Schyler

32 A floresta


A floresta que teríamos que enfrentar para encontrar Carrie e os anjos negros que a sequestraram, era densa e por isso, eu soube que seria mais difícil do que pensei concluir aquele plano absurdo de resgatar minha irmã. Vendo a floresta a minha frente, o ódio que eu sentia por Aliha só crescera, mas não apenas por ter pego uma das únicas pessoas importantes de minha vida, mas sim, por ter feito isso por egoísmo. Aliha era um anjo completamente egoísta e sem noção das consequências de seus atos.

Tristan caminhava bem a minha frente me guiando pelo caminho traiçoeiro de galhos e pedras escondidos que poderiam causar algum acidente. Ele estava sempre com o braço esquerdo um pouco para trás de seu corpo para que pudesse me ajudar caso algo acontecesse. Por mais que eu achasse exagero da parte dele, Tristan me mandava ficar quieta todas vezes que reclamei, porém ria logo depois demonstrando que tudo não passava de uma brincadeira.

Continuando nossa caminhada, tivemos que ficar em silêncio constante, pois sons de alguns animais nos mantinham alertas. Havia algo naquela floresta, não apenas os perigosos anjos negros, que poderiam aparecer a qualquer momento.

– Eles não apareceriam assim de repente. – disse Tristan como se lesse meus pensamentos. – Anjos negros são espertos demais. Aliha escolheu bem, a horda de Lúcifer é uma das mais inteligentes e bem articuladas, poderiam atacar sem nós dois nem percebermos.

Engoli em seco.

– Acha que Aliha os mandaria antes que encontrássemos Carrie? – perguntei enquanto me apoiava em uma árvore para pular entre uma pedra e outra.

– Sim. Tenho quase certeza que teremos que enfrenta-los.

Ótimo. Por um momento, eu ainda tinha esperanças de encontrar Carrie e Aliha e apenas ter que lutar com o anjo e não com toda a horda de anjos negros.

A caminhada por entre a floresta se tornou um pouco mais complicada à cada passo que dávamos em direção ao que poderia ser o caminho certo. Na verdade, nenhum de nós dois fazia a menor ideia de qual realmente era o caminho certo para encontrar Carrie, pois por mais que andássemos por muito tempo, eu não sentia nada que poderia ser minha irmã pedindo ajuda ou a sensação de estar perto dela.

Havia alguma coisa errada.

– Tristan, eu não deveria sentir alguma coisa? Quero dizer, quando estávamos no túnel, tive aquela sensação de onde encontrar o símbolo e ouvi minha irmã pedindo socorro. Se estamos no lugar certo, eu não deveria sentir alguma coisa desse tipo?

Tristan parou no meio do caminho bruscamente, porém, como estava de costas para mim, não pude ver sua expressão e o porquê de ter feito isso.

– Tristan? – franzi o cenho. – Você está bem?

Seu corpo estava imóvel a poucos centímetros de mim, mas como permanecia de costas, minha curiosidade só aumentava para tentar entender o porquê de ter parado tão repente.

– Droga. – a voz do anjo saíra apenas como um sussurro, algo quase impossível de ouvir. – Schyler... corra.

– O que? – perguntei franzindo o cenho.

– Corra! – dessa vez, Tristan gritara. – É uma armadilha! Corra agora!

A sensação de início fora como choque, mas ao mesmo tempo tive a impressão que por conta do choque eu não conseguiria dar um passo sequer para longe dali como Tristan mandara. Não se engane achando que eu estava com medo ou coisa parecida, eu apenas tinha em mente o fato de que não poderia deixar Tristan ali sozinho ou algo ruim poderia acontecer com ele. Por mais que tentasse negar, eu era culpada de muitas coisas ali, então se alguém fosse se machucar, automaticamente a culpa seria minha também.

Eu não ia correr.

Vendo minha reação, o anjo franziu o cenho em minha direção tentando compreender o fato de eu ter permanecido no mesmo lugar. Não importa que tivéssemos caído em uma armadilha, não era hora de correr.

E eu continuaria ali ao lado dele caso fosse necessário.

Por meros minutos, o silêncio fora tudo que esteve ao nosso redor. Nenhum som além de nossas respirações e do pouco vento que rodeava nossos corpos. A floresta parecia tranquila, nem sequer o som dos animais nós dois conseguíamos ouvir. Era como se tudo tivesse parado no tempo e apenas eu e Tristan ainda nos movíamos.

