Schyler
47 Ameaça de Lúcifer
Notas iniciais
As palavras se repetiram diversas vezes em minha mente, como ecos profundos e cada vez mais baixos. Por um instante, achei que fosse desabar por não aguentar o peso das palavras e de todo o seu significado, porém me mantive de pé tentando não parecer tão confusa do que jamais achei que ficaria. Mas estava impossível suportar o olhar extremamente paternal que Bastian me mandava mesmo que de longe. Agora, eu entendi o porquê da sensação de segurança quando eu estava próxima a ele e o porquê de ele parecer sempre tão preocupado comigo. Tudo fizera sentido com aquela pequena frase.
Porque Schyler é minha filha.
Fora como se todas minhas lembranças voltassem de uma vez só – o dia em que nasci, os dias terríveis que passei com meu padrasto sendo que poderia tê-los passado ao lado de Bastian. Tudo parecia girar em torno de uma única pergunta.
Por que ele foi embora?
Ainda não conseguia entender direito o fato de que eu estava diante de meu pai, a verdadeira pessoa que deveria ter passado a vida ao meu lado, porém foi embora deixando-me apenas com minha mãe. Ele estava bem ali, a tão poucos metros de mim com uma expressão tão culpada quanto o sentimento que eu sabia muito bem que ele tinha. Bastian era meu pai e eu sabia disso apenas agora.
– Que comovente! – a voz grave de Lúcifer fora a única coisa capaz de fazer-me voltar para a realidade, onde eu e meu pai estávamos separados por um demônio entre nós. – Um encontro entre pai e filha! Isso é realmente lindo!
Obviamente o demônio estava sendo sarcástico quando dissera aquilo, algo que foi capaz o suficiente para acender todo o ódio que eu já tinha dentro de mim. E claro, no meu caso, o ódio era muito bom.
– Agora sua morte vai ser ainda mais emocionante, Bastian! – disse o demônio voltando a sua expressão assustadora. – Porque agora além de mata-lo, vou torturar sua filhinha!
Sem nenhum tipo de aviso prévio, Lúcifer brandiu suas enormes asas negras e avançou na direção de Bastian, quem mal teve tempo de reagir. O baque do corpo do demônio o atingindo fora algo horrível, tanto que assim que ambos atingiram o chão, uma enorme cratera se abriu no asfalto. Agora, as pessoas da feira pareciam ver o que acontecia, pois corriam desesperadas para qualquer lugar longe dali, mas provavelmente não entendiam nada do que acontecia. Fora um misto de gritos e correria enquanto uma luta violenta acontecia entre os dois, quem trocavam socos incrivelmente fortes e eram jogados contra carros e postes quebrando tudo ao redor.
Eu não fazia a menor ideia do que fazer, pois nada que eu tentasse chamaria a atenção o suficiente do demônio para que ele soltasse Bastian. Porém, logo algo me veio a mente.
– Ei, Lúcifer! – chamei vendo que finalmente ambos paravam de tentar se matar e agora, o demônio estava parado encarando-me com um profundo ódio. – Talvez você não saiba disso, mas Miguel parece estar sendo um príncipe muito melhor que você. Ele conseguiu elogios por todo o céu e caso não tenha percebido, os humanos o idolatram. E você? É o que?
Ele me olhava agora de forma confusa, tentando compreender o que eu dizia. Porém, esse era meu objetivo, eu queria acender sua raiva.
E estava conseguindo.
– O que eu sou?! – esbravejou ele finalmente vindo em minha direção. – Eu sou o rei do inferno, garota! Eu mando no mundo dos condenados e vou leva-la para lá quando meus demônios a matarem!
– Um rei, Lúcifer? – perguntei sarcasticamente. – Um rei que é odiado pelos humanos enquanto seu maior inimigo é amado. Foi expulso do céu e obrigado à cuidar do inferno... o que você tem, Lúcifer? Você não tem nada.
Obedecendo exatamente o que eu queria, o demônio avançou em minha direção exalando uma raiva terrível que seria capaz de seu pior inimigo temer. Mas, ao contrário dos que tinham medo, eu estava preparada para aquele ataque. Minhas mãos cruzadas atrás de meu corpo já queimavam de uma forma intensa, cobrindo-me os braços até a região dos cotovelos.
E pouco antes de seu corpo atingir o meu, o fogo que saia de minhas mãos se brandiu contra o rosto do demônios, fazendo com que ele fosse praticamente jogado para trás. Um urro grave e desesperado escapou dos lábios do demônio, que despencou ao chão enquanto o fogo consumia sua armadura até suas asas negras.
