciais
Havia ódio e todos os tipos de sentimentos relacionados a isso quando Gabriel atacou o anjo negro e o fez voar atravessando todo o campo até atingir o tronco de uma árvore, a única que sobrara desde o primeiro dia de meu treino. O anjo negro atingiu o tronco, fazendo-o se despedaçar e seu corpo ficar entre os pedaços perigosamente pontudos, os quais apontavam em sua direção. Sem nem ao menos olhar para mim, Gabriel abriu as asas novamente e pairou até o anjo negro caído sobre os pedaços de tronco e o segurou pelo pescoço contra o chão.
Ainda caída sobre o chão, tentei controlar minha respiração ofegante observando a forma furiosa que Gabriel ficara. Eu deveria acreditar em tudo o que o anjo negro disse? Era confiável?
Sem pestanejar, levantei-me do chão e corri na direção dos dois a tempo de ver Gabriel segurando com uma força violenta o pescoço do anjo negro, o qual era coberto por marcas negras em diferentes símbolos e formas.
– Guarde suas mentiras para si mesmo. – rosnou Gabriel com uma expressão perigosa e um pouco assustadora. – Se ousar tocar um dedo nela, você morre entendeu?!
O anjo negro, o qual era segurado com força contra o chão e os pedaços pontudos de madeira, simplesmente começou a gargalhar. Sua risada era irônica e um pouco ofensiva.
– Acha que tenho medo de você? – ele ria descaradamente. – Um ex arcanjo? Poupe-me, Gabriel, se eu fosse ter medo de você já teria enfartado com o próprio Lúcifer!
Como uma ameaça, Gabriel apertou mais seus dedos em torno do pescoço do anjo, fazendo com que ele se curvasse e lutasse para respirar.
– Estou avisando, seu maldito anjo negro, eu posso mata-lo agora mesmo.
Com dificuldade, o anjo negro permaneceu tentando respirar até que ouvi algumas poucas palavras escapando de seus lábios. Os olhos dele pairavam sobre mim parada ao lado dos dois, indicavam um aviso ou ameaça.
– Você pode ser a chave, mas Aliha e os demônios vão mata-la.
Em choque, dei dois passos para trás e o som fez com que Gabriel percebesse minha presença ao lado dos dois. Ele pareceu um pouco assustado por eu estar ali, porém ao mesmo tempo, parecera preocupado com o fato de eu ter ouvido algo que prejudicaria meus pensamentos sobre a guerra.
Com isso, Gabriel nem sequer terminou de apertar seus dedos em torno do pescoço do anjo e trocou a forma de mata-lo pegando um dos pedaços de madeira e o fincando bem no peito do anjo negro. Ele arqueou o corpo até que o mesmo se tornou apenas uma pilha de uma poeira escura.
Gabriel saiu do meio dos pedaços de madeira sem me olhar nos olhos. Recolheu suas asas colocando-as dobradas atrás de suas costas.
– Não deveria ter ouvido isso.
Levantei meus olhos em sua direção percebendo que ele encarava o chão e tinha uma expressão impossível de decifrar.
– Eu precisava ouvir isso. – disse. – Eles são muito mais fortes, Gabriel, está quase óbvio o que vai acontecer!
– Não quis dizer sobre isso. – interrompeu. – Sobre mim, Schy. Eu não sou o que ele disse, jamais pensei em absolutamente nada do que ele queria que você acreditasse...
– É verdade sobre meu pai? Ele nos afastaria se estivesse vivo? – eu sabia que estava pegando pesado com Gabriel, afinal, ele deveria estar se sentindo tão culpado quanto eu.
Gabriel abaixou os olhos novamente. Ele estava tão próximo de mim, os braços à pouco centímetros dos meus, tanto que todo o sentimento da falta que senti dele veio à tona. Eu sentia falta da segurança que sentia quando ele estava por perto, de tudo que havia em Gabriel. Passamos dia sem nem ao menos nos falarmos e por essa razão, tê-lo agora bem a minha frente parece tão estranho quanto bom.
Ele hesitou em responder até que finalmente fechou os olhos por longos segundos e disse:
– Sim.
Isso foi o estopim para que eu simplesmente desse às costas para ele e andasse na direção da casa que fiquei por todos esses dias. Eu tinha a completa noção do quão apressada que estava sendo, porém, ouvi-lo dizendo exatamente o que eu esperava.... bom, não fora bem como eu queria. Era doloroso saber que parte das mentiras do anjo negro, na verdade, eram verdade, ainda mais sendo Gabriel e meu pai “verdadeiro”.
Andei de forma apressada na direção da casa tentando controlar as lágrimas e todos os pensamentos que rondavam minha mente.
“Você acha mesmo que um arcanjo desistiria de seu posto no céu por causa de ciúmes dos humanos?”
“Acha que ele desistiria do céu por uma garota?”