E o silêncio continuou, pelo menos até que ouvimos o bater de asas e a primeira flecha atingindo o chão bem entre eu e o anjo.

– Você sabe o que fazer, certo? – perguntou-me Tristan olhando-me de rabo de olho. Estávamos de costas um para o outro.

Apenas assenti mostrando a ele que estava na hora de agir, afinal, meus treinos deveriam ter servido para alguma coisa. Talvez Gail estivesse sendo impetuosa e mandona por todo aquele tempo para me preparar para o que estava por vir, provavelmente o que eu enfrentaria agora mesmo naquela floresta.

A horda dos anjos negros.

Mais uma vez, uma flecha voltou a tentar nos atingir, porém eu a impedi antes que me atingisse. Por um momento, achei que estivesse ficando maluca, mas estava sim encarando a flecha em minhas mãos, presa entre meus dedos e com as penas de sua ponta caindo como se tivessem sido cortadas. Como fiz aquilo? Bom, parece que Neflins têm um bom reflexo contra ataques.

Olhei na direção em que a flecha fora lançada e encontrei os olhos completamente negros do anjo de Aliha – era um homem de cabelos também negros e uma pele morena. Ele usava uma espécie de armadura por cima do corpo musculoso e suas asas negras batiam de uma força constante enquanto seus olhos me encaravam de uma forma ameaçadora. Mas pela primeira vez, eu não possuía nenhum medo dele.

– Você vai precisar mais do que isso se quer me matar. – falei não evitando um meio sorriso sugestivo para o anjo, quem pareceu explodir de ódio.

Sem nenhum aviso, o anjo voou em minha direção num rasante perigoso e mortal, se aproximando de mim e antes que eu pudesse desviar, ele me atingiu lançando-me contra uma árvore.

– Schy! – gritou Tristan ainda parado a poucos metros de onde eu estava antes.

Tristan pareceu irritado pelo ataque do anjo negro, então assim que o viu se aproximando novamente, pegou a flecha que o próprio havia jogado antes e o acertou num ponto cego de suas asas negras. O anjo negro cambaleou no ar e atingiu uma árvore um pouco distante de nós, caindo em algum lugar.

– Você está bem? – perguntou ele ajudando-me a levantar.

– Mais ou menos. – murmurei apontando para alguns cortes superficiais nas costas onde atingi a árvore. – Acho que eu queria ter asas naquela hora.

Tristan sorriu rapidamente de minha piada ruim.

Por mais que preferimos ficar ali rindo de meu sarcasmo e piadas ruins, sabíamos que ainda não havia acabado. Assim que percebessem a falta do anjo negro morto, mais viriam para descobrir se a armadilha havia ou não funcionado. Bom, naquele caso, digamos que o anjo não seria exatamente promovido.

– Temos que continuar. – disse Tristan enquanto terminava de fazer o curativo em meu ombro. – Sua irmã deve estar perto.

– Como sabe?

– Se aquele anjo atacou por aqui, quer dizer que estão montando uma espécie de barreira. A cada passo, mais anjos virão.

Voltamos a caminhar logo em seguida, sempre prestando muito atenção no céu para que nenhuma flecha nos atingisse de repente. Mas conforme caminhávamos, parecia cada vez mais impossível chegar, pois por mais que andássemos, era como se estivéssemos andando em círculos. Novamente, tive a impressão de que essa poderia ser mais uma armadilha, mas Tristan me garantiu de que a sensação fazia parte da barreira que os anjos negros estavam montando para que não chegássemos ao nosso destino.

Naquele ponto eu já me sentia exausta de tanto caminhar pela floresta, tropeçar em pedras e ser atingida por algum galho de árvore. Eu precisava de pelo menos alguns minutos de descanso para então voltar a tentar encontrar minha irmã. Porém, isso fazia com que uma sensação ruim de culpa começasse a se instalar em mim, como um aviso mental de que eu estava deixando de procurar Carrie, quem poderia estar em perigo, para descansar.

Estava anoitecendo aos poucos e com a noite, o frio começara a se tornar intenso naquela floresta por conta do tempo úmido. Então, mesmo sendo contra as leis de sobrevivência na selva, Tristan resolveu montar uma fogueira.

– Você tem que parar de se cobrar tanto. – Tristan estava sentado sobre uma pedra e com as pernas dobradas a frente do corpo enquanto quebrava alguns galhos para fazer a fogueira. – Daqui a pouco vai acabar pirando.