– Schyler!
Do outro lado da rua, Gabriel, Tristan e Blair corriam em minha direção olhando incrédulos para o demônio queimando sobre o asfalto.
– Esse é...? – perguntou Tristan mal conseguindo disfarçar a surpresa.
– Sim. – eu disse ofegante. – O cara queimando no chão é Lúcifer.
– Eu prefiro não perguntar o que você fez. – murmurou Gabriel limpando algo em meu rosto. – Mas onde está Bastian?
Assim que ouvi novamente seu nome, a vontade interminável de chorar por estar bem ali ao lado dele depois de vê-lo defender-me do demônio. Ainda não havia chance alguma de eu me acostumar com o fato de Bastian ser meu pai, porém apesar de ser estranho e muito confuso, eu sabia que agora podia confiar nele e ter uma família de verdade. Enquanto permaneci imóvel, Gabriel caminhou até Bastian, quem estava sentado no asfalto segurando um dos braços, o qual sangrava de forma que o sangue se espalhasse por suas roupas.
Gabriel cortou um pedaço de sua blusa e envolveu o ferimento no braço dele para estocar o sangue, mas assim que sentiu o toque da blusa, Bastian gemeu de dor. Isso contraiu minhas entranhas, eu sentia uma vontade imensa de chorar de vomitar. O misto de emoções estava deixando-me confusa além do normal, eu não fazia a menor ideia de como agir.
Tirando minha atenção da ânsia, dei alguns passos tímidos na direção de meu pai observando Tristan e Gabriel ajudando-o a se manter de pé. Estava com vários cortes pelos braços e rosto e alguns hematomas começavam a se formar em sua pele. Tive vontade de ajudar, procurar por água ou remédios, mas não consegui mover nem um músculo sequer ao perceber que ele também me observava.
– Schyler, eu... – tentou ele.
– Você o que?! – eu disse mal me dando conta do quanto minha voz saíra trêmula. – Você sente muito? Você queria ter me contado antes? Bastian, deveria ter falado sobre isso no momento que Tristan o trouxe aqui! Você teve milhões de chances de me contar que era meu pai, mas preferiu ficar em silêncio!
Bastian apenas ouvia minhas palavras, seu rosto refletia a culpa que ele sentia no momento. Eu queria colocar tudo para fora, gritar coisas horríveis para ele por ter me feito pensar que meu padrasto era meu pai.
– Sabe o que eu passei com aquele homem?! – perguntei finalmente deixando que as lágrimas escorregassem por meu rosto. – Sabe as coisas horríveis que ele me disse por todos esses anos? Me fez pensar que eu era um monstro, uma aberração! E você poderia ter impedido isso vindo até mim, droga!
Ele permaneceu em silêncio por algum tempo, até finalmente voltar seus olhos violeta em minha direção.
– Acredite, Schyler, eu tentei. – murmurou ele. – Todos os dias depois que a deixei com sua mãe, eu me culpava e queria voltar para tirá-la dela. Mas... eu não podia, achei que você estaria melhor com ela. Eu não... eu não seria um bom pai.
Aquilo me atingiu como uma facada bem em meu peito. Por um momento eu quis acreditar nele, porém logo no outro, toda a raiva voltou de uma só vez e uma pergunta se formou em minha mente.
– Você a amou? – ele assumiu uma expressão confusa e minhas lágrimas voltaram a rolar. – Você amou minha mãe?
Um sorriso mínimo surgiu nos lábios dele, como se aquela fosse minha resposta.
– Mais do que tudo no mundo.
Logo, todas as emoções que eu sentia naquele momento praticamente evaporaram para fora de meu corpo. Fora como se tudo envolta desaparecesse e estivessem ali apenas eu e meu pai, alguém que sorria de forma triste em minha direção, como um verdadeiro pedido de perdão. Apesar de indireto, eu sabia que aquilo servira como um “me desculpe”, mas ainda assim não conseguia dizer nada ou me mover, apenas secar as lágrimas que insistiam em cair.
Entretanto, interrompendo completamente meu “quase” momento de pai e filha, um som estranho chamou nossas atenções para onde Lúcifer antes estava queimando violentamente no chão. Agora, o fogo havia parcialmente apagado e todo o corpo humano do demônio estava queimado numa imagem nem um pouco agradável. Porém, ao contrário do que pensei, as asas e inclusive a pele começavam a se curar sozinhas, mesmo que ele ainda permanecesse exausto e fraco.