Fazia tanto sentido que doía meu peito. Por mais que ele mentira para que pudesse me matar, havia tanto sentido nas palavras do anjo negro que elas pareceram se tornar verdade em minha mente. Por que Gabriel desistiria de seu posto no céu por causa de ciúmes e de mim? Um arcanjo não faria isso, o fato de ser um dos postos mais importantes no céu já indicava o quão absurdo isso seria.
Gabriel estava mentindo.
– Schyler! – ouvi-o me chamar quando eu estava próxima da casa. – Droga, Schyler, espera!
Eu estava prestes a abrir a porta da casa quando ouvi o som de asas sendo abertas e batidas como se estivessem sendo usadas. Logo, senti a mão forte do anjo segurando-me pelo braço e me puxando para trás, na direção dele.
– Por favor, me escuta. – disse ele segurando-me com muita força, eu não tinha nenhuma chance de escapar de suas mãos. – Você não pode acreditar em anjos negros, Schyler. Eles são mentirosos, trapaceiros!
Eu não conseguia encara-lo nos olhos.
– Não importa, Gabriel! – exclamei não conseguindo controlar o tom de minha voz e muito menos as lágrimas que insistiram em escapar de meus olhos. – Você era um arcanjo! Não desistiria de tudo por mim, não do seu cargo no céu! É óbvio, você mentiu para mim, sempre mentiu e eu fui burra o suficiente para acreditar!
Não sei se forma impressão minha, mas a expressão dele era dolorosa e ao mesmo tempo, indignada. Por um instante, achei que estava sendo ignorante e apressada demais para ouvi-lo e entender que algo em meio à minha lógica era errado. Mas.... tudo parecia real demais.
– Desistir de tudo? Não vê que já fiz isso?! – disse furioso. – Eu desisti do meu cargo por você, por causa do ciúme que eu sentia dos humanos, de tudo! Não aguentei a hipocrisia, as mentiras e o fato de que eu não podia negar estar completamente apaixonado por você! Schyler, como posso estar mentindo se tudo isso aconteceu?
– O que...
Ele me segurou com uma força sobrenatural, puxando-me na direção de seu corpo até que estávamos completamente grudados um contra o outro. Seu rosto estava muito próximo ao meu e seus olhos pairavam sobre os meus de uma forma intensa.
– Eu não menti, jamais mentiria para você. – sussurrou. – Eu não era nada quando arcanjo, nada fazia sentido. Agora eu tenho algo com que me preocupar, alguém que eu possa cuidar. Schyler... eu te amo.
Eu deveria ter ficado paralisada logo ao ouvir aquela frase, deveria ter me sentindo especial e abraçado aquele anjo bem a minha frente. Porém, não o fiz. Eu não fiquei paralisada ao ouvir as palavras de Gabriel, pois ainda haviam informações má interpretadas em minha mente, principalmente as que se tratavam de meu pai.
Nunca admiti isso, mas quando se tratava de meu verdadeiro pai – e não o que me expulsou de casa – ou melhor, o anjo caído, eu nunca consegui compreender direito. Havia uma grande chance de eu nunca conhece-lo, porém, jamais consegui superar saber do fato de ele ser um anjo, assim como Gabriel.
– Schyler... você deveria dizer alguma coisa. – murmurou Gabriel à poucos centímetros de mim. Sua expressão parecia confusa e um pouco assustada.
– Eu sei. – engoli um seco. – Só preciso de um tempo. Daqui alguns dias a baía de Manhattan vai se tornar um campo de guerra com três lados tentando ganhar... eu só preciso de um tempo para checar os planos, mapas e....
Gabriel franziu as sobrancelhas negras. Ele parecia ainda mais confuso que antes tentando entender o porquê de minha mudança repentina de assunto, afinal, estávamos falando sobre nós há poucos segundos atrás e agora eu falava sobre os planos e a guerra? Bom, fazia sentido ele estar confuso.
– Você não pode estar falando sério.
Soltei um longo suspiro enquanto apenas assentia.
– Estou. – falei. – Sabia que tudo isso está sendo jogado sobre mim? Quero dizer, a guerra, os anjos negros, Aliha querendo me matar, os treinos, o que eu posso fazer, os demônios, meu pai e você! Tudo isso está formando um peso enorme nas minhas costas e ninguém vê isso!
Havia grandes chances de eu me arrepender depois de dizer tudo isso para Gabriel, mas... eu precisava. Quando disse sobre o grande peso em minhas costas estava falando sério e o quanto isso me magoava.
– Você nunca me disse que se sentia assim. – o ex-arcanjo bem a minha frente, o mesmo que poderia ser muito mais poderoso que eu ou qualquer outra pessoa parecia uma criança indefesa. Gabriel parecia ingênuo e confuso.
– Claro que não! – exclamei. – Você não ligaria, está preocupado demais em recrutar os anjos caídos.
Gabriel parecia querer dizer alguma coisa, porém hesitava em continuar assim que seus olhos violeta encontravam os meus, os quais estavam pegando fogo de tão furiosos.