– Não importa. – murmurei observando o fogo finalmente surgindo entre os galhos. – Eu preciso encontrar a Carrie logo, tenho a impressão de que alguma coisa ruim vai acontecer com ela.

– Aliha não vai machuca-la.

Franzi o cenho. A forma com que ele havia falado aquela frase fora com tanta convicção que por um instante, senti-me incomodada como se... Tristan conhecesse bem Aliha.

– Você deve estar se perguntando como tenho tanta certeza disso. – ele não me olhava nos olhos. Parecia perdido em alguma coisa no fogo. – Gabriel contou como era próximo de Aliha e que os dois praticamente se consideravam irmãos. Bom, digamos que no céu as coisas funcionam de uma forma diferente, o que me tornava o amigo perturbador. Não sei bem explicar... acho que perdi o foco do meu verdadeiro objetivo como anjo da guarda.

– Por que perdeu o foco?

Ele suspirou.

– Eu... não sei bem, só que Aliha nem sempre fora assim tão ruim e vingativa. Ela costumava ser um dos anjos mais gentis e bondosos que já conheci desde que, ahn... você sabe quem a criou. – ele coçou a nuca. – Sabe... desde que coloquei meus olhos nela eu soube que...

E só assim pude perceber o que de fato ocorreu entre Gabriel, Aliha e Tristan.

– Você se apaixonou por ela. – concluí não conseguindo conter um sorriso largo.

– Anjos não deveriam se apaixonar. – resmungou ele. – Acho que eu e Gabriel somos uma exceção.

– Vai ser nosso segredo. – eu disse vendo que o sorriso de Tristan se tornou um pouco maior. – Não vou contar a ninguém.

[...]

Quando amanheceu, continuamos nossa caminhada sem muitos problemas. Dessa vez, não havia nenhum problema quando às sensações que eu sentia em relação ao caminho até onde Carrie estava. Na verdade, parecia que estavam facilitando nossa chegada até onde haviam levado minha irmã.

Isso me preocupou. E se fosse mais uma armadilha de Aliha e sua horda para que pudéssemos ir em direção a um próximo ataque ou coisa parecida? Era algo muito provável, afinal, já havia acontecido no outro dia e poderia muito bem se repetir.

Enquanto seguíamos em frente na direção citada por Tristan logo que acordamos, percebi que algumas coisas estavam diferentes. Não apenas o ambiente parecera mudar para algo mais aberto e bem mais fácil de caminhar como também o ar. Várias hipóteses surgiram em minha mente, mas nenhuma delas fora como o som ensurdecedor que invadiu meus ouvidos.

Schyler! Pelo amor de Deus, socorro! Ela vai me matar!

Por mais que fosse a voz de minha irmã, o som de sua voz fora agudo, tanto que fora como se várias agulhas me perfurarem o rosto. Por conta disso, o desespero crescera ainda mais em mim e fiz a primeira coisa que viera em minha mente.

Corri na direção em que a voz parecera sair. Corri para onde meu extinto dizia que Carrie estava. Corri para onde tinha certeza que encontraria uma das pessoas mais importantes da minha vida.

Podia ouvir a voz de Tristan gritando meu nome impedindo-me de correr, porém nada poderia me impedir realmente naquele instante. Ouvir o pedido de socorro desesperado de minha irmã fora o mesmo que receber um dose de adrenalina.

Mas, quando achei que meu peito fosse explodir depois de tanto correr, a visão de uma cena nada agradável fora capaz de me parar instantaneamente. Era algo que eu jamais desejaria para ninguém, ver alguém que você ama daquela forma.

Bem a minha frente a alguns metros, Aliha segurava minha irmã de joelhos bem a sua frente, havia uma faca com a lâmina a poucos centímetros do pescoço de Carrie. Seus pés e mãos estavam amarrados. No rosto de Aliha, um sorriso torno direcionado para mim, assim como o olhar de centenas de anjos negros, quem apontavam suas armas em minha direção prontos para atacar.

– Enfim, nos vemos novamente, Schyler Jackson. – disse Aliha aumentando cada vez mais seu sorriso. – Parece que você me encontrou... mas o que vai fazer?

Fechei minhas mãos em punho sentindo meu corpo inteiro esquentar, fazendo com que minha pele parecesse estar em chamas.

Tomara que aquele lugar tenha seguro contra incêndios, pois é quase certo que muitas pessoas morram queimadas.