– Acho bom que vocês se prearem para essa guerra, anjos renegados. – disse ele tentando repetir o tom ameaçador, mas por estar fraco, a voz saíra entrecortada. – Porque vão estar mortos logo!
– Chega de blefes, Lúcifer. – disse Gabriel conseguindo ser ainda mais firme que o demônio. – Você acabou de ser exposto, já está mais encrencado que qualquer um por aqui.
O demônio gargalhou com desgosto.
– Pouco me importa se o céu vai querer me julgar! – ele abriu as enormes asas negras, as quais estavam quase totalmente recuperadas. – Só saibam que o seu lado será o derrotado e sua querida garotinha, estará morta! A guerra daqui dois dias será o fim de todos vocês!
Sei que deveria ter me sentido ofendida e ameaçada com aquilo, porém a única coisa que me veio em mente foi segurar Gabriel, quem estava a poucos metros de mim pronto para recomeçar uma briga violenta com o demônio. Assim que passei meus braços em torno de sua cintura, impedindo que ele avançasse, senti que Gabriel foi relaxando aos poucos, mas seu rosto ainda refletia um ódio sem fim.
– E você, Nefilim – disse ele apontando diretamente para mim. – não pense que essa será a última vez que nos veremos.
E antes que qualquer um de nós pudesse atacar, Lúcifer desapareceu entre uma lufada de ar e chamas intensas.
[...]
Quando o carro estacionou bem ao lado da casa, vários dos anjos estavam parados à porta acompanhando os movimentos de cada um de nós, principalmente quando Tristan e Gabriel saíram ajudando Bastian a andar. Carrie estava sentada nos primeiros degraus da entrada da casa, pelo o que pude ver roía as unhas de forma constante e parecia estar ainda mais assustada que eu estive.
Segui os dois ajudando Bastian até a casa e mal pude respirar quando minha irmã correu até mim enlaçando-me com seus braços num abraço de urso apertado.
– Schy, desculpe não ter ficado lá! – disse ela com a voz abafada por minha jaqueta. – Você me disse para avisar Gabriel e Tristan e... eu entrei em pânico! Você está bem? Se machucou?
– Carrie, pode se acalmar, eu estou bem. – respondi afastando-a de leve para mostra o quão bem eu estava. Bom, parcialmente. – Você fez a coisa certa.
Ela sorriu em resposta parecendo mais tranquila quanto aquilo, mas ainda assim não me soltava de jeito nenhum, sempre com um dos braços envolvendo o meu. Juntas, seguimos com os outros para dentro da casa para que Alec pudesse cuidar do ferimento fundo no braço de Bastian. Ele se debatia um pouco quando o moviam demais, principalmente ao subir a escada e Tristan sem querer soltar uma das pernas dele, a qual bateu contra a porta da casa.
Juntos, carregaram Bastian até o mesmo quarto que colocaram Blair quando ela chegou colocando-o sobre a cama tomando cuidado com os ferimentos longos sobre o dorso dele. Nos ombros haviam grandes hematomas escuros e nos braços, alguns cortes profundos feitos pelas asas pontudas do demônio.
– Cuidado com ele! – repreendeu Alec pedindo espaço enquanto se colocava ao lado do anjo caído. – Ele não está se curando, tem alguma coisa errada.
Isso fez com que eu ficasse em alerta no mesmo instante tentando não parecer desesperada enquanto encarava meu pai deitado sobre a cama debatendo-se. Alec levantou as mandas da blusa de Bastian para verificar os ferimentos do ombro, mas assim que o fez, colocou-se de pé rapidamente num salto, como se algo o tivesse assustado.
– Alec, o que foi? – perguntou Gabriel colocando-se ao lado do anjo.
– Lúcifer injetou veneno, nele... – murmurou, mas logo que terminou, virou-se para os que estavam na sala. – Todos para fora, eu preciso de espaço!
No mesmo instante, Gabriel começou a tirar todos do quarto, inclusive Blair, quem aparecera em algum momento em que entramos. Ela olhava em direção da cama com uma expressão aterrorizada, porém foi tirada do quarto antes que pudesse dizer qualquer coisa.
Gabriel bem que tentou me tirar dali, mas o segurei antes que pudesse.
– Não, eu vou ficar aqui. – eu disse tentando soar firme, apesar do medo.
– Schy, ele vai sofrer... muito. – sussurrou. – Eu já vi um anjo caído ser envenenado por Lúcifer, é algo doloroso e ele vai gritar muito.