– Você precisa de um tempo de tudo isso, eu entendo. – murmurou ele triste. – Acho melhor... passar alguns dias com sua irmã em Nova York. Vou pedir que Gail a leve.
Ele não me olhava nos olhos mais, estava perdido, confuso e frágil. Gabriel, provavelmente, nunca esperava que eu dissesse algo como aquilo a ele, ainda mais pelo fato de ter ficado tantos dias sem me ver e agora, esperando que eu o abraçasse, estava à ponto de soca-lo.
– Ótimo. – murmurei. – Vou arrumar minhas coisas.
E sem dizer mais nada, dei às costas a ele e fui para dentro da casa.
[...]
Gail me ajudou a preparar minhas poucas coisas no quarto da casa na China. Claro, ela insistia para que eu ficasse ali e não cometesse a loucura de voltar para Nova York e ser atacada por um demônio sem a ajuda de ninguém. Bom, agora eu não era mais tão indefesa, afinal descobrira o que podia fazer por causa do fato de ser uma Neflin
– Sabe que ele só concordou porque tem medo de você enlouquecer, certo? — revirei os olhos para Gail, fazendo-a entender exatamente o que eu pensava. – Tudo bem, você sabe. Mas, Schyler é loucura, os demônios estão presos em Nova York e é mais que provável que vão ataca-la.
– Não importa, Gail. Eu sei me proteger. – resmunguei lutando contra uma peça de roupa que insistia em cair para fora da mala. – Posso proteger a mim e Carrie.
– Sei que sim, mas...
– Gail, eu vou. Fim. – interrompi voltando minha concentração a organizar minhas coisas.
Ela soltou um longo suspiro finalmente se rendendo. Ela era teimosa, ainda mais que eu, por incrível que pareça. Havíamos nos desentendido muito desde que cheguei na China, pois Gail achara que eu seria a causa da morte de todos nós, porém, ao ver o que eu podia fazer ela simplesmente mudou de ideia.
E eu a agradecia por isso.
Quando virei-me para dizer algo, percebi que Gail já havia saído do quarto deixando-me ali para que pudesse arrumar minhas coisas em paz. Sozinha, travei uma luta mental contra meus pensamentos tentando afastá-los do possível arrependimento de deixar Gabriel para trás. Ele deveria estar mal, tanto que não veio atrás de mim desde nossa conversa.
Droga, eu estava começando a me arrepender.
– Então você vai mesmo?
Ao ouvir aquela voz, foi como se todos os meus sentidos simplesmente se desligassem e meu coração parasse de funcionar. O timbre daquela voz poderia deixar qualquer um com pernas bambas e o coração disparado, porém, o meu parou. Ele estava a poucos centímetros de mim, com o corpo próximo às minhas costas. Eu podia sentir sua respiração contra meu pescoço e os olhos violeta queimando-me as costas.
– Vou. – eu disse tentando soar firme.
– Sabe que isso não é certo.
– Sei, mas quero ficar longe de você. Pelo menos por um tempo.
Senti ele soltando um suspiro.
– Não vou conseguir impedi-la. Você é a pessoa mais teimosa que conheço. – Gabriel riu de leve. – Mas... Schy, quando estiver lá sabe que pode me chamar. Eu vou estar sempre ouvindo, sempre ao seu lado, sempre de olho.
Virei-me em sua direção dando de cara com seu corpo extremamente próximo ao meu. Meu corpo gelou. Os olhos penetrantes encaravam-me sem dó nem piedade e os lábios carnudos tão próximos a mim que a tentação se tornou absurda.
– Eu sei. Por isso eu te amo.
[...]
O táxi estacionou a poucos metros da entrada de meu prédio velho. Tudo parecia igual – desde o porteiro gordo e assustador aos idosos que insistiam em brigar com ele por causa da limpeza do prédio. Carrie havia me mandado uma mensagem dois dias atrás avisando que já estava no meu apartamento tentando me encontrar, mesmo que eu tivesse avisado sobre ela não dever ir até Nova York. Claro, por ser minha irmã, também era teimosa.
Cheguei ao meu andar depois de alguns segundos no elevador. Quando as portas se abriram, segui pelo mínimo corredor até encontrar a porta negra de meu apartamento. Mas algo me fez parar.
A porta estava aberta.
– Carrie?! – chamei quando abri a porta e encontrei Belle aos meus pés miando desesperadamente. Ela pulou em meu colo e tremia muito. – Belle, o que aconteceu?
Em resposta, a gata negra miou de uma forma triste e se escondeu dentro de meu casaco.
Preocupada, segui pelo corredor da sala encontrando o sofá revirado, todos os meus objetos pessoais completamente bagunçados, jogados para todos os lados, Meu apartamento parecia ter sido feito como um campo de guerra. Com a respiração ofegante, segui até os quartos e encontrei as malas de Carrie jogadas sobre a cama – estavam rasgadas.
Haviam entrado.
Carrie estava em perigo.
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