Apenas neguei soltando-me de seus braços e caminhando até onde Alec estava pegando alguns objetos e líquidos dentro de alguns potes do armário. Não fazia a menor ideia de como eles trouxeram aquilo até a casa, pois havia pelo menos vinte frascos com diferentes objetos estranhos e líquidos de cores diferentes. Alec pegou um cuja cor era esverdeada e outro vermelho antes de misturar ambos em um único pote.
– O que é isso? – perguntei tentando não atrapalhá-lo.
– Essa mistura vai ajuda-lo a não sentir dor durante o processo de retirar o veneno do sangue dele. – disse Alec continuando a misturar os líquidos até se tornarem cinzentos. – É bom que tenha ficado, Schyler, vou precisar de ajuda.
Franzi o cenho ao ouvir aquilo segundo Alec novamente até a cama, onde Bastian ainda se debatia, porém agora havia um pano branco encharcado sobre sua testa. Alec pediu que eu segurasse a mistura enquanto ele se sentava sobre o chão ao lado da cama e pedia novamente o frasco.
– Vou jogar algumas gotas da mistura sobre os ferimentos, enquanto isso quero que segure o braço nele e o esquente. Quando eu começar a tirar o veneno, a temperatura do corpo vai diminuir muito.
Antes que eu pudesse sequer me mover, Alec despejou algumas gotas sobre os ferimentos abertos de Bastian, fazendo com que o mesmo soltasse um grito alto desesperado. Apesar de não saber bem o que fazer, concentrei-me até sentir todo meu braço esquentar o mínimo possível e o coloquei de leve sobre as mãos de Bastian. Os dedos dele estavam congelantes, começavam a ficar escuros, porém assim que toquei minhas mãos quentes, ele parecia começar a melhorar. Logo, passaram de uma imagem mórbida de algo congelando para algo quase que normal, parecendo ficar cada vez mais quente.
Seu rosto se suavizou no mesmo instante que o gelo pareceu diminuir. Alec pingou mais algumas gota sobre um último ferimento no peito de meu pai e enfim tampou o frasco e colocou-o sobre a mesinha indicando que havia acabado.
– O veneno saíra aos poucos enquanto os ferimentos se fecham. – disse ele limpando as mãos com um pano que Gabriel deixara ao seu lado. – Mas ele precisa dormir agora, logo estará melhor.
Alec olhou em minha direção como se o aviso fosse direto para mim, pois ele sabia bem que eu queria passar agora o maior tempo possível ao lado de meu pai. Porém, entendendo o aviso do anjo, deixei o quarto dando uma última olhada em Bastian antes de ver a porta se fechando.
Já do lado de fora, Gabriel e Carrie me esperavam um ao lado do outro, ambos de braços cruzados e uma expressão quase que confusa e curiosa. Por um mero segundo tive vontade de rir por eles estarem da mesma forma, mas sabia que nenhum acharia graça, principalmente num momento como aquele.
– Vocês têm noção de que estão na mesma posição me fuzilando da mesma forma? E que isso está me assustando? – perguntei franzindo o cenho. – É sério, eu estou com medo.
Carrie revirou os olhos.
– Ótima hora para piadinhas, Schy. – disse sarcasticamente. – Não achei que essa fosse ser sua reação ao saber do próprio pai.
– Estou tentando levar numa boa tudo isso. – resmunguei. – Só por fora eu pareço bem, porque minha cabeça está formigando de tanto pensar sobre Bastian. Quero dizer... isso é demais, ele é meu pai.
Sem qualquer sinal prévio, Gabriel envolveu meus ombros com um de seus braços puxando-me para mais perto dele de uma forma protetora. Na verdade, grande parte dos abraços de Gabriel tinham um quê de proteção, como se tudo o que ele mais quisesse fosse apenas isso. E bem, eu não duvidava.
Apesar de querer permanecer para sempre naquele abraço, fomos obrigados a nos separar assim que Tristan surgira de repente correndo de forma desesperada. Sua respiração estava ofegante e não importava quantas vezes perguntávamos o que havia acontecido, ele apenas erguia a mão direita num sinal para que esperássemos.
– Vocês precisam vir comigo. – disse ele ofegante puxando grandes quantidades de ar para os pulmões. – Blair... e Lieene... tiveram visões iguais.
Nossas expressão confusas foram imediatamente trocadas para algo assustado e até mesmo curioso.
– O que? Como assim? – perguntei ajudando-o a manter uma posição ereta para falar de forma coerente.
– Blair e Lieene tiveram uma visão igual sobre a guerra. – disse ele de forma desesperada. – Precisam ouvir isso, é algo sobre ter sido antecipada.